{"id":6518,"date":"2020-06-30T21:29:52","date_gmt":"2020-06-30T23:29:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=6518"},"modified":"2020-06-30T21:29:52","modified_gmt":"2020-06-30T23:29:52","slug":"conhece-te-a-ti-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/conhece-te-a-ti-mesmo\/","title":{"rendered":"Conhece-te a Ti Mesmo!"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Albert-Low.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Albert-Low.jpg\" alt=\"\" width=\"276\" height=\"183\" class=\"alignleft size-full wp-image-2030\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/albert-low\/\">Albert Low<\/a>, extra\u00eddo do livro<br \/>\n&#8220;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-pratica-do-zen-e-o-conhecimento-de-si-mesmo\/\">A Pr\u00e1tica do Zen e o Conhecimento de si mesmo<\/a>&#8220;<\/b><\/i><\/div>\n<p><font FACE=\"Verdana\" SIZE=\"2\"><a NAME=\"inicio\"><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:center\"><font SIZE=\"4\"><b>Conhece-te a Ti Mesmo!<\/b><\/font><\/div>\n<p><\/a> <\/p>\n<div STYLE=\"text-align:right\"><font SIZE=\"1\"><i><b>Texto de <a href=\"default.asp?menu=65\" class=\"broken_link\"><font SIZE=\"1\">Albert Low<\/font><\/a>, extra\u00eddo do livro<br \/>&#8220;<a href=\"default.asp?menu=66\" class=\"broken_link\"><font SIZE=\"1\">A Pr\u00e1tica do Zen e o Conhecimento de si mesmo<\/font><\/a>&#8220;<\/b><\/i><\/font><\/div>\n<p><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:justify\">\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">O&#9;Dogen diz o seguinte: &quot;Praticar o Zen &eacute; conhecer a si mesmo. Conhecer a si mesmo &eacute; esquecer de si mesmo.&quot;<\/p>\n<p><dir><\/dir><dir><i><\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">O&#9;que isso significa, &quot;Praticar o Zen <\/p>\n<p><\/i>&eacute; <i>conhecera si mesmo&quot;?<\/i><\/dir><\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Como regra geral, n&atilde;o conhecemos a n&oacute;s mesmos; ao contr&aacute;rio, conhecemos coisas, pensamentos, emo&ccedil;&otilde;es, sentimentos, mas n&atilde;o a n&oacute;s mesmos. Quando Gurdjieff diz que <i>n&atilde;o nos lembramos de n&oacute;s mesmos, <\/i>ele est&aacute; dizendo exatamente o mesmo que Dogen.<\/p>\n<p><i><\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Mas o fato de estarmos cheios demais de n&oacute;s mesmos n&atilde;o constitui problema?<\/p>\n<p><\/i><\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Sim, mas esquecemos o que &eacute; essencial. Dogen diz que conhecer a si mesmo &eacute; esquecer de si mesmo, mas, antes que possamos esquecer de n&oacute;s mesmos, devemos conhecer a n&oacute;s mesmos. Constantemente, usamos a palavra &quot;eu&quot;. Todas as nossas conversas, reais e imagin&aacute;rias, giram em tomo do &quot;eu&quot;. Dizemos &quot;eu&quot; gosto e &quot;eu&quot; n&atilde;o gosto; &quot;eu&quot; quero e &quot;eu&quot; n&atilde;o quero. Confundimos o &quot;eu&quot; com o si mesmo; embora eles n&atilde;o possam ser separados, n&atilde;o s&atilde;o a mesma coisa. Uma monja Zen dizia: &quot;Eu n&atilde;o posso arrancar a erva daninha, porque, se o fizer, estarei arrancando a flor.&quot; Um mestre Zen queria dizer o mesmo quando falava: &quot;O ladr&atilde;o meu filho!&quot; &Eacute; como um espelho e seus reflexos: eles n&atilde;o s&atilde;o dois, mas n&atilde;o s&atilde;o o mesmo. &quot;Eu&quot; tamb&eacute;m &eacute; um reflexo com o qual ficamos muito fascinados, que evoca um drama constante e infind&aacute;vel de emo&ccedil;&otilde;es, medos e fracassos, sucessos e alegrias. Surfamos pela vida na prancha do &quot;eu&quot;, lutando para ficar na crista da onda, mas afundando pra sempre na ang&uacute;stia. &quot;Eu&quot; &eacute; sempre algo que vai acontecer no futuro, algo para esperar, pra atingir, para obter, para ganhar. Dai, vem o <i>momentum <\/i>da jornada.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">A satisfa&ccedil;&atilde;o do &quot;eu&quot; &eacute; o nosso culto; para isso, curvamos nossa vontade e nosso desejo. O ego, como um rei morto, precisa ser alimentado, satisfeito a todo custo \u2014 de tal maneira que freq&uuml;entemente confundimos a satisfa&ccedil;&atilde;o do ego com a felicidade, embora ambas sejam t&atilde;o diferentes quanto a areia e o arroz. A maior satisfa&ccedil;&atilde;o do ego freq&uuml;entemente anda de m&atilde;os dadas com uma profunda infelicidade. Basta pensar nas estrelas do <i>rock, <\/i>agarrando o microfone e se contorcendo numa confus&atilde;o de luz e estupor enquanto aceitam a adula&ccedil;&atilde;o de estranhos; ou nos executivos aflitos pisando como burros a roda da aclama&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, exaustos por longas noitadas, quartos de hotel e aeroportos, esmagados pela carga do pr&oacute;prio sucesso. Entretanto, embora talvez mais raramente, a felicidade chega sem qualquer satisfa&ccedil;&atilde;o do ego. Monges, ermit&atilde;os e anacoretas &agrave;s vezes encontram esse tipo de felicidade, mas tamb&eacute;m a encontram os homens e as mulheres que est&atilde;o simplesmente satisfeitos com o que t&ecirc;m, sem considerar se &eacute; muito ou pouco.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">A satisfa&ccedil;&atilde;o do ego &eacute; um claro reflexo do si mesmo, ou t&atilde;o claro quanto a &aacute;gua lodosa da experi&ecirc;ncia o permitir. Estamos sempre procurando por ela, e, quando a encontramos, n&oacute;s a tratamos com carinho, guardamos e procuramos perpetu&aacute;-la, at&eacute; mesmo &aacute; custa da sa&uacute;de, da sanidade e, &aacute;s vezes, da pr&oacute;pria vida. Ela tem muitos degraus e grada&ccedil;&otilde;es. Por exemplo, a <i>sensa&ccedil;&atilde;o do si mesmo, <\/i>a mais b&aacute;sica de todas as auto-reflex&otilde;es, oferece a mais elementar satisfa&ccedil;&atilde;o do ego. Quando estamos incertos, indecisos, envergonhados, ou quando temos medo do palco, perdemos a sensa&ccedil;&atilde;o do si mesmo. As vezes dizemos, depois de um momento embara&ccedil;oso: &quot;Eu estava completamente &aacute; deriva&quot;, &quot;estava perdido&quot;, &quot;estava fora de mim&quot; e assim por diante. Se a incerteza &eacute; grande, as sensa&ccedil;&otilde;es de ansiedade, medo ou p&acirc;nico podem inundar-nos. Ent&atilde;o, desenvolvemos estrat&eacute;gias para dar conta da ansiedade, restaurando a sensa&ccedil;&atilde;o do si mesmo. Os homens esfregam o queixo, usando a barba como uma esp&eacute;cie de lixa. As mulheres p&otilde;em a m&atilde;o no cabelo. Tocamos o nariz, passamos a l&iacute;ngua pelos l&aacute;bios, cruzamos os bra&ccedil;os ou pernas (ou ambos). Tudo para restaurar a sensa&ccedil;&atilde;o do si mesmo.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Tudo isso &eacute; in&oacute;cuo. Por&eacute;m, algumas pessoas magoam a si pr&oacute;prias e at&eacute; mesmo se ferem para recuperar essa sensa&ccedil;&atilde;o perdida. Lembro-me de ter visto uma jovem caminhando por uma rua, segurando-se &agrave; m&atilde;e com uma das m&atilde;os. Seu outro bra&ccedil;o subia e descia ao lado do corpo, castigando a coxa. Batia, batia, batia, o bra&ccedil;o nunca parava, a n&atilde;o ser quando a rua ficou t&atilde;o cheia que ele acabou sendo obstru&iacute;do. Ent&atilde;o, a garota olhou em volta como algu&eacute;m que est&aacute; afundando, em p&acirc;nico, at&eacute; que conseguiu for&ccedil;ar caminho entre a multid&atilde;o e entrar numa &aacute;rea livre, onde o bra&ccedil;o p&ocirc;de continuar seu trabalho brutal.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Temos outra estrat&eacute;gia ainda mais sutil para ter a sensa&ccedil;&atilde;o do si mesmo. &Eacute; pela tens&atilde;o fisica. A maioria das pessoas &eacute; como uma catedral g&oacute;tica de tens&atilde;o: cada tens&atilde;o apoia outras tens&otilde;es, que por sua vez apoiam outras tens&otilde;es. A pedra fundamental &eacute; o &quot;eu&quot; e, como um garotinho correndo colina abaixo para manter o equil&iacute;brio, estamos todos correndo atr&aacute;s dessa pedra fundamental que apoia o arco da nossa exist&ecirc;ncia. &Aacute;s vezes, quando as pessoas meditam, elas abrem m&atilde;o dessa pedra fundamental por um momento \u2014 e a estrutura toda move-se, precipita-se, escorrega. Esse movimento cria grande medo e incerteza, descendo pela nuca e exigindo maior tens&atilde;o, ranger de dentes, cerrar de punhos, encolhimento de diafragma.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Al&eacute;m da estrat&eacute;gia da tens&atilde;o, existe outra que depende de uma emo&ccedil;&atilde;o habitual, assim como a ansiedade entorpecente, a vaga depress&atilde;o, a raiva sufocante. Ati&ccedil;amos o fogo da negatividade com lembran&ccedil;as: fracassos anteriores, conflitos passados, trai&ccedil;&otilde;es passadas e humilha&ccedil;&otilde;es. Constantemente remexemos os carv&otilde;es, procurando conhecer o si mesmo sob a luz e o calor de sua dor. A &uacute;ltima coisa que as pessoas abandonam, diz Gurdjieff, &eacute; o seu sofrimento. Para muitas, o objetivo da vida \u2014 a &uacute;ltima pedra fundamental \u2014 &eacute; libertar-se de um certo tipo de ansiedade, de um certo tipo de dor; mas, se elas tivessem de fazer isso, sua vida perderia o significado, e assim o c&iacute;rculo vicioso &eacute; mantido.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Mais profundo ainda &eacute; o mon&oacute;logo, aquela discuss&atilde;o infind&aacute;vel com o Outro oculto no crep&uacute;sculo de nossa mente. Lisonjeando, explicando, ensinando, arg&uuml;indo, a discuss&atilde;o &eacute; intermin&aacute;vel. No centro de tudo isso est&aacute; a esperan&ccedil;a da entroniza&ccedil;&atilde;o do &quot;eu&quot;. Muitas conversas com amigos e inimigos s&atilde;o simplesmente continua&ccedil;&otilde;es desse mon&oacute;logo. Ent&atilde;o, o Outro emerge das sombras e, por um momento, fica diante de n&oacute;s. Depois de algum tempo, a conversa termina, a luz se apaga, mas o mon&oacute;logo continua. Ele continua at&eacute; mesmo durante o sono, quando se tece inextricavelmente com imagens nos sonhos. Planos, projetos e objetivos aproveitam a energia que de outro modo &eacute; dissipada pelo mon&oacute;logo, mas, mesmo assim, os planos, os objetivos ainda fazem parte dessa novela da qual eu sou o diretor, o produtor, a estrela que atua e a audi&ecirc;ncia. Outros, amigos e inimigos, s&atilde;o o elenco de apoio e devem conhecer os seus pap&eacute;is, falar o seu texto, entrar e sair conforme o papel que desempenham. Se eles esquecem sua fala, mudam-na, n&atilde;o atuam de acordo com a personagem que representam, dizemos que a vida est&aacute; repleta de acidentes, injusti&ccedil;as, fracassos, e que os outros s&atilde;o injustos, irrespons&aacute;veis, insens&iacute;veis. Julgamos a n&oacute;s mesmos e aos outros, repartimos a repreens&atilde;o e o elogio, tudo de acordo com o roteiro do drama de nossa vida Shakespeare n&atilde;o disse que o mundo todo &eacute; um palco e que todos os homens e mulheres s&atilde;o meros atores?<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Quando me dizem que devemos conhecer a n&oacute;s mesmos, acredito que isso quer dizer conhecer a estrela da novela, o que a moldou, onde ela aprendeu os seus pap&eacute;is ou como acabou dizendo esse texto. Acreditamos que conhecer significa analisar, encontrar a causa e o efeito, ver as sementes sendo plantadas e as colheitas sendo realizadas \u2014 sementes de solid&atilde;o, raiva, crueldade, medo e ansiedade; colheitas de mis&eacute;ria, fracasso, desespero. Acompanhamos o florescimento das sementes como ervas daninhas e ficamos atentos ao sol e &agrave; chuva, &agrave;s situa&ccedil;&otilde;es que as devem ter fertilizado e assim tentamos chegar a conhecer esse jardim no qual flores, ervas daninhas, capim e espinhos lutam numa simbiose que chamamos de personalidade.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Isso, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; o que Dogen quer dizer quando fala em conhecermos o si mesmo, nem o que Gurdjieff quer dizer com &quot;lembramo-nos do si mesmo&quot;. Conhecer o si mesmo requer que demos o primeiro passo e vejamos o drama, qualquer que seja o seu conte&uacute;do, como drama, e saber que ele &eacute; uma reflex&atilde;o. Poucos s&atilde;o capazes de dar esse primeiro passo necess&aacute;rio, porque estamos muito convencidos de que o drama &eacute; real, de que o contra-regra e o elenco, as cenas e o di&aacute;logo s&atilde;o reais, de que t&ecirc;m uma vida independente daquela que lhes demos. Hoje em dia, essa convic&ccedil;&atilde;o da realidade do drama chegou a um ponto em que todos somos vitimas: mulheres s&atilde;o vitimas trabalhadores s&atilde;o vitimas, pacientes s&atilde;o vitimas, cidad&atilde;os s&atilde;o vitimas. Reclamamos, protestamos, entramos em lit&iacute;gio, tudo na s&oacute;lida convic&ccedil;&atilde;o de que &quot;eles&quot; &eacute; que s&atilde;o a causa, de que &quot;isso&quot; &eacute; o problema.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Damos tudo isso como totalmente certo.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Quando eu era jovem, a ind&uacute;stria de filmes ainda era incipiente. Foi numa &eacute;poca em que o <i>western <\/i>era popular. Lembro-me de uma vez em que estava assistindo a um filme a respeito de um xerife que usava um chap&eacute;u branco, montava num cavalo branco, com um rev&oacute;lver num coldre branco, e cavalgava em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; cidade para uma luta final com um fora-da-lei que, naturalmente, tinha um chap&eacute;u preto, um cavalo preto, um bigode preto e um rev&oacute;lver preto. O xerife cavalgava ereto, alto na sela, em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; cidade para enfrentar o homem mau que estava de p&eacute; no meio da estrada, ligeiramente curvado, esperando que ele descesse do cavalo para come&ccedil;ar o duelo.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">O xerife desceu lentamente a estrada ladeada de <i>saloons <\/i>e lojas. A estrada estava vazia, exceto pelo solit&aacute;rio fora-da-lei, atr&aacute;s do qual estendia-se, ~ longe, o vasto deserto pontuado de cactos e pedras. Al&eacute;m do deserto, surgiam, azuis e roxas, as montanhas com os picos cobertos de neve.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">A tens&atilde;o aumentava &agrave; medida que o homem da lei se aproximava do duelo. Ele puxou as r&eacute;deas do cavalo, desceu e, com as costas descuidadamente voltadas para o fora-da-lei, prendeu o cavalo a um poste ali peito. Sem nenhuma pressa, ele se voltou e analisou a cena. A tens&atilde;o alcan&ccedil;ou o cl&iacute;max. Quem faria o primeiro movimento? Tudo parecia congelado na eternidade por alguns momentos. Ent&atilde;o as montanhas se moveram! N&atilde;o muito, mas elas se moveram! Elas n&atilde;o eram reais; eram simplesmente pintadas numa tela grande. Num momento, a coisa toda \u2014 caub&oacute;is, deserto, cavalos, <i>saloons <\/i>\u2014 virou uma farsa. J&aacute; n&atilde;o se podia levar mais nada a s&eacute;rio. N&atilde;o importava quem ia atirar em quem. Aquilo n&atilde;o era mais real, mas apenas uma ilus&atilde;o que eu estava tomando real para a minha pr&oacute;pria divers&atilde;o.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Para conhecer o si mesmo, temos de fazer as montanhas se moverem. Tudo de que precisamos &eacute; de uma revela&ccedil;&atilde;o \u2014 n&atilde;o muito, apenas um lampejo, um momento no qual n&atilde;o ocorre nenhuma censura.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Esses momentos apresentam-se o tempo todo, e o tempo todo fechamo-nos para eles. Fechamo-nos contra uma perda do si mesmo, reagimos, agarramo-nos, adotamos uma estrat&eacute;gia ou outra. A resist&ecirc;ncia &eacute; quase instintiva. &Eacute; por isso que todas as religi&otilde;es dizem-nos para observar, para estarmos alertas e atentos, para estarmos presentes de modo que, quando esses momentos surgirem, possamos apenas deixa-los acontecer sem a resist&ecirc;ncia. De fato, n&atilde;o podemos deixar de pensar se &eacute; a isso que Cristo estava se referindo com a sua par&aacute;bola das virgens s&aacute;bias e das tolas. No fim da par&aacute;bola, o noivo chega, e aquelas que est&atilde;o prontas v&atilde;o com ele para a festa de casamento; ent&atilde;o, a porta se fecha. &quot;Depois, as virgens tolas tamb&eacute;m chegam dizendo: \u2018Senhor, senhor, abri a porta para n&oacute;s.\u2019 Mas ele retruca: \u2018Fiquem atentas, porque voc&ecirc;s n&atilde;o sabem nem o dia nem a hora.\u2019&quot;<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Esse momento de n&atilde;o-reflex&atilde;o desvela o despertar antes do despertar, o momento em que <i>bodhichitta <\/i>aparece. Um fluxo de reflex&atilde;o que desperta, no contrafluxo de todo conflito num momento de saber sem conte&uacute;do, sem nenhuma consci&ecirc;ncia do saber. N&atilde;o se pode nem mesmo falar de &quot;um momento de conhecimento&quot;. O conhecimento brilha. Dogen chama esse conhecimento &quot;conhecer o si mesmo&quot;. Bodhidharma chama-o de n&atilde;o conhecer em resposta &agrave; pergunta que lhe foi feita pelo imperador Wu: &quot;Voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; um homem santo?&quot;<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">A contraparte do puro conhecimento pode ser chamada de paz ou at&eacute; mesmo de bem-aventuran&ccedil;a, n&atilde;o uma felicidade ou bem-aventuran&ccedil;a que a pessoa sente, mas que conhece; conhecer &eacute; bem-aventuran&ccedil;a Ela pode muito bem ser o que o Novo Testamento chama de &quot;uma paz que vai al&eacute;m de todo entendimento&quot;. Contudo, para aqueles que est&atilde;o acostumados a conhecer o si mesmo atrav&eacute;s de uma cortina de sofrimento e conflito, essa paz boceja como uma amea&ccedil;a, um abismo, uma fonte de medo. Apenas aqueles que podem estar presentes v&ecirc;em-na como uma oportunidade para uma reviravolta, um <i>pravritti, <\/i>como &eacute; conhecido em s&acirc;nscrito. Com essa reviravolta, a lux&uacute;ria ap&oacute;s a reflex&atilde;o, a tentativa de alcan&ccedil;ar o absoluto na experi&ecirc;ncia transit&oacute;ria, deixa de exercer controle. A pessoa j&aacute; n&atilde;o vive mais as coisas como objetivas e independentes, mas como reflex&otilde;es sem conhecimento. No contrafluxo de toda a necessidade de concentrar a aten&ccedil;&atilde;o, todo conflito toma-se uma dan&ccedil;a, toda oposi&ccedil;&atilde;o se funde como &quot;eu&quot;, e os Outros s&atilde;o conhecidos como duas facetas de uma realidade. A prepara&ccedil;&atilde;o para essa reviravolta geralmente leva muito tempo; &eacute; nisso que consiste a pr&aacute;tica.<\/p>\n<p ALIGN=\"JUSTIFY\">Algu&eacute;m pode muito bem objetar, dizendo que a pr&aacute;tica tamb&eacute;m consiste em enfocar a aten&ccedil;&atilde;o, concentrar-se. Sim, &agrave;s vezes, a pr&aacute;tica requer mesmo uma intensa concentra&ccedil;&atilde;o que exige um grande esfor&ccedil;o, at&eacute; mesmo f&iacute;sico. Isso permite que a mente se retire de todos os focos triviais que a obstruem. Se concentramos a mente intensamente, podemos romper com os milhares de fios que nos amarram, como os fios dos liliputianos amarraram Gulliver. Mas ent&atilde;o devemos ir al&eacute;m desse esfor&ccedil;o. Embora a concentra&ccedil;&atilde;o e a for&ccedil;a da mente ocupem o seu lugar, a pr&aacute;tica vai muito al&eacute;m disso na contempla&ccedil;&atilde;o. Contempla&ccedil;&atilde;o significa &quot;ser uno com&quot;, estar completamente aberto. Nisso reside a grande diferen&ccedil;a entre praticar com um <i>koan <\/i>e praticar com um mantra. Para praticar com um <i>koan, <\/i>deve-se manter a mente aberta. Os mestres Zen chamavam isso de <i>sensa&ccedil;&atilde;o de d&uacute;vida. <\/i>O mantra, por&eacute;m, tem o efeito de fechar a mente, de fornecer-lhe um foco permanente. A sensa&ccedil;&atilde;o de d&uacute;vida, tamb&eacute;m chamada sensa&ccedil;&atilde;o de anseio ou sensa&ccedil;&atilde;o de desejo, permite que a mente fique cada vez mais excitada sem apoiar-se em nada, at&eacute; o ponto em que a pura consci&ecirc;ncia sem conte&uacute;do, reflex&atilde;o ou desejo pode dar um salto &agrave; frente numa explos&atilde;o de luz, numa explos&atilde;o de puro ser. A reviravolta deve ser s&uacute;bita; &eacute; como se a pessoa desse um pulo de alguma coisa para nada, ou melhor, de alguma coisa para tudo.<\/p>\n<\/div>\n<p><\/font><\/p>\n<hr \/>\n<div STYLE=\"text-align:right\"><a HREF=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Albert Low, extra\u00eddo do livro &#8220;A Pr\u00e1tica do Zen e o Conhecimento de si mesmo&#8220; Conhece-te a Ti Mesmo! 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