{"id":617,"date":"2013-05-11T10:17:12","date_gmt":"2013-05-11T12:17:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=617"},"modified":"2018-02-10T16:19:01","modified_gmt":"2018-02-10T18:19:01","slug":"auto-ilusao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/auto-ilusao\/","title":{"rendered":"Auto-ilus\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=1514\" rel=\"attachment wp-att-1514\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Ch\u00f6gyam-Trungpa-Rinpoche.jpg\" alt=\"\" width=\"199\" height=\"253\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1514\" \/><\/a><\/p>\n<p>A auto-ilus\u00e3o \u00e9 um problema constante \u00e0 medida que avan\u00e7amos por um caminho espiritual. O ego est\u00e1 sempre tentando alcan\u00e7ar a espiritualidade. \u00c9 como se quis\u00e9ssemos assistir ao nosso pr\u00f3prio enterro. No come\u00e7o, por exemplo, podemos nos aproximar de nosso amigo espiritual com a esperan\u00e7a de conseguir dele alguma coisa maravilhosa. A esta aproxima\u00e7\u00e3o d\u00e1-se o nome de \u201cca\u00e7a ao guru\u201d, tradicionalmente comparada \u00e0 ca\u00e7a do veado almiscareiro. O ca\u00e7ador persegue o veado, mata-o e dele retira o alm\u00edscar. Poder\u00edamos adotar essa atitude para com o guru e a espiritualidade, mas isso n\u00e3o passaria de auto-ilus\u00e3o. Nada teria a ver com uma abertura ou entrega verdadeira.<\/p>\n<p>Podemos tamb\u00e9m supor erroneamente que a inicia\u00e7\u00e3o significa transplante, a transplanta\u00e7\u00e3o do poder espiritual dos ensinamentos, do cora\u00e7\u00e3o do guru para o nosso. Essa mentalidade encara os ensinamentos como algo estranho a n\u00f3s; \u00e9 semelhante \u00e0 id\u00e9ia de transplantar um cora\u00e7\u00e3o de verdade ou mesmo uma cabe\u00e7a. Implantar em n\u00f3s um elemento estranho, proveniente de fora do nosso corpo. Podemos ficar inclinados a avaliar esse poss\u00edvel transplante. Talvez nossa velha cabe\u00e7a n\u00e3o sirva mais; talvez deva ser jogada no lixo. Merecemos uma cabe\u00e7a melhor, nova, urna cabe\u00e7a mais inteligente e cheia de massa cinzenta.<\/p>\n<p>Estamos t\u00e3o preocupados com o que vamos conseguir com a poss\u00edvel opera\u00e7\u00e3o que nos esquecemos do m\u00e9dico que vai realiz\u00e1-la. Ser\u00e1 que paramos para estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o com o nosso m\u00e9dico? Ele \u00e9 competente? A cabe\u00e7a que escolhemos \u00e9 mesmo adequada? N\u00e3o teria o m\u00e9dico alguma coisa a dizer a respeito da cabe\u00e7a que escolhemos? Talvez o nosso corpo v\u00e1 rejeitar essa cabe\u00e7a. Estamos t\u00e3o envolvidos com aquilo que pensamos conseguir que ignoramos o que est\u00e1 de fato acontecendo, nossa rela\u00e7\u00e3o com o m\u00e9dico, nossa doen\u00e7a, o que esta nova cabe\u00e7a \u00e9 na realidade.<br \/>\nEssa atitude para com o processo de inicia\u00e7\u00e3o \u00e9 muito sonhadora e n\u00e3o tem nada de v\u00e1lido. Por isto necessitamos de algu\u00e9m que esteja pessoalmente interessado em n\u00f3s como realmente somos, necessitamos de uma pessoa que represente o papel de espelho. Toda vez que estivermos envolvidos com algum tipo de auto-ilus\u00e3o, \u00e9 preciso que o processo todo seja revelado, aberto. Qualquer atitude de apego deve ser exposta.<\/p>\n<p>A verdadeira inicia\u00e7\u00e3o d\u00e1-se pelo \u201cencontro das duas mentes\u201d. \u00c9 uma quest\u00e3o de sermos o que efetivamente somos e de nos relacionarmos com o amigo ou amiga espiritual tal como ele ou ela \u00e9. Esta \u00e9 a verdadeira situa\u00e7\u00e3o em que a inicia\u00e7\u00e3o pode ocorrer, porque a id\u00e9ia de nos submetermos a urna opera\u00e7\u00e3o e de nos modificarmos de maneira fundamental \u00e9 completamente irreal. Ningu\u00e9m pode, na verdade, modificar, de maneira absoluta, nossa personalidade. Ningu\u00e9m pode virar-nos completamente de ponta-cabe\u00e7a ou pelo avesso. Temos que usar o material existente, o que j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed. Precisamos aceitar-nos como somos e n\u00e3o como gostar\u00edamos de ser, o que significa renunciar \u00e0 auto-ilus\u00e3o, e ao faz-de-conta.<\/p>\n<p>Toda a nossa constitui\u00e7\u00e3o, as caracter\u00edsticas de nossa personalidade precisam ser reconhecidas, aceitas; depois talvez possamos encontrar alguma inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNesse momento, se manifestamos disposi\u00e7\u00e3o para trabalhar com nosso m\u00e9dico, internando-nos num hospital, o m\u00e9dico, de sua parte, colocar\u00e1 \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o um quarto e tudo o mais que se fizer necess\u00e1rio. Assim, ambos os lados estar\u00e3o criando uma situa\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o aberta, que \u00e9 o significado fundamental do \u201cencontro das duas mentes\u201d. Este \u00e9 o verdadeiro modo de unir a b\u00ean\u00e7\u00e3o ou adhishthana, a ess\u00eancia espiritual do guru, \u00e0 nossa pr\u00f3pria ess\u00eancia espiritual. O mestre exterior, o guru, abre-se, e, porque o disc\u00edpulo tamb\u00e9m est\u00e1 aberto, porque est\u00e1 \u201cdesperto\u201d, verifica-se o encontro dos dois elementos, que s\u00e3o id\u00eanticos. Este \u00e9 o verdadeiro significado de abhisheka, da inicia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de entrarmos para um clube ou fazermos parte de um rebanho: sermos uma ovelha com as iniciais do dono marcadas no traseiro.<\/p>\n<p>Podemos, agora, examinar o que vem depois do abhisheka. Com a experi\u00eancia do encontro das duas mentes, estabelecemos uma comunica\u00e7\u00e3o verdadeira com nosso amigo espiritual. N\u00f3s n\u00e3o s\u00f3 nos abrimos como tamb\u00e9m vivenciamos \u2013 como um clar\u00e3o \u2013 uma s\u00fabita intui\u00e7\u00e3o, um entendimento instant\u00e2neo de parte dos ensinamentos. O mestre criou a situa\u00e7\u00e3o, n\u00f3s experimentamos o clar\u00e3o, e tudo parece muito bem.<br \/>\nA princ\u00edpio ficamos muito entusiasmados; tudo \u00e9 belo. Podemos verificar que, por v\u00e1rios dias, nos sentimos euf\u00f3ricos e animados. At\u00e9 parece que j\u00e1 atingimos o n\u00edvel do estado b\u00fadico. Nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o mundana nos incomoda em absoluto; tudo transcorre sem nenhum empecilho; medita\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea ocorre o tempo todo. \u00c9 uma experi\u00eancia cont\u00ednua do nosso momento de abertura com o guru. Isto \u00e9 muito comum. A essa altura, muitas pessoas talvez achem que j\u00e1 n\u00e3o precisam trabalhar com o amigo espiritual, que at\u00e9 podem deix\u00e1-lo, podem ir embora. Ouvi in\u00fameras hist\u00f3rias de casos assim, acontecidos no Oriente: estudantes que encontraram um mestre, receberam uma experi\u00eancia instant\u00e2nea de ilumina\u00e7\u00e3o e depois se foram. Eles tentavam preservar a experi\u00eancia, mas, \u00e0 medida que o tempo passava, ela se tornava uma simples lembran\u00e7a, palavras e id\u00e9ias que eles repetiam a si mesmos.<\/p>\n<p>\u00c9 bem poss\u00edvel que sua primeira rea\u00e7\u00e3o depois de uma experi\u00eancia dessa natureza seja a de escrev\u00ea-la num di\u00e1rio, explicando em palavras tudo o que aconteceu. Voc\u00ea tenta fixar-se firmemente na sua experi\u00eancia por meio de escritos e mem\u00f3rias, coment\u00e1rios com os outros, ou conversas com as pessoas que o viram passar pela experi\u00eancia.\u00a0Ou pode ser que uma pessoa v\u00e1 ao Oriente, tenha este tipo de experi\u00eancia e, em seguida, volte para o Ocidente. Os amigos talvez a achem tremendamente mudada. Ela pode parecer mais calma, tranq\u00fcila, s\u00e1bia. Muita gente talvez pe\u00e7a, a esta pessoa, ajuda e conselhos para seus problemas pessoais, pe\u00e7a uma opini\u00e3o sobre sua experi\u00eancia com a espiritualidade. No princ\u00edpio, o modo como a pessoa ajuda os outros \u00e9 aut\u00eantico, relacionando os problemas deles com a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia no Oriente, contando-lhes hist\u00f3rias belas e genu\u00ednas do que lhe aconteceu. Isto lhe serviria como uma grande inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, num dado momento, nesse tipo de situa\u00e7\u00e3o, alguma coisa tende a se desencaminhar. A lembran\u00e7a daquele s\u00fabito clar\u00e3o, da vis\u00e3o penetrante que a pessoa experimentou, perde intensidade; n\u00e3o dura porque a pessoa a considera externa a si mesma. Sente que teve uma s\u00fabita experi\u00eancia do estado desperto da mente e que ela pertence \u00e0 categoria das coisas sagradas, da experi\u00eancia espiritual. A pessoa atribui grande valor \u00e0 experi\u00eancia e depois a relata ao mundo corriqueiro e familiar de sua terra natal, a seus inimigos e amigos, pais e parentes, e a todos de suas rela\u00e7\u00f5es que agora pensa ter transcendido e superado. Acontece, por\u00e9m, que agora a experi\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais com quem a viveu. S\u00f3 resta uma lembran\u00e7a. E, no entanto, tendo proclamado sua experi\u00eancia e conhecimento aos outros, a pessoa evidentemente n\u00e3o pode voltar atr\u00e1s e afirmar que o que disse anteriormente era falso. N\u00e3o pode fazer isto de maneira alguma; seria humilhante demais. Al\u00e9m do que, ainda tem f\u00e9 na experi\u00eancia, acredita que algo profundo de fato aconteceu. Infelizmente, por\u00e9m, a experi\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o se acha presente no momento atual, porque foi usada e avaliada.<br \/>\nFalando de um modo geral, o que sucede \u00e9 que, depois que nos abrimos, que temos o \u201cclar\u00e3o\u201d, num segundo momento, percebemos que estamos abertos e a id\u00e9ia de avalia\u00e7\u00e3o aparece subitamente. \u201cOba! Fant\u00e1stico! Tenho que pegar uma coisa destas, tenho que captur\u00e1-la e conserv\u00e1-la, porque \u00e9 uma experi\u00eancia muito rara e valiosa\u201d. Assim, procuramos agarrar-nos \u00e0 experi\u00eancia e a\u00ed come\u00e7am os problemas \u2013 com a considera\u00e7\u00e3o de que a experi\u00eancia verdadeira da abertura \u00e9 algo valioso. T\u00e3o logo tentamos capturar a experi\u00eancia, toda uma s\u00e9rie de rea\u00e7\u00f5es em cadeia se inicia.<br \/>\nSe considerarmos alguma coisa valiosa e extraordin\u00e1ria, ela ent\u00e3o se tomar\u00e1 bem distinta de n\u00f3s. N\u00e3o consideramos valiosos, por exemplo, nossos olhos, nosso corpo, nossas m\u00e3os ou nossa cabe\u00e7a, porque sabemos que fazem parte de n\u00f3s. Est\u00e1 claro que, se perd\u00eassemos qualquer um deles, nossa rea\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica seria a de que perdemos uma coisa valios\u00edssima: \u201cPerdi minha cabe\u00e7a, perdi meu bra\u00e7o, \u00e9 imposs\u00edvel substitu\u00ed-los!\u201d Compreendemos, ent\u00e3o, que s\u00e3o coisas valiosas. Quando alguma coisa nos \u00e9 tirada, temos a oportunidade de compreender que ela \u00e9 valiosa. Mas quando a temos conosco o tempo todo, quando faz parte da nossa constitui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos valoriz\u00e1-la particularmente; ela apenas est\u00e1 a\u00ed. A avalia\u00e7\u00e3o decorre do medo de ficarmos separados, o que \u00e9 precisamente aquilo que nos mant\u00e9m separados. Consideramos extraordinariamente importante qualquer inspira\u00e7\u00e3o repentina, porque receamos perd\u00ea-la. \u00c9 nesse ponto exato, nesse exato momento, que a auto-ilus\u00e3o entra em cena. Em outras palavras, perdemos a f\u00e9 na experi\u00eancia da abertura e na sua rela\u00e7\u00e3o conosco.<br \/>\nDe alguma forma, perdemos a unidade da abertura e daquilo que somos. A abertura passou a ser uma coisa separada e, ent\u00e3o, come\u00e7amos a dissimular. \u00c9 evidente que n\u00e3o podemos dizer que perdemos a abertura. \u201cEu costumava t\u00ea-la, mas a perdi\u201d. N\u00e3o podemos dizer isto, porque iria destruir o nosso status de pessoa realizada. Portanto, o papel da auto-ilus\u00e3o consiste em recontar hist\u00f3rias. Preferimos contar hist\u00f3rias a experimentar realmente a abertura, porque as hist\u00f3rias s\u00e3o muito v\u00edvidas e nos entret\u00eam. \u201cQuando eu estava com meu guru, aconteceu isso e aquilo; ele me disse tal e tal coisa, e abriu-me desta e daquela maneira, etc., etc.\u201d. Neste caso, auto-ilus\u00e3o significa tentar recriar reiteradamente uma experi\u00eancia passada, em vez de vivenciar de fato a experi\u00eancia no momento presente. Para viver a experi\u00eancia agora, ter\u00edamos de desistir da avalia\u00e7\u00e3o, da maravilha que foi o clar\u00e3o, pois \u00e9 esta lembran\u00e7a que a mant\u00e9m \u00e0 dist\u00e2ncia. Se tiv\u00e9ssemos a experi\u00eancia continuamente, ela pareceria bastante corriqueira, e \u00e9 este fato que n\u00e3o podemos aceitar. \u201cSe ao menos eu pudesse ter outra vez aquela experi\u00eancia da abertura!\u201d \u00c9 assim que nos conservamos ocupados em n\u00e3o ter a experi\u00eancia: recordando-a. Este \u00e9 o jogo da auto-ilus\u00e3o.<br \/>\nA auto-ilus\u00e3o necessita da id\u00e9ia da avalia\u00e7\u00e3o bem como de uma mem\u00f3ria de longo alcance. Pensando no que passou, sentimo-nos nost\u00e1lgicos e comprazemo-nos com nossas recorda\u00e7\u00f5es, embora n\u00e3o saibamos onde estamos neste exato momento.<\/p>\n<p>Lembramos os \u201cbons tempos\u201d, \u201caqueles dias bons do passado\u201d. N\u00e3o permitimos em absoluto que a depress\u00e3o venha \u00e0 tona; n\u00e3o queremos aceitar a suspeita de que perdemos contato com alguma coisa. Toda vez que surge a possibilidade de uma depress\u00e3o e um sentimento de perda amea\u00e7a aparecer, a natureza defensiva do ego imediatamente traz \u00e0 mente lembran\u00e7as e palavras que ouvimos no passado, a fim de nos confortar. Assim, o ego est\u00e1 continuamente \u00e0 procura de inspira\u00e7\u00e3o sem ra\u00edzes no presente; \u00e9 um cont\u00ednuo voltar para tr\u00e1s. Esta \u00e9 a a\u00e7\u00e3o mais complicada da auto-ilus\u00e3o: n\u00e3o deixamos, de maneira nenhuma, que a depress\u00e3o chegue a existir. \u201cVisto que recebi b\u00ean\u00e7\u00e3os t\u00e3o grandes e tive a sorte de passar por essas maravilhosas experi\u00eancias espirituais, como \u00e9 poss\u00edvel dizer que estou deprimido? Imposs\u00edvel, n\u00e3o h\u00e1 lugar para a depress\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Conta-se uma hist\u00f3ria a respeito do grande mestre tibetano, Marpa. Quando Marpa se encontrou pela primeira vez com seu pr\u00f3prio mestre, Naropa, criou um altar que, segundo ele, era a incorpora\u00e7\u00e3o da sabedoria de um determinado heruka. Como tanto o santu\u00e1rio quanto Naropa dispunham de energia espiritual e poderes enormes, Naropa perguntou a Marpa diante de qual dos dois iria prostrar-se a fim de experimentar a s\u00fabita compreens\u00e3o da ilumina\u00e7\u00e3o. Sendo Marpa um estudioso, refletiu que o guru vivia na carne, num corpo humano comum, ao passo que a sua cria\u00e7\u00e3o, o altar, era um corpo puro de sabedoria, nada tendo a ver com a imperfei\u00e7\u00e3o humana. Assim, Marpa se prostrou diante do santu\u00e1rio. Naropa, ent\u00e3o, lhe disse: \u201cReceio que a sua inspira\u00e7\u00e3o v\u00e1 diluir-se. Voc\u00ea fez a escolha errada. Este santu\u00e1rio \u00e9 minha cria\u00e7\u00e3o e, sem mim, nem estaria aqui. A quest\u00e3o do corpo humano versus o corpo de sabedoria \u00e9 irrelevante. A grande exibi\u00e7\u00e3o do mandala foi t\u00e3o-somente uma cria\u00e7\u00e3o minha\u201d.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria ilustra o princ\u00edpio do sonho, da esperan\u00e7a, do desejo, como auto-ilus\u00e3o. Enquanto voc\u00ea olhar para si mesmo ou para qualquer parte de sua experi\u00eancia como \u201co sonho que virou realidade\u201d, estar\u00e1 envolvido com auto-ilus\u00e3o. A auto-ilus\u00e3o parece depender sempre do mundo dos sonhos, porque voc\u00ea preferiria ver o que ainda n\u00e3o viu a ver o que est\u00e1 vendo agora. N\u00e3o aceita que o que est\u00e1 aqui agora seja o que \u00e9, nem est\u00e1 disposto a continuar com a situa\u00e7\u00e3o tal qual ela \u00e9. Assim, a auto-ilus\u00e3o sempre se manifesta sob a forma de tentativas de criar ou recriar um mundo sonhado, a nostalgia da experi\u00eancia de sonhar. E o oposto da auto-ilus\u00e3o \u00e9 simplesmente trabalhar com os fatos da vida.<\/p>\n<p>Se procurarmos qualquer tipo de alegria ou felicidade plena, na realiza\u00e7\u00e3o de nossa imagina\u00e7\u00e3o e de nossos sonhos, ent\u00e3o ficaremos, igualmente, sujeitos ao insucesso e depress\u00e3o. Tudo se resume nisto: o medo da separa\u00e7\u00e3o, a esperan\u00e7a de alcan\u00e7ar a uni\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o simplesmente manifesta\u00e7\u00f5es ou a\u00e7\u00f5es do ego ou da auto-ilus\u00e3o, como se o ego fosse, de algum modo, uma coisa real que praticasse determinadas a\u00e7\u00f5es. O ego \u00e9 as a\u00e7\u00f5es, os eventos mentais. O ego \u00e9 o medo de perder a abertura, o medo de perder o estado n\u00e3o-eg\u00f3ico. Este \u00e9 o significado da auto-ilus\u00e3o neste caso: o ego que chora a perda do estado n\u00e3o-eg\u00f3\u00edco, de seu sonho de realiza\u00e7\u00e3o. Medo, esperan\u00e7a, perda, ganho \u2013 estes formam o constante desenrolar do sonho do ego, a estrutura que se auto-perpetua, que se auto-mant\u00e9m e que \u00e9 a auto-ilus\u00e3o.<br \/>\nPortanto, a verdadeira experi\u00eancia, que est\u00e1 al\u00e9m do mundo dos sonhos, \u00e9 a beleza, as cores e o entusiasmo da experi\u00eancia real do agora na vida cotidiana. Quando enfrentamos as coisas tais como s\u00e3o, abandonamos a esperan\u00e7a de algo melhor. N\u00e3o h\u00e1 m\u00e1gica alguma, porque n\u00e3o podemos mandar que saiamos da nossa depress\u00e3o. Depress\u00e3o e ignor\u00e2ncia, seja qual for a emo\u00e7\u00e3o que experimentamos, todas s\u00e3o reais e cont\u00e9m verdades extraordin\u00e1rias. Se quisermos, de fato, aprender a ver a experi\u00eancia da verdade, teremos de estar onde estamos. Tudo \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de ser um gr\u00e3o de areia.<\/p>\n<p>P: O Sr. poderia falar um pouco mais sobre a mec\u00e2nica dessa for\u00e7a do desespero? Consigo compreender como o desespero pode ocorrer, mas por que ocorre a felicidade, o estado de gra\u00e7a?<br \/>\nR: \u00c9 poss\u00edvel, no princ\u00edpio, nos for\u00e7armos a ter a experi\u00eancia dessa felicidade. \u00c9 uma esp\u00e9cie de auto-hipnose, no sentido de que nos recusamos a ver o quadro geral que forma nosso pano de fundo. Focalizamos somente a experi\u00eancia imediata da felicidade. Ignoramos todo o terreno b\u00e1sico em que realmente nos encontramos, por assim dizer, e nos conduzimos para produzir uma experi\u00eancia de enorme alegria. O problema \u00e9 que este tipo de experi\u00eancia se baseia unicamente na observa\u00e7\u00e3o que fazemos de n\u00f3s mesmos. Trata-se de uma atitude totalmente dualista. N\u00f3s gostar\u00edamos de experimentar alguma coisa e, trabalhando muito, vamos de fato consegui-lo. Todavia, depois que descemos das alturas, depois que percebemos que ainda estamos aqui, como uma rocha escura erguida entre as ondas do mar, instala-se a depress\u00e3o. Gostar\u00edamos de nos embebedar, de nos embriagar, de nos fundir com o universo inteiro, mas por alguma raz\u00e3o isto n\u00e3o acontece. Continuamos aqui, o que \u00e9 sempre a primeira coisa que nos faz descer. Mais tarde come\u00e7am todos os outros jogos da auto-ilus\u00e3o, as tentativas de nos dar corda ainda mais, porque estamos tentando nos proteger por inteiro. \u00c9 o princ\u00edpio do \u201cobservador\u201d.<\/p>\n<p>P: O sr. fala de pessoas que vivem alguma experi\u00eancia e, em seguida, v\u00e3o agarr\u00e1-la intelectualmente, rotulando-a dizendo: \u201cisto \u00e9 fant\u00e1stico&#8221;. Isto parece ser quase que uma rea\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica. O Sr. poderia descrever como as pessoas come\u00e7am a afastar-se deste comportamento? Tenho a impress\u00e3o de que, quando mais tentamos n\u00e3o avaliar, mais avaliamos.<br \/>\nR: Bem, quando voc\u00ea compreende que est\u00e1 realmente fazendo isso e n\u00e3o est\u00e1 conseguindo nada, acho ent\u00e3o que come\u00e7a a encontrar a sa\u00edda. Come\u00e7amos a ver que o processo todo faz parte de um jogo imenso que, na verdade, n\u00e3o traz nenhum proveito, pois estamos continuamente construindo, em vez de chegar \u00e0 compreens\u00e3o de alguma coisa. N\u00e3o h\u00e1 magia nem truque nenhum presente. A \u00fanica coisa a fazer \u00e9 tirar a m\u00e1scara, o que \u00e9 bastante doloroso.<br \/>\nTalvez voc\u00ea tenha que construir e construir, at\u00e9 entender a futilidade das tentativas de alcan\u00e7ar a espiritualidade. Toda a sua mente pode ficar completamente congestionada com sua luta. Na realidade, voc\u00ea pode at\u00e9 ficar sem saber se est\u00e1 indo ou vindo, a ponto de se sentir completamente exausto. A\u00ed pode ser que voc\u00ea aprenda uma li\u00e7\u00e3o muito \u00fatil: desistir de toda a situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ser nada. Talvez voc\u00ea at\u00e9 sinta um anseio de n\u00e3o ser nada. Parece haver duas solu\u00e7\u00f5es: ou simplesmente tirar a m\u00e1scara, ou construir e construir, lutar e lutar, at\u00e9 atingir um crescendo, e depois largar tudo.<\/p>\n<p><em>P: O que acontece quando dizemos: \u201cOba, consegui!\u201d Isto n\u00e3o acaba com tudo, acaba?<\/em><br \/>\nR: N\u00e3o necessariamente. Mas o que acontece depois? Voc\u00ea prefere ficar repetindo sua experi\u00eancia a trabalhar com a situa\u00e7\u00e3o presente daquilo que \u00e9? Podemos experimentar uma alegria imensa no primeiro clar\u00e3o de abertura, que \u00e9 muito bonito. Por\u00e9m, o que vem depois \u00e9 importante: se voc\u00ea vai esfor\u00e7ar-se para agarrar e recriar a experi\u00eancia, ou se vai deixar as coisas serem como s\u00e3o, permitindo que a experi\u00eancia seja apenas uma experi\u00eancia, sem tentar recriar o primeiro clar\u00e3o.<\/p>\n<p><em>P: Somos ambiciosos, estamos sempre construindo e, quanto mais pensamos no caso, pior fica. Da\u00ed tentamos simplesmente fugir de tudo, tentamos n\u00e3o pensar na situa\u00e7\u00e3o, tentamos enveredar por todos os tipos de fuga. O que significa isso e como podemos superar o fato de que, quanto mais pensamos na ilumina\u00e7\u00e3o e tentamos investig\u00e1-la, piores ficam as coisas e mais se acumulam conceitua\u00e7\u00f5es? O que podemos fazer?<\/em><br \/>\nR: \u00c9 muito \u00f3bvio. Deixamos por completo de procurar o que quer que seja, deixamos de lado a tentativa de descobrir alguma coisa, de nos provar a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><em>P: Mas, \u00e0s vezes, podemos ter um sentimento ativo de estar fugindo, e isto n\u00e3o \u00e9 o mesmo que n\u00e3o fazer nada.<\/em><br \/>\nR: Quando nos pomos a fugir, descobrimos que n\u00e3o somente estamos sendo perseguidos por tr\u00e1s, como tamb\u00e9m que h\u00e1 pessoas vindo ao nosso encontro pela frente. No final, n\u00e3o h\u00e1 lugar para escapar. Ficamos completamente acuados. A esta altura, a \u00fanica coisa que podemos mesmo fazer \u00e9 nos render, pura e simplesmente.<\/p>\n<p><em>P: O que significa isto?<\/em><br \/>\nR: Bem, temos que passar pela experi\u00eancia. Significa abandonar as tentativas de ir para algum lugar, tanto em termos de fugir de algo, como de correr para algo, pois ambos s\u00e3o a mesma coisa.<\/p>\n<p><em>P: A lembran\u00e7a de si ou a auto-observa\u00e7\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis com o desistir e o estar aqui?<\/em><br \/>\nR: A lembran\u00e7a de si \u00e9, na verdade, uma t\u00e9cnica muito perigosa. Pode tanto consistir na observa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos e de nossos atos, como um gato faminto observa um rato, quanto pode ser um gesto inteligente de estarmos onde estamos. Toda a quest\u00e3o se resume em que, se tivermos alguma id\u00e9ia de rela\u00e7\u00e3o \u2013 estou vivendo esta experi\u00eancia, estou fazendo isto \u2013 o \u201ceu\u201d e o \u201cisto\u201d s\u00e3o, igualmente, muito fortes. De uma forma ou de outra, haver\u00e1 conflito entre \u201ceu\u201d e \u201cisto\u201d. \u00c9 mais ou menos como dizer que \u201cisto\u201d \u00e9 a m\u00e3e, e \u201ceu\u201d, o pai. Com a presen\u00e7a destes dois extremos t\u00e3o polarizados, estamos fadados a dar origem a alguma coisa. Da\u00ed que a id\u00e9ia toda consiste em fazer com que \u201cisto\u201d n\u00e3o esteja presente, pois neste caso o \u201ceu\u201d tampouco estar\u00e1. Ou, ent\u00e3o, que o \u201ceu\u201d n\u00e3o esteja presente e, portanto, \u201cisto\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o. N\u00e3o se trata de nos dizermos isto, mas sim de senti-lo, uma experi\u00eancia efetiva. Precisamos afastar o observador que vigia os dois extremos. Afastado o observador, a estrutura toda cai por terra. A dicotomia s\u00f3 subsiste enquanto houver um observador que mantenha o quadro todo em p\u00e9. Precisamos remover o observador e a complicad\u00edssima burocracia que ele cria para se certificar de que nada vai escapar ao quartel-general. Afastado o observador, abre-se um espa\u00e7o enorme, pois ele e a sua burocracia ocupam demasiado lugar. Se eliminarmos o filtro do \u201ceu\u201d e \u201coutro\u201d, o espa\u00e7o torna-se vivo, preciso e inteligente. O espa\u00e7o cont\u00e9m a precis\u00e3o incr\u00edvel de poder trabalhar com as situa\u00e7\u00f5es nele existentes. Na realidade, n\u00e3o precisamos do \u201cvigia\u201d ou do \u201cobservador\u201d para nada.<\/p>\n<p><em>P. Ser\u00e1 que o observador existe porque desejamos viver no que parece ser um n\u00edvel mais alto, ao passo que, se deixarmos as coisas como est\u00e3o, talvez vamos nos encontrar aqui?<\/em><br \/>\nR: \u00c9 verdade. Quando o observador desaparece, n\u00e3o se aplicam no\u00e7\u00f5es de n\u00edveis mais altos e mais baixos, de modo que n\u00e3o h\u00e1 mais tend\u00eancia alguma para lutar, nenhuma tentativa para ficar no alto. Ent\u00e3o, limitamo-nos a estar onde estamos.<\/p>\n<p><em>P: Podemos remover o observador \u00e0 for\u00e7a? N\u00e3o seria novamente um jogo da avalia\u00e7\u00e3o?<\/em><br \/>\nR: N\u00e3o precisamos encarar o observador como um vil\u00e3o. Assim que come\u00e7amos a compreender que o prop\u00f3sito da medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 passar para uma posi\u00e7\u00e3o mais elevada, mas sim estar presente, aqui, o observador deixa de ter efici\u00eancia bastante para cumprir sua fun\u00e7\u00e3o, e desaparece automaticamente. A qualidade fundamental do observador \u00e9 tentar ser extremamente eficiente e ativo. Mas a aten\u00e7\u00e3o plena \u00e9 algo que j\u00e1 temos, de modo que tentativas ambiciosas ou \u201ceficientes\u201d de sermos atentos j\u00e1 nascem mortas. \u00c0 medida que come\u00e7a a perceber que \u00e9 irrelevante, o observador se vai.<\/p>\n<p><em>P: Pode haver consci\u00eancia sem o observador?<\/em><br \/>\nR: Sim, porque o observador \u00e9 apenas paran\u00f3ia. Podemos ter abertura completa, uma situa\u00e7\u00e3o panor\u00e2mica, sem precisar discriminar entre dois lados, \u201ceu\u201d e \u201coutro\u201d.<\/p>\n<p><em>P: Esta consci\u00eancia implicaria um sentimento de felicidade completa?<\/em><br \/>\nR: Creio que n\u00e3o, porque essa felicidade \u00e9 uma experi\u00eancia muito individual. Voc\u00ea \u00e9 independente e vive a sua felicidade. Quando o observador se vai, n\u00e3o h\u00e1 avalia\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia em termos de prazer ou dor. Quando voc\u00ea tem consci\u00eancia panor\u00e2mica sem a avalia\u00e7\u00e3o do observador, a bem-aventuran\u00e7a se toma irrelevante pelo simples fato de n\u00e3o haver ningu\u00e9m que a esteja experimentando.<\/p>\n<p><em>Do livro: \u201cAL\u00c9M DO MATERIALISMO ESPIRITUAL\u201d<\/em><br \/>\n<em> Ch\u00f6gyam Trungpa Rinpoche \u2013 Ed. Cultrix<\/em><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A auto-ilus\u00e3o \u00e9 um problema constante \u00e0 medida que avan\u00e7amos por um caminho espiritual. O ego est\u00e1 sempre tentando alcan\u00e7ar a espiritualidade. \u00c9 como se quis\u00e9ssemos assistir ao nosso pr\u00f3prio enterro. 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