{"id":6176,"date":"2020-06-16T15:50:50","date_gmt":"2020-06-16T17:50:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=6176"},"modified":"2020-06-16T15:50:50","modified_gmt":"2020-06-16T17:50:50","slug":"o-que-e-a-mente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-que-e-a-mente\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 a mente?"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Kalu-Rinpoche.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Kalu-Rinpoche.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"432\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2056\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Kalu-Rinpoche.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Kalu-Rinpoche-208x300.jpg 208w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><a name=\"inicio\"><\/p>\n<div style=\"text-align:center\"><font size=\"4\"><b>O que &eacute; a mente?<\/b><\/font><\/div>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Kalu Rinpoche<\/b><\/i><\/div>\n<p align=\"JUSTIFY\">Apesar de todos n&oacute;s termos a sensa&ccedil;&atilde;o de possuir uma mente e de existir, nossa compreens&atilde;o a respeito de nossa mente e de como existimos geralmente &eacute; vaga e confusa. Instantaneamente dizemos, &quot;Eu tenho uma mente ou uma consci&ecirc;ncia&quot;, &quot;Eu sou&quot;, &quot;Eu existo&quot;; nos identificamos com um &quot;eu&quot;, ao qual atribu&iacute;mos qualidades, mas n&atilde;o conhecemos a natureza desta mente, nem deste &quot;eu&quot;. N&atilde;o sabemos do que s&atilde;o feitos, como funcionam, &quot;o que&quot; ou &quot;quem&quot; realmente s&atilde;o.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O paradoxo fundamental<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ao procurar a mente, inicialmente o mais importante &eacute; reconhecer a natureza da mente ao questionar, no n&iacute;vel mais profundo, o que realmente somos. Aqueles que realmente examinaram suas mentes e refletiram sobre o que ela &eacute; s&atilde;o realmente raros, e para aqueles que tentam, a procura prova ser dif&iacute;cil. Ao buscarmos e observarmos o que nossa mente &eacute;, muitas vezes n&atilde;o a cercamos verdadeiramente; n&atilde;o chegamos realmente a uma compreens&atilde;o sobre ela.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Sem d&uacute;vida, uma perspectiva cient&iacute;fica pode oferecer muitas respostas para uma defini&ccedil;&atilde;o de &quot;mente&quot;, mas n&atilde;o &eacute; o tipo de conhecimento ao qual estamos nos referindo aqui. A quest&atilde;o b&aacute;sica &eacute; que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel que a mente conhe&ccedil;a a si mesma porque aquele que procura, o sujeito, &eacute; a pr&oacute;pria mente, e o objeto que ele procura examinar tamb&eacute;m &eacute; a mente. H&aacute; um paradoxo aqui: posso procurar por mim em todos os lugares, procurar por todo o mundo, sem nunca me encontrar, porque eu n&atilde;o sou o que procuro.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O problema &eacute; o mesmo ao tentar enxergar o nosso pr&oacute;prio rosto: nossos olhos est&atilde;o muito pr&oacute;ximos do rosto, mas n&atilde;o podem ver muita coisa dele. N&atilde;o reconhecemos a nossa mente simplesmente porque ela est&aacute; muito pr&oacute;xima. Um prov&eacute;rbio do <i>Dharma<\/i> diz, &quot;O olho n&atilde;o pode ver a sua pr&oacute;pria pupila&quot;. Igualmente, nossa pr&oacute;pria mente n&atilde;o tem a capacidade de ver a si mesma; ela est&aacute; pr&oacute;xima, t&atilde;o &iacute;ntima, que n&atilde;o podemos discerni-la.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Precisamos saber como mudar as perspectivas. Para enxergar nosso rosto, usamos um espelho. Para estudar nossa pr&oacute;pria mente, precisamos de um m&eacute;todo que funcione como um espelho, para permitir que reconhe&ccedil;amos a mente. Este m&eacute;todo &eacute; o <i>Dharma<\/i>, que &eacute; transmitido a n&oacute;s por um guia espiritual.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">&Eacute; na rela&ccedil;&atilde;o com este ensinamento e com este amigo, ou guia, que a mente ser&aacute; gradualmente capaz de despertar para a sua verdadeira natureza e de finalmente ir al&eacute;m do paradoxo inicial, realizando um outro tipo de conhecimento. Esta descoberta &eacute; efetuada atrav&eacute;s de v&aacute;rias pr&aacute;ticas conhecidas como medita&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Em busca da mente<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A mente &eacute; uma coisa estranha. Os asi&aacute;ticos tradicionalmente a situam no centro do corpo, no n&iacute;vel do cora&ccedil;&atilde;o. Os ocidentais entendem que a mente est&aacute; localizada na cabe&ccedil;a, no c&eacute;rebro. Apesar dos diferentes pontos de vistas serem justificados, estas designa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o inadequadas. Basicamente, a mente n&atilde;o est&aacute; mais no cora&ccedil;&atilde;o do que no c&eacute;rebro. A mente habita o corpo, mas &eacute; apenas uma ilus&atilde;o achar que a mente possa ser localizada neste ou naquele lugar. Essencialmente, n&atilde;o podemos dizer que a mente &eacute; encontrada em um lugar particular na pessoa, ou em qualquer outro lugar.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Buscar a mente n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil porque, al&eacute;m do paradoxo do conhecedor n&atilde;o poder conhecer a si mesmo, sua natureza essencial &eacute; indescrit&iacute;vel. N&atilde;o tem forma, nem cor ou qualquer caracter&iacute;stica que poderia permitir que conclu&iacute;ssemos, &quot;&Eacute; isso&quot;.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Por&eacute;m, cada um de n&oacute;s desenvolve uma experi&ecirc;ncia da natureza de nossa mente ao nos perguntarmos o que o observador est&aacute; fazendo: o observador, o conhecedor, o sujeito que experi&ecirc;ncia os pensamentos e as diferentes sensa&ccedil;&otilde;es. Onde exatamente ele pode se encontrado? O que ele &eacute;? &Eacute; uma quest&atilde;o de observar nossa pr&oacute;pria mente. Onde ele est&aacute;? Quem sou eu? O que sou eu? O corpo e a mente s&atilde;o o mesmo ou s&atilde;o diferentes? Minhas experi&ecirc;ncias se desdobram dentro ou fora de minha mente? A mente e seus pensamentos s&atilde;o distintos ou s&atilde;o a mesma coisa? Se sim, como? Se n&atilde;o, como? A busca &eacute; levada na medita&ccedil;&atilde;o, em conex&atilde;o pr&oacute;xima com um guia qualificado que pode nos dizer o que est&aacute; correto e o que est&aacute; errado. O processo pode demorar muitos meses, ou at&eacute; mesmo muitos anos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">&Agrave; medida que esta busca se aprofunda, o mestre espiritual progressivamente nos direciona para a experi&ecirc;ncia da verdadeira natureza da mente. &Eacute; dif&iacute;cil compreender e realizar porque n&atilde;o &eacute; algo que possa ser compreendido atrav&eacute;s de conceitos ou representa&ccedil;&otilde;es. O principal estudo da mente n&atilde;o pode se feito atrav&eacute;s da teoria; precisamos da experi&ecirc;ncia pr&aacute;tica da medita&ccedil;&atilde;o para penetrar em sua verdadeira natureza.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na pr&aacute;tica de medita&ccedil;&atilde;o, h&aacute; uma abordagem dupla: podemos dizer que h&aacute; uma abordagem anal&iacute;tica e outra contemplativa. A primeira &eacute; feita de quest&otilde;es como aquelas que perguntamos anteriormente. Se levarmos este tipo de busca persistentemente, enquanto somos guiados competentemente, uma compreens&atilde;o definitiva se desenvolve.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na segunda abordagem, a mente simplesmente descansa em sua pr&oacute;pria lucidez, sem for&ccedil;ar ou usar artif&iacute;cios. Esta pr&aacute;tica vai al&eacute;m de todas as formas anteriores de an&aacute;lise, ao nos fazer deixar a esfera dos conceitos e de nos abrir para uma experi&ecirc;ncia imediata. No final destas medita&ccedil;&otilde;es, descobrimos a vacuidade essencial da mente. Isto &eacute;, a mente &eacute; vazia de determina&ccedil;&otilde;es e caracter&iacute;sticas, tais como forma, cor ou aspecto, e sua natureza est&aacute; al&eacute;m das representa&ccedil;&otilde;es, conceitos, nomes e formas. Para tentar invocar o reconhecimento da vacuidade, poder&iacute;amos compar&aacute;-lo &agrave; &quot;indeterminabilidade&quot; do espa&ccedil;o: a mente &eacute; vazia como o espa&ccedil;o. Mas isto &eacute; apenas como imagem e, como veremos, a mente n&atilde;o &eacute; apenas vazia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Por enquanto, gostaria de enfatizar como &eacute; importante o conhecimento da mente, assim como os frutos deste conhecimento. A mente &eacute; o que somos. &Eacute; ela que experiencia a felicidade e o sofrimento. A mente &eacute; o que experiencia diferentes pensamentos e sensa&ccedil;&otilde;es; &eacute; ela que est&aacute; sujeita &agrave;s emo&ccedil;&otilde;es agrad&aacute;veis e desagrad&aacute;veis, &eacute; ela que experiencia o desejo, a avers&atilde;o etc. Uma compreens&atilde;o real da natureza &eacute; libertadora porque nos desengaja de todas as ilus&otilde;es e, conseq&uuml;entemente, de toda fonte de sofrimentos, medos e dificuldades que constituem nossa vida di&aacute;ria.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Por exemplo, se tivermos a ilus&atilde;o de que uma pessoa m&aacute; &eacute; um ajudante, ele poder&aacute; nos enganar, abusar de n&oacute;s, causar mal; mas assim que o reconhecemos como sendo mau, n&atilde;o seremos mais ing&ecirc;nuos; ao desmascar&aacute;-lo, podemos evitar cair como v&iacute;timas de seus maus atos. Aqui, a pessoa m&aacute; &eacute; a ignor&acirc;ncia do que realmente somos, ou mais precisamente, a ilus&atilde;o do ego, do eu. O conhecimento que desmascara isto &eacute; a consci&ecirc;ncia da natureza da mente; ela nos libera das ilus&otilde;es e do conhecimento doloroso. Esta compreens&atilde;o da mente &eacute; o fundamento do <i>Buddhadharma<\/i> e de todos os seus ensinamentos.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ilumina&ccedil;&atilde;o e ilus&atilde;o<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A mente tem dois rostos, duas facetas, que s&atilde;o dois aspectos da realidade. Estes aspectos s&atilde;o a ilumina&ccedil;&atilde;o e a ilus&atilde;o. <\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A ilumina&ccedil;&atilde;o &eacute; o estado da mente pura. &Eacute; o conhecimento n&atilde;o-dualista, chamado de sabedoria primordial. Suas experi&ecirc;ncias s&atilde;o aut&ecirc;nticas, isto &eacute;, elas s&atilde;o sem ilus&atilde;o. A mente pura &eacute; livre e dotada de numerosas qualidades.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A ilus&atilde;o &eacute; o estado da mente impura. Seu modo de conhecimento &eacute; dualista; &eacute; a consci&ecirc;ncia condicionada. Suas experi&ecirc;ncias est&atilde;o maculadas pelas ilus&otilde;es. A mente impura &eacute; condicionada e dotada de muito sofrimento.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Os seres comuns experienciam este estado de mente impura e deludida como sendo o seu estado habitual. A mente pura, iluminada, &eacute; um estado no qual a mente realiza sua pr&oacute;pria natureza, livre das condi&ccedil;&otilde;es habituais e do sofrimento associado a elas. Este &eacute; o estado iluminado do buddha.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Quando nossa mente est&aacute; em seu estado impuro, deludido, somos seres comuns que se movem atrav&eacute;s dos diferentes reinos da consci&ecirc;ncia condicionada. As transmigra&ccedil;&otilde;es da mente dentro destes reinos fazem seus giros indeterminados na exist&ecirc;ncia condicionada, c&iacute;clica, ou ciclo de vidas &#8211; <i>samsara<\/i> em s&acirc;nscrito.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Quando &eacute; purificada de toda ilus&atilde;o <i>sams&aacute;rica<\/i>, a mente n&atilde;o mais transmigra. Este &eacute; o estado iluminado de um <i>buddha<\/i>, &eacute; a experi&ecirc;ncia da pureza essencial de nossa pr&oacute;pria mente, de nossa natureza <i>b&uacute;dica<\/i>. Todos os seres, quaisquer que sejam, t&ecirc;m a natureza <i>b&uacute;dica<\/i>. Esta &eacute; a raz&atilde;o pela qual todos podem realizar a <i>natureza b&uacute;dica<\/i>. Como cada um de n&oacute;s possui a <i>natureza b&uacute;dica<\/i>, &eacute; poss&iacute;vel atingir a ilumina&ccedil;&atilde;o. Se j&aacute; n&atilde;o a tiv&eacute;ssemos, nunca poder&iacute;amos ser capazes de realiz&aacute;-la.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ent&atilde;o, o estado comum e o estado iluminado s&atilde;o distinguidos apenas pela impureza ou pureza da mente, pela presen&ccedil;a ou aus&ecirc;ncia de ilus&otilde;es. Nossa mente presente j&aacute; tem as qualidades do <i>estado b&uacute;dico<\/i>; essas qualidades permanecem em nossa mente, elas s&atilde;o a natureza pura da mente. Infelizmente, nossas qualidades iluminadas s&atilde;o invis&iacute;veis para n&oacute;s porque est&atilde;o mascaradas por diferentes mortalhas, v&eacute;us e outros tipos de m&aacute;cula.<\/p>\n<p><i><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Buddha Shakyamuni<\/p>\n<p><\/i> disse, &quot;A <i>natureza b&uacute;dica<\/i> est&aacute; presente em todos os seres, por&eacute;m escondida por ilus&otilde;es advent&iacute;cias; quando purificada, ela &eacute; verdadeiramente o Buddha.&quot;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A dist&acirc;ncia entre o estado comum e o estado iluminado &eacute; o que separa a ignor&acirc;ncia do conhecimento desta natureza pura da mente. No estado comum, &eacute; desconhecida. No estado iluminado, &eacute; totalmente realizada. A situa&ccedil;&atilde;o na qual a mente &eacute; ignorante de seu estado real &eacute; o que chamamos de ignor&acirc;ncia fundamental. Ao realizar sua profunda natureza, a mente &eacute; liberada desta ignor&acirc;ncia, das ilus&otilde;es e condicionamentos que a mente cria, e ent&atilde;o entra no incondicionado estado iluminado, chamado de libera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Todo o <i>Buddhadharma<\/i> e suas pr&aacute;ticas envolvem a purifica&ccedil;&atilde;o, tirar as ilus&otilde;es da mente, e proceder de um estado maculado para um imaculado, da ilus&atilde;o para a ilumina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A natureza da mente<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A verdadeira experi&ecirc;ncia da natureza essencial da mente est&aacute; al&eacute;m das palavras. Querer descrev&ecirc;-la &eacute; como a situa&ccedil;&atilde;o de um mudo que quer descrever o sabor de um doce em sua boca: ele n&atilde;o tem um meio adequado de se exprimir. Mesmo assim, gostaria de oferecer algumas id&eacute;ias que aludem a esta experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Podemos pensar que a natureza da mente pura tem tr&ecirc;s aspectos essenciais, complementares e simult&acirc;neos: a abertura, a claridade e a sensitividade.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A abertura<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A mente &eacute; o que pensa, &quot;Eu sou&quot;, &quot;Eu quero&quot;, &quot;Eu n&atilde;o quero&quot;; &eacute; o pensador, o observador, o sujeito de todas as experi&ecirc;ncias. Eu sou a mente. De um ponto de vista, esta mente existe, j&aacute; que eu sou e eu tenho a capacidade de a&ccedil;&atilde;o. Se eu quero ver, eu posso ver; se eu quero ouvir, eu posso ouvir; se eu decido fazer algo com minhas m&atilde;os, eu posso comandar meu corpo, e assim por diante. Neste sentido, a mente e suas faculdades parecem existir.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Mas se buscarmos por ela, n&atilde;o podemos encontrar qualquer parte dela em n&oacute;s, nem em nossa cabe&ccedil;a, em nosso corpo ou em qualquer outro lugar. Ent&atilde;o, desta outra perspectiva, ela parece n&atilde;o existir. Portanto, de um lado a mente parece existir, mas por outro lado n&atilde;o &eacute; algo que verdadeiramente exista.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Por mais exaustivas que sejam nossas investiga&ccedil;&otilde;es, nunca seremos capazes de encontrar quaisquer caracter&iacute;sticas formais da mente: n&atilde;o tem dimens&atilde;o, nem cor, forma ou qualquer qualidade tang&iacute;vel. &Eacute; neste sentido que ela &eacute; chamada de aberta, porque &eacute; essencialmente indeterminada, desqualificada, al&eacute;m do conceito e, assim, compar&aacute;vel ao espa&ccedil;o. Esta natureza indefin&iacute;vel &eacute; a abertura que nos faz experienciar a mente como um &quot;Eu&quot; que possui as caracter&iacute;sticas que habitualmente atribu&iacute;mos a n&oacute;s mesmos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Mas devemos ter cuidado aqui! Dizer que a mente &eacute; aberta como o espa&ccedil;o n&atilde;o &eacute; reduzi-la a algo n&atilde;o-existente, no sentido de ser n&atilde;o-funcional. Como o espa&ccedil;o, a mente pura n&atilde;o pode ser localizada, mas &eacute; onipresente e permeia tudo; ela abra&ccedil;a e permeia todas as coisas. Acima de tudo, ela est&aacute; al&eacute;m da mudan&ccedil;a e sua natureza aberta &eacute; indescrit&iacute;vel e atemporal.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A claridade<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Apesar da mente ser essencialmente vazia no sentido explicado acima, ela n&atilde;o &eacute; apenas aberta ou vazia, porque se fosse, a mente seria inerte e n&atilde;o iria experienciar ou conhecer qualquer coisa, nem sensa&ccedil;&otilde;es, nem alegria ou sofrimento. A mente n&atilde;o &eacute; apenas vazia &#8211; ela possui uma segunda qualidade essencial, que &eacute; a sua capacidade de experi&ecirc;ncias, de cogni&ccedil;&atilde;o. Esta qualidade din&acirc;mica &eacute; chamada de claridade. Ela &eacute; tanto a lucidez da intelig&ecirc;ncia da mente quanto a luminosidade destas experi&ecirc;ncias.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Para melhorar nossa compreens&atilde;o da claridade, podemos comparar a abertura da mente ao espa&ccedil;o da sala onde estamos. Este espa&ccedil;o sem forma permite que aconte&ccedil;am nossas experi&ecirc;ncias; ele cont&eacute;m a experi&ecirc;ncia em sua totalidade. &Eacute; onde a nossa experi&ecirc;ncia toma o seu lugar. A claridade, ent&atilde;o, seria a luz que ilumina a sala e que nos permite reconhecer diferentes coisas. Se houvesse apenas o inerte espa&ccedil;o vazio, n&atilde;o haveria possibilidade de haver consci&ecirc;ncia. Isto &eacute; apenas um exemplo, porque a claridade da mente n&atilde;o &eacute; como a luz comum do sol, da lua ou da eletricidade. &Eacute; a claridade da mente que faz poss&iacute;vel toda cogni&ccedil;&atilde;o e experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A natureza aberta e luminosa da mente &eacute; o que chamamos de &quot;clara luz&quot;; &eacute; uma claridade aberta que, no n&iacute;vel da mente pura, est&aacute; consciente em, e por si mesma; &eacute; por isso que a chamamos de cogni&ccedil;&atilde;o auto-luminosa ou claridade.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">N&atilde;o h&aacute; um exemplo verdadeiramente adequado para ilustrar esta claridade no n&iacute;vel puro, mas no n&iacute;vel comum, que podemos relatar mais facilmente, podemos ter uma id&eacute;ia de alguns de seus aspectos, ao compreender uma das manifesta&ccedil;&otilde;es da mente &#8211; o estado do sonho. Vamos dizer que &eacute; uma noite escura, e que nesta escurid&atilde;o estamos sonhando, ou experienciando um mundo do sonho. O espa&ccedil;o mental onde o sonho acontece, independente do lugar f&iacute;sico onde estamos, poderia ser comparado &agrave; abertura da mente, enquanto sua capacidade de experienciar, apesar da escurid&atilde;o externa, corresponde &agrave; sua claridade. Esta lucidez abarca todo conhecimento da mente e &eacute; a claridade inerente nestas experi&ecirc;ncias. &Eacute; tamb&eacute;m a lucidez do que ou quem as experi&ecirc;ncia; o conhecedor e o conhecido, a lucidez e a claridade, nada mais s&atilde;o do que duas facetas da mesma qualidade. A intelig&ecirc;ncia que experi&ecirc;ncia o sonho &eacute; a lucidez, e a claridade presente em suas experi&ecirc;ncias &eacute; a sua luminosidade; mas no n&iacute;vel n&atilde;o-dual da mente pura, &eacute; apenas uma e mesma qualidade, a &quot;claridade&quot;, chamada de <i>&quot;prabhasvara&quot;<\/i> em s&acirc;nscrito, ou de <i>&quot;selwa&quot;<\/i> em tibetano. Este exemplo pode ser &uacute;til para o entendimento, mas tenha em mente que isto &eacute; apenas uma ilustra&ccedil;&atilde;o, mostrando um n&iacute;vel de manifesta&ccedil;&atilde;o particular da claridade em um n&iacute;vel habitual. No exemplo, h&aacute; uma diferen&ccedil;a entre a lucidez o conhecedor e a luminosidade das experi&ecirc;ncias do sujeito, porque o sonho &eacute; uma experi&ecirc;ncia dualista, diferenciada em termos de sujeito e objeto, na qual a claridade se manifesta de uma vez, na consci&ecirc;ncia ou lucidez do sujeito e na luminosidade de seus objetos. De fato, o exemplo &eacute; limitado, pois fundamentalmente n&atilde;o h&aacute; dualidade nas mentes puras: &eacute; a mesma qualidade da claridade que &eacute; essencialmente n&atilde;o-dual.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Sensitividade<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Para uma descri&ccedil;&atilde;o completa da mente pura, um terceiro aspecto deve ser adicionado &agrave;s duas primeiras qualidades j&aacute; discutidas; &eacute; a sensitividade, ou desimpedimento. A claridade da mente &eacute; a sua capacidade de experienciar; tudo pode surgir na mente, ent&atilde;o suas possibilidades de consci&ecirc;ncia ou intelig&ecirc;ncia s&atilde;o ilimitadas. O termo tibetano que designa esta qualidade literalmente significa &quot;aus&ecirc;ncia de impedimento&quot;. Esta &eacute; a liberdade da mente experienciar sem obstru&ccedil;&atilde;o. No n&iacute;vel puro, estas experi&ecirc;ncias t&ecirc;m as qualidades da ilumina&ccedil;&atilde;o. No n&iacute;vel condicionado, elas s&atilde;o as percep&ccedil;&otilde;es da mente de cada coisa como sendo isto ou aquilo; ou seja, &eacute; a habilidade de distinguir, perceber e conceber todas as coisas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Voltando ao exemplo do sonho, a qualidade inerente de sensitividade da mente seria, por causa de sua abertura e claridade, a sua habilidade de experienciar a multiplicidade de aspectos do sonho, tanto as percep&ccedil;&otilde;es do sujeito sonhador quanto as experi&ecirc;ncias do mundo sonhado. A claridade &eacute; o que permite surgir as experi&ecirc;ncias, enquanto a sensitividade &eacute; a totalidade de todos os aspectos distintamente experienciados.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Esta sensitividade corresponde, no n&iacute;vel habitual e dualista, a todos os tipos de pensamentos e emo&ccedil;&otilde;es que surgem na mente e, no n&iacute;vel puro da mente de um buddha, &agrave; sabedoria ou qualidades iluminadas colocadas em pr&aacute;tica para ajudar os seres.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ent&atilde;o, a mente pura pode ser compreendida assim: em ess&ecirc;ncia, &eacute; aberta; em natureza, &eacute; clara; e em todos os seus aspectos, &eacute; uma sensitividade desimpedida. Estas tr&ecirc;s facetas, a abertura, a claridade e a sensitividade, n&atilde;o est&atilde;o separadas, mas s&atilde;o concomitantes. Elas s&atilde;o as qualidades simult&acirc;neas e complementares da mente desperta.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No n&iacute;vel puro, estas qualidades s&atilde;o o estado de <i>buddha<\/i>; no n&iacute;vel impuro da ignor&acirc;ncia e da delus&atilde;o, eles se tornam todos os estados da consci&ecirc;ncia condicionada, todas as experi&ecirc;ncias do <i>samsara<\/i>. Mas n&atilde;o importa se a mente &eacute; iluminada ou deludida, nada h&aacute; al&eacute;m dela, e ela &eacute; essencialmente a mesma em todos os seres, humanos ou n&atilde;o-humanos. A natureza de <i>buddha<\/i>, com todos os seus poderes e qualidades iluminadas, est&aacute; presente em cada ser. Todas as qualidades do <i>buddha<\/i> est&atilde;o em nossas mentes, por&eacute;m veladas e obscurecidas, assim como uma vidra&ccedil;a &eacute; naturalmente transparente e transl&uacute;cida, mas fica opaca pela densa camada de sujeira.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A purifica&ccedil;&atilde;o, ou remo&ccedil;&atilde;o destas impurezas, permite que todas as qualidades iluminadas presentes na mente sejam reveladas. Realmente, nossa mente tem pouca liberdade e poucas qualidades positivas porque ela &eacute; condicionada pelo nosso <i>karma<\/i>, pelas marcas habituais do passado. Pouco a pouco, por&eacute;m, as pr&aacute;ticas do <i>Dharma<\/i> e de medita&ccedil;&atilde;o livram a mente e a despertam para todas as qualidades de um <i>buddha<\/i>.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Uma breve medita&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Neste ponto, provavelmente ajudaria fazer uma curta pr&aacute;tica experimental, uma medita&ccedil;&atilde;o para tentar melhorar nossa compreens&atilde;o sobre tudo isso.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Sentando confortavelmente, vamos deixar a mente descansar em seu estado natural. Relaxamos a n&oacute;s mesmos, nossas tens&otilde;es, e permanecemos sem tens&atilde;o, sem qualquer inten&ccedil;&atilde;o em particular, sem artif&iacute;cios&#8230; Soltamos nossa mente e permitimos que ela fique aberta, como o espa&ccedil;o&#8230; Espa&ccedil;osa, a mente permanece clara e l&uacute;cida&#8230; Relaxada, solta, a mente permanece transparente e luminosa&#8230; N&atilde;o mantemos nossa mente encerrada em n&oacute;s mesmos&#8230; Ela n&atilde;o est&aacute; confinada em nossa cabe&ccedil;a, em nosso corpo, no ambiente ou em qualquer lugar. Relaxada, ela &eacute; vasta como o espa&ccedil;o que abarca tudo&#8230; Ela abarca tudo, todo o mundo e todo o universo. Ela permeia nosso mundo inteiro. Permanecemos descansados, relaxados, neste estado de abertura, ilimitado, totalmente l&uacute;cido e transparente.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A abertura e a transpar&ecirc;ncia da mente, similares ao espa&ccedil;o infinito, s&atilde;o sinais do que temos chamado de abertura. Sua consci&ecirc;ncia livre e clara &eacute; o que temos chamado de claridade.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">H&aacute; tamb&eacute;m a sua sensitividade, que &eacute; a capacidade da mente experienciar tudo em uma desimpedida consci&ecirc;ncia de pessoas, de lugares e de todas as outras coisas. A mente pode conhecer todas estas coisas e pode reconhec&ecirc;-las distintamente.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Mais uma vez, sem orientar &quot;a mente&quot; &#8211; o sujeito-conhecedor &#8211; para fora nem para dentro, permanecemos como estivermos, &agrave; vontade e relaxados&#8230; Sem afundar num estado de indiferen&ccedil;a ou estagna&ccedil;&atilde;o mental, nossa mente permanece alerta e vigilante&#8230; Neste estado, a mente &eacute; aberta e desengajada. Isto &eacute; a abertura&#8230; Na consci&ecirc;ncia l&uacute;cida est&aacute; a sua claridade&#8230; Todos os aspectos que conhece, distinta e desimpedidamente, s&atilde;o a sua sensitividade.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Um obst&aacute;culo importante surge como resultado de habitualmente confinarmos a mente ao corpo, que percebemos como sendo o nosso corpo; nos identificamos com este corpo, nos fixamos nele e nos encerramos nele. Para neutralizar isto, &eacute; importante relaxar toda tens&atilde;o, toda inquieta&ccedil;&atilde;o. Tensa e inquieta, a mente fica presa. Estas tens&otilde;es terminar&atilde;o causando dores f&iacute;sicas e de cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Deixe a mente permanecer descansada em sua vastid&atilde;o l&uacute;cida, aberta e relaxada.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Podemos come&ccedil;ar a meditar deste modo, mas &eacute; fundamental continuar a pr&aacute;tica sob a dire&ccedil;&atilde;o de um guia qualificado, que nos conduzir&aacute; no caminho correto. Com a ajuda dele ou dela, podemos realizar a vacuidade da mente, dos pensamentos e das emo&ccedil;&otilde;es, o que &eacute; o melhor de todos os m&eacute;todos de nos livrarmos da delus&atilde;o e do sofrimento. Reconhecer a natureza das emo&ccedil;&otilde;es negativas permite que elas sejam liberadas; &eacute; portanto essencial aprender a reconhecer sua vacuidade assim que elas surgirem. Se permanecermos ignorantes de sua natureza vazia, elas nos carregar&atilde;o em sua torrente, nos escravizando e subjugando. Elas t&ecirc;m controle sobre n&oacute;s porque atribu&iacute;mos a elas uma realidade que, na verdade, elas n&atilde;o t&ecirc;m. Se realizarmos sua vacuidade, ent&atilde;o o seu poder alienador e o sofrimento que elas causam ir&atilde;o desaparecer.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Esta habilidade de reconhecer a natureza aberta e vazia da mente e de todas as suas produ&ccedil;&otilde;es, proje&ccedil;&otilde;es, pensamentos e emo&ccedil;&otilde;es &eacute; a panac&eacute;ia, o rem&eacute;dio universal que, em e por si mesmo, cura toda delus&atilde;o, toda emo&ccedil;&atilde;o negativa e todo sofrimento.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Nossa mente pode ser comparada a uma m&atilde;o que est&aacute; atada ou amarrada; neste caso, a mente est&aacute; presa pela representa&ccedil;&atilde;o de nosso &quot;eu&quot;, &quot;ego&quot; ou &quot;self&quot;, assim como pelos conceitos e fixa&ccedil;&otilde;es que pertencem a esta id&eacute;ia. Pouco a pouco, a pr&aacute;tica do <i>Dharma<\/i> elimina estas fixa&ccedil;&otilde;es e conceitos de auto-estima e, assim como uma m&atilde;o desatada pode se abrir, a mente se abre e ganha todos os tipos de possibilidades de atividade. Ela ent&atilde;o descobre muitas qualidades e habilidades, como a m&atilde;o livre de suas amarras. As qualidades que s&atilde;o lentamente reveladas s&atilde;o aquelas da ilumina&ccedil;&atilde;o, da mente pura.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Os v&eacute;us da mente<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Se n&atilde;o h&aacute; uma diferen&ccedil;a essencial entre a mente de um <i>buddha<\/i> e a nossa pr&oacute;pria mente, por que um <i>buddha<\/i> tem tantas qualidades atribu&iacute;das a ele, e n&oacute;s n&atilde;o? A diferen&ccedil;a &eacute; que em nossas mentes a natureza de <i>buddha<\/i> est&aacute; obscurecida por todos os tipos de cobertura.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No n&iacute;vel impuro &#8211; isso &eacute;, na ignor&acirc;ncia &#8211; cada uma das tr&ecirc;s facetas da mente pura se torna um dos elementos que constituem a experi&ecirc;ncia dualista. Para come&ccedil;ar, a ignor&acirc;ncia sobre a abertura da mente conduz &agrave; uma concep&ccedil;&atilde;o de um sujeito, de um &quot;eu&quot;, de um observador; e a ignor&acirc;ncia sobre a claridade essencial conduz &agrave; ignor&acirc;ncia dos objetos exteriores. &Eacute; assim que surge a dicotomia sujeito-objeto, eu-outro.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Uma vez que os dois p&oacute;los da vis&atilde;o dualista tenham sido estabelecidos, v&aacute;rios relacionamentos se desenvolvem entre eles, que por sua vez motivam diferentes atividades. Os est&aacute;gios deste processo s&atilde;o constitu&iacute;dos de quatro v&eacute;us que mascaram a mente pura, a natureza de <i>buddha<\/i>. Eles s&atilde;o: o v&eacute;u da ignor&acirc;ncia, o v&eacute;u da tend&ecirc;ncia b&aacute;sica, o v&eacute;u das afli&ccedil;&otilde;es mentais e o v&eacute;u do <i>karma<\/i>. Eles s&atilde;o consecutivos e est&atilde;o estruturados um ap&oacute;s o outro.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O v&eacute;u da ignor&acirc;ncia<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A ignor&acirc;ncia sobre a verdadeira natureza da mente, isto &eacute;, o simples fato dela n&atilde;o reconhecer o que &eacute; realmente, &eacute; chamada de ignor&acirc;ncia fundamental. &Eacute; a inabilidade b&aacute;sica da mente condicionada perceber a si mesma. Podemos comparar a mente pura, que possui as tr&ecirc;s qualidades essenciais, com as &aacute;guas calmas e transparentes, nas quais tudo pode ser visto claramente. O v&eacute;u da ignor&acirc;ncia &eacute; uma falta de intelig&ecirc;ncia, um tipo de estado nublado, assim como um vaso opaco faz a &aacute;gua perder sua claridade transparente. Tal mente obscurecida perde a experi&ecirc;ncia da abertura l&uacute;cida e se torna ignorante de sua natureza essencial.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Diz-se que a ignor&acirc;ncia fundamental &eacute; inata, porque ela &eacute; inerente &agrave; nossa exist&ecirc;ncia; nascemos com ela. De fato, ela &eacute; o ponto de partida da dualidade, a raiz de todas as delus&otilde;es e a fonte de todo sofrimento.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O v&eacute;u da tend&ecirc;ncia b&aacute;sica<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A mente controlada pela ignor&acirc;ncia se engaja em todas as delus&otilde;es, entre as quais a mais b&aacute;sica, a raiz de todas as outras delus&otilde;es, &eacute; o apego dualista em termos de sujeito e objeto.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Quando a mente n&atilde;o conhece a extens&atilde;o de sua abertura, ao inv&eacute;s de experienciar sem centro ou periferia, percebemos tudo atrav&eacute;s de um ponto central de refer&ecirc;ncia. Este ponto, o centro que se apropria de todas as experi&ecirc;ncias, &eacute; o observador, o ego-sujeito. &Eacute; deste modo que a mente, ignorante de sua abertura, produz a experi&ecirc;ncia delus&oacute;ria de um &quot;eu&quot;.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ao mesmo tempo, quando a natureza da claridade n&atilde;o &eacute; reconhecida, experienciamos uma sensa&ccedil;&atilde;o de &quot;outro&quot; ao inv&eacute;s da qualidade auto-consciente da mente. Assim, o sujeito-ego distingue coisas que se tornam a qualidade auto-consciente. Assim o sujeito-ego distingue coisas que se tornam objetos externos. Surge a dicotomia do sujeito e do objeto, do &quot;eu&quot; e do outro. As &quot;outras&quot; coisas t&ecirc;m uma forma dual: as apar&ecirc;ncias do mundo externo e os fen&ocirc;menos duais.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Esta tend&ecirc;ncia da mente ser ignorante de sua natureza, e de perceber todas as situa&ccedil;&otilde;es de modo dualista, &eacute; o v&eacute;u da tend&ecirc;ncia b&aacute;sica. Desta perspectiva, este segundo v&eacute;u pode ser chamado de v&eacute;u do apego dualista.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O v&eacute;u das paix&otilde;es<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Como vimos, a mente ignorante de sua abertura e de sua claridade fica imersa na dualidade. Ent&atilde;o, a ignor&acirc;ncia da sensitividade da mente d&aacute; surgimento a todos os relacionamentos que existem entre os dois p&oacute;los da dicotomia sujeito-objeto. No n&iacute;vel puro, a sensitividade &eacute; a imedia&ccedil;&atilde;o e a multiplicidade das qualidades iluminadas, mas na ignor&acirc;ncia, estas qualidades s&atilde;o substitu&iacute;das pelas infinitas possibilidades relacionais dualistas. Na ignor&acirc;ncia, come&ccedil;amos tomando os objetos externos como sendo coisas reais. Ent&atilde;o experienciamos atra&ccedil;&atilde;o aos objetos agrad&aacute;veis, avers&atilde;o aos objetos desagrad&aacute;veis e indiferen&ccedil;a aos objetos que parecem neutros. Se um objeto &eacute; agrad&aacute;vel, queremos possu&iacute;-lo. Por outro lado, diante de objetos ou situa&ccedil;&otilde;es desagrad&aacute;veis, temos uma atitude de rejei&ccedil;&atilde;o ou fuga. Finalmente, n&atilde;o nos relacionamos com certos objetos ou situa&ccedil;&otilde;es por causa da indiferen&ccedil;a ou estagna&ccedil;&atilde;o mental.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Estes tr&ecirc;s tipos de relacionamentos &#8211; atra&ccedil;&atilde;o, avers&atilde;o e indiferen&ccedil;a &#8211; correspondem ao desejo, ao &oacute;dio e &agrave; ignor&acirc;ncia. Estes s&atilde;o os tr&ecirc;s venenos mentais prim&aacute;rios, as tr&ecirc;s principais afli&ccedil;&otilde;es mentais que animam e condicionam a mente habitual.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na base destes tr&ecirc;s tipos de relacionamento, outras numerosas afli&ccedil;&otilde;es mentais ou emocionais se multiplicam, notavelmente o orgulho, a gan&acirc;ncia e a inveja. O orgulho surge deste &quot;eu&quot; que nasce da ignor&acirc;ncia; a gan&acirc;ncia &eacute; uma extens&atilde;o do apego desejoso; enquanto a inveja prov&eacute;m do &oacute;dio e da avers&atilde;o. Assim, os tr&ecirc;s venenos prim&aacute;rios se ramificam em seis paix&otilde;es: &oacute;dio, gan&acirc;ncia, ignor&acirc;ncia, apego desejoso, inveja e orgulho. Elas correspondem aos seis estados de consci&ecirc;ncia caracter&iacute;sticos dos seis reinos da exist&ecirc;ncia. Depois, eles s&atilde;o subdivididos de novo e de novo, totalizando 84 mil tipos diferentes de paix&otilde;es! Todos estes relacionamentos dualistas e aflitos comp&otilde;em o v&eacute;u das paix&otilde;es.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O v&eacute;u do <i>karma<\/i><\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">As v&aacute;rias paix&otilde;es conduzem a uma grande variedade das a&ccedil;&otilde;es dualistas, que podem ser &#8211; em termos de <i>karma<\/i> &#8211; positivos, negativos ou neutros. Elas condicionam a mente e a fazem nascer em um dos seis reinos da exist&ecirc;ncia condicionada. Isto &eacute; o que chamamos de v&eacute;u da atividade condicionada, ou v&eacute;u do <i>karma<\/i>.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O Dharma: uma pr&aacute;tica de desvelamento<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Estes quatro v&eacute;us que encobrem a mente fazem sermos seres comuns, lan&ccedil;ados pelas delus&otilde;es nos seis reinos do <i>samsara<\/i>. N&atilde;o podemos ser livres desta condi&ccedil;&atilde;o, exceto eliminando os v&eacute;us e desvelando a mente. A pr&aacute;tica do <i>Dharma<\/i> oferece numerosos m&eacute;todos que permitem que estas impurezas caiam pouco a pouco, assim revelando a j&oacute;ia da mente pura.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A natureza pura da mente pode ser comparada a uma bola de cristal e, os quatro v&eacute;us, a quatro peda&ccedil;os de pano que a encobrem e escondem mais e mais. De acordo com uma outra imagem, estes v&eacute;us podem ser comparados &agrave;s camadas de nuvens que encobrem o c&eacute;u da mente. Do mesmo que as nuvens obscurecem o c&eacute;u, os v&eacute;us mascaram o espa&ccedil;o aberto, assim como a claridade de sua lucidez. A pr&aacute;tica do <i>Dharma<\/i>, e primariamente a medita&ccedil;&atilde;o, gradualmente removem estes diferentes v&eacute;us, do mais grosseiro ao mais sutil.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Quando todos estes v&eacute;us ou coberturas s&atilde;o removidos, h&aacute; um desvelamento completo, um estado de purifica&ccedil;&atilde;o chamado de <i>&quot;sang&quot;<\/i> em tibetano. O desabrochamento de todos os aspectos do espa&ccedil;o e da luz, revelados por esta purifica&ccedil;&atilde;o, &eacute; descrito pelo termo <i>&quot;gye&quot;<\/i>. Estas duas s&iacute;labas, <i>&quot;sang gye&quot;<\/i>, que literalmente significam &quot;pureza e desabrochamento perfeitos&quot; ou &quot;completamente puro e totalmente desabrochado&quot;, juntas formam a palavra tibetana para <i>buddha<\/i>. O estado de <i>buddha<\/i> &eacute; a manifesta&ccedil;&atilde;o das qualidades inerentes &agrave; mente, uma vez que ela tenha sido purificada dos v&eacute;us que a obscurecem.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O desvelamento, que revela as puras qualidades inerentes da mente, marca todo o progresso sobre o caminho da pr&aacute;tica do <i>Dharma<\/i>.<\/p>\n<hr \/>\n<p><\/a><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que &eacute; a mente? Kalu Rinpoche Apesar de todos n&oacute;s termos a sensa&ccedil;&atilde;o de possuir uma mente e de existir, nossa compreens&atilde;o a respeito de nossa mente e de como existimos geralmente &eacute; vaga e confusa. 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