{"id":662,"date":"2013-05-22T09:34:59","date_gmt":"2013-05-22T11:34:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=662"},"modified":"2018-02-09T22:14:11","modified_gmt":"2018-02-10T00:14:11","slug":"rompendo-a-rede-de-nascimento-e-morte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/rompendo-a-rede-de-nascimento-e-morte\/","title":{"rendered":"Rompendo a rede de nascimento e morte"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=1414\" rel=\"attachment wp-att-1414\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/roda-da-vida.jpg\" alt=\"\" width=\"366\" height=\"137\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1414\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/roda-da-vida.jpg 366w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/roda-da-vida-300x112.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 366px) 100vw, 366px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>A mente cria a forma da realidade<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea se lembra de nossa conversa a respeito dos conceitos de espa\u00e7o e tempo no Avatamsaka Sutra e na teoria da relatividade?  T\u00e3o logo abandonamos os conceitos de espa\u00e7o absoluto e tempo absoluto, muitos conceitos correlatos, que durante muito tempo formaram nossos padr\u00f5es de pensamentos, come\u00e7am a desmoronar. Os te\u00f3ricos do bootstrap reconhecem que todas as part\u00edculas at\u00f4micas, como os el\u00e9trons, n\u00e3o podem existir independentemente umas das outras. Existem efetivamente \u201cinterliga\u00e7\u00f5es\u201d entre as part\u00edculas, e essas \u201cpart\u00edculas\u201d s\u00e3o por sua vez interliga\u00e7\u00f5es\u201d entre outras part\u00edculas. Nenhuma part\u00edcula possui natureza independente. Essa no\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito pr\u00f3xima da id\u00e9ia de interdepend\u00eancia, inter-exist\u00eancia e interpenetra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA teoria da relatividade exerceu forte influ\u00eancia em nossa interpreta\u00e7\u00e3o das part\u00edculas nucleares. Na relatividade, a massa e a energia s\u00e3o a mesma coisa, do mesmo modo como descobrimos que a chuva pode ser ao mesmo tempo sujeito e verbo de uma frase.  Quando sabemos que a massa \u00e9 apenas uma forma de energia, compreendemos que as \u201cinterliga\u00e7\u00f5es\u201d entre as part\u00edculas s\u00e3o realidades din\u00e2micas do espa\u00e7o\/tempo quadridimensional. Para os cientistas de hoje, uma part\u00edcula nuclear, exatamente como \u201cum gr\u00e3o de poeira\u201d ou \u201ca ponta de um fio de cabelo\u201d no Avatamsaka Sutra, combina o espa\u00e7o e o tempo.  Essas part\u00edculas podem ser consideradas um \u201cgr\u00e3o\u201d de tempo, assim como o Avatamsaka Sutra diz que o momento mais curto poss\u00edvel (ksana) cont\u00e9m n\u00e3o apenas o passado, o presente e o futuro, como tamb\u00e9m a mat\u00e9ria e o espa\u00e7o. Uma part\u00edcula n\u00e3o pode mais ser considerada um objeto tridimensional (como uma laje de m\u00e1rmore ou um gr\u00e3o de poeira) situado no espa\u00e7o.  Ela tornou-se mais abstrata para nossa mente. Os el\u00e9trons, por exemplo, podem ser chamados de \u201ccorpos din\u00e2micos quadridimensionais no espa\u00e7o-tempo\u201d ou \u201condas de probabilidade\u201d.  Precisamos ter em mente que palavras como \u201cpart\u00edcula\u201d, \u201ccorpo\u201d e \u201conda\u201d n\u00e3o t\u00eam mais o mesmo significado que na linguagem comum. A f\u00edsica contempor\u00e2nea tem lutado para transcender o mundo dos conceitos e, como resultado, as part\u00edculas s\u00e3o agora encaradas como quantidades matem\u00e1ticas abstratas (do ponto de vista do conhecimento discriminativo ordin\u00e1rio).<br \/>\nAlguns cientistas proclamam que as propriedades das part\u00edculas nucleares nada mais s\u00e3o do que cria\u00e7\u00f5es da mente deles, que na verdade as part\u00edculas n\u00e3o possuem propriedades independentes da mente daqueles que as observam. Isso implica que, no mundo das part\u00edculas, a mente que percebe a realidade de fato a cria.<\/p>\n<p>Observador e participante<\/p>\n<p>Para os f\u00edsicos de hoje, o objeto da mente e a mente em si n\u00e3o podem ser separados.  Os cientistas n\u00e3o podem mais observar nada com total objetividade.  A mente deles n\u00e3o pode ser separada dos objetos.  John Wheeler sugeriu que substituamos o termo \u201cobservador\u201d pelo termo \u201cparticipante\u201d.  Para que haja um \u201cobservador\u201d, \u00e9 preciso que exista uma r\u00edgida fronteira entre sujeito e objeto, mas no caso de um \u201cparticipante\u201d a distin\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto torna-se indist<\/p><\/div>\n<p>inta e at\u00e9 mesmo desaparece, e a experi\u00eancia direta passa a ser poss\u00edvel. Essa no\u00e7\u00e3o de um participante\/observador aproxima-se bastante da pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o. Quando meditamos sobre nosso corpo, de acordo com o Satipatthana Sutta meditamos sobre \u201co corpo dentro do corpo\u201d. Isto significa que n\u00e3o consideramos nosso corpo como um objeto separado, independente da nossa mente que o est\u00e1 observando.  Meditar n\u00e3o \u00e9 medir o objeto da mente ou refletir sobre ele, e sim perceb\u00ea-lo diretamente. Isto se chama \u201cpercep\u00e7\u00e3o sem discrimina\u00e7\u00e3o\u201d (nirvikalpajnana).<br \/>\nO h\u00e1bito de distinguir a mente do seu objeto est\u00e1 t\u00e3o profundamente entranhado em n\u00f3s que somente aos poucos, atrav\u00e9s da medita\u00e7\u00e3o, conseguimos elimin\u00e1-lo.  O Sat\u00edpatthana Sutta apresenta quatro objetos de medita\u00e7\u00e3o: o corpo, os sentimentos, a mente e os objetos da mente.  Esse tipo de medita\u00e7\u00e3o foi praticado pelos disc\u00edpulos do Buda enquanto ele estava vivo. O objetivo dessa classifica\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 nos ajudar a meditar, e n\u00e3o a analisar as coisas. No Sutta, todos os fen\u00f4menos materiais s\u00e3o considerados \u201cobjetos da mente\u201d. \u00c9 claro que podemos observar que o corpo, os sentimentos e at\u00e9 mesmo a mente tamb\u00e9m podem ser classificados como \u201cobjetos da mente\u201d.  O fato de todos os fen\u00f4menos, inclusive os materiais, serem considerados \u201cobjetos da mente\u201d no Sutta demonstra claramente que desde os tempos mais antigos o Budismo se opunha \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre a mente e seus objetos.<\/p>\n<p>As montanhas s\u00e3o novamente montanhas, os rios s\u00e3o novamente rios<\/p>\n<p>Os f\u00edsicos que se dedicam ao estudo da part\u00edcula elementar, quando voltam para casa ap\u00f3s um dia de trabalho no laborat\u00f3rio, frequentemente t\u00eam a sensa\u00e7\u00e3o de que os objetos comuns, como uma cadeira ou uma fruta, perderam a substancialidade que pareciam ter anteriormente. Depois de penetrar no mundo das part\u00edculas elementares, tais cientistas n\u00e3o conseguem encontrar nada essencial no mundo da mat\u00e9ria, exceto sua pr\u00f3pria mente. Alfred Kastler declarou: \u201cA mat\u00e9ria s\u00f3 pode ser apreciada a partir de seus dois aspectos complementares, que s\u00e3o ondas e part\u00edculas.  Os objetos ou coisas que sempre foram considerados componentes da natureza precisam ser repudiados22\u201d. Embora a cadeira ou a laranja possa n\u00e3o ser mais mat\u00e9ria para n\u00f3s, mesmo assim precisamos nos sentar na cadeira e chupar a laranja. Somos constitu\u00eddos da mesma ess\u00eancia delas, mesmo que isto seja apenas uma forma matem\u00e1tica que n\u00f3s mesmos podemos inventar. Os meditadores compreendem que todos os fen\u00f4menos se interpenetram e inter-existem com todos os outros fen\u00f4menos, de modo que na vida do dia-a-dia eles encaram uma cadeira ou uma laranja de uma maneira diferente da maioria das pessoas.  Quando eles olham para as montanhas e os rios, eles percebem que \u201cos rios n\u00e3o s\u00e3o mais rios e as montanhas n\u00e3o s\u00e3o mais montanhas\u201d.  As montanhas \u201centraram\u201d nos rios, e os rios \u201centraram\u201d nas montanhas (interpenetra\u00e7\u00e3o).  N\u00e3o obstante, quando querem nadar, eles t\u00eam de mergulhar no rio, e n\u00e3o subir a montanha.  Quando voltam \u00e0 vida do dia-a-dia, \u201cas montanhas s\u00e3o novamente montanhas, e os rios s\u00e3o novamente rios\u201d.<\/p>\n<p>Nem forma nem vazio<\/p>\n<p>O cientista que compreende a natureza da interdepend\u00eancia entre as part\u00edculas provavelmente ser\u00e1 influenciado pela maneira com a qual percebe a realidade at\u00e9 mesmo na vida cotidiana.  Por causa disso, tamb\u00e9m pode ocorrer algum tipo de transforma\u00e7\u00e3o em sua vida espiritual. Os meditadores que compreendem a interpenetra\u00e7\u00e3o e a interexist\u00eancia das coisas tamb\u00e9m sofrem mudan\u00e7a em si mesmos. Essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 a meta fundamental da medita\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que a \u201cconsci\u00eancia de ser\u201d \u00e9 mantida durante todo o dia e n\u00e3o apenas durante os per\u00edodos de medita\u00e7\u00e3o. O meditador est\u00e1 consciente quando caminha, fica de p\u00e9, se deita e assim por diante. Alguns cientistas tamb\u00e9m fazem isso, refletindo o dia inteiro sobre o tema que est\u00e3o pesquisando, atrav\u00e9s de todo seu ser, mesmo enquanto comem ou tomam banho.<br \/>\nA no\u00e7\u00e3o de inter-origem (paratantra) est\u00e1 muito pr\u00f3xima da realidade vivente. Ela destr\u00f3i os conceitos dualistas de um\/muitos, dentro\/fora, tempo\/espa\u00e7o, mente\/mat\u00e9ria, e assim por diante, que a mente usa para limitar, dividir e moldar a realidade.  A no\u00e7\u00e3o de inter-origem pode ser usada n\u00e3o apenas para destruir o h\u00e1bito de retalhar a realidade, mas tamb\u00e9m para ocasionar uma experi\u00eancia direta da realidade.  Como ferramenta, contudo, ela n\u00e3o deve ser considerada em si mesma uma forma de realidade.<br \/>\nParatantra \u00e9 a natureza da realidade vivente, a aus\u00eancia de um eu essencial [exist\u00eancia inerente]. Assim como o tri\u00e2ngulo s\u00f3 existe porque tr\u00eas linhas se cruzam, tamb\u00e9m n\u00e3o podemos afirmar que qualquer coisa existe em si mesma. Por n\u00e3o possu\u00edrem uma identidade independente, todos os fen\u00f4menos s\u00e3o descritos como vazios (shunya).  Isso n\u00e3o significa que os fen\u00f4menos estejam ausentes, mas apenas que s\u00e3o destitu\u00eddos de um eu essencial, ou de uma identidade permanente independente de outros fen\u00f4menos.  Da mesma maneira, na f\u00edsica do bootstrap, a palavra \u201cpart\u00edculas\u201d n\u00e3o significa pontos tridimensionais que existem independentemente uns dos outros.<br \/>\nA palavra \u201cvazio\u201d nesse caso \u00e9 diferente do termo habitual.  Ela transcende os termos usuais de vazio e forma.  Ser vazio n\u00e3o significa ser n\u00e3o-existente, e sim destitu\u00eddo de uma identidade permanente. Para evitar confus\u00e3o, os estudiosos budistas com freq\u00fc\u00eancia usam a express\u00e3o \u201cverdadeiro vazio\u201d para referir-se a esse tipo de vazio. O mestre zen Hue Sinh, que viveu no s\u00e9c. XI durante a dinastia Ly, declarou que n\u00e3o podemos usar as palavras vazio e forma para descrever objetos; porque a realidade est\u00e1 al\u00e9m desses dois conceitos:<\/p>\n<p>Os dharmas s\u00e3o id\u00eanticos aos n\u00e3o-dharmas,<br \/>\nNem existindo nem n\u00e3o existindo.<br \/>\nAquele que compreende totalmente esta id\u00e9ia<br \/>\nPercebe que todos os seres s\u00e3o Buda.<\/p>\n<p>A flor Udumbara ainda est\u00e1 florescendo<\/p>\n<p>Existe uma pr\u00e1tica denominada \u201cMedita\u00e7\u00e3o sobre o Verdadeiro Vazio\u201d, na qual o meditador abandona sua maneira habitual de pensar sobre o ser e o n\u00e3o-ser, compreendendo que esses conceitos eram formados pela percep\u00e7\u00e3o incorreta das coisas como independentes e permanentes. Quando uma macieira produz flores, n\u00e3o vemos ainda as ma\u00e7\u00e3s, de modo que poder\u00edamos dizer: \u201cExistem flores, mas n\u00e3o existem ma\u00e7\u00e3s nesta \u00e1rvore\u201d. Fazemos essa afirma\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o percebemos a presen\u00e7a latente das ma\u00e7as nas flores.  O tempo aos poucos revelar\u00e1 as ma\u00e7\u00e3s.<br \/>\nQuando contemplamos uma cadeira, vemos a madeira, mas deixamos de observar a \u00e1rvore, a floresta, o carpinteiro, ou nossa pr\u00f3pria mente. Quando meditamos sobre ela, conseguimos ver na cadeira todo o universo em todas as suas rela\u00e7\u00f5es entrela\u00e7adas e interdependentes. A presen\u00e7a da madeira revela a presen\u00e7a da \u00e1rvore. A presen\u00e7a da folha revela a presen\u00e7a do sol.  A presen\u00e7a da flor da ma\u00e7\u00e3 revela a presen\u00e7a da fruta. Os meditadores conseguem enxergar o um nos muitos, e os muitos no um.  Mesmo antes de verem a cadeira, eles s\u00e3o capazes de perceber sua presen\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o da realidade vivente. A cadeira n\u00e3o \u00e9 separada. Ela existe apenas em suas rela\u00e7\u00f5es interdependentes com tudo o mais no universo. Ela existe porque todas as outras coisas existem. Se n\u00e3o existisse, as outras coisas tamb\u00e9m n\u00e3o existiriam.<br \/>\nCada vez que usamos a palavra \u201ccadeira\u201d ou que o conceito \u201ccadeira\u201d se forma em nossa mente, a realidade \u00e9 dividida em dois. Existe a \u201ccadeira\u201d e existe tudo o que \u00e9 \u201cn\u00e3o-cadeira\u201d. Esse tipo de separa\u00e7\u00e3o \u00e9 ao mesmo tempo violenta e absurda.  A espada da conceitua\u00e7\u00e3o funciona dessa maneira porque n\u00e3o compreendemos que a cadeira \u00e9 feita totalmente de elementos n\u00e3o-cadeira.  Uma vez que todos os elementos n\u00e3o-cadeira est\u00e3o presentes na cadeira, como podemos separ\u00e1-los? Um indiv\u00edduo desperto v\u00ea vividamente os elementos n\u00e3o-cadeira ao olhar para a cadeira, e compreende que a cadeira n\u00e3o tem limites, n\u00e3o tem in\u00edcio nem fim.<br \/>\nQuando crian\u00e7a, talvez voc\u00ea tenha brincado com um caleidosc\u00f3pio. quantas imagens maravilhosas s\u00e3o formadas pelos fragmentos de vidro colorido colocados entre duas lentes e tr\u00eas espelhos.  Cada vez que voc\u00ea mexe levemente o dedo, surge uma imagem nova e igualmente bela.  Poder\u00edamos dizer que cada imagem tem um in\u00edcio e um fim, mas sabemos que a verdadeira natureza dela, as lentes e o vidro colorido, n\u00e3o surge nem desaparece com cada nova configura\u00e7\u00e3o.  Esses milhares ou milh\u00f5es de padr\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o sujeitos \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201cin\u00edcio e fim\u201d.  Da mesma maneira, seguimos nossa respira\u00e7\u00e3o e meditamos sobre a natureza sem in\u00edcio e sem fim de n\u00f3s mesmos e do mundo. Ao faz\u00ea-lo, podemos perceber que a libera\u00e7\u00e3o do nascimento e morte j\u00e1 est\u00e1 ao nosso alcance.<br \/>\nNegar a exist\u00eancia de uma cadeira \u00e9 negar a presen\u00e7a de todo o universo. Uma cadeira que existe n\u00e3o pode se tornar n\u00e3o-existente, mesmo que a rachemos em pedacinhos ou a queimemos. Se consegu\u00edssemos destruir uma \u00fanica cadeira, poder\u00edamos destruir todo o universo. O conceito de \u201cin\u00edcio e fim\u201d est\u00e1 estreitamente ligado ao conceito de \u201cexistir e n\u00e3o-existir\u201d. Por exemplo, a partir de que momento no tempo podemos dizer que uma bicicleta espec\u00edfica passou a existir e a partir de que momento ela deixou de existir?  Se dissermos que ela come\u00e7ou a existir no momento em que a \u00faltima pe\u00e7a foi montada, isto significa que n\u00e3o podemos dizer: \u201cEsta bicicleta precisa apenas de uma \u00faltima pe\u00e7a\u201d, no momento anterior? E quando ela est\u00e1 quebrada e n\u00e3o podemos andar nela, por que dizemos que ela \u00e9 \u201cuma bicicleta quebrada\u201d?  Se meditarmos a respeito do momento em que a bicicleta existe e sobre o momento em que ela n\u00e3o existe ma\u00eds, perceberemos que a bicicleta n\u00e3o pode ser colocada nas categorias \u201cexistir e n\u00e3o-existir\u201d ou \u201cin\u00edcio e fim\u201d.<br \/>\nO poeta indiano Rabindranath Tagore existiu ou n\u00e3o antes de nascer? Se voc\u00ea aceitar o princ\u00edpio da \u201cinterpenetra\u00e7\u00e3o\u201d do Avatamsaka Sutra ou o princ\u00edpio da \u201cinterexist\u00eancia\u201d da f\u00edsica bootstrap, voc\u00ea n\u00e3o poder\u00e1 dizer que j\u00e1 houve um tempo em que \u201cTagore n\u00e3o existiu&#8221;, mesmo na \u00e9poca antes do nascimento ou depois da morte dele. Se Tagore n\u00e3o existe, ent\u00e3o todo o universo n\u00e3o pode existir, e nem eu nem voc\u00ea existimos. N\u00e3o \u00e9 por causa do \u201cnascimento\u201d dele que Tagore existe, e tampouco por causa da \u201cmorte\u201d dele que ele n\u00e3o existe.<br \/>\nNum final de tarde eu estava no pico do Abutre no estado indiano de Bihar quando vi um belo p\u00f4r-do-sol e, de repente, percebi que Shakyamuni Buddha ainda estava sentado no local:<\/p>\n<p>O grande mendigo de outrora<br \/>\nainda se encontra no pico do Abutre<br \/>\ncontemplando o belo p\u00f4r-do-sol.<br \/>\nGautama, como \u00e9 estranho!<br \/>\nQuem disse que a flor Udumbara<br \/>\nfloresce apenas a cada 3.000 anos?<br \/>\nO som da mar\u00e9 alta, voc\u00ea n\u00e3o pode<br \/>\ndeixar de escutar se tiver o ouvido atento.<\/p>\n<p>J\u00e1 ouvi muitos amigos se lamentarem por n\u00e3o ter vivido na \u00e9poca de Buda.  Creio que mesmo que eles cruzassem por ele na rua, n\u00e3o o teriam reconhecido.  N\u00e3o apenas Tagore e Shakyamuni Buda, mas sim todos n\u00f3s n\u00e3o temos in\u00edcio nem fim.  Estou aqui porque voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed.  Se um de n\u00f3s n\u00e3o existir, ningu\u00e9m mais pode existir.  A realidade n\u00e3o pode ser limitada por conceitos como existir, n\u00e3o-existir, nascimento e morte.  A express\u00e3o &#8220;verdadeiro vazio&#8221; pode ser usada para descrever a realidade e destruir todas as id\u00e9ias que nos aprisionam e nos dividem, e que criam artificialmente uma realidade.  Sem uma mente livre de id\u00e9ias preconcebidas, n\u00e3o podemos penetrar a realidade.  Os cientistas est\u00e3o come\u00e7ando a perceber que n\u00e3o podem usar a linguagem comum para descrever insights n\u00e3o conceituais.  A linguagem cient\u00edfica est\u00e1 come\u00e7ando a ter a natureza simb\u00f3lica da poesia.  Hoje em dia, palavras como \u201ccharme\u201d e \u201ccor\u201d est\u00e3o sendo usadas para descrever propriedades de part\u00edculas que n\u00e3o possuem uma contraparte conceitual na \u201cmacro-esfera\u201d.  Algum dia a realidade se revelar\u00e1 al\u00e9m de todas as conceitualiza\u00e7\u00f5es e medi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Tathagata n\u00e3o chega nem vai embora<\/p>\n<p>Esta realidade n\u00e3o conceitualiz\u00e1vel, ou verdadeiro vazio, tamb\u00e9m \u00e9 chamada de \u201cassim \u00e9\u201d (bhutatathata). Ela n\u00e3o pode ser concebida ou descrita atrav\u00e9s de palavras, devendo ser diretamente experimentada. Suponha que haja uma tangerina sobre a mesa e algu\u00e9m lhe pergunte: \u201cQual o gosto dessa fruta?\u201d<\/p>\n<p>Em vez de responder, voc\u00ea precisa tirar um gomo da tangerina e oferec\u00ea-lo \u00e0 pessoa que fez \u00e0 pergunta para que ela o prove. Ao fazer isso, voc\u00ea permite que ela penetre a qualidade \u201cassim \u00e9\u201d da tangerina sem nenhuma descri\u00e7\u00e3o verbal ou conceitual.<br \/>\nPara lembrar a seus disc\u00edpulos da natureza incondicionada, sem in\u00edcio e sem fim da realidade, Buda lhes pediu que se dirigissem a ele como o Tathagata.  N\u00e3o se trata de um t\u00edtulo honor\u00edfico. Tathagata significa \u201caquele que vem assim\u201d ou \u201caquele que vai assim\u201d.  Significa que ele surge do assim \u00e9, permanece no assim \u00e9 e, algum dia, voltar\u00e1 ao assim \u00e9. Quem ou o que n\u00e3o surge do assim \u00e9? Voc\u00ea e eu, uma lagarta, um gr\u00e3o de poeira, tudo surge do assim \u00e9, tudo permanece no assim \u00e9, e um dia voltar\u00e1 ao assim \u00e9. Na verdade, as palavras \u201csurge do\u201d, \u201cpermanece no\u201d, e \u201cvoltar\u00e1 ao\u201d n\u00e3o t\u00eam um significado real. Nunca podemos abandonar o assim \u00e9. No Anuradha Sutra, o Buda respondeu a uma pergunta que estava perturbando muitos monges: \u201cO que acontece ao Tathagata depois da morte?  Ele continua a existir?  Ele deixa de existir?  Ele continua ao mesmo tempo a existir e a n\u00e3o existir?  Ele n\u00e3o continua nem deixa de existir?&#8221;<br \/>\nO Buda perguntou a Anuradha: \u201cO que voc\u00ea acha?  O Tathagata pode ser reconhecido atrav\u00e9s da forma?\u201d<br \/>\n\u201cN\u00e3o, mestre\u201d.<br \/>\n\u201cO Tathagata pode ser encontrado fora da forma?\u201d<br \/>\n\u201cN\u00e3o, mestre\u201d.<br \/>\n\u201cO Tathagata pode ser reconhecido por meio do sentimento, da percep\u00e7\u00e3o, das cria\u00e7\u00f5es mentais ou da consci\u00eancia?\u201d<br \/>\n\u201cN\u00e3o, mestre\u201d.<br \/>\n\u201cAnuradha, se voc\u00ea n\u00e3o consegue achar o Tathagata nem mesmo nesta vida, por que voc\u00ea quer resolver o problema de se ele continuar\u00e1 ou deixar\u00e1 de existir, se continuar\u00e1 ao mesmo tempo a existir ou deixar de existir, ou se nem continuar\u00e1 nem deixar\u00e1 de existir depois da morte?\u201d23<\/p>\n<p>Robert Oppenheimer, f\u00edsico conhecido como o pai da primeira bomba at\u00f4mica, teve a oportunidade de ler esta se\u00e7\u00e3o do Anuradha Sutra. Ele a interpretou baseado nas observa\u00e7\u00f5es que fez sobre as part\u00edculas, que n\u00e3o podem ser limitadas por conceitos de espa\u00e7o, tempo, exist\u00eancia ou n\u00e3o-exist\u00eancia.  Ele escreveu:<br \/>\nPara aquelas que parecerem ser as mais simples perguntas, tenderemos a n\u00e3o dar resposta ou dar uma resposta que \u00e0 primeira vista far\u00e1 lembrar mais um estranho catecismo do que declara\u00e7\u00f5es diretas da ci\u00eancia f\u00edsica.  Se perguntarmos, por exemplo, se a posi\u00e7\u00e3o do el\u00e9tron permanece a mesma, precisamos responder \u201cn\u00e3o\u201d; se perguntarmos se a posi\u00e7\u00e3o do el\u00e9tron muda com o tempo, precisamos responder \u201cn\u00e3o\u201d; se perguntarmos se o el\u00e9tron est\u00e1 em repouso, precisamos responder \u201cn\u00e3o\u201d; se perguntarmos se ele est\u00e1 em movimento, precisamos responder \u201cn\u00e3o\u201d.24<br \/>\nComo voc\u00ea pode ver, a linguagem da ci\u00eancia j\u00e1 come\u00e7ou a aproximar-se da linguagem do budismo.  Depois de ler a cita\u00e7\u00e3o acima do Anuradha Sutra, Oppenheimer declarou que at\u00e9 este s\u00e9culo os cientistas ainda n\u00e3o haviam sido capazes de compreender as respostas que Buda dera 2.500 anos antes.<\/p>\n<p>A rede de nascimento e morte pode ser despeda\u00e7ada<\/p>\n<p>Uma outra medita\u00e7\u00e3o pode ser usada em lugar da do verdadeiro vazio.  Ela se chama medita\u00e7\u00e3o sobre a qualidade milagrosa da exist\u00eancia. \u201cExist\u00eancia\u2019 significa estar no presente. \u201cA qualidade milagrosa da exist\u00eancia\u201d significa ter consci\u00eancia de que o universo est\u00e1 contido em cada coisa, e que o universo n\u00e3o poderia existir se n\u00e3o contivesse cada coisa. Essa consci\u00eancia da interliga\u00e7\u00e3o, interpenetra\u00e7\u00e3o e interexist\u00eancia faz com que seja imposs\u00edvel dizermos que algo \u201c\u00e9\u201d ou \u201cn\u00e3o-\u00e9\u201d, de modo que a chamamos de \u201cexist\u00eancia milagrosa\u201d.<br \/>\nEmbora Oppenheimer tenha respondido \t\u201cn\u00e3o\u201d quatro vezes \u00e0s perguntas a respeito da natureza dos el\u00e9trons, ele n\u00e3o quis dizer que os el\u00e9trons n\u00e3o existem.  Embora o Buda tenha dito: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o consegue achar o Tathagata nem mesmo nesta vida\u201d, ele n\u00e3o quis dizer que o Tathagata n\u00e3o existe. O Grande Prajna Paramita Sutra usa a palavra \u201cn\u00e3o-vazio\u201d (asunya) para descrever esse estado. \u201cN\u00e3o vazio\u201d \u00e9 o mesmo que \u201ca qualidade milagrosa da exist\u00eancia\u201d. \u201cVerdadeiro vazio\u201d \u00e9 \u201ca qualidade milagrosa da exist\u00eancia\u201d podem evitar que caiamos na armadilha de estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o entre a exist\u00eancia e a n\u00e3o-exist\u00eancia.<br \/>\nTanto os el\u00e9trons quanto o Tathagata est\u00e3o al\u00e9m dos conceitos de exist\u00eancia e n\u00e3o-exist\u00eancia. A natureza do verdadeiro vazio e da qualidade milagrosa da exist\u00eancia dos el\u00e9trons e do Tathagata nos salvam das armadilhas da exist\u00eancia e da n\u00e3o-exist\u00eancia e nos conduzem diretamente ao mundo da n\u00e3o-conceitua\u00e7\u00e3o.  Como podemos praticar a medita\u00e7\u00e3o sobre a qualidade milagrosa da exist\u00eancia? Qualquer pessoa que compreenda a teoria da relatividade sabe que o espa\u00e7o est\u00e1 intimamente relacionado tanto com o tempo quanto com a mat\u00e9ria. Para essas pessoas, o espa\u00e7o tem um significado mais amplo do que para aquelas que ainda acreditam que o espa\u00e7o existe independentemente do tempo e da mat\u00e9ria. Quando contemplamos uma abelha, talvez queiramos v\u00ea-Ia primeiro atrav\u00e9s dos olhos de um f\u00edsico que compreenda a relatividade, e depois ir inclusive al\u00e9m dessa vis\u00e3o e enxergar nela o verdadeiro vazio e a qualidade milagrosa da exist\u00eancia. Se voc\u00ea tentar fazer isso regularmente, com todo o seu ser, estou certo de que conseguir\u00e1 se libertar do emaranhamento da rede de nascimento e morte. Nos c\u00edrculos zen, o problema do nascimento e morte sempre foi considerado extremamente premente. O mestre zen Hakuin desenhou bem grande o car\u00e1ter que representa a morte e depois acrescentou a seguinte frase, em pinceladas menores: \u201cQuem conseguir enxergar as profundezas desta palavra \u00e9 um verdadeiro her\u00f3i\u201d.25<br \/>\nEu costumava achar que libertar-me do nascimento e da morte era uma meta long\u00ednqua. Quando lecionei em Saigon, na Universidade Budista Van Hanh, contemplei as est\u00e1tuas de Arahats descarnados, e imaginei que devia ser necess\u00e1rio exaurir nossas for\u00e7as dessa maneira para diminuir nossos desejos, at\u00e9 que f\u00f4ssemos tomados pela completa exaust\u00e3o e compreend\u00eassemos essa libera\u00e7\u00e3o. Mais tarde, por\u00e9m, quando praticava em Phuong Boi, no Vietn\u00e3 central, percebi que a liberta\u00e7\u00e3o do nascimento e morte n\u00e3o \u00e9 um projeto abstrato ou de longo prazo. O nascimento e a morte s\u00e3o apenas conceitos. Livrarmo-nos desses conceitos significa livrarmo-nos do nascimento e morte. \u00c9 perfeitamente poss\u00edvel.<br \/>\nMas a liberta\u00e7\u00e3o do nascimento e morte n\u00e3o pode acontecer apenas em fun\u00e7\u00e3o do entendimento intelectual.  Quando percebermos a natureza interdependente de tudo no universo, quando compreendermos o significado do verdadeiro vazio e da qualidade milagrosa da exist\u00eancia, teremos plantado as sementes da liberta\u00e7\u00e3o no campo da nossa consci\u00eancia. Para que essas sementes cres\u00e7am, precisamos praticar a medita\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o, podemos nos tornar suficientemente fortes para abrir caminho atrav\u00e9s do conceito de nascimento e morte, que \u00e9 na verdade apenas um dos in\u00fameros conceitos que criamos.<\/p>\n<p>Um f\u00edsico capaz de perceber a interpenetra\u00e7\u00e3o e a interexist\u00eancia das part\u00edculas elementares sem ultrapassar o pr\u00f3prio intelecto, alcan\u00e7ou do ponto de vista da libera\u00e7\u00e3o budista, apenas uma fachada decorativa. Algu\u00e9m que estude o budismo sem praticar a medita\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m acumulou o conhecimento como mera decora\u00e7\u00e3o. Temos o nosso destino em nossas m\u00e3os.  Temos a capacidade de praticar at\u00e9 que todos os conceitos sobre o nascimento e a morte, sobre a exist\u00eancia e a n\u00e3o-exist\u00eancia, sejam erradicados.<br \/>\nAs imagens que ofereci \u2013 o sol, a laranja, a cadeira, a lagarta, a bicicleta, os el\u00e9trons e assim por diante &#8211; podem ser objetos que nos tragam uma experi\u00eancia direta da realidade. Medite sobre o sol como seu segundo cora\u00e7\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o do seu \u201ceu exterior\u201d.  Medite sobre o sol em cada c\u00e9lula de seu corpo. Medite para ver o sol nas plantas, em cada peda\u00e7o nutritivo dos legumes e verduras que voc\u00ea ingere. Gradualmente, voc\u00ea ver\u00e1 \u201co corpo da realidade suprema\u201d (Dharmakaya) e reconhecer\u00e1 sua \u201cverdadeira natureza\u201d.  Ent\u00e3o o nascimento e a morte n\u00e3o mais poder\u00e3o toc\u00e1-lo, e voc\u00ea ter\u00e1 alcan\u00e7ado o sucesso.  Tu\u00ea Trung, um mestre vietnamita zen do s\u00e9c.  XIV, escreveu:<\/p>\n<p>Nascimento e morte,<br \/>\nVoc\u00eas t\u00eam me esmagado.<br \/>\nAgora voc\u00eas n\u00e3o mais podem me tocar.<\/p>\n<p>Por favor, medite profundamente sobre essas duas frases at\u00e9 conseguir ver Tu\u00ea Trung em cada c\u00e9lula do seu corpo.<\/p>\n<p>Uma folha pode nos conduzir diretamente<br \/>\n\u00c0  realidade n\u00e3o conceitual.<\/p>\n<p>Do livro,  O SOL MEU CORA\u00c7\u00c3O \u2013 Da aten\u00e7\u00e3o \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o intuitiva &#8211;<br \/>\nThich Nhat Hanh<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mente cria a forma da realidade Voc\u00ea se lembra de nossa conversa a respeito dos conceitos de espa\u00e7o e tempo no Avatamsaka Sutra e na teoria da relatividade? T\u00e3o logo abandonamos os conceitos de espa\u00e7o absoluto e tempo absoluto, &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/rompendo-a-rede-de-nascimento-e-morte\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1414,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-662","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meditacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=662"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/662\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1415,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/662\/revisions\/1415"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1414"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}