{"id":626,"date":"2013-05-13T11:00:20","date_gmt":"2013-05-13T13:00:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=626"},"modified":"2018-02-10T19:17:47","modified_gmt":"2018-02-10T21:17:47","slug":"626","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/626\/","title":{"rendered":"Materialismo Espiritual"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><a href=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/luzivela2.jpg\" class=\"broken_link\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-632\" alt=\"luzivela2\" src=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/luzivela2-300x240.jpg\" width=\"300\" height=\"240\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/luzivela2-300x240.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/luzivela2-1024x819.jpg 1024w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/luzivela2-374x300.jpg 374w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/luzivela2.jpg 1084w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Estamos aqui para aprender um pouco sobre espiritualidade.<\/p>\n<p>Eu confio na qualidade aut\u00eantica desta busca, mas \u00e9 preciso questionar sua natureza. O problema \u00e9 que o ego consegue transformar todas as coisas visando ao seu uso pr\u00f3prio, inclusive a espiritualidade. O ego est\u00e1 constantemente tentando adquirir e aplicar os ensinamentos da espiritualidade em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Os ensinamentos s\u00e3o tratados como uma coisa externa, externa a &#8220;mim&#8221;, uma filosofia que procuramos copiar. Na realidade, n\u00e3o desejamos identificar-nos com os ensinamentos ou vir a ser os ensinamentos. Assim, quando o nosso mestre fala em ren\u00fancia do ego, tentamos imitar essa ren\u00fancia. Cumprimos as formalidades, fazemos os gestos apropriados, mas na verdade, n\u00e3o queremos sacrificar parte alguma do nosso modo de vida. Tomamo-nos atores habilidosos e, ao mesmo tempo em que brincamos de surdos-mudos com o verdadeiro significado dos ensinamentos, encontramos algum conforto fingindo seguir o caminho.<br \/>\nSempre que come\u00e7amos a sentir qualquer discrep\u00e2ncia ou conflito entre as nossas a\u00e7\u00f5es e os ensinamentos, imediatamente interpretamos a situa\u00e7\u00e3o de modo a abrandar o conflito. O int\u00e9rprete \u00e9 o ego no seu papel de conselheiro espiritual. A situa\u00e7\u00e3o se parece com a de um pa\u00eds em que Igreja e Estado sejam separados. Se a pol\u00edtica do Estado estiver afastada dos ensinamentos da Igreja, a rea\u00e7\u00e3o auto\u00acm\u00e1tica do rei \u00e9 dirigir-se ao chefe da Igreja, seu conselheiro espiritual, e pedir-lhe a b\u00ean\u00e7\u00e3o. O chefe da Igreja arquiteta alguma justificativa e confere sua b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, a pretexto de ser o rei o protetor da f\u00e9. Em nossa mente, as coisas se processam assim, muito bem arrumadas, sendo o ego, ao mesmo tempo, rei e chefe da Igreja.<br \/>\nSe for para se atingir a verdadeira espiritualidade, essa justifica\u00e7\u00e3o do caminho espiritual e das nossas a\u00e7\u00f5es deve ser ultrapassada. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil lidar com essa justifica\u00e7\u00e3o porque todas as coisas s\u00e3o vistas atrav\u00e9s do filtro da filosofia e da l\u00f3gica do ego, que faz com que tudo pare\u00e7a arrumado, preciso e muito l\u00f3gico. Para cada pergunta, tentamos encontrar uma resposta que se auto-justifique. A fim de nos tranq\u00fcilizar, procuramos adaptar ao nosso esquema intelectual todos os aspectos de nossa vida que possam trazer confus\u00e3o. E o nosso esfor\u00e7o \u00e9 t\u00e3o s\u00e9rio e solene, t\u00e3o direto e sincero que \u00e9 dif\u00edcil suspeitar dele. Confiamos sempre na \u201cintegridade\u201d do nosso conselheiro espiritual.<br \/>\nN\u00e3o importa o que possamos usar para chegar \u00e0 auto-justifica\u00e7\u00e3o: a sabedoria dos livros sagrados, diagramas ou mapas, c\u00e1lculos matem\u00e1ticos, f\u00f3rmulas esot\u00e9ricas, religi\u00e3o fundamentalista, psicologia profunda, ou qualquer outro mecanismo. Toda vez que nos pomos a fazer avalia\u00e7\u00f5es, decidindo se devemos ou n\u00e3o fazer isto ou aquilo, associaremos nossa pr\u00e1tica ou nosso conhecimento a categorias contrapostas umas \u00e0s outras, e isso \u00e9 materialismo espiritual, a falsa espiritualidade do nosso conselheiro espiritual. Toda vez que temos uma no\u00e7\u00e3o dual\u00edstica como, por exemplo: &#8220;Estou fazendo isto porque quero atingir um determinado estado de consci\u00eancia, um determinado estado de ser&#8221;, automaticamente nos separamos da realidade do que somos.<br \/>\nSe perguntarmos a n\u00f3s mesmos: \u201cQue h\u00e1 de mau em avaliar, que h\u00e1 de mau em tomar partido?\u201d, a resposta ser\u00e1 que, quando formulamos um ju\u00edzo secund\u00e1rio: \u201cEu devia estar fazendo isto e devia evitar fazer aquilo\u201d, estamos atingindo um n\u00edvel de complica\u00e7\u00e3o que nos faz enveredar por um longo caminho, afastando-nos da simplicidade b\u00e1sica do que somos. A simplicidade da medita\u00e7\u00e3o significa apenas vivenciar o instinto simiesco do ego. Se algu\u00e9m al\u00e9m disso \u00e9 superposto \u00e0 nossa psicologia, ela se torna uma m\u00e1scara muito pesada e espessa, uma armadura.<br \/>\n\u00c9 importante notar que o aspecto principal de qualquer pr\u00e1tica espiritual \u00e9 deixar para tr\u00e1s a burocracia do ego, isto \u00e9, deixar para tr\u00e1s o constante desejo do ego de adquirir uma vers\u00e3o mais elevada, mais espiritual, mais transcendental do conhecimento, da religi\u00e3o, da virtude, do julgamento, do conforto ou de qualquer particularidade que um determinado ego esteja procurando. Precisamos deixar para tr\u00e1s o materialismo espiritual. Se n\u00e3o pusermos de lado o materialismo espiritual, se, na verdade, o praticarmos, poderemos, posteriormente, surpreender-nos na posse de uma imensa cole\u00e7\u00e3o de caminhos espirituais. Podemos pensar que esse aglomerado espiritual \u00e9 muito precioso. Estudamos muito. Talvez tenhamos estudado filosofia ocidental ou filosofia oriental, praticado ioga ou estudado sob a orienta\u00e7\u00e3o de d\u00fazias de grandes mestres. Conseguimos realiza\u00e7\u00f5es e adquirimos conhecimentos. Acreditamos ter acumulado um arsenal de conhecimentos. E, no entanto, depois de passar por tudo isso, ainda nos resta abrir m\u00e3o de alguma coisa. Isso \u00e9 extremamente misterioso: Como p\u00f4de acontecer algo assim? Imposs\u00edvel! Mas, infelizmente, \u00e9 assim mesmo. Os nossos vastos conjuntos de conhecimentos e experi\u00eancias s\u00e3o apenas parte da exibi\u00e7\u00e3o do ego, parte da caracter\u00edstica aparatosa do ego. N\u00f3s as exibimos ao mundo e, ao faz\u00ea-lo, reasseguramo-nos de que existimos, s\u00e3os e salvos, como pessoas \u201cespirituais\u201d.<br \/>\nTeremos, por\u00e9m, apenas criado uma loja, uma loja de antiguidades. Poderemos estar nos especializando em antiguidades orientais ou antiguidades crist\u00e3s medievais, ou em antiguidades de uma outra civiliza\u00e7\u00e3o ou de um outro tempo, mas estamos, todavia, gerenciando uma loja. Antes de a enchermos de tantas coisas, a sala era bonita: paredes caiadas de branco, soalho bem simples e uma l\u00e2mpada bri\u00aclhante acesa no teto. No meio da sala havia um belo objeto de arte. Todas as pessoas que chegavam apreciavam sua beleza, inclusive n\u00f3s mesmos.<br \/>\nMas n\u00e3o est\u00e1vamos satisfeitos e pensamos: \u201cJ\u00e1 que este \u00fanico objeto embeleza tanto a minha sala, se eu conseguir outras antiguidades, minha sala ficar\u00e1 ainda mais bonita\u201d. Assim, pusemo-nos a colecionar, e o resultado fina! Foi o caos.<br \/>\nPercorremos o mundo inteiro \u00e0 cata de belos objetos \u2013 a \u00cdndia, o Jap\u00e3o, v\u00e1rios pa\u00edses. E sempre que encontr\u00e1vamos uma antiguidade, como est\u00e1vamos lidando apenas com um objeto de cada vez, v\u00edamos sua beleza e pens\u00e1vamos como ficaria bonito em nossa loja. Mas quando levamos o objeto para casa e o colocamos na sala, ele se tomou apenas mais um acr\u00e9scimo a nossa cole\u00e7\u00e3o de quinquilharias. A beleza do objeto j\u00e1 n\u00e3o se irradiava, pois estava cercado de outras tantas coisas bonitas. O objeto j\u00e1 n\u00e3o tinha significado algum. Em lugar de uma sala cheia de belas antiguidades, est\u00e1vamos criando uma loja de entulhos!<br \/>\nComprar adequadamente n\u00e3o implica ac\u00famulo de uma grande quantidade de informa\u00e7\u00f5es ou de coisas bonitas, mas requer uma aprecia\u00e7\u00e3o plena de cada objeto individualmente. Isto \u00e9 muito importante. Quando apreciamos de fato um belo objeto, indentificamo-nos completamente com ele e esquecemo-nos de n\u00f3s mesmos. \u00c9 como assistir a um filme muito interessante, fascinante, e esquecermo-nos de que somos o p\u00fablico. Naquele momento, o mundo deixa de existir; todo o nosso ser \u00e9 aquela cena daquele filme. \u00c9 a esse tipo de identifica\u00e7\u00e3o que aludimos, o completo envolvimento com uma coisa. Ser\u00e1 que efetivamente saboreamos, mastigamos e engolimos, de forma adequada, aquele objeto de arte, aquele ensinamento espiritual? Ou nos limitamos a consider\u00e1-Io como parte de nossa vasta a crescente cole\u00e7\u00e3o?<br \/>\nColoco tanta \u00eanfase sobre esse ponto porque sei que todos n\u00f3s chegamos aos ensinamentos e \u00e0 pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o para ganhar bastante dinheiro, mas porque t\u00ednhamos um desejo aut\u00eantico de aprender, de desenvolver-nos. Se, por\u00e9m, consideramos o conhecimento como uma antig\u00fcidade, como \u201csabedoria secular\u201d a ser colecionada, estamos no caminho errado.<br \/>\nNo que diz respeito \u00e0 linhagem dos mestres, o conhecimento n\u00e3o se transmite como uma antig\u00fcidade. Ao contr\u00e1rio, um mestre vivencia a verdade dos ensinamentos e a transmite como uma inspira\u00e7\u00e3o ao seu aluno. Essa inspira\u00e7\u00e3o desperta o aluno, tal como seu mestre foi despertado antes dele. Em seguida, o aluno passa os ensinamentos a outro estudante, e assim segue o processo. Os ensinamentos est\u00e3o sempre atualizados. N\u00e3o s\u00e3o \u201csabedoria secular\u201d, uma lenda antiga. N\u00e3o passam de uma pessoa a outra como informa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se transmitem como as hist\u00f3rias populares tradicionais que um av\u00f4 conta a seus netos. N\u00e3o \u00e9 assim que as coisas funcionam. Trata-se de uma experi\u00eancia real.<br \/>\nH\u00e1 um dito nas escrituras tibetanas: \u201cO conhecimento precisa ser aquecido, malhado e batido como o ouro puro. S\u00f3 depois podere\u00acmos us\u00e1-la como um ornamento\u201d. Portanto, quando voc\u00ea recebe instru\u00e7\u00e3o espiritual das m\u00e3os de outra pessoa, n\u00e3o a aceite sem esp\u00edrito cr\u00edtico, mas a aque\u00e7a, malhe e golpeie at\u00e9 que apare\u00e7a a cor brilhante e nobre de ouro. Ent\u00e3o, voc\u00ea fa\u00e7a dela um ornamento, dando-lhe o desenho que desejar, e passe a us\u00e1-la. Dessa forma, o dharma se aplica a todas as \u00e9pocas, a todas as pessoas; possui urna qualidade viva. N\u00e3o nos basta imitar o mestre ou guru; n\u00e3o estamos tentando nos transformar em uma r\u00e9plica do nosso instrutor. Os ensinamentos constituem uma experi\u00eancia pessoal de cada um, at\u00e9 chegar ao detentor atual da doutrina.<br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel que muitos dos meus leitores estejam familiarizados com as hist\u00f3rias de Naropa, Tilopa, Marpa, Milarepa, Gampopa e outros mestres da linhagem Kagy\u00fc. Foi uma experi\u00eancia viva para eles e \u00e9 viva a experi\u00eancia dos atuais detentores da linhagem. Apenas os pormenores das situa\u00e7\u00f5es de vida \u00e9 que s\u00e3o diferentes. Os ensina\u00acmentos t\u00eam a qualidade do p\u00e3o quente, rec\u00e9m-sa\u00eddo do fomo; o p\u00e3o ainda se conserva quente e fresco. Cada padeiro precisa aplicar os conhecimentos gerais de como fazer p\u00e3o ao seu pr\u00f3prio amassar e enfornar. A seguir, precisa experimentar pessoalmente o p\u00e3o fresco, cort\u00e1-lo enquanto fresco e com\u00ea-lo enquanto quente. Precisa tomar seus os ensinamentos e, depois, pratic\u00e1-los. Este \u00e9 um processo muito vivo. N\u00e3o h\u00e1 engano algum em termos de coletar conhecimentos. Temos de trabalhar com nossas pr\u00f3prias experi\u00eancias. Quando ficamos confusos, n\u00e3o podemos nos voltar para a nossa cole\u00e7\u00e3o de conhecimentos e tentar encontrar alguma confirma\u00e7\u00e3o ou consolo: \u201cO mestre e todos os ensinamentos est\u00e3o do meu lado\u201d. O caminho espiritual n\u00e3o segue por esse rumo. \u00c9 um caminho solit\u00e1rio, individual.<\/p>\n<p>P: O senhor acha que o materialismo espiritual \u00e9 um problema particularmente americano?<br \/>\nR: Toda vez que os ensinamentos chegam do exterior a um pa\u00eds, intensifica-se o problema do materialismo espiritual. Neste momento sem d\u00favida nenhuma, os Estados Unidos s\u00e3o um solo f\u00e9rtil e preparado para receber os ensinamentos. E por ser t\u00e3o f\u00e9rtil e estar \u00e0 procura da espiritualidade, os Estados Unidos t\u00eam a possibilidade de encorajar charlat\u00e3es. Os charlat\u00e3es n\u00e3o decidiriam ser charlat\u00e3es se n\u00e3o se sentissem motivados a tanto. N\u00e3o fosse assim, seriam assaltantes de bancos ou bandidos, j\u00e1 que desejam ganhar dinheiro e ficar famosos. E como os Estados Unidos est\u00e3o buscando a espiritualidade com tanto empenho, a religi\u00e3o toma-se um modo f\u00e1cil de ganhar dinheiro e conquistar fama. Nessas circunst\u00e2ncias, vemos charlat\u00e3es no papel de estudante, chela, assim como no papel de guru. Acho que os Estados Unidos, neste momento atual, oferecem um solo interessant\u00edssimo.<\/p>\n<p>P: O senhor aceitou algum mestre espiritual como guru, algum mestre espiritual vivo em especial?<br \/>\nR: Neste momento, n\u00e3o tenho nenhum. Fisicamente, deixei meus gurus e mestres para tr\u00e1s, no Tibet, mas os ensinamentos permanecem comigo e continuam.<\/p>\n<p>P: Ent\u00e3o, quem \u00e9 que o senhor est\u00e1 mais ou menos seguindo?<br \/>\nR: As situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o a voz do meu guru, a presen\u00e7a do meu guru.<\/p>\n<p>P: Depois que o Buda Shakyamuni alcan\u00e7ou a ilumina\u00e7\u00e3o, permaneceu nele algum vest\u00edgio do ego, de modo que ele pudesse prosseguir nos seus ensinamentos?<br \/>\nR: Os ensinamentos simplesmente aconteceram. Ele n\u00e3o tinha o desejo de ensinar nem de n\u00e3o ensinar. Ele passou sete semanas sentado \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore e caminhando ao longo de um rio. Ent\u00e3o, ocorreu que algu\u00e9m apareceu por ali e ele come\u00e7ou a falar. N\u00e3o h\u00e1 escolha. Voc\u00ea est\u00e1 ali, uma pessoa aberta. Ent\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o se apresenta e o ensinamento acontece. \u00c9 o que se chama \u201catividade b\u00fadica\u201d.<\/p>\n<p>P: \u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o ser aquisitivo, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 espiritualidade. O desejo de adquirir \u00e9 uma coisa de que nos desfazemos ao longo do caminho?<br \/>\nR: Voc\u00ea deve deixar que o primeiro impulso se esvazie. O seu primeiro impulso em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 espiritualidade poder\u00e1 coloc\u00e1-lo em um cen\u00e1rio espiritual espec\u00edfico; mas se voc\u00ea trabalhar com esse impulso, pouco a pouco ele se extingue e, num determinado ponto, se torna tedioso, mon\u00f3tono. Esta mensagem \u00e9 muito \u00fatil. Veja bem, \u00e9 essencial relacionar-se consigo mesmo, com sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, efetivamente. Quando n\u00e3o nos relacionamos conosco, o caminho espiritual toma-se perigoso, passa a ser mais um entretenimento puramente externo do que uma experi\u00eancia pessoal, org\u00e2nica.<\/p>\n<p>P: Se decidirmos procurar uma sa\u00edda para a ignor\u00e2ncia, podemos supor quase com certeza, que tudo o que fizermos e que nos de prazer ser\u00e1 ben\u00e9fico ao ego e estar\u00e1, na verdade, bloqueando o caminho. Qualquer coisa que parece certa est\u00e1 errada; tudo que n\u00e3o nos virar de cabe\u00e7a para baixo acabar\u00e1 por enterrar-nos. Existe alguma sa\u00edda para isto?<br \/>\nR: Se voc\u00ea executa um ato que seja aparentemente certo, isso n\u00e3o quer dizer que ele seja errado, pela simples raz\u00e3o de que errado e certo est\u00e3o fora deste contexto. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 trabalhando de nenhum lado, nem do lado \u201cbom\u201d, nem do lado \u201cmau\u201d, mas sim com a totalidade do conjunto, para al\u00e9m de \u201cisso\u201d e \u201caquilo\u201d. Eu diria que h\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o completa. N\u00e3o existe ato parcial, embora tudo que fa\u00e7amos relacionado com bom e mau pare\u00e7a um ato parcial.<\/p>\n<p>P: Quando nos sentimos muito confusos e procuramos nos desvencilhar e sair da confus\u00e3o, pode parecer que estamos nos esfor\u00e7ando demais. Mas se n\u00e3o fizermos nenhuma tentativa, devemos ent\u00e3o entender que estamos nos iludindo?<br \/>\nR: Sim, mas isso n\u00e3o significa que temos de viver nos extremos, esfor\u00e7ando-nos muito ou n\u00e3o fazendo tentativa alguma. Precisamos trabalhar com uma esp\u00e9cie de \u201ccaminho do meio\u201d, um estado completo de \u201csermos como somos\u201d. Poder\u00edamos descrev\u00ea-lo com uma por\u00e7\u00e3o de palavras, mas temos realmente que passar por ele. Se voc\u00ea come\u00e7a, de fato, a viver o caminho do meio, ent\u00e3o ir\u00e1 enxerg\u00e1-lo, ir\u00e1 encontr\u00e1-lo. Voc\u00ea precisa permitir-se confiar em si pr\u00f3prio, confiar em sua pr\u00f3pria intelig\u00eancia. Somos pessoas incr\u00edveis, temos coisas incr\u00edveis dentro de n\u00f3s. Temos simplesmente que nos deixar ser. Aux\u00edlio externo n\u00e3o pode oferecer ajuda. Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 disposto a se permitir crescer, ent\u00e3o cair\u00e1 no processo autodestrutivo da confus\u00e3o. Aqui temos autodestrui\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de destrui\u00e7\u00e3o por outra pessoa. Eis por que isso \u00e9 eficaz: porque \u00e9 autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P: O que \u00e9 a f\u00e9? Ela \u00e9 \u00fatil?<br \/>\nR: A f\u00e9 pode ser simplista, confiante e cega, ou pode ser uma con\u00acfian\u00e7a definitiva que n\u00e3o pode ser destru\u00edda. A f\u00e9 cega \u00e9 destitu\u00edda de inspira\u00e7\u00e3o; \u00e9 muito ing\u00eanua. N\u00e3o \u00e9 criativa, embora n\u00e3o seja exatamente destrutiva. N\u00e3o \u00e9 criativa porque entre sua f\u00e9 e voc\u00ea mesmo nunca se estabeleceu nenhuma conex\u00e3o, nenhuma comuni\u00acca\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea apenas aceitou, cegamente, toda a cren\u00e7a, muito ingenuamente.<br \/>\nNo caso da f\u00e9 como confian\u00e7a, existe uma raz\u00e3o viva para voc\u00ea ser confiante. Voc\u00ea n\u00e3o espera que uma solu\u00e7\u00e3o pr\u00e9-fabricada lhe seja misteriosamente apresentada. Voc\u00ea trabalha com as situa\u00e7\u00f5es existentes, sem medo, sem qualquer d\u00favida de envolver-se ou n\u00e3o. Essa atitude \u00e9 sumamente criativa e positiva. Se sua confian\u00e7a \u00e9 definitiva, voc\u00ea est\u00e1 t\u00e3o seguro de si que n\u00e3o tem que se fiscalizar. Trata-se de confian\u00e7a absoluta, uma verdadeira compreens\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo agora. Portanto, voc\u00ea n\u00e3o hesita em seguir outros caminhos nem em tomar a atitude necess\u00e1ria frente a cada nova situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P: O que \u00e9 que o guia no caminho?<br \/>\nR: Na realidade, n\u00e3o parece haver nenhum guia em particular. De fato, se algu\u00e9m estiver nos guiando, isso \u00e9 suspeito, porque estaremos nos amparando em algo externo. Ser plenamente o que somos em n\u00f3s mesmos passa a ser o guia, mas n\u00e3o no sentido de vanguarda, porque n\u00e3o h\u00e1 um guia para seguir. N\u00e3o precisamos seguir os passos de ningu\u00e9m, mas apenas seguir livremente. Em outras palavras, o guia n\u00e3o caminha \u00e0 nossa frente, mas ao nosso lado.<\/p>\n<p>P: O senhor poderia dizer mais alguma coisa sobre como a medita\u00e7\u00e3o provoca um curto-circuito nos mecanismos protetores do ego?<br \/>\nR: O mecanismo protetor do ego implica voc\u00ea se fiscalizar, o que \u00e9 uma forma desnecess\u00e1ria de auto-observa\u00e7\u00e3o. A base da medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 no fato de meditar sobre determinado assunto por meio de uma auto-fiscaliza\u00e7\u00e3o; mas a medita\u00e7\u00e3o significa uma completa identifica\u00e7\u00e3o com as t\u00e9cnicas que voc\u00ea estiver empregando. Desse modo, na pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 esfor\u00e7o algum para buscar seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>P: Parece que estou vivendo num ferro-velho espiritual. Como posso transform\u00e1-lo numa sala simples com apenas um objeto bonito?<br \/>\nR: A fim de desenvolver a capacidade de apreciar sua cole\u00e7\u00e3o, voc\u00ea tem que come\u00e7ar com um \u00fanico objeto. \u00c9 preciso encontrar uma entrada, uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o. Talvez n\u00e3o seja preciso passar pelo resto dos objetos da sua cole\u00e7\u00e3o se voc\u00ea estudar apenas uma pe\u00e7a. Esse \u00fanico objeto poderia ser uma placa que voc\u00ea conseguiu furtar em Nova York; poder\u00e1 ser t\u00e3o insignificante quanto isso. Mas precisamos come\u00e7ar com uma coisa, enxergar sua simplicidade, a qualidade tosca deste traste velho, ou desta bela pe\u00e7a de antiguidade. Se consegu\u00edssemos come\u00e7ar apenas com uma coisa, isso equivaleria a ter um \u00fanico objeto numa sala vazia. Creio que \u00e9 uma quest\u00e3o de encontrar uma entrada. Por termos tantos bens em nossa cole\u00e7\u00e3o, o problema, em grande parte, \u00e9 que n\u00e3o sabemos por onde come\u00e7ar. Voc\u00ea tem que permitir que seu instinto determine qual ser\u00e1 a primeira coisa que ir\u00e1 apanhar.<\/p>\n<p>P: Por que o senhor acha que as pessoas protegem tanto o ego delas? Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil abrir m\u00e3o do nosso ego?<br \/>\nR: As pessoas t\u00eam medo do vazio do espa\u00e7o, da aus\u00eancia de companhia, da aus\u00eancia de uma sombra. Poderia ser uma experi\u00eancia apavorante n\u00e3o ter ningu\u00e9m nem nada com quem se relacionar. A id\u00e9ia disso pode ser extremamente assustadora, se bem que a experi\u00eancia real n\u00e3o o seja. Trata-se, geralmente, de um medo de espa\u00e7o, de um medo de n\u00e3o sermos capazes de nos ancorarmos em um solo firme, de perdermos nossa identidade como uma coisa fixa, s\u00f3lida e definida. Isto pode ser muito amea\u00e7ador.<\/p>\n<p><em>AL\u00c9M DO MATERIALISMO ESPIRITUAL \u2013 Ch\u00f6gyam Trungpa<\/em>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos aqui para aprender um pouco sobre espiritualidade. Eu confio na qualidade aut\u00eantica desta busca, mas \u00e9 preciso questionar sua natureza. 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