{"id":6631,"date":"2020-07-02T19:14:30","date_gmt":"2020-07-02T21:14:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=6631"},"modified":"2020-07-02T19:14:30","modified_gmt":"2020-07-02T21:14:30","slug":"gyoji-pratica-incessante","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/gyoji-pratica-incessante\/","title":{"rendered":"Gy\u00f4ji \u2013 Pr\u00e1tica Incessante"},"content":{"rendered":"<p><font FACE=\"Verdana\" SIZE=\"2\"><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:justify\">\n<a NAME=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/dogen.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/dogen.jpg\" alt=\"\" width=\"199\" height=\"253\" class=\"alignleft size-full wp-image-1276\" \/><\/a><br \/>\n<font FACE=\"Verdana\" SIZE=\"2\"> <a NAME=\"inicio\"><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:center\"><font SIZE=\"4\"><b>Gy\u00f4ji &#8211; Pr\u00e1tica Incessante<\/b><\/font><\/div>\n<p><\/a> <\/p>\n<div STYLE=\"text-align:right\"><font SIZE=\"1\"><i><b>de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/eihei-dogen\/\"><font SIZE=\"1\">Eihei Dogen Zenji <\/font><\/a><br \/>Cap\u00edtulo 66 do Sh\u00f4b\u00f4genz\u00f4<br \/>Adaptado da tradu\u00e7\u00e3o do monge Ryokyu Marcos Beltr\u00e3o.<\/b><\/i><\/font><\/div>\n<div STYLE=\"text-align:justify\">\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Por certo que no Grande Caminho dos buddhas e ancestrais existe a pr\u00e1tica suprema e incessante, infindavelmente. N\u00e3o existe separa\u00e7\u00e3o entre o primeiro despertar da mente, a pr\u00e1tica, a compreens\u00e3o e o nirvana; a pr\u00e1tica incessante continuamente se desenrola. Chegarmos a esta pr\u00e1tica n\u00e3o depende de poderosas for\u00e7as individuais, muito menos do esp\u00edrito de terceiros. Isto \u00e9 a pr\u00e1tica incessante. A virtude desta pr\u00e1tica incessante \u00e9 o que nos mant\u00eam, bem como aos demais ao redor de n\u00f3s. Isto preenche o c\u00e9u e a terra e a tudo influencia com sua virtude. Apesar de podermos por enquanto estarmos inconscientes da pr\u00e1tica incessante, mesmo assim \u00e9 desta forma que ela acontece.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 da pr\u00e1tica incessante de todos os buddhas e ancestrais que emerge nossa pr\u00f3pria pr\u00e1tica incessante, e com isto podemos chegar a alcan\u00e7ar o Grande Caminho. Por outro lado \u00e9 de nossa pr\u00f3pria pr\u00e1tica incessante que emerge tamb\u00e9m a pr\u00e1tica incessante de todos os buddhas, e com isto \u00e9 que todos os buddhas alcan\u00e7am o Grande Caminho. De nossa pr\u00f3pria pr\u00e1tica incessante emana uma virtude infind\u00e1vel. Segue-se que todos os buddhas e ancestrais vivem eternamente como buddhas, transcendem Buddha, possuem a mente de Buddha, e chegam com isto a ser o que s\u00e3o: buddhas. Com esta pr\u00e1tica incessante, \u00e9 que o sol, a lua e as estrelas se deslocam pelo firmamento afora, e a grande terra, o espa\u00e7o sideral, o corpo e mente corretos e os quatro elementos e os cinco agregados t\u00eam sua exist\u00eancia e raz\u00e3o de ser. A pr\u00e1tica incessante n\u00e3o pode ser encontrada em lugares que pessoas mundanas exer\u00e7am seus poderes e influ\u00eancia, e contudo todos no mundo a ela regressam. \u00c9 atrav\u00e9s da pr\u00e1tica incessante de todos os buddhas do passado, presente e futuro, que todos os buddhas do passado, presente e futuro emergem. A virtude da pr\u00e1tica incessante n\u00e3o pode ser oculta por nada deste mundo; \u00e9 desta forma que a mente tem seu primeiro despertar e a pr\u00e1tica \u00e9 come\u00e7ada. Esta virtude, contudo, n\u00e3o se revela de pronto, e ainda neste est\u00e1gio n\u00e3o pode ser vista ou compreendida. Apesar de ainda n\u00e3o estar revelada neste ponto, n\u00e3o creiam nem por um momento que seja algo de oculto.<\/p>\n<p>J\u00e1 que a pr\u00e1tica incessante n\u00e3o pode ser delimitada por categorias de oculto ou revelado, manifesto ou n\u00e3o-manifesto, que n\u00e3o procuremos pois em absoluto a causa da pr\u00e1tica incessante: eis que este conhecimento afinal, n\u00e3o \u00e9 nada de especial. Porque a causalidade \u00e9 a pr\u00e1tica incessante; por outro lado estudemos que a pr\u00e1tica incessante n\u00e3o vem a ser a causalidade \u2014 eis o que devemos cuidadosamente examinar e plenamente assimilar. Esta pr\u00e1tica incessante \u00e9 a nossa presente pr\u00e1tica incessante.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica incessante do presente n\u00e3o \u00e9 a pr\u00e1tica incessante do eu mesmo original, n\u00e3o vem nem vai, n\u00e3o existe nem deixa de existir. &#8220;No presente&#8221; n\u00e3o quer dizer existindo anteriormente ao come\u00e7o da pr\u00e1tica incessante. Isto se refere aquele preciso momento no qual come\u00e7a a pr\u00e1tica incessante. Logo esta pr\u00e1tica incessante que dura um dia \u00e9 de onde surgem todos os buddhas. Com esta pr\u00e1tica incessante, todos os buddhas aparecem e suas pr\u00e1ticas incessantes acontecem. Quando desprezamos os buddhas, n\u00e3o mais existe ent\u00e3o a pr\u00e1tica incessante, nem quando os desrespeitamos, nem quando detestamos a pr\u00e1tica incessante, muito menos ent\u00e3o ao n\u00e3o equacionarmos e identificarmos a vida e a morte com o Buddha, tampouco ela existe ao n\u00e3o estudarmos ou praticarmos. Este mundo em que vivemos de &#8220;flores que desabrocham e folhas que caem&#8221; \u00e9 ele mesmo a realiza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica incessante. Polir e depois fazer o espelho em peda\u00e7os n\u00e3o \u00e9 de forma alguma diferente da pr\u00e1tica incessante. Logo, aquele que tenta escapulir da pr\u00e1tica incessante devido ao seu cora\u00e7\u00e3o cheio de mal\u00edcia n\u00e3o o consegue fazer; porque mesmo esta mal\u00edcia n\u00e3o est\u00e1 fora da \u00f3rbita da pr\u00e1tica incessante. Tentar fingir que a pr\u00e1tica incessante n\u00e3o existe \u00e9 como o filho do homem rico que perdeu seu patrim\u00f4nio e que vagou por outros pa\u00edses como um mendigo. Eventualmente ele conseguiu recuperar todo seu patrim\u00f4nio e escapar ao duro karma a que se submetera inconscientemente. N\u00e3o devemos olvidar por um instante que seja da pr\u00e1tica incessante.<\/p>\n<p>Nosso pai compassivo, o grande Mestre, Buddha Shakyamuni, encetou sua pr\u00e1tica e vida de Buddha com a idade de dezenove anos; realizava sua pr\u00e1tica incessante fundo nas montanhas e com a idade de trinta anos ganhou esta pr\u00e1tica incessante e alcan\u00e7ou o Caminho simultaneamente com todas as demais criaturas dos c\u00e9us e da terra. At\u00e9 os oitenta anos, Buddha realizou sua pr\u00e1tica incessante nas montanhas, florestas e monast\u00e9rios e jamais regressou ao pal\u00e1cio de seu pai nem prestou qualquer aten\u00e7\u00e3o aos assuntos de estado do reino no qual seu pai era rei. Usava sempre o mesmo manto remendado de monge e jamais abandonou sua tigela de mendigar a vida toda, tampouco teve outra. Nunca teve sequer uma hora somente para si mesmo, estando sempre junto com as demais criaturas. Nunca deixava de reverenciar aquilo que merecia e era deveras paciente com as cr\u00edticas de pessoas no mundo. Sua vida inteira nada mais era que a pr\u00e1tica incessante. A dignidade do Buddha, com seu manto puro e sua tigela de mendigar, nada mais \u00e9 que a pr\u00e1tica incessante.<\/p>\n<p>Durante toda sua vida, o ancestral Mahakashyapa, o herdeiro do Dharma de Shakyamuni, realizou doze tipos de pr\u00e1tica incessante. Foram elas as seguintes:<\/font><\/p>\n<ol>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Jamais aceitava qualquer convite que lhe fizessem para comer juntos; mendigava sua comida todo dia e jamais em qualquer hip\u00f3tese aceitava dinheiro extra para ter mais que seu quinh\u00e3o.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Sempre morava nas montanhas, jamais em cidades, povoados ou casas particulares.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Nunca buscou ter um manto novo e sequer aceitava de quem lhe quisesse oferecer um de presente.&nbsp;<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Dormia sempre nos campos debaixo de uma \u00e1rvore qualquer.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Comia somente uma vez ao dia.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Jamais se recostava para descansar. Dormia fazendo zazen ou andava para ficar desperto.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Mantinha apenas tr\u00eas mantos. Nunca sentava para o zazen em uma almofada.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Vivia em dep\u00f3sitos de lixo, jamais em qualquer templo, ou junto com as demais criaturas. Fazia zazen defronte dos cemit\u00e9rios.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Vivia para sempre s\u00f3. Jamais queria estar perto de quem quer que fosse ou dormir junto a ningu\u00e9m.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Comia sempre em primeiro lugar frutas e legumes silvestres, e somente depois disto se permitia comer arroz.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Dormia sempre ao relento. Jamais dormiu debaixo de qualquer teto que fosse.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Nunca comeu carne, manteiga de <i>ghee<\/i>, tempero de qualquer esp\u00e9cie ou \u00f3leo.<\/font> <\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Estas foram as doze a\u00e7\u00f5es que este ancestral realizou por sua vida afora. Mesmo depois de ter ganho o Tesouro do Olho do Dharma Verdadeiro , continuou a viver deste modo e disto nunca arredou p\u00e9.<\/p>\n<p>Uma vez Shakyamuni lhe fez a seguinte observa\u00e7\u00e3o: &#8220;Eis que est\u00e1s envelhecendo. Come a comida costumeira dos monges da sangha!&#8221; O vener\u00e1vel Mahakashyapa retrucou, com seu costumeiro destemor: &#8220;Se eu n\u00e3o tivesse me encontrado contigo, o Tathagata deste mundo, teria sido para sempre apenas mais um asceta auto-centrado, gastando inutilmente toda minha vida perambulando por a\u00ed. Felizmente eu me encontrei contigo, o Tathagata e com isto ganhei o Dharma. N\u00e3o estou \u00e0 altura de receber comida comum dos monges.&#8221; Shakyamuni elogiou altamente esta sua resposta e sua determinada resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 que Mahakashyapa insistia em manter tais pr\u00e1ticas de vida dur\u00edssimas, acabou ficando muito magro, esquel\u00e9tico. Com isto os demais monges come\u00e7aram a despreza-lo. Observando isto o Tathagata chamou Mahakashyapa e o fez sentar-se ao seu lado na plataforma de palestras. Saibamos pois que era Mahakashyapa o aut\u00eantico praticante dentro da sangha de Shakyamuni. As palavras nos faltam se tentarmos sequer come\u00e7ar a descrever o que era a pr\u00e1tica incessante de toda sua vida<\/p>\n<p>Durante tr\u00eas longos anos o d\u00e9cimo ancestral Harishiba nem dormiu nem se encostou em lugar nenhum para descansar. Esta fa\u00e7anha ele a realizou com a idade de oitenta anos, e com isto foi designado como herdeiro do Grande Dharma. Como n\u00e3o desperdi\u00e7ava um instante que fosse durante estes tr\u00eas anos, ganhou a mais elevada compreens\u00e3o do Tesouro do Olho do Dharma Verdadeiro. Dizem que Harishiba passou sessenta anos no ventre materno, e que j\u00e1 nasceu de cabelo branco. Fez uma promessa que n\u00e3o se recostaria para repousar, e foi desta forma que ganhou a alcunha de &#8220;praticante que jamais descansa.&#8221; De noite uma luz se irradiava de suas m\u00e3os, possibilitando-lhe estudar os sutras. Era isto uma parte de seus inatos poderes milagrosos. Este &#8220;praticante que nunca descansa&#8221; abandonou sua casa e roupas comuns com a idade de oitenta anos. Um moleque de cidade lhe fez a seguinte observa\u00e7\u00e3o ferina: &#8220;Seu velho idiota. Porque voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o ignorante? Todos os monges fazem zazen e cantam sutras. Voc\u00ea por outro lado, j\u00e1 era, est\u00e1 velho e acabado demais para praticar assim. Acho que a \u00fanica raz\u00e3o que te juntaste a sangha, foi para nela ficar encostado, comendo comida de gra\u00e7a&#8221;. Depois de ouvir esta cr\u00edtica t\u00e3o veemente, Harishiba a aceitou plenamente e se enchendo de coragem tomou a seguinte decis\u00e3o: &#8220;Prometo n\u00e3o mais me recostar at\u00e9 ter chegado a um dom\u00ednio total do Tripitaka, ter cortado e ido al\u00e9m de todo desejo pelos tr\u00eas mundos, ganho os seis poderes espirituais, e alcan\u00e7ado todos os oito tipos de libera\u00e7\u00e3o&#8221;. Depois de assim decidir, durante tr\u00eas anos, de dia e de noite fazia o zazen sentado ou em p\u00e9, estudava os sutras, e treinava incessantemente. Dominou o Tripitaka, cortou e foi al\u00e9m de todo desejo pelos tr\u00eas mundos, alcan\u00e7ou a verdadeira sabedoria, e se tornou respeitado por todos. Foi desta \u00e9poca em diante que ficou sendo conhecido como o &#8220;praticante que nunca descansa&#8221;.&nbsp;<\/p>\n<p>O praticante que nunca descansa estava no ventre materno durante sessenta anos antes do nascimento. Ser\u00e1 que ele j\u00e1 estava praticando dentro do \u00fatero? Muito depois deste nascimento, j\u00e1 com oitenta anos de idade, renunciou ao mundo e come\u00e7ou sua pr\u00e1tica do Caminho. Isto pois aconteceu exatamente cento e quarenta anos depois de ter sido concebido. Isto \u00e9 fora de s\u00e9rie, ningu\u00e9m poderia ser t\u00e3o velho; ele j\u00e1 era um velho dentro do \u00fatero materno e mais velho ainda era ap\u00f3s seu nascimento. \u00c0s cr\u00edticas dos tolos de sua \u00e9poca ele respondia com sua pr\u00e1tica. Dentro do curto prazo de tr\u00eas anos, ele ganhou a pr\u00e1tica incessante do Caminho. Tomemos o m\u00e1ximo cuidado ent\u00e3o: Escrevamos para n\u00e3o nos esquecermos que &#8220;Devemos observar os s\u00e1bios e agir de acordo&#8221;. N\u00e3o devemos perturbar os mais idosos. Este tipo de nascimento \u00e9 deveras dif\u00edcil de se compreender. Ser\u00e1 que foi nascimento mesmo ou n\u00e3o? Ele era um velho ou n\u00e3o era? Existem pontos de vista conflitantes quanto a isto. O mais importante \u00e9 a decis\u00e3o de se praticar o Caminho com todo o esfor\u00e7o. Devemos compreender que o elemento essencial \u00e9 que dentro da pr\u00e1tica podemos ver o que s\u00e3o a vida e a morte, e n\u00e3o que dentro de nossa vida podemos praticar um certo tempo.<\/p>\n<p>As pessoas de hoje em dia cr\u00eaem que ao chegar aos trinta, sessenta, ou oitenta anos de idade devam deixar suas pr\u00e1ticas de lado. Pura bobagem. Contar meses e anos desde que nascemos \u00e9 apenas a tola conven\u00e7\u00e3o de pessoas comuns. Nada tem a ver com o Caminho buddhista. N\u00e3o devemos nos preocupar em sermos mo\u00e7os ou velhos; somente devemos estar anelantes pelo Caminho. Devemos agir como o praticante que nunca descansava. Nossas vidas nada mais s\u00e3o que um punhado de p\u00f3 proveniente de um cemit\u00e9rio; que n\u00e3o lhe cheguemos a dar muito valor, ou que n\u00e3o fiquemos apegados a ela. Se n\u00e3o tivermos esta resolu\u00e7\u00e3o correta, quem se nos apiedar\u00e1? Ao vermos um cad\u00e1ver atirado numa sarjeta, devemos detalhadamente observar seu processo de decomposi\u00e7\u00e3o e com isto chegar a um ponto de vista correto.&nbsp;<\/p>\n<p>O sexto ancestral era somente um lenhador de Shinshu, prov\u00edncia da China. N\u00e3o teve qualquer educa\u00e7\u00e3o formal, e o seu pai faleceu quando era ainda mo\u00e7o, tendo sido criado por sua m\u00e3e. Quando ela ficou idosa, a sustentava vendendo lenha. Um dia ouviu um verso de um Sutra recitado por um monge itinerante, quando ia para o centro da cidade. Com isto resolveu renunciar ao mundo, se despedindo de sua m\u00e3e e come\u00e7ando sua peregrina\u00e7\u00e3o para encontrar o grande Dharma. Ele era uma grande figura, um praticante como \u00e9 dif\u00edcil achar em qualquer \u00e9poca quem se lhe compare. Com toda certeza, foi mais f\u00e1cil para o segundo ancestral cortar fora seu pr\u00f3prio bra\u00e7o, que En&#8217;o deixar sua m\u00e3e desamparada. Romper os la\u00e7os familiares \u00e9 da maior gravidade.<\/p>\n<p>Ele treinava como qualquer leigo na comunidade de Obai; dia e noite durante oito meses pilou o arroz que a comunidade consumia. A transmiss\u00e3o correta de ambos a tigela e o manto ocorreu \u00e0 meia noite. Depois de atingir a compreens\u00e3o do que vem a ser o Dharma, n\u00e3o se separou do pil\u00e3o com o qual ajudava a comunidade e durante mais oito meses continuou a descascar o arroz. Mesmo quando j\u00e1 estava instalado como ancestral, ensinando em templos e em monast\u00e9rios, nunca deixava de lado seu pil\u00e3o de pedra. Vemos que esta \u00e9 de fato uma pr\u00e1tica incessante muito fora do comum.<\/p>\n<p>Baso de Kosei praticou zazen durante mais de vinte anos, tendo depois disto recebido o selo de transmiss\u00e3o de Nangaku. Ele instru\u00eda seus sucessores a jamais em hip\u00f3tese alguma negligenciarem o zazen. Aqueles que seguiram estas instru\u00e7\u00f5es, certamente que herdaram esta tradi\u00e7\u00e3o de Nangaku. Sempre que havia trabalho a ser feito no monast\u00e9rio, era Baso sempre o primeiro a inicia-lo. Mesmo quando estava j\u00e1 velho ele n\u00e3o se permitiria um relaxamento desta regra estrita. O esp\u00edrito de Baso pode ser constatado na escola Rinzai como a conhecemos nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Ungan e Togo estudaram ambos sob a tutela de Yakusan. Fizeram uma promessa solene de n\u00e3o mais se deitar e a mantiveram durante quarenta anos. Eram de uma for\u00e7a de prop\u00f3sito \u00fanica. Ungan transmitiu a Lei ao Grande Mestre Gohen de Tozan. Tozan disse, &#8220;Para cortar paix\u00f5es, tenho praticado zazen durante mais de vinte anos&#8221;. Podemos agora constatar a influ\u00eancia da lei de Ungan por toda parte.<\/p>\n<p>O Grande Mestre Kogaku do Monte Ungo [Dogo] ficou durante certo tempo numa choupana no Monte Sampo. Ele ali recebia sua comida diretamente dos deuses. Certa vez, ao visitar Tozan , foi finalmente capaz de ganhar o Grande Caminho. Ao retornar a sua choupana, os deuses voltaram a lhe trazer comida, mas Ungo n\u00e3o apareceu durante tr\u00eas dias, porque n\u00e3o mais precisava da ajuda dos deuses j\u00e1 que estava presentemente no Grande Caminho do buddhismo. Devemos pesar com todo cuidado tal forte determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Mestre Zen Daichi do Monte Hyakujo, desde os dias em que era assistente de Baso quando entrou no parinirvana, trabalhava todos os dias sem exce\u00e7\u00e3o para sua comunidade. Foi ele quem nos deixou aquele maravilhoso dito, &#8220;Um dia sem trabalho, \u00e9 um dia sem comer.&#8221; Ao pronunciar tal frase, ele era j\u00e1 um homem idoso; trabalhava sempre t\u00e3o duramente quanto qualquer monge jovem. Todos ficavam com pena dele, e se lastimavam, mas ele simplesmente se recusava a parar nem que fosse por um s\u00f3 minuto de trabalhar. Chegavam at\u00e9 a esconder suas ferramentas de trabalho, para que ele descansasse, e neste momento Hyakujo se recusaria comer qualquer coisa, porque sentia que n\u00e3o estava ent\u00e3o participando do trabalho da comunidade. Foi a\u00ed que se originou este dito: &#8220;Um dia sem trabalho, \u00e9 um dia sem comer&#8221;. Diga-se de passagem que na China da dinastia Sung, o estilo de Hyakujo de ensinamento Rinzai, baseado na pr\u00e1tica incessante, \u00e9 popular pelo pa\u00eds afora.<\/p>\n<p>Quando Kyoshin era o respons\u00e1vel por um certo monast\u00e9rio, o deus deste monast\u00e9rio jamais chegou a ver seu rosto, de t\u00e3o intensa que era sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O Mestre Zen Gichu do Monte Sanpei recebeu comida diretamente dos deuses. Contudo, depois de se encontrar com o Mestre Daiten, os deuses n\u00e3o mais podiam ver a Gichu.<\/p>\n<p>O Monge Godaii afirmou o seguinte: &#8220;Todo este tempo eu tenho estado aqui em Isan, durante cerca de vinte anos. Tudo que aqui tenho feito \u00e9 comer e fazer coc\u00f4. Nunca estudei buddhismo aqui; durante todo este tempo tudo o que fiz foi cuidar de um b\u00fafalo.&#8221;<\/p>\n<p>Saibamos que este &#8220;b\u00fafalo&#8221; podem ser traduzidos como seus vinte anos de pr\u00e1tica incessante como domador de rebanhos de b\u00fafalos. Houve certa \u00e9poca em que Godaii praticava na comunidade de Hyakujo. N\u00e3o devemos jamais esquecer o legado destes seus vinte anos de pr\u00e1tica. Talvez que outros tenham praticado em Isan, mas pouqu\u00edssimos podem possuir a pr\u00e1tica incessante de Isan.<\/p>\n<p>O monge Jushin, ou seja, o Grande Mestre Shinsai de Kannon-in em Joshu, come\u00e7ou sua pr\u00e1tica e busca do Caminho j\u00e1 com a avan\u00e7ada idade de sessenta anos. Levando um cantil de \u00e1gua e um cajado, ele peregrinou por toda parte. Tomou ent\u00e3o a seguinte resolu\u00e7\u00e3o: &#8220;Se eu me encontrar com uma crian\u00e7a de sete anos, que tiver mais compreens\u00e3o que eu, lhe indagarei sobre o Caminho; se contudo topar com algu\u00e9m de cem anos de idade que souber menos que eu, neste caso ent\u00e3o lhe ensinarei.&#8221;<\/p>\n<p>Desta forma ele praticou o Caminho sob a tutela de Nansen durante mais de vinte anos. Ao atingir a idade de oitenta anos, se tornou monge de Kannon-in em Joshu, e ali instruiu a homens e a deuses por mais de quarenta anos. Durante todo este tempo, ele jamais mandou cartas aos membros do monast\u00e9rio pedindo doa\u00e7\u00f5es. Seu monast\u00e9rio era diminuto, n\u00e3o tinha sequer sala de entrada. De certa feita um dos apoios da plataforma de medita\u00e7\u00e3o se partiu, e ele a emendou com um peda\u00e7o de ripa. Durante anos ele continuou a usar aquela plataforma. Os encarregados do templo a queriam consertar, mas ele simplesmente recusou. Devemos estudar a maneira e os costumes deste velho Buddha.<\/p>\n<p>Jushin viveu em Joshu quando tinha j\u00e1 mais de oitenta anos de idade. Ele herdou o Dharma de seu Mestre, tendo-o transmitido ent\u00e3o corretamente \u00e0s demais pessoas. Todos concordavam que ele era um velho Buddha. Aqueles que n\u00e3o receberam a transmiss\u00e3o correta do Dharma verdadeiro lhe s\u00e3o muito inferiores. Aqueles que tem menos de oitenta anos s\u00e3o muito mais fortes fisicamente que ele. Contudo s\u00e3o ainda imaturos e de forma alguma podem ser comparados a um tal s\u00e1bio experiente. Que neste caso concentremos nossos esfor\u00e7os na pr\u00e1tica incessante. Durante mais de quarenta anos ele jamais ligou para riquezas mundanas, mesmo quando n\u00e3o tinha nada para comer. Quando nada tinha para comer, colhia nozes, amoras e frutas silvestres, ou ent\u00e3o comeria dia sim, dia n\u00e3o. Assim age um monge aut\u00eantico. Devemos seguir firmes em suas pegadas.<\/p>\n<p>Uma vez ele declarou o seguinte aos monges: &#8220;Se nunca deixardes o monast\u00e9rio por todas suas vidas, e jamais disserdes uma s\u00f3 palavra durante cinco ou dez anos, ningu\u00e9m vos chamar\u00e1 de surdos ou mudos. Que mais poderiam neste caso os buddhas fazerem por v\u00f3s?&#8221; S\u00e3o estas as palavras mais douradas e preciosas oriundas da pr\u00e1tica incessante. Saibamos pois que mesmo que nada falemos durante cinco ou dez anos e que pare\u00e7amos tolos e incapazes, com a pr\u00e1tica cont\u00ednua sem batermos em retirada do monast\u00e9rio ningu\u00e9m ser\u00e1 capaz de nos chamar de surdos e de mudos.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 o Caminho buddhista. Se nunca ouvimos falar do Caminho buddhista, ent\u00e3o estas palavras nada significam: &#8220;n\u00e3o falar n\u00e3o quer dizer que a pessoa seja surdo e mudo&#8221;. A ess\u00eancia contudo da pr\u00e1tica incessante \u00e9 jamais deixar o monast\u00e9rio; jamais deixar o monast\u00e9rio \u00e9 estar liberto de palavras.&nbsp;<\/p>\n<p>Os idiotas deste mundo, e os h\u00e1 tantos, n\u00e3o podem ter a menor id\u00e9ia que seja do que possa significar ser surdo-mudo. Mesmo que os deixemos livremente se expressar, tais pessoas mundanas n\u00e3o conseguem nos mostrar o que \u00e9 ser surdo-mudo.<\/p>\n<p>Que lastim\u00e1vel que ningu\u00e9m nos ensine jamais que deixar de falar n\u00e3o quer dizer que sejamos surdos-mudos. Calmamente devemos levar a cabo nossa pr\u00e1tica incessante sem jamais deixarmos o monast\u00e9rio. N\u00e3o devemos ser soprados daqui para ali, como coisas que s\u00e3o sem peso. Se passarmos cinco ou dez anos dentro do monast\u00e9rio, encontraremos aquele Caminho que est\u00e1 al\u00e9m da voz e da forma. Depois disto poderemos chegar a compreender e utilizar o sentido de tais express\u00f5es. Devemos perceber que a pr\u00e1tica incessante pode estar contida no mais breve dos instantes. N\u00e3o creias jamais que &#8220;n\u00e3o falar seja uma coisa in\u00fatil.&#8221; Quer seja dentro do monast\u00e9rio ou fora dele, num monast\u00e9rio que n\u00e3o deixe pistas, ou no monast\u00e9rio do mundo, devemos apenas praticar desta forma, e mais nenhuma.<\/p>\n<p>O monte Daibai se encontra em Keigenfu. Naquela montanha existe um monast\u00e9rio chamado Goshogi que foi fundado pelo Mestre Zen Hojo. Este Mestre Zen era natural do distrito de Jogo e praticava na comunidade de Baso. De certa feita ele indagou a Baso: &#8220;O que vem a ser Buddha?&#8221; Ao que Baso replicou, &#8220;Isto que voc\u00ea acabou de perguntar, isto \u00e9, nossa mente \u00e9 o Buddha!&#8221; Ao se inteirar de tal, imediatamente Baso chegou \u00e0 compreens\u00e3o. Vivia no pico da montanha de Daibai e jamais falava com ningu\u00e9m. Vivia sozinho numa choupana de palha, comendo pinhas e frutas silvestres, e se vestindo com as folhas de l\u00f3tus tiradas de um pequeno lago existente nas redondezas. Durante mais de trinta anos ele ali praticou o Caminho do zazen, sendo que a \u00fanica indica\u00e7\u00e3o do ano que tinha eram as mudan\u00e7as das esta\u00e7\u00f5es nas montanhas. Haviam certas pessoas que criam ser sua vida de uma mis\u00e9ria mais do que extraordin\u00e1ria. Ao fazer zazen, ele equilibrava uma pilastra de ferro de trinta cent\u00edmetros em sua cabe\u00e7a, e como n\u00e3o a podia deixar cair, isto lhe impedia de cair no sono. Esta pilastra foi preservada at\u00e9 hoje, como uma rel\u00edquia. Foi desta forma que ele praticou incessantemente at\u00e9 morrer. De certa feita um monge da sangha de Enkan [Saian] entrou fundo nas montanhas procurando madeira para confeccionar um cajado; tendo se perdido naquela regi\u00e3o ignota, acidentalmente foi dar onde morava o Mestre.<\/p>\n<p>Ali chegando, lhe perguntou, &#8220;Exatamente h\u00e1 quanto tempo vives aqui neste lugar in\u00f3spito nas montanhas?&#8221; Hojo lhe respondeu: &#8220;O \u00fanico que conhe\u00e7o s\u00e3o as mudan\u00e7as de cores das \u00e1rvores, com as esta\u00e7\u00f5es&#8221;. &#8220;E diga-me, como se faz para sair daqui, e voltar \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o?&#8221; O Mestre lhe respondeu: &#8220;Basta seguir o fluxo do riacho&#8221;. O monge, perdido com este di\u00e1logo incompreens\u00edvel, voltou e contou tudo a Enkan. Enkan comentou, &#8220;Quando vivia em Kosei, conheci uma vez um monge. Nunca mais ouvi falar dele, com certeza \u00e9 esta figura que encontraste fundo nas montanhas!&#8221; Enkan enviou o monge de volta \u00e0 montanha para rogar a Hojo que descesse, mas ele firmemente declinou a proposta. Em resposta, comp\u00f4s o seguinte poema:<\/font><\/p>\n<blockquote>\n<p align=justify><font size=2>Na velha floresta, as \u00e1rvores centen\u00e1rias nunca foram cortadas.<br \/>Tendo me deparado com muitas primaveras, meu cora\u00e7\u00e3o permanece imut\u00e1vel.<br \/>Nem mesmo o lenhador liga para este local esquecido pelo mundo:<br \/>Ent\u00e3o o quereria um carpinteiro com isto?<\/font><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=justify>Tendo enviado esta r\u00e9plica a Enkan, Hojo tratou de entrar num local mais inacess\u00edvel ainda nas montanhas e comp\u00f4s ent\u00e3o um outro poema:<\/p>\n<blockquote>\n<p align=justify><font size=2>Os l\u00f3tus do lago me fornecem tudo que necessito em mat\u00e9ria de roupas,<br \/>Tem pinhas para serem comidas \u00e0 vontade!<br \/>Mesmo assim, pessoas mundanas acabaram descobrindo onde eu vivia.<br \/>Logo, devo me enfronhar em um lugar que seja por completo inacess\u00edvel \u00e0 humanidade.<\/font><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=justify>Numa outra ocasi\u00e3o, Baso enviou um mensageiro at\u00e9 a morada de Hojo, para uma vez mais testar a realiza\u00e7\u00e3o espiritual de Hojo: &#8220;Monge, estudaste com Baso anteriormente. Porque est\u00e1s vivendo isolado do mundo aqui nas montanhas?&#8221; Hojo retrucou: &#8220;Baso me disse de certa feita: \u2018Nossa mente \u00e9 o Buddha\u2019. Foi por isto que me mudei para c\u00e1!&#8221; O monge-mensageiro disse, &#8220;Agora a Lei de Buddha mudou&#8221;. Hojo perguntou: &#8220;Mudou como?&#8221; O monge disse, &#8220;Ultimamente Baso tem dito, &#8216;N\u00e3o mente-N\u00e3o Buddha&#8221;&#8217; .&#8221; Hojo disse, &#8220;Este cr\u00e1pula est\u00e1 tentando me enganar! Mesmo que ele diga, &#8216;N\u00e3o mente-N\u00e3o Buddha&#8217;, eu bem sei que &#8216;nossa mente \u00e9 o Buddha&#8217;.&#8221; O monge teve que se contentar com esta resposta, e a levou de volta a Baso, que comentou &#8220;A ameixeira amadureceu [O nome de monge de Hojo significava ameixeira]!&#8221;.<\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria se tornou bem conhecida por toda parte. Tenryu foi o disc\u00edpulo mais destacado de Hojo, sendo que Gutei foi um outro grande disc\u00edpulo seu. Kyachi, original da Cor\u00e9ia tamb\u00e9m transmitiu o Dharma de Hojo, tornando-se assim o primeiro ancestral da Cor\u00e9ia.<\/p>\n<p>Todos os Mestres e ancestrais da Cor\u00e9ia s\u00e3o descendentes de Kyachi. Antes dele morrer, um tigre e um elefante o serviam em perfeita harmonia. Depois que ele entrou no nirvana, o tigre e o elefante juntaram pedras e lama e ergueram uma stupa para ele. Esta stupa existe ainda no templo de Goshoji. A pr\u00e1tica incessante deste Mestre foi sempre muito comentada em todos os tempos por outros Mestres buddhistas. Aqueles que n\u00e3o conhecem o bastante n\u00e3o v\u00eaem porque elogia-lo. Todo aquele que acha que o Dharma buddhista possa subsistir no mundo de busca de status e lucro \u00e9, para dizer o m\u00ednimo, um idiota de vistas curtas.<\/p>\n<p>O Mestre Zen Hoen do Monte Goso comentou, &#8220;Quando meu Mestre [Hoe] se tornou o diretor do Monte Yogi, este templo se encontrava em um estado muito prec\u00e1rio; a chuva vazava pelo teto e o vento entrava pelos buracos nas paredes. Durante o inverno o monast\u00e9rio quase entrou em colapso; nos quartos dos monges, a neve e o granizo cobriam o ch\u00e3o. Praticamente n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia ali. O cabelo branco dos monges ficava mais branco ainda com a neve; suas sobrancelhas compridas demostravam a dureza de suas vidas. Todos mal podiam sentar em zazen. Um monge pediu ao Mestre que mandasse consertar o monast\u00e9rio, contudo o Mestre Zen Yogi se recusou a faze-lo, dizendo, &#8220;O Buddha nos disse que tudo est\u00e1 num fluxo constante, tudo \u00e9 impermanente. As montanhas que as vemos t\u00e3o orgulhosamente altas, bem como os vales mais profundos est\u00e3o constantemente mudando. Como podemos querer obter coisas adicionais \u00e0quelas que ora temos? Estou satisfeito com o que agora tenho. Todos os Mestres do passado sempre praticaram debaixo das \u00e1rvores e na terra \u00famida de orvalho. Esta \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o excelente do passado e isto \u00e9 a ess\u00eancia do vazio.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00eas est\u00e3o dizendo que renunciaram ao mundo e est\u00e3o ora praticando o Caminho, mas o que mostram com seus comportamentos ainda \u00e9 muito superficial. N\u00e3o temos mais que quarenta ou cinq\u00fcenta anos de pr\u00e1tica; quem teria tempo de ficar levantando pr\u00e9dios espl\u00eandidos?&#8221; Esta foi a resposta do Mestre.<\/p>\n<p>No dia seguinte, subindo ao lugar onde se d\u00e1 palestras, disse o seguinte \u00e0 assembl\u00e9ia reunida de monges, &#8220;Ao me tornar respons\u00e1vel pelo monast\u00e9rio do Monte Yogi, o telhado e as paredes ali estavam em pandarecos; a neve entrava e se acumulava pelo ch\u00e3o. O frio insuport\u00e1vel fazia com que todos ficassem tremendo dentro de casa e procurando se aquecer, tiritando e suspirando. Todos me pediram que fizesse com que o monast\u00e9rio fosse reparado, mas lembrando da tradi\u00e7\u00e3o e severidade daqueles que antes de n\u00f3s praticaram, que viviam por sua vez ao relento, e nem uma casa quebrada como esta chegaram a possuir, eu simplesmente declinei o pedido!&#8221; Apesar disto milhares de monges de todas as partes pediam para serem admitidos em sua comunidade. \u00c9 deveras surpreendente que tantos procurassem desta forma o verdadeiro Caminho. Devemos sempre nos lembrar das palavras deste Mestre.&nbsp;<\/p>\n<p>O Monge Hoen disse de certa feita: &#8220;A pr\u00e1tica n\u00e3o pode ir al\u00e9m da mente; a mente por sua vez n\u00e3o pode ir al\u00e9m da pr\u00e1tica.&#8221; Esta express\u00e3o merece estudo detido. Devemos pensar sobre o seu significado durante o dia e durante a noite. N\u00e3o devemos ser soprados pelo vento daqui para ali. Al\u00e9m disto, aqui no Jap\u00e3o mesmo o pal\u00e1cio do imperador e as resid\u00eancias dos ministros n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o espl\u00eandidos assim, apenas casas de pinho branco. Como ent\u00e3o poderiam aqueles que ao mundo renunciaram e presentemente estudam o Caminho viverem em magn\u00edficas e espl\u00eandidas constru\u00e7\u00f5es? Se os pr\u00e9dios forem ricos e magn\u00edficos, com certeza todos os monges ir\u00e3o se perder com isto, e ser\u00e1 imposs\u00edvel talvez achar um com uma vida pura. Se contudo a constru\u00e7\u00e3o j\u00e1 estiver instalada l\u00e1, \u00e9 poss\u00edvel usa-la, mas n\u00e3o devemos jamais buscar uma nova. Todos os Mestres viviam em choupanas de palha ou constru\u00e7\u00f5es humildes de madeira e n\u00e3o somente isto, tamb\u00e9m amavam tais lugares. Todos aqueles que praticarem em \u00e9pocas posteriores devem pois seguir seus exemplos excelentes e deles n\u00e3o se desviarem.<\/p>\n<p>Os ministros de estado Ko, Gyo e Shun , que viveram na China nada mais eram que leigos, e contudo vivam em choupanas de palha; eles estabeleceram com isto um precedente in\u00e9dito para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Shinshi, que era primeiro Ministro durante a Dinastia Shin, disse: &#8220;Se quiseres ver qual era o tipo de pr\u00e1tica de Gyo e de Shun observem suas resid\u00eancias. O teto do pal\u00e1cio do imperador Ko era feito de sap\u00e9. A casa de Shun tamb\u00e9m tinha um teto de sap\u00e9&#8221;.<\/p>\n<p>Devemos estar conscientes que as casas destes santos tinham telhados de sap\u00e9. Se nos compararmos com Ko, Gyo e Shun, constataremos que hierarquicamente eles se encontram acima de n\u00f3s, muito mais que o c\u00e9u da terra. Os tetos de suas moradas eram feitos de sap\u00e9; se leigos viviam em choupanas de sap\u00e9, como podem monges justificarem viver em pr\u00e9dios espl\u00eandidos? Esta \u00e9 uma id\u00e9ia deveras vergonhosa. Os velhos Mestres viviam debaixo de \u00e1rvores e passavam todos seus tempos nas florestas. Tanto leigos quanto monges adoravam viver em tais lugares. O imperador Ko era disc\u00edpulo de Kosei, Mestre do monte Kodo. Kosei habitava em uma das cavernas desta montanha. Todos os reis e ministros da China Grande Sung praticavam este ensinamento original dos buddhas e ancestrais.<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o, estas pessoas que viviam no mundo de contamina\u00e7\u00e3o eram capazes de viver nobremente, enquanto que monges lhes s\u00e3o inferiores. Monges s\u00e3o at\u00e9 mais mundanos que leigos. Dentre os buddhas e ancestrais muitos deles s\u00e3o venerados pelos Deuses. Depois que eles ganham o Caminho, nem deuses nem dem\u00f4nios se lhes podem comparar. Compreendamos claramente isto. Se deuses e dem\u00f4nios praticarem como os buddhas e ancestrais, ficam perto dos buddhas e ancestrais. Se buddhas e ancestrais se tornarem eles mesmos, transcendem deuses e dem\u00f4nios; existe ent\u00e3o um abismo descomunal entre eles.<\/p>\n<p>Nansen disse, &#8220;Minha pr\u00e1tica era fraca, e deuses bem como dem\u00f4nios notaram isto&#8221;. Se \u00e9s notado pelos deuses e dem\u00f4nios, que n\u00e3o praticam, isto quer dizer que tua pr\u00e1tica \u00e9 d\u00e9bil ainda.&nbsp;<\/p>\n<p>Na comunidade do Mestre Zen Wanchi Shogaku do Monte Tendo, o deus protetor do templo disse, &#8220;Ouvi dizer que vivia nesta montanha um Mestre Zen durante dez anos, mas a maior parte do tempo ele permanecia em seu quarto. Nem cheguei a v\u00ea-lo, nem sequer ouvi dizer como ele era. A\u00ed estava de fato, um homem que praticava o Caminho.&#8221;<\/p>\n<p>No come\u00e7o haviam poucas constru\u00e7\u00f5es no Monte Tendo. Wanshi renovou os templos Tao\u00edstas, as resid\u00eancias das monjas, as salas de confer\u00eancias e os transformou no monast\u00e9rio de Keitokuji. Depois de seu falecimento, Ohakusho, um funcion\u00e1rio p\u00fablico de alto escal\u00e3o, escreveu sua biografia. Algu\u00e9m lhe sugeriu que ali inclu\u00edsse o fato que Wanshi havia renovado os velhos templos Tao\u00edstas, casas de monjas, e salas de confer\u00eancias, criando o Monte Tendo. Ao que Ohakusho replicou, &#8220;Isto n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. Nada tem a ver com o trabalho que ele realizou como monge&#8221;. Todos unanimemente elogiaram a Ohakusho por isto.&nbsp;<\/p>\n<p>Saibamos que coisas como erigir templos e monast\u00e9rios s\u00e3o mundanas e nada tem a ver com a virtude que um monge possa ter. Quando entramos no Caminho buddhista, transcendemos os tr\u00eas mundos, de homens e deuses. Estudemos isto cuidadosamente.&nbsp;<\/p>\n<p>Os m\u00e9ritos das pr\u00e1ticas incessantes dos buddhas e ancestrais possuem em si aquela habilidade que salva homens e deuses; contudo, homens e deuses n\u00e3o est\u00e3o percebendo que podem estar sendo ajudados pela pr\u00e1tica incessante dos buddhas e ancestrais. Quando tivermos esta pr\u00e1tica incessante do Grande Caminho dos buddhas e ancestrais, n\u00e3o devemos ficar discutindo tais coisas como virtude maior ou menor das pessoas, suas faltas de intelig\u00eancia ou n\u00e3o, suas espertezas ou faltas de espertezas. Que sempre fiquemos livres de querer status e riquezas, e n\u00e3o fiquemos apegados a coisas mundanas. N\u00e3o devemos desperdi\u00e7ar o tempo; apenas nos concentrarmos na pr\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos ficar esperando algo como a grande ilumina\u00e7\u00e3o; grande ilumina\u00e7\u00e3o s\u00e3o aquelas a\u00e7\u00f5es que as fazemos diariamente, tais como beber ch\u00e1 ou comer arroz. N\u00e3o devemos ficar esperando nem pela ilumina\u00e7\u00e3o nem pela ilus\u00e3o; esta \u00e9 a coisa mais preciosa e importante. De tudo devemos nos separar \u2014 nossa cidade natal, la\u00e7os da gratid\u00e3o, fama, fortuna, propriedade e fam\u00edlia; devemos abandonar o desejo por estas coisas. Nem devemos querer possui-las nem deixar de possui-las: de ambos devemos estar livres. Pr\u00e1tica incessante quer dizer a nada ficar apegado. Abandonemos pois o desejo por status e riquezas em geral. Devemos nos dedicar a uma s\u00f3 coisa incessantemente e com isto a pr\u00e1tica incessante de nossa vida buddhista ir\u00e1 num crescendo. Assim \u00e9 pela pr\u00e1tica incessante que a pr\u00e1tica incessante aumenta com mais pr\u00e1tica incessante ainda. Devemos venerar e respeitar aquele que possui uma tal pr\u00e1tica incessante em seu corpo e mente.<\/p>\n<p>O Mestre Zen Daizu Kanchu disse, &#8220;Ao inv\u00e9s de explicar um metro, devemos praticar um dec\u00edmetro. Ao inv\u00e9s de explicar um dec\u00edmetro, que pratiquemos um mil\u00edmetro.&#8221; Apesar disto parecer ser uma advert\u00eancia contra aqueles que se esquecem da pr\u00e1tica incessante e n\u00e3o trilham o Caminho buddhista, isto nada diz contra explicar um metro. O que ele quis dizer \u00e9 que praticar um mil\u00edmetro \u00e9 melhor que explicar um metro. Isto se encontra al\u00e9m de medidas. Apesar de certamente existir diferen\u00e7a de tamanho entre um gr\u00e3ozinho de poeira, e a imensa montanha dos Himalayas, cada qual possui seu meio de ser medido. Cada um em si \u00e9 completo. O mesmo ocorre com a pr\u00e1tica incessante. Esta n\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o exclusiva de Kanchu, mas sim uma verdade universalmente v\u00e1lida.&nbsp;<\/p>\n<p>O Grande Mestre Tozan Gohon disse, &#8220;Deves explicar aquilo que n\u00e3o est\u00e1s \u00e0 altura de realizar, e realizar aquilo que n\u00e3o est\u00e1s \u00e0 altura de poder explicar&#8221;. Esta express\u00e3o n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o haja pr\u00e1tica ou explica\u00e7\u00e3o; o momento da explica\u00e7\u00e3o \u00e9 jamais deixar o monast\u00e9rio durante toda sua vida. A pr\u00e1tica \u00e9 enxaguar a cabe\u00e7a e se quedar diante de Seppo. &#8220;Deves explicar aquilo que n\u00e3o est\u00e1s \u00e0 altura de realizar, e realizar aquilo que n\u00e3o est\u00e1s \u00e0 altura de explicar&#8221;. Estudem pois isto cuidadosamente.&nbsp;<\/p>\n<p>E o que se dizer daquele ditado conhecido, que \u00e9 aplicado desde os tempos dos velhos buddhas e ancestrais: &#8220;Se vivermos at\u00e9 a idade de cem anos, mas a compreens\u00e3o de um Buddha n\u00e3o tivermos, seremos ent\u00e3o inferiores \u00e0quele que alcan\u00e7ou a ilumina\u00e7\u00e3o mas viveu um s\u00f3 dia.&#8221;&nbsp;<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o foi afirmado apenas por um ou dois buddhas, mas por todos os buddhas. \u00c9 o esp\u00edrito da verdadeira pr\u00e1tica, da pr\u00e1tica do Buddha. Dentro de cem mil anos de continua\u00e7\u00e3o infind\u00e1vel da vida e morte, um s\u00f3 dia de pr\u00e1tica incessante \u00e9 a coisa mais preciosa, o espelho original. \u00c9 um dia para se rejubilar. \u00c9 o poder mesmo da pr\u00e1tica incessante que se rejubila. Quando este poder da pr\u00e1tica incessante \u00e9 ainda insuficiente, os ossos e medula dos buddhas e ancestrais n\u00e3o s\u00e3o passados e transmitidos, o corpo e mente dos buddhas e ancestrais n\u00e3o podem ser venerados, o rosto original dos buddhas e ancestrais n\u00e3o pode ainda ser vislumbrado. O rosto original, ossos e medula dos buddhas e ancestrais n\u00e3o vem nem v\u00e3o, n\u00e3o parecem vir, nem parecem n\u00e3o vir. Devemos chegar a esta pr\u00e1tica incessante de um s\u00f3 dia.&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, podemos ver como cada dia \u00e9 precioso. Se vivermos em v\u00e3o durante cem anos, acabamos nos aborrecendo com os meses e anos. Isto se trata de um triste desperd\u00edcio do corpo humano com o qual fomos agraciados. Mesmo que vivamos durante cem anos na escravid\u00e3o dos sentidos, isto tudo \u00e9 rapidamente redimido por um s\u00f3 dia gasto na pr\u00e1tica incessante. Uma vida corporal de um s\u00f3 dia de dura\u00e7\u00e3o \u00e9 a possess\u00e3o mais valiosa de todas. Assim sendo, e isto \u00e9 certo, se vivermos um s\u00f3 dia possuindo a fun\u00e7\u00e3o de todos os buddhas, aquele dia ser\u00e1 mais interessante e \u00fatil que se renascemos durante incont\u00e1veis per\u00edodos de tempo.<\/p>\n<p>Por isto, se este problema da vida e da morte n\u00e3o foi ainda decisivamente resolvido n\u00e3o devemos desperdi\u00e7ar um s\u00f3 dia que seja. Um s\u00f3 dia \u00e9 um grande tesouro que deve ser altamente cotado \u2014 um s\u00f3 dia \u00e9 melhor, muit\u00edssimo melhor que ouro ou as j\u00f3ias de um drag\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e1bios do passado avaliavam cada dia como mais precioso que seus pr\u00f3prios corpos e mentes. Devemos meditar sobre isto calmamente. E descobriremos aqui algo de mais precioso que a pedra filosofal, ou quilos de jade sem pre\u00e7o. At\u00e9 mesmo um dia numa vida de cem anos n\u00e3o pode ser recuperado. Que poderemos fazer para tomarmos de volta um s\u00f3 dia que seja? Nunca ningu\u00e9m conseguiu faze-lo. Se n\u00e3o desperdi\u00e7armos tempo tolamente, os dias e os meses se nos enrolar\u00e3o pelo corpo como pele. Santos e s\u00e1bios do passado davam mais valor a cada dia e a cada m\u00eas que suas pr\u00f3prias vistas ou pa\u00edses natais. Se tempo for desperdi\u00e7ado, seremos por fim capturados pela fama e pela fortuna do mundo evanescente. Se contudo conseguirmos evitar isto, viveremos dentro do Caminho. Se tivermos a determina\u00e7\u00e3o correta, n\u00e3o passaremos um s\u00f3 dia que seja inutilmente. Devemos praticar e proclamar o Caminho.&nbsp;<\/p>\n<p>Lembrem-se pois que os buddhas e ancestrais n\u00e3o desperdi\u00e7avam sequer um dia em coisas in\u00fateis. Durante os dias tranq\u00fcilos da primavera, devemos sentar perto da vista gloriosa de uma janela e calmamente refletir sobre tal. Nas noites de outono quando cai a chuva suave, devemos ficar numa choupana simples na floresta e nos concentrarmos na pr\u00e1tica. Damos pela falta de tais tesouros porque n\u00e3o temos pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Como poderia possivelmente a virtude da pr\u00e1tica que se encontra no tempo ser de n\u00f3s roubada? Nem um s\u00f3 dia nosso \u00e9 roubado, mas a virtude de um per\u00edodo muito longo de tempo de n\u00f3s pode ser roubada. Qual a causa deste conflito entre o tempo e n\u00f3s mesmos? Isto se d\u00e1 por causa do ressentimento devido a nossa pr\u00e1tica ser insuficiente. N\u00e3o nos devemos permitir ser condescendentes demais conosco mesmos: isto causa auto-ressentimento. Tamb\u00e9m buddhas e ancestrais possuem liga\u00e7\u00f5es de gratid\u00e3o e amor; contudo, eles os abandonam a todos. Apesar de terem muitos tipos de liga\u00e7\u00f5es como todas as demais pessoas, eles as abandonaram. Mesmo que lamentemos, este tipo de relacionamento que estorva com os outros n\u00e3o deve ser permitida se tornar um obst\u00e1culo. Se n\u00e3o cortarmos os liames da gratid\u00e3o e do amor, estes nos cortar\u00e3o fora. Se sentirmos obst\u00e1culos com a gratid\u00e3o e com o amor devemos alija-los. Tais obst\u00e1culos devem ser superados.<\/p>\n<p>O Mestre Zen Nangaku Ejo, que praticou sob Sokei durante mais de quinze anos, acabou recebendo a transmiss\u00e3o; isto foi como a \u00e1gua vertida de uma tigela para outra. A pr\u00e1tica de nossos predecessores deve ser seguida estritamente por todos n\u00f3s. Naquela pr\u00e1tica de quinze anos Nangaku enfrentou muitas dificuldades, mas ele manteve sua pr\u00e1tica pura.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 como um espelho no qual seus descendentes podem se mirar. N\u00e3o havia carv\u00e3o na lareira, e dormia ele sozinho dentro da sala gelada e vazia. Durante as noites frias n\u00e3o havia sequer uma luzinha de vela, e desta forma ele sentava em zazen pr\u00f3ximo \u00e0 janela enluarada. Apesar de n\u00e3o ter uma compreens\u00e3o intelectual, sua pr\u00e1tica superava todo outro estudo. Esta \u00e9 a verdadeira pr\u00e1tica incessante. Em geral, abandonando o desejo por status e lucro, a pessoa pode ent\u00e3o se concentrar em aumentar diariamente a virtude da pr\u00e1tica incessante. Isto \u00e9 o que n\u00e3o deve ser olvidado jamais. Tentar explicar aquilo que \u00e9 essencial atrav\u00e9s de palavras, \u00e9 deveras dif\u00edcil; esta foi a experi\u00eancia de Nangaku ap\u00f3s oito anos de pr\u00e1tica incessante. Achar uma tal pr\u00e1tica \u00e9 muito raro no passado bem como no presente; todos, s\u00e1bios bem como tolos, devem procurar sempre pela pr\u00e1tica incessante.&nbsp;<\/p>\n<p>Senshu foi imperador durante a dinastia Tang. Era ele o segundo filho do imperador Kenshu. Mesmo quando crian\u00e7a era muito brilhante intelectualmente, e costumava sentar na posi\u00e7\u00e3o de l\u00f3tus completo, em medita\u00e7\u00e3o. Fazia o zazen dentro do pal\u00e1cio o tempo todo.&nbsp;<\/p>\n<p>Bokushu era o irm\u00e3o mais velho de Senshu e numa ocasi\u00e3o quando Bokushu era imperador, Senshu por divers\u00e3o pretendeu ser imperador e cumprimentou os ministros de manh\u00e3, na cerim\u00f4nia matinal. Os ministros ao verem isto, pensaram que ele estava louco e relataram isto a Bokushu. Bokushu, contudo, divertido, elogiou a Senshu dizendo, &#8220;Meu irm\u00e3o \u00e9 a pessoa mais inteligente da fam\u00edlia&#8221;. Nesta \u00e9poca Senshu tinha apenas treze anos de idade.<\/p>\n<p>Em 824 Bokushu faleceu, deixando tr\u00eas filhos, Keishu, Bunshu e Bushu. Keishu sucedeu seu pai, mas morreu tr\u00eas anos depois. Bunshu se seguiu, mas foi deposto ap\u00f3s um ano de governo, coube ent\u00e3o a Bushu, o mais mo\u00e7o dos tr\u00eas, ascender ao trono.&nbsp;<\/p>\n<p>Bushu reinou de 841 a 846, e sempre fez quest\u00e3o de perseguir o buddhismo durante seu reino. Neste tempo, Senshu se encontrava ainda no pa\u00eds. Busho achava que seu tio era louco e um dia decidiu puni-lo por ter uma vez pretendido de brincadeira ser imperador quando o pai de Bushu se encontrava no poder. Ele espancou Senchu, e achou que o tinha morto; levou o corpo ent\u00e3o para o jardim, onde urinou nele.<\/p>\n<p>Mas com isto Senchu reviveu, e deixou sua terra natal, se tornando disc\u00edpulo do Mestre Zen Kyogen Chikan. Raspou sua cabe\u00e7a, e come\u00e7ou sua pr\u00e1tica como novi\u00e7o. Contudo Senchu n\u00e3o tomou os preceitos de monge e apenas mendigava junto com Kyogen.<\/p>\n<p>Chegaram eles ao Monte To e o Mestre Zen Chikan escreveu um breve poema sobre uma cachoeira que despencava de uma montanha:<\/p>\n<blockquote>\n<p align=justify><font size=2>A \u00e1gua cai pelo penhasco da montanha,&nbsp;<br \/>Desgastando as pedras ao seu redor,&nbsp;<br \/>Mas ela n\u00e3o hesita.<br \/>De uma certa dist\u00e2ncia podemos constatar&nbsp;<br \/>Que a queda d\u2019\u00e1gua est\u00e1 localizada muito, muito alta.<\/font><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=justify>Este poema Chikan o mostrou a Senshu para testar sua compreens\u00e3o. Ent\u00e3o, ao l\u00ea-lo, Senshu acrescentou-lhe o seguinte final:&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p align=justify><font size=2>Seremos acaso n\u00f3s que iremos deter este fluxo de \u00e1gua?<br \/>Finalmente tudo isto vai parar no oceano,&nbsp;<br \/>Onde por certo vai virar uma grande onda!<\/font><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=justify>Ao se deparar com estas duas linhas, Chikan viu que ali ante a ele n\u00e3o se encontrava uma pessoa comum qualquer.<\/p>\n<p>Mais tarde, Senshu participou da comunidade do Mestre Nacional, Enkan Saian, onde teve o cargo de <i>Shoki<\/i> [uma posi\u00e7\u00e3o dentro do monast\u00e9rio que equivale aquela de secret\u00e1rio chefe].<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca o Mestre Zen Obaku era o monge chefe sob Enkan, e assim Obaku e Senshu trabalhavam juntos no monast\u00e9rio.<\/p>\n<p>De certa feita, Obaku foi \u00e0 Sala de Cerim\u00f4nias e ali fez suas rever\u00eancias diante de Buddha, ocasi\u00e3o em que Senshu lhe indagou o seguinte:&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;O Dharma buddhista \u00e9 originalmente inating\u00edvel [<i>fukatoku<\/i>], logo ningu\u00e9m deveria procurar nem o Buddha, nem o Dharma, muito menos a sangha. Porque fazes pois tais rever\u00eancias diante da imagem do Buddha?&#8221;<\/p>\n<p>Obaku imediatamente deu uns tabefes na face de Senshu, dizendo o seguinte \u00e0 guisa de explica\u00e7\u00e3o: &#8220;Porque eu n\u00e3o procuro nem o Buddha nem o Dharma e nem a sangha \u00e9 que eu fa\u00e7o minhas rever\u00eancias.&#8221;<\/p>\n<p>Dizendo isto novamente esbofeteou Senshu. Ao que Senshu disse, &#8220;Creio que n\u00e3o deverias ser t\u00e3o rude&#8221;.<\/p>\n<p>Obaku disse: &#8220;Eu n\u00e3o fico apegado aos Tr\u00eas Tesouros, ent\u00e3o porque dizes que eu sou rude ou bondoso?&#8221;<\/p>\n<p>Tendo dito isto, estapeou Senshu uma terceira vez. Desta terceira e \u00faltima vez Senshu atingiu uma compreens\u00e3o, e com isto seus di\u00e1logos terminaram.<\/p>\n<p>Eventualmente Senshu retornou a seu pa\u00eds e sagrou-se imperador ap\u00f3s o falecimento de Bushu. Bushu costumava atacar o ensinamento buddhista, mas Senshu o apoiava e ajudou a divulga-lo. Mesmo quando assumiu o trono continuou praticando zazen e mantendo aquela pr\u00e1tica pura que havia iniciado no Vale de Rozan.<\/p>\n<p>Mesmo depois do falecimento de Senshu, sua inten\u00e7\u00e3o de manter a pr\u00e1tica incessante se revelou brilhante. Sua resolu\u00e7\u00e3o tinha a for\u00e7a e a transpar\u00eancia do diamante e sem d\u00favida \u00e9 sem paralelos na hist\u00f3ria: realmente se tratava da pr\u00e1tica incessante.<\/p>\n<p>Ao monge Seppo Gison foi conferido o t\u00edtulo de Grande Mestre Shingaku pelo imperador. Depois de ter obtido a mente que busca o Caminho, ele praticou e morou em v\u00e1rios monast\u00e9rios, sempre como Tenzo [cozinheiro] destes lugares. Sempre brandindo sua concha de cozinheiro, cuidava da sa\u00fade dos monges praticantes. Apesar de seu cargo ser muito de muita responsabilidade, nunca deixou sequer por um dia de praticar zazen dia e noite sem parar. E isto manteve at\u00e9 que abriu seu pr\u00f3prio lugar de pr\u00e1tica no Monte Seppo. Sua vida e sua morte foram em zazen.<\/p>\n<p>Enquanto era um monge que peregrinava em busca da verdade, ele visitou Tozan Ryokai nove vezes e Tosu Gisei tr\u00eas vezes. De fato, podemos constatar que ele era um rar\u00edssimo buscador da verdade. Ao querer demonstrar o que vem a ser uma pr\u00e1tica estrita e incessante, muitos Mestres citam este elevado treinamento de Seppo. Quando encetou sua pr\u00e1tica, era Seppo parecido com os demais, mas sua for\u00e7a de vontade aliada a sabedoria aguda e ind\u00f4mita, somaram-se a sua pr\u00e1tica incessante, e com isto ele pode sobrepujar todos os demais.<\/p>\n<p>Quem praticava naquele tempo, era encorajado a emular a pr\u00e1tica de Seppo: se observarmos e recordarmos o estudo de Seppo em lugares m\u00faltiplos, e seu esfor\u00e7o e coragem \u00edmpares, constataremos que sua pr\u00e1tica aut\u00eantica, pura como a neve, veio por certo de vidas passadas.<\/p>\n<p>Ao praticar com Mestres que possuem o selo da ilumina\u00e7\u00e3o, praticantes tem muitas perguntas leg\u00edtimas, mas o dif\u00edcil \u00e9 dar muitas leg\u00edtimas respostas. Aquele praticante que busca a verdade orientado por um Mestre Zen, deve praticar dia e noite. Se o Mestre explica a verdade, mas os praticantes n\u00e3o captam o significado, um abismo profundo pode se abrir entre eles, e neste caso deve o Mestre deter seu ensinamento.<\/p>\n<p>Se existirem entre os praticantes muitos que sejam veteranos e crerem com isto que t\u00eam uma virtude incomensur\u00e1vel, agindo levianamente e chegando at\u00e9 a parar de praticar, seus comportamentos desencorajar\u00e3o novos praticantes de chegarem para a pr\u00e1tica. Dentre os praticantes, alguns haver\u00e3o que profundamente realizar\u00e3o aquilo que o Mestre exp\u00f4s, e ganhar\u00e3o o Caminho buddhista, enquanto que outros n\u00e3o o far\u00e3o.<\/p>\n<p>O tempo voa mais r\u00e1pido que uma flecha, e nossos corpos v\u00e3o embora mais r\u00e1pido que uma gota de orvalho. Que lament\u00e1vel que mesmo quando exista um Mestre Zen, alguns n\u00e3o ser\u00e3o capazes de se dedicar \u00e0 pr\u00e1tica. \u00c0s vezes tamb\u00e9m um praticante pode querer ganhar a verdade mas n\u00e3o ser capaz de se encontrar com um verdadeiro Mestre. \u00c9 fato que tais tristes situa\u00e7\u00f5es existem. Eu as vi com meus pr\u00f3prios olhos.&nbsp;<\/p>\n<p>Geralmente um grande Mestre possuir\u00e1 a habilidade de observar e conhecer bem seus praticantes, mas j\u00e1 aconteceu que alguns destes praticantes s\u00e9rios tiveram dificuldades de se encontrarem com tais grandes Mestres. H\u00e1 muito tempo atr\u00e1s, Seppo visitou Tozan nove vezes e visitou Tosu tr\u00eas vezes. Vemos atrav\u00e9s desta ilustra\u00e7\u00e3o como \u00e9 dif\u00edcil de se encontrar com o Mestre correto. Que estejamos profundamente agradecidos pela oportunidade de estarmos serenos na pr\u00e1tica incessante do Dharma e nos lamentemos profundamente se tivermos tal oportunidade t\u00e3o rara e n\u00e3o praticarmos.<\/p>\n<hr color=#000000\/>\n<p align=justify><font face=\"tahoma, verdana, arial\">Foi Bodhidharma o primeiro ancestral a ter ido \u00e0 China. Ele o fez sob instru\u00e7\u00f5es diretas de seu Mestre, Prajnatara. Para tal teve que fazer uma viagem de barco que durou tr\u00eas anos. Foi uma viagem muito dif\u00edcil, devido \u00e0s p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de navega\u00e7\u00e3o, tais como o nevoeiro, vento, nevascas e geadas. O vento e o nevoeiro obstru\u00edam a visibilidade. Pessoas comuns, do mundo, t\u00e3o apegadas que est\u00e3o com suas vidinhas, n\u00e3o podem sequer chegar a imaginar a coragem que foi precisa para ir, desta forma, a um pa\u00eds desconhecido, onde nem mesmo a l\u00edngua local ele conhecia.<\/p>\n<p>E tudo isto ele realizou porque tinha aquele grande desejo compassivo de transmitir o Dharma e salvar todos de suas ilus\u00f5es. Isto era parte fundamental de sua pr\u00e1tica incessante, e s\u00f3 foi poss\u00edvel por viver ele constantemente no Caminho de Buddha. Bodhidharma dominava o mundo eterno da transmiss\u00e3o e vivia no mundo inteiro em todas suas variedades, na forma \u00fanica da verdade. Todo mundo em suas variedades quer dizer n\u00f3s mesmos, e n\u00f3s mesmos quer dizer o mundo inteiro em todas suas variedades.<\/p>\n<p>Todo karma que temos no presente est\u00e1 visceralmente ligado ao pal\u00e1cio de Bodhidharma porque sua compreens\u00e3o lhe possibilitava constatar que at\u00e9 mesmo um pal\u00e1cio podia ser visto como um <i>dojo<\/i> [lugar onde se pratica o Caminho]. Assim ele embarcou, sem medo ou d\u00favida, da \u00cdndia para a China, a fim de salvar aqueles que viviam na ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Bodhidharma deixou sua terra natal, ele gastou algum tempo em preparativos. Atravessou os mares do sul numa grande embarca\u00e7\u00e3o e eventualmente chegou ao porto de Koshi, na China. Dentre as pessoas que se encontravam a bordo deviam haver muitos monges, apesar dos historiadores nada terem mencionado a respeito. Ao chegar no dia 21 de setembro de 520 na China, ele ali n\u00e3o conhecia absolutamente vivalma. O Governador Shoku, de Koshu, enviou um mensageiro a bordo para lhes dar as boas vindas. E isto aconteceu no dia primeiro de Novembro. Assim Bodhidharma, o primeiro ancestral na China, se dirigiu a Kinko para uma entrevista pessoal com o imperador Butei de Ryo.&nbsp;<\/p>\n<p>Butei lhe perguntou: &#8220;Desde que me sagrei imperador, erigi muitos templos, mandei copiar sutras, e contribui no sustento de in\u00fameros monges. A ajuda que dei ao buddhismo \u00e9 incalcul\u00e1vel e n\u00e3o posso sequer enumerar tudo aquilo que fiz. Sendo este o caso gostaria agora que me dissesses qual ser\u00e1 mais ou menos meu m\u00e9rito, a julgar por este volume enorme de boas a\u00e7\u00f5es?&#8221;<\/p>\n<p>Bodhidharma disse convictamente: &#8220;Nenhum!&#8221;<\/p>\n<p>O imperador disse: &#8220;Nenhum por qu\u00ea?&#8221;<\/p>\n<p>Bodhidharma replicou: &#8220;O que fizeste tem ligeiro ou, melhor dizendo, nenhum m\u00e9rito. Tudo aquilo que fizestes eventualmente em nada mais resultar\u00e1 sen\u00e3o num mont\u00e3o de ilus\u00e3o e sofrimento, e isto pela raz\u00e3o de tudo ter sido feito para ganhar algo. Isto na verdade est\u00e1 mais ligado ao mundo das sombras que ao mundo das formas. Se creria que poderia haver algum m\u00e9rito, mas o que ocorre de fato, \u00e9 que n\u00e3o existe o mais m\u00ednimo m\u00e9rito que seja.&#8221;<\/p>\n<p>O imperador novamente perguntou:&nbsp;&#8220;Bem, neste caso quais os verdadeiros m\u00e9ritos dos atos bondosos e religiosos, em suma, qual \u00e9 o sentido de se praticar a religi\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>Bodhidharma disse: &#8220;Devemos nos encontrar no seguinte estado: sabedoria sem contamina\u00e7\u00f5es, liberdade total de liames ilus\u00f3rios e do sofrimento, e liberdade absoluta de quaisquer apegos que sejam.&#8221;&nbsp;<\/p>\n<p>O imperador indagou mais uma vez: &#8220;Qual \u00e9 o item crucial a ser compreendido nesta pr\u00e1tica?&#8221;<\/font><\/p>\n<p align=justify>Bodhidharma replicou: &#8220;Um vasto vazio, com nada que se possa chamar de sagrado ou de religioso ali dentro.&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o imperador indagou: &#8220;Quem \u00e9 ent\u00e3o, que se encontra diante de mim?&#8221;<\/p>\n<p align=justify>Bodhidharma disse: &#8220;N\u00e3o sei!&#8221;<\/p>\n<p>O imperador n\u00e3o entendeu esta resposta, e Bodhidharma vendo que suas compreens\u00f5es n\u00e3o se harmonizavam em qualquer ponto e que mais n\u00e3o adiantava conversar, secretamente partiu no dia 19 de Novembro, se dirigindo para o norte, e cruzando o rio Yangtze.<\/p>\n<p>No dia 23 de Novembro, chegou a Lo-yang, onde ficou morando no Templo de Shorinji, no Monte Su. Ali, calmamente fitando a parede, praticava dia e noite o zazen.<\/p>\n<p>O imperador do Norte, Gutei, desconhecia de maneira abismal o verdadeiro valor de Bodhidharma, nem tinha suficiente conhecimento para se sentir envergonhado por n\u00e3o ter a capacidade sequer long\u00ednqua de suspeitar quem era Bodhidharma.<\/p>\n<p>Bodhidharma, que era origin\u00e1rio da \u00cdndia do Sul, era de casta real, sendo o terceiro pr\u00edncipe de Koshi. A China era um pa\u00eds antigo, bem estabelecido e desenvolvido. Por vezes aqueles que prov\u00eam de pa\u00edses menores e mais pobres ficam encabulados e t\u00edmidos diante da estatura de tais grandes pa\u00edses, mas o primeiro ancestral Bodhidharma, n\u00e3o tinha estes sentimentos: ele n\u00e3o discriminava ou abandonava quaisquer pa\u00edses nem povos com os quais se deparasse pela frente.<\/p>\n<p>Por vezes Bodiruchi [um monte do norte da \u00cdndia que chegou na China no ano de 508 e que era um tradutor de escrituras sagradas] e Koto Risshi [um Mestre dos preceitos] atacavam Bodhidharma, que n\u00e3o era de forma nenhuma um erudito comum. Mesmo assim, os chineses criam que ele era simplesmente um professor comum dos sutras e do Abhidharma. Pensando assim eles foram superficiais, e al\u00e9m disto achavam que seu ensinamento era o mesmo que os ensinamentos do Abhidharma. Nisto estavam redondamente enganados.<\/p>\n<p>Bodhidharma, o primeiro ancestral na China, era o vig\u00e9simo oitavo ancestral na linha de Shakyamuni. Tendo deixado sua p\u00e1tria natal foi salvar o povo na China. Quem mais se lhe pode chegar aos p\u00e9s? Se ele n\u00e3o tivesse vindo do oeste [\u00cdndia], como poderiam os povos do leste terem se familiarizado com o Dharma Verdadeiro? Todos estes povos poderiam ter desenvolvido pontos de vista enganosos, distantes da verdadeira compreens\u00e3o e do buddhismo.<\/p>\n<p>Bodhidharma transmitiu o Dharma verdadeiro por todo o lado, e assim hoje o Dharma verdadeiro pode ser encontrada at\u00e9 mesmo em pequenos lugarejos do interior. Hoje em dia at\u00e9 mesmo camponeses, velhos ou mo\u00e7os, podem se inteirar do Dharma verdadeiro. E tudo isto se deve unicamente a pr\u00e1tica incessante de Bodhidharma e porque ele tomou esta resolu\u00e7\u00e3o de atravessar o mar da \u00cdndia para a China.<\/p>\n<p>A \u00cdndia e a China s\u00e3o completamente diferentes em suas tradi\u00e7\u00f5es, maneiras, costumes e morais. Para se tornar um grande Mestre nestas circunst\u00e2ncias adversas, a pessoa necessita de uma alta dose de paci\u00eancia, compaix\u00e3o e santidade. Somente uma tal pessoa pode ent\u00e3o ser um Mestre aut\u00eantico.<\/p>\n<p>Bodhidharma n\u00e3o tinha lugar algum que pudesse chamar de casa, e nem sequer tinha um templo pr\u00f3prio, e tampouco conhecia algu\u00e9m na China. Ele continuou a morar no Templo de Shorinji no Monte Su durante nove anos, e fazendo sempre zazen. Por esta raz\u00e3o ele ganhou a alcunha de &#8220;O Br\u00e2mane que fitava a parede.&#8221;<\/p>\n<p>Todos os historiadores criam piamente que Bodhidharma era da linhagem Shuzen, mas o fato era que nada tinha a ver com isto. O Tesouro do Olho do Dharma Verdadeiro que foi transmitido de Buddha para ancestral, foi passado apenas atrav\u00e9s de ancestrais da estatura de Bodhidharma.<\/p>\n<p>O <i>Rinkan Roku <\/i>[escrito por Eko Kakuhan] diz que Bodhidharma foi a Ryo e em seguida a Gi onde ficou residente no Templo de Shorinji no Monte Su. Ele apenas continuava a fazer zazen, fitando a parede. Este era um tipo diferente de zazen, o zazen da compreens\u00e3o dentro da pr\u00e1tica. A maioria das pessoas n\u00e3o podia compreender porque ele simplesmente se concentrava no zazen, e achavam que seu zazen era apenas uma pequena parte da pr\u00e1tica buddhista. Ent\u00e3o ficavam se indagando porque esta pessoa apenas fazia zazen? Foi assim que alguns historiadores criam que Bodhidharma praticava Shuzen, e por isto achavam que seu Zen era o mesmo que nada, quando na realidade era o Dharma buddhista vivo.&nbsp;<\/p>\n<p>Contudo, aqueles ancestrais que transmitem o Dharma buddhista correto n\u00e3o prestam qualquer aten\u00e7\u00e3o ao que historiadores t\u00eam a dizer. Eles se concentram na medita\u00e7\u00e3o pura, nunca se desviando nem que seja por um minuto do zazen. Isto \u00e9 como o <i>yin<\/i> e o <i>yang<\/i> do I-ching.<\/p>\n<p>Quando o imperador Butei de Ryo viu Bodhidharma pela primeira vez, indagou, curioso: &#8220;Qual \u00e9 o ponto mais importante da compreens\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p align=justify>Bodhidharma disse: &#8220;O vasto vazio, sem nada que seja de sagrado, ou de religioso dentro dele.&#8221;<\/p>\n<p>O imperador perguntou ent\u00e3o:&nbsp;&#8220;Ent\u00e3o quem \u00e9s, que est\u00e1s de p\u00e9 diante de mim?&#8221;<\/p>\n<p>E a r\u00e9plica inigual\u00e1vel de Bodhidharma: &#8220;N\u00e3o tenho a menor id\u00e9ia!&#8221;<\/p>\n<p>Percebendo que n\u00e3o havia interesse em uma compreens\u00e3o m\u00fatua, Bodhidharma ficou imaginando a raz\u00e3o disto ter acontecido. Por causa disto, ele foi embora de Ryo e se dirigindo ao Templo de Shorinji, se concentrou em fitar a parede. Isto contudo n\u00e3o era Shuzen. Consigo ele n\u00e3o havia trazido sequer um Sutra que fosse para a China. Trouxe contudo a transmiss\u00e3o correta do Dharma buddhista, apesar de alguns historiadores tolamente acharem que era ele da linha Shuzen. Quando Bodhidharma se quedava no Monte Su haviam algumas pessoas que n\u00e3o compreendiam a verdade: eram como c\u00e3es que latem sem parar. De fato, quem haveria de compreender Bodhidharma? Quem poderia perceber sua compaix\u00e3o e constatar seu verdadeiro lugar na hierarquia do mundo?<\/p>\n<p>Se chegarmos a possuir uma mente sincera e verdadeira, poderemos ent\u00e3o lembrar da compaix\u00e3o de Bodhidharma e vivermos todas nossas vidas de acordo com <i>on. <\/i>O fato \u00e9 que n\u00e3o se pode sequer comparar a compaix\u00e3o dos ancestrais com aquele tipo de amor que os pais tem para com seus filhos.<\/p>\n<p>Se constatarmos como nosso pa\u00eds \u00e9 miser\u00e1vel e paup\u00e9rrimo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00cdndia e \u00e0 China, chega a ser irritante. Aqui \u00e9 praticamente imposs\u00edvel se ver santos ou s\u00e1bios: absolutamente ningu\u00e9m tem a menor estatura espiritual que seja. O povo por assim dizer, \u00e9 ac\u00e9falo nesta quest\u00e3o sobre algu\u00e9m que o pudesse guiar neste mundo profano, e ningu\u00e9m sabe realmente do que est\u00e1 falando nesta quest\u00e3o espiritual. Nunca houve nenhuma \u00e9poca de apogeu, ou de paz relativa, e o povo desconhece a diferen\u00e7a entre algo de puro e de impuro, e muito menos ainda possui a menor id\u00e9ia do que possa vir a ser grandeza de alma ou de postura de vida.&nbsp;<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto desconhecem o movimento dos cinco planetas e como isto pode afetar e influenciar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o para este quadro de desastre se deve principalmente a falta de compreens\u00e3o do que realmente os sutras dos buddhas e ancestrais querem dizer, e tamb\u00e9m porque nunca houve qualquer Mestre que lhes dissesse o que queriam, de fato, dizer estes sutras mencionados.<\/p>\n<p>Nunca tivemos Mestre algum porque todos se concentravam numa compreens\u00e3o meramente superficial das palavras dos sutras.<\/p>\n<p>Se agora olharmos para tr\u00e1s aos velhos sutras e Escrituras, poderemos sentir verdadeira venera\u00e7\u00e3o pelo ensinamento de nossos antecessores. Se nosso desejo de compreender os velhos ensinamentos for forte, seremos capazes de compreender seus significados al\u00e9m das palavras.<\/p>\n<p>Koso da Dinastia Han e Taiso da Dinastia Gi eram imperadores capazes de esclarecer versos de astrologia e geografia f\u00edsica. Se conseguirmos esclarecer o que v\u00eam a ser os sutras, descobriremos o significado do que um grande homem possa vir a ser. Se as pessoas n\u00e3o tiverem a influ\u00eancia e a experi\u00eancia de um s\u00e1bio imperador, n\u00e3o saber\u00e3o como se comportar diante de um imperador ou de seus pais. Que triste seria para um imperador, seus ministros, pais e filhos se um tal imperador n\u00e3o pudesse ser achado. Mesmo que estiv\u00e9ssemos cobertos de j\u00f3ias preciosas, as gastar\u00edamos frivolamente e o tempo se escoaria, pois n\u00e3o ser\u00edamos capazes de sermos donos de nosso tempo. Quem nascesse em uma tal fam\u00edlia n\u00e3o poderia obter uma posi\u00e7\u00e3o importante na sociedade, e nem mesmo uma que fosse insignificante. Somente quando o pa\u00eds est\u00e1 confuso, as pessoas que nascem em fam\u00edlias humildes e pobres galgam at\u00e9 as posi\u00e7\u00f5es mais elevadas e influentes; quando o pa\u00eds est\u00e1 pacificado e tranq\u00fcilo isto nunca ocorre.<\/p>\n<p>Porque ser\u00e1 que as pessoas hesitam em aprender o ensinamento buddhista correto apesar de virem de uma descend\u00eancia pobre ou de fam\u00edlias miser\u00e1veis? Porque n\u00e3o podem ter uma vis\u00e3o ampla suficientemente para compreender, que n\u00e3o importa de onde tenham vindo ou de que classe social procedam, que podem, mesmo assim, se inteirar de e dominar estes ensinamentos? Se n\u00e3o possu\u00edrem tal ampla vis\u00e3o, como suas vidas ser\u00e3o \u00fateis?<\/p>\n<p>Mesmo que sejamos s\u00e1bios e que tenhamos uma alta posi\u00e7\u00e3o devemos ter uma tal perspectiva suficientemente abrangente para podermos absorver os ensinamentos buddhistas. Isto vale mais ainda para as pessoas pobres. Se formos pobres e renunciarmos a nossa vida pelo Caminho de Buddha, nossa vida ser\u00e1 mais valiosa que uma vida dos deuses, mais exaltada que qualquer rei no mundo e al\u00e9m disto mais valiosa que qualquer Deus nos c\u00e9us e qualquer criatura nos tr\u00eas mundos.<\/p>\n<p>Bodhidharma era o terceiro filho do rei de Koshi que fica localizado no Sul da \u00cdndia. Suas origens de fam\u00edlia remontam at\u00e9 a fam\u00edlia Imperial da \u00cdndia. O Jap\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds no Extremo Leste, longe da \u00cdndia. As pessoas que aqui vivem, sequer sabem de que forma poderiam tratar tais figuras importantes como Bodhidharma. Aqui n\u00e3o existem perfumes excelentes, nem flores maravilhosas, nem um <i>zaniku<\/i> [almofada colorida e decorada] nem pal\u00e1cios maravilhosos. O Jap\u00e3o est\u00e1 na quina do extremo Leste. Como poder\u00edamos saber receber um t\u00e3o grande pr\u00edncipe que veio de um t\u00e3o maravilhoso pa\u00eds? Mesmo que aprend\u00eassemos o comportamento correto, poder\u00edamos, ainda assim, nos confundirmos ao tratar um tal pr\u00edncipe. A forma de se tratar um imperador \u00e9 deveras diferente da forma com que se trata um senhor feudal qualquer. Para cada tipo de pessoa existe um tipo de etiqueta diferente a qual se deve recorrer como polidez, e estas diferen\u00e7as, n\u00f3s aqui no Jap\u00e3o desconhecemos devido a nossa falta de nobreza e pouca virtude o que nos impossibilita de ter quaisquer padr\u00f5es de comportamento requintados. Se n\u00e3o podemos chegar a manter estes padr\u00f5es de comportamento, devemos em primeiro lugar esclarecer esta nossa falta de nobreza e nossa parca virtude.<\/p>\n<p>Bodhidharma, o primeiro ancestral na China era o vig\u00e9simo oitavo ancestral desde o Buddha Shakyamuni. Seu comportamento refinado, que resultou de sua ascend\u00eancia como um nobre pr\u00edncipe, se tornou ainda mais refinado atrav\u00e9s de sua pr\u00e1tica. Um t\u00e3o grande e honrado s\u00e1bio vir at\u00e9 a China sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com sua pr\u00f3pria vida e bem estar \u00e9 realmente inacredit\u00e1vel e \u00fanico, e tudo isto somente por causa deste desejo de transmitir o Dharma e salvar todas as pessoas.<\/p>\n<p>Na China, antes que o primeiro ancestral viesse, n\u00e3o havia ningu\u00e9m que transmitisse o Dharma correto e n\u00e3o havia um ancestral que pudesse demonstrar isto para os demais. Depois do primeiro ancestral, Bodhidharma, ningu\u00e9m mais veio \u00e0 China, a n\u00e3o ser seus pr\u00f3prios disc\u00edpulos. Isto \u00e9 por certo como a flor de udumbara. Uma outra tal flor s\u00f3 poderia vir a desabrochar daqui a mais tr\u00eas mil anos. Mas o fato \u00e9 que nunca mais haver\u00e1 um outro ancestral como o primeiro ancestral que veio da \u00cdndia.<\/p>\n<p>Dentre os que se autodenominavam disc\u00edpulos do primeiro ancestral, haviam alguns eruditos dos sutras e do Abhidharma, que se encontravam no mesmo n\u00edvel de Bodhidharma, mas ainda n\u00e3o haviam dominado o Dharma. Eram como aqueles na Dinastia Sung que tomavam de seixos, crendo ser j\u00f3ias. Isto acontecia devido \u00e0s suas compreens\u00f5es insuficientes e fracasso em ouvir corretamente os ensinamentos.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o tivermos a mente original da compreens\u00e3o, n\u00e3o poderemos sair por a\u00ed afirmando que somos os disc\u00edpulos da linhagem de Bodhidharma. Neste caso estaremos ainda subjugados \u00e0 ilus\u00e3o ligada apenas ao nome e forma das coisas, sem atingirmos a ess\u00eancia. Que lastim\u00e1vel isto de fato n\u00e3o seria!<\/p>\n<p>Depois que Bodhidharma veio \u00e0 China em 530 e transmitiu o Dharma correto, havia a partir de ent\u00e3o um verdadeiro Mestre; por esta raz\u00e3o n\u00e3o mais era necess\u00e1rio ir mais \u00e0 \u00cdndia. Alguns contudo, continuaram a ir \u00e0 \u00cdndia para buscar o Dharma. Porque o fizeram? Foi pura tolice. Sem d\u00favida foram seus maus karmas anteriores que os levaram \u00e0 \u00cdndia, onde meramente ficavam perambulando daqui para ali, caluniando o Dharma, agindo maliciosamente, e aos poucos foram se esquecendo de suas terras natais.&nbsp;<\/p>\n<p>Do que adiantaria a estas pessoas irem \u00e0 \u00cdndia, onde inutilmente ficariam gastando tempo sem qualquer utilidade? Se n\u00e3o compreendermos a raz\u00e3o do primeiro ancestral vir da \u00cdndia para a China, n\u00e3o poderemos jamais esclarecer o significado da transmiss\u00e3o do Dharma de Buddha para o Leste. Estes que assim se foram por certo n\u00e3o compreenderam: ficaram somente passeando pela \u00cdndia tagarelando e espalhando que foram buscar o Dharma buddhista. J\u00e1 que nada possu\u00edam de uma mente que busca o Caminho verdadeira, foram por completo incapazes de se encontrar com um Mestre correto. Meramente se entrevistaram com eruditos e estudantes dos sutras. Porque isto aconteceu assim? Havia j\u00e1 um verdadeiro Mestre na \u00cdndia, mas eles n\u00e3o o podiam achar por falta de uma mente correta que os levassem a um encontro. Nunca mais ouvimos falar de ningu\u00e9m que tendo ido \u00e0 \u00cdndia, l\u00e1 se tivesse encontrado com um verdadeiro Mestre. Houveram tais pessoas? Nada existe que esteja gravado sobre tais acontecimentos.<\/p>\n<p>Depois que Bodhidharma veio <font face=\"tahoma, verdana, arial\">do oeste <\/font>para a China, haviam muitos monges que meramente se concentravam nos sutras e no Abhidharma e n\u00e3o buscavam o Dharma correto. Estes apenas ficavam fitando as letras dos sutras e do Abhidharma, se olvidando por completo de sua ess\u00eancia, ou o que os levou a serem escritos. Isto se devia tanto a seus karmas presentes, quanto a suas sinas predestinadas. Que triste n\u00e3o terem jamais podido ouvir a ess\u00eancia do buddhismo, nem tampouco verem o Dharma correto. Se n\u00e3o pudermos encontrar a transmiss\u00e3o correta do Buddha, usar uma mente buddhista, ou ouvir os ensinamentos dos buddhas, teremos uma vida deveras tristonha e enfadonha. Haviam muitos que se enquadravam dentro deste tipo durante as Dinastias Sui, Tang e Sung.<\/p>\n<p>Aqueles que possuem esta mente de sabedoria original e que por sorte tamb\u00e9m se tornam disc\u00edpulos, acabam por transcender suas acumula\u00e7\u00f5es passadas de karma, por terem chegado a possuir a capacidade correta de compreender os ensinamentos do Buddha.<\/p>\n<p>Tolos foram aqueles que ficaram em seus cantinhos estudando sutras e o Abhidharma, enquanto os que n\u00e3o evitavam ou n\u00e3o tinham receio da pr\u00e1tica severa e dura, respeitando a natureza original de Bodhidharma, nunca hesitavam e nem se poupavam para ganhar a compreens\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>Por nada desta raz\u00e3o dizia o Mestre Zen Kyogen:&nbsp;&#8220;Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a maioria das pessoas acha que os esfor\u00e7os, planos e desafios daqueles que ora praticam o Caminho, s\u00e3o para eles mesmos, mas n\u00e3o percebe que tudo isto nada quer dizer, sendo afinal in\u00fatil, justo como in\u00fatil \u00e9 a poeira de um cemit\u00e9rio. Por favor parem de dizer &#8216;Devemos respeitar estas pessoas por causa de seus cabelos brancos e esfor\u00e7os&#8217; ou &#8216;A\u00ed est\u00e1 uma pessoa que nos trouxe uma mensagem diretamente dos c\u00e9us&#8217;. &#8220;<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o mesma \u00e9 que qualquer tipo de desafio, esfor\u00e7o, ou ambi\u00e7\u00e3o ter\u00e1 mais ou menos o mesmo valor que um punhado de poeira dentro de um cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Se somos somente cidad\u00e3os comuns em um pa\u00eds diminuto, podemos vir a nos deparar com muito sofrimento, ou podemos, por causa do dever, ter que vir a nos matar. Que lament\u00e1vel e triste isto n\u00e3o seria, porque todas estas pessoas tamb\u00e9m teriam capacidade de buscar o Dharma correto. Mesmo que tenhamos que empenhar nossas vidas mil vezes, mesmo assim, dever\u00edamos continuar a procurar o Dharma correto. N\u00e3o devemos ficar preocupados em perder nossas vidas, mas nos concentrar em buscar o Dharma buddhista correto. Ningu\u00e9m precisa se preocupar em como gastar sua vida, ou se a pessoa \u00e9 de muita sabedoria ou muito avoado e distra\u00eddo.<\/p>\n<p>Mesmo que possu\u00edssemos o desejo de viver de acordo com o Dharma correto, isto n\u00e3o nos seria poss\u00edvel, se agora este mesmo Dharma correto n\u00e3o estivesse presente e encarnado em nossa sociedade e em nosso meio. Devemos rezar e esperar que o Dharma correto possa aparecer neste mesmo momento. Se procurarmos o Dharma correto e contudo no processo perdermos nossas vidas, n\u00e3o nos arrependeremos nem um pouco. Devemos ficar envergonhados de n\u00e3o termos uma tal perspectiva. Se gastarmos toda nossa vida agradecendo imensamente aos ancestrais, isto por si s\u00f3, j\u00e1 seria a pr\u00e1tica incessante em nossa vida cotidiana. N\u00e3o devemos apenas considerar nossa pequena vidinha pessoal. N\u00e3o devemos nos apegar aos la\u00e7os da afei\u00e7\u00e3o humana, isto nada mais \u00e9 que mera loucura, nem muito menos devemos nos apegar a no\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia, que s\u00e3o somente como o p\u00f3; lembrem-se que n\u00e3o poderemos para sempre permanecer com aqueles a quem amamos. Mesmo que estivermos a eles apegados, n\u00e3o podem viver para sempre. Todos os buddhas e ancestrais do passado eram s\u00e1bios e abandonaram j\u00f3ias, jade e at\u00e9 mesmo pal\u00e1cios, porque criam que todos estes n\u00e3o mais valor possu\u00edam que excrementos. Todos eles foram capazes de conhecer o que era a verdadeira e sagrada afei\u00e7\u00e3o devido \u00e0 compaix\u00e3o dos buddhas e ancestrais.<\/p>\n<p align=justify>Considere como o buddhismo \u00e9 elevado e perceber\u00e3o todos que la\u00e7os de afei\u00e7\u00e3o mundana a j\u00f3ias e pal\u00e1cios nada s\u00e3o. At\u00e9 mesmo uma pequenina tartaruga ou um pardal podem ter uma mente buddhista correta, como nos foi mostrado por aquele pardal que deu uma fortuna \u00e0quela pessoa que lhe socorreu. Que lastim\u00e1vel que apesar de termos a forma de seres humanos comuns, somos ainda mais est\u00fapidos que o pardal ou a tartaruguinha. E isto se deve ao fato de n\u00e3o termos gratid\u00e3o ou compreens\u00e3o do amor verdadeiro, sagrado.<\/p>\n<p>Nossa presen\u00e7a cont\u00ednua no Buddha e nosso ouvir o Dharma buddhista deveriam ser o resultado de nossa pr\u00e1tica incessante e da compaix\u00e3o dos buddhas e ancestrais. Se os buddhas e ancestrais n\u00e3o tivessem qualquer transmiss\u00e3o de um para o outro, nunca ter\u00edamos visto o Dharma buddhista. Por isto mesmo \u00e9 que dever\u00edamos ser gratos por cada palavra buddhista e cada Dharma. E al\u00e9m disto, dever\u00edamos mais ainda sermos gratos pelo Tesouro do Olho do Dharma Verdadeiro.<\/p>\n<p>Devemos abandonar nossa vida pelos ensinamentos, pois que esta \u00e9 uma excelente a\u00e7\u00e3o que nos conduzir\u00e1 por fim \u00e0 nossa realiza\u00e7\u00e3o. A rever\u00eancia \u00e9 uma coisa intr\u00ednseca a este Caminho; isto chega a constituir parte integrante de nossa vida cotidiana. Se desta forma agirmos, reverentemente, os deuses e guardi\u00f5es dos c\u00e9us nos proteger\u00e3o e nada nos faltar\u00e1.<\/p>\n<p>Na \u00cdndia dizem que alguma pessoas vendiam os cr\u00e2nios daqueles que tinham ouvido os leg\u00edtimos ensinamentos buddhistas, pois criam que tais cr\u00e2nios davam boa sorte. Se n\u00e3o abandonarmos nossa vida e corpo pelo Caminho, n\u00e3o receberemos os m\u00e9ritos e virtudes que adv\u00eam de meramente ficarmos a escutar a Lei. Mas se escutarmos o Dharma com uma mente sem preconceitos e nos esquecermos de nossos corpos e vidas, ent\u00e3o ao ouvirmos desta forma, isto nos ajudar\u00e1 a obter o crescimento no Caminho.<\/p>\n<p>Estes cr\u00e2nios daqueles que estudavam o Caminho buddhista s\u00e3o muito importantes. Se nossos cr\u00e2nios fossem apenas espalhados pelas ruas afora, ou deixados ao l\u00e9u, quem quereria vener\u00e1-los, ou quem quereria compra-los? Ao inv\u00e9s disto, dever\u00edamos lamentar por cada esp\u00edrito inferior que n\u00e3o quis ouvir o ensinamento do Buddha, e que com isto se tornou um dem\u00f4nio ressentido com suas vidas pr\u00e9vias. Se dermos ouvidos ao ensinamento do Buddha, podemos nos tornar um ser celeste, agradecendo e reverenciando \u00e0s nossas encarna\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias. Muito em breve nossos corpos se tornar\u00e3o cinzas e morreremos, entrando no outro mundo. Devemos levar isto em considera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o nos apegarmos demasiado a nossos corpos. Devemos ter esta pr\u00e1tica incessante baseada nos ensinamentos corretos do buddhismo, de outra forma, pessoas do futuro que virem nossas cinzas, nada sentir\u00e3o exceto vergonha e remorso. Neste caso ent\u00e3o, n\u00e3o precisamos temer a pr\u00e1tica, nem mesmo durante os meses frios, e devemos levar adiante incessantemente nossa pr\u00e1tica. O sofrimento com o frio, n\u00e3o ser\u00e1 nunca capaz de quebrar o esp\u00edrito da pessoa, nem causar\u00e1 nenhum tipo de dano \u00e0 pr\u00e1tica. Exatamente o mesmo vale para o calor. Tampouco o calor quebrar\u00e1 a pessoa ou o caminho da pr\u00e1tica, contudo o fato \u00e9 que n\u00e3o praticar acabar\u00e1 quebrando a pessoa e o Caminho.<\/p>\n<p>Ingerir comidas puras como trigo ou frutas silvestres \u00e9 uma coisa positiva, ent\u00e3o n\u00e3o devemos ficar imitando animais tais como dem\u00f4nios famintos que vivem de sugar sangue e leite das pessoas. Um s\u00f3 dia baseado na pr\u00e1tica incessante \u00e9 id\u00eantico a um dia de Buddha.<\/p>\n<p>Taiso Eka, o segundo ancestral na China, tinha o t\u00edtulo de Grande Mestre Shoshu Fukaku. Era respeitado e venerado at\u00e9 pelos deuses. Monges e leigos o respeitavam como sendo de alta virtude e desligado e desapegado de coisas mundanas. Antes de ter sido ordenado, morava num lugar em Isui e Raksui, onde se concentrava em ler muitos tipos de livros. Rarissimamente sa\u00eda para ver pessoas, e todas as pessoas, de suas partes, raramente viam uma figura como aquela. Tinha um grande e refinado conhecimento do buddhismo e era muito virtuoso.<\/p>\n<p>Um dia, um ser celeste lhe apareceu na frente e disse: &#8220;Se desejas ter qualquer resultado de tanto estudo, porque ficar vegetando aqui? O Grande Caminho n\u00e3o est\u00e1 muito longe daqui. Deves ir para o Sul.&#8221;<\/p>\n<p>No dia seguinte a este sonho, teve uma dor de cabe\u00e7a muito forte, como se algo estivesse tentando perfurar sua cabe\u00e7a. Seu Mestre, Kozan Hojo, procurava aplicar-lhe rem\u00e9dios, e neste momento preciso, uma voz proveniente dos c\u00e9us foi ouvida, que dizia o seguinte:&nbsp;&#8220;Esta n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a comum. Isto \u00e9 como um drag\u00e3o trocando de ossos.&#8221;<\/p>\n<p>Ao comentar com seu Mestre sobre esta voz que tinha acabado de ouvir, este \u00faltimo percebeu que seu cr\u00e2nio parecia ter se transformado em cinco montanhas e lhe confidenciou o seguinte: &#8220;Isto \u00e9 um sinal que boa sorte est\u00e1 a caminho. Esta voz estava lhe dizendo que deves te dirigir para o Sul; talvez o grande Mestre Bodhidharma, que reside Shorinji, seja teu Mestre.&#8221;<\/p>\n<p>Depois de ouvir o que seu Mestre estava tentando lhe explicar, Eka dirigiu-se ao Templo de Shorinji. O ser celeste lhe havia dito que tinha ouvido a voz por causa de sua pr\u00e1tica incessante.<\/p>\n<p>Estava muito frio na noite de 9 de dezembro, t\u00e3o frio que os n\u00f3s dos bambus rachavam e a pessoa mal podia suportar a noite de inverno t\u00e3o fundo nas montanhas, de tanto que nevava naquela noite. Apesar de rec\u00e9m ter tombado uma enorme nevasca, que por completo havia coberto a terra e as montanhas, o segundo ancestral continuou a forjar seu caminho. Foi muito dif\u00edcil, mas finalmente chegou ao lugar onde se quedava Bodhidharma, mas n\u00e3o somente n\u00e3o foi convidado a entrar, como tamb\u00e9m Bodhidharma n\u00e3o lhe prestou a menor aten\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>Eka ficou na neve, sem dormir, descansar ou sentar at\u00e9 de madrugada. Nevou a noite toda; para ele n\u00e3o havia descanso poss\u00edvel e a neve acabou atingindo at\u00e9 sua cintura. Suas l\u00e1grimas continuavam a escorrer rosto abaixo e antes de cair no ch\u00e3o j\u00e1 congelavam. Vendo suas roupas, percebeu que estava na verdade revestido de gelo. Constatando isto, com l\u00e1grimas escorrendo pela face, achou for\u00e7as para suportar tudo nos seguintes pensamentos: &#8220;Nos tempos de outrora, haviam muitos exemplos de pessoas que buscavam o Caminho. Alguns cavavam a medula de seus ossos, outros rasgavam suas carnes e davam seus sangues para aqueles que passavam fome, alguns estendiam seus cabelos na lama para que o Buddha n\u00e3o sujasse seus p\u00e9s ao passar por ali, e outros doavam seus corpos para os tigres no vale para mitigar-lhes a fome. Assim eram as pessoas de antigamente. Porque raz\u00e3o n\u00e3o poderia eu aguentar esta noite fria?&#8221;<\/p>\n<p>Em tais pensamentos encontrou consolo. Os praticantes do Caminho n\u00e3o devem esquecer sequer por um s\u00f3 minuto, estes pensamentos do segundo ancestral. Se pela dura\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 minuto que seja, os esquecermos, iremos fatalmente ter um colapso.<\/p>\n<p>O segundo ancestral tentava fortalecer sua mente se lembrando de tais exemplos na hist\u00f3ria, n\u00e3o ligando para o frio e a situa\u00e7\u00e3o ao redor de si. Creio que podemos chegar \u00e0s raias da loucura, se tentarmos sequer imaginar o que seja ficar na neve, numa noite t\u00e3o fria, at\u00e9 que o dia raiasse. \u00c9 deveras assustador, \u00e9 terrificante, apavorante. Contudo, justo antes que a alvorada chegasse, o primeiro ancestral se dirigiu a Eka e lhe indagou: &#8220;Tu, que est\u00e1s a\u00ed em p\u00e9 na neve, o que queres?&#8221;<\/p>\n<p>Eka, balbuciando as palavras em meio \u00e0s suas l\u00e1grimas de gratid\u00e3o, que continuamente flu\u00edam por seu rosto, disse: &#8220;\u00d3 Mestre, por favor tenhas compaix\u00e3o e me permita descerrar os port\u00f5es do buddhismo, pois desejo partilhar a verdade com todas as criaturas.&#8221;<\/p>\n<p>O primeiro ancestral comentou: &#8220;O Caminho de todos os buddhas e ancestrais est\u00e1 baseado principalmente na paci\u00eancia. O que existe de mais dif\u00edcil \u00e9 a pr\u00e1tica incessante. Se algu\u00e9m possui apenas uma pequena e insignificante virtude e sabedoria e fica, ainda assim, tentando buscar o verdadeiro ensinamento, chegar\u00e1 apenas a experimentar o sofrimento por suas dores e o resultado final ser\u00e1 nulo, por completo in\u00fatil.&nbsp;<\/p>\n<p>Ouvindo isto o segundo ancestral, que nada mais podia deter, encheu-se de determina\u00e7\u00e3o e tomando de uma faca afiada, enquanto a luz rebrilhava na l\u00e2mina, de um s\u00f3 golpe decepou seu bra\u00e7o esquerdo. O primeiro ancestral ficou ent\u00e3o convencido que Eka era aquele ve\u00edculo capaz de transmitir a Lei a outros e disse: &#8220;Quando todos os buddhas e ancestrais come\u00e7aram a procurar o Caminho abandonaram suas pr\u00f3prias formas em favor da verdade. Cortaste fora teu pr\u00f3prio bra\u00e7o diante de mim. Isto quer dizer que procuras o Dharma Verdadeiro.&#8221;<\/p>\n<p>O segundo ancestral praticou com o primeiro ancestral durante oito longos anos. Durante este per\u00edodo, experimentou v\u00e1rios tipos de sofrimento e finalmente aprendeu o significado da dilig\u00eancia, indispens\u00e1vel para se atingir a meta a qual a pessoa se prop\u00f5e. Assim foi que finalmente compreendeu onde se origina nossa mente, se tornando desta forma um grande l\u00edder religioso. Uma tal dilig\u00eancia nunca tinha sido vista em qualquer lugar do mundo, desde aquela hist\u00f3ria de Mahakashyapa, ao qual foi transmitido o Dharma de Shakyamuni atrav\u00e9s de um sorriso.&nbsp;<\/p>\n<p>Foi assim que o segundo ancestral recebeu a medula de Bodhidharma. Calmamente devemos refletir que mesmo que Bodhidharma tivesse vindo da \u00cdndia mil vezes, o Dharma buddhista n\u00e3o teria sido transmitido at\u00e9 o dia presente, se o segundo ancestral n\u00e3o tivesse recebido a pr\u00e1tica incessante de Bodhidharma. Se encontrarmos o Dharma correto, n\u00e3o podemos sen\u00e3o ficarmos agradecidos de todo cora\u00e7\u00e3o pela compaix\u00e3o do segundo ancestral. De nenhuma outra forma podemos expressar nossa gratid\u00e3o por este feito, pois que corpo e vida em si mesmos n\u00e3o bastam para expressar tal. Possuir um castelo na prov\u00edncia n\u00e3o basta, porque eis que o castelo pode ser conquistado ou herdado por uma outra gera\u00e7\u00e3o e nosso corpo e vida s\u00e3o igualmente impermanentes e podem acabar pertencendo a algum senhor feudal que possa aparecer por a\u00ed.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos gastar nossa vida inutilmente, mas a devemos basear na pr\u00e1tica incessante, n\u00e3o a desgastando e desperdi\u00e7ando em quest\u00f5es pessoais. Nossa vida atual \u00e9 o resultado de nossos bondosos antecessores e prov\u00eam da grande compaix\u00e3o da pr\u00e1tica incessante. Uma vez que tenhamos despertado nossa mente de Buddha e que cheguemos \u00e0 pr\u00e1tica incessante dos buddhas e ancestrais, devemos nos sentir envergonhados de nos reverter a um tipo de mentalidade sem determina\u00e7\u00e3o em quest\u00f5es tais como ficar servindo nossas esposas e filhos. Se acabarmos finalmente nos tornando maliciosos e caindo de volta naquela procura de status e de lucro, estas coisas se voltar\u00e3o contra n\u00f3s, a menos que tenhamos grande compaix\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>Ter grande compaix\u00e3o com este desejo insistente de status e lucro significa que devemos discernir que temos dentro de nosso corpo e vida, esta inata capacidade de nos tornarmos buddhas e ancestrais e n\u00e3o jogarmos fora idiotamente nossa vida com esta busca in\u00fatil de status e lucro. Devemos perceber que o status e lucro s\u00e3o como sonhos e como ilus\u00e3o: s\u00e3o exatamente como uma flor do vazio. Devemos compreender que o status e lucro mundanos s\u00e3o como ilus\u00f5es e n\u00e3o devemos sair por a\u00ed, cometendo crimes por estas coisas. Aqueles que se aplicam ao Caminho buddhista devem ser capazes de ganhar este poder de observa\u00e7\u00e3o correta em todos os aspectos das coisas. At\u00e9 mesmo leigos tem esta compaix\u00e3o e ficam muito agradecidos por quaisquer riquezas que recebam tais como ouro, prata, j\u00f3ias, ou favores. Se tivermos compaix\u00e3o sempre devemos tentar ser gratos aos outros por favores que foram recebidos, e pelos quais ficamos devendo \u00e0quele que nos prestou.&nbsp;<\/p>\n<p>Como poder\u00edamos deixar de sinceramente ficarmos gratos de ver ou aprender o Dharma correto do Tathagata? Como poder\u00edamos deixar de sermos gratos? Disto n\u00e3o nos esquecermos, \u00e9 o mesmo que uma grande e preciosa j\u00f3ia; realizar esta pr\u00e1tica incessante sem retrogredir \u00e9 a grande virtude que temos que adquirir. Se soubermos o verdadeiro valor da gratid\u00e3o, veremos ent\u00e3o que a virtude pode se acumular como uma montanha e n\u00e3o cair como uma gota de orvalho numa folha. Exatamente isto \u00e9 o que vem a ser a pr\u00e1tica incessante. Atrav\u00e9s deste m\u00e9rito nos encontraremos conosco mesmos e prosseguiremos com nossa linhagem dos buddhas e ancestrais.<\/p>\n<p>Diga-se como um adendo que nem o primeiro e nem o Segundo ancestrais jamais constru\u00edram quaisquer templos e nem sequer cultivaram a terra. O mesmo aconteceu com o Terceiro e Quarto ancestrais. Nem o Quinto nem o Sexto ancestrais constru\u00edram templos, nem o fizeram Seigen ou Nangaku.<\/p>\n<p>Um dos disc\u00edpulos de Seigen era Sekito. Este grande Mestre construiu para si uma pequena choupana, em cima de uma rocha enorme, onde se concentrava em zazen dia e noite sem cessar. Sem dormir, ele constantemente fazia zazen. Carregava \u00e1gua, rachava lenha e fazia zazen. Devido a esta pr\u00e1tica incessante de Sekito, a linha de disc\u00edpulos de Seigen fortificou-se e trouxe o bem estar ao povo de sua terra. As Seitas Unmon e Hogen que vieram desta linhagem do grande Mestre Sekito, todas esclareceram o que vinha a ser o Caminho buddhista.<\/p>\n<p>O trig\u00e9simo-primeiro ancestral [o quarto na China], era o Mestre Zen Daii Doshin, que praticou com o terceiro ancestral desde a idade de catorze anos. Depois de ter recebido o Dharma correto do terceiro ancestral, ele se concentrou em zazen durante sessenta anos, nem dormindo nem descansando. A influ\u00eancia de seu ensinamento se espalhou por toda parte e sua virtude foi transmitida a todas as criaturas terrestres e celestes. Uma tal pessoa era este quarto ancestral na China e no ano de 643 D.C. o imperador Taishu da dinastia T\u2019ang ouviu falar dele, tendo ficado deveras impressionado com o que ouviu e quis ent\u00e3o conhece-lo pessoalmente. Ele o convidou para vir ao castelo, mas Daii Doshin se desculpou por tr\u00eas vezes dizendo que se achava meio doente.<\/p>\n<p>Mas na quarta vez, Taishu mandou um enviado com a seguinte mensagem:&nbsp;&#8220;Se ele se recusar a vir de novo, decepem-lhe a cabe\u00e7a e tragam-na para mim.&#8221;<\/p>\n<p>O enviado se dirigiu \u00e0 montanha onde morava o quarto ancestral e lhe disse <i>ipse literis <\/i>o que o imperador havia decretado. Sem uma mudan\u00e7a de express\u00e3o facial que fosse, o ancestral, com perfeita compostura inclinou um pouco o pesco\u00e7o, entregando-o ao carrasco. O mensageiro apavorado, retornou ao imperador e relatou os fatos. Ao ouvir isto, o imperador ficou ainda mais impressionado e respeitou Daii Doshin, lhe mandando bel\u00edssimas sedas para mostrar sua admira\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>Com a for\u00e7a de sua pr\u00e1tica incessante, o quarto ancestral n\u00e3o se preocupava com sua pr\u00f3pria vida e para nada necessitava ficar visitando o imperador. Uma pr\u00e1tica incessante como esta \u00e9, de fato, extremamente rara de ser constatada e como tal n\u00e3o veremos igual nem que se passem mil anos. Aprendam com este exemplo de pr\u00e1tica incessante e tratem de fazer disto uma regra, isto \u00e9, deve-se religiosamente evitar reis e imperadores. Apesar de podermos achar o m\u00e1ximo travar conhecimento com tais figuras populares e bem conhecidas, n\u00e3o devemos faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo o imperador Taishu, a pessoa mais importante no mundo profano, respeitava e desejava conhecer este Mestre Zen que estava t\u00e3o preparado para oferecer seu pr\u00f3prio pesco\u00e7o em sacrif\u00edcio, e isto por um mero princ\u00edpio.<\/p>\n<p>Havia contudo uma raz\u00e3o muito especial pela qual o quarto ancestral havia rejeitado o convite do imperador Taishu: ele tinha pena de perder o tempo que poderia ser gasto em sua pr\u00e1tica incessante, em meras quimeras. Que uma pessoa chegue a recusar se encontrar com um imperador \u00e9 fato raro, mais ainda se for considerado que isto ocorreu por tr\u00eas vezes. Hoje em dia o que vemos \u00e9 que tantas pessoas querem se entrevistar com o imperador, crendo que isto seja uma t\u00e3o grande honra.&nbsp;<\/p>\n<p>No dia 4 de setembro de 651, o quarto ancestral ensinou o seguinte a seus seguidores: &#8220;Tenham a certeza que tudo se encontra na forma do nirvana. Todos voc\u00eas devem se inteirar de suas pr\u00f3prias realidades, de suas ess\u00eancias e devem transmitir isto \u00e0 sociedade.&#8221;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ter falado desta forma a seus disc\u00edpulos, sentado em zazen faleceu. Tinha ent\u00e3o setenta e dois anos de idade. Uma stupa lhe foi erigida no pico do Monte Hatto. Mas no dia 8 de abril do ano seguinte a porta desta stupa se abriu por si mesma, e o quarto ancestral foi visto l\u00e1 dentro, sentado em zazen, exatamente como antes. Era como se ele ainda estivesse vivo. Seus disc\u00edpulos n\u00e3o tentaram fechar a porta. Disc\u00edpulos devem ter consci\u00eancia que tudo est\u00e1 na forma do nirvana e que n\u00e3o devemos ficar apegados nem mesmo a isto. A ess\u00eancia de tudo est\u00e1 na forma do nirvana.<\/p>\n<p>O quarto ancestral realizou esta sua pr\u00e1tica incessante tanto antes como depois de seu falecimento. Achar que o ser humano n\u00e3o morra \u00e9 um conclus\u00e3o est\u00fapida e precipitada, e achar tamb\u00e9m que a morte n\u00e3o possua nenhum tipo de consci\u00eancia \u00e9 uma tola concep\u00e7\u00e3o do que realmente ocorre. Estes dois pontos de vista, que n\u00e3o exista morte para os vivos e que os mortos n\u00e3o tenham consci\u00eancia, s\u00e3o incorretos e devem ser descartados. Praticantes buddhistas n\u00e3o devem sequer desperdi\u00e7ar tempo pensando sobre estas coisas.&nbsp;<\/p>\n<p>O Grande Mestre Gensha Soichi chamava-se Shibi antes de ter sido ordenado. Havia ele nascido na prov\u00edncia Min em Fukushu e seu nome de leigo era Sha. Quando jovem, apreciava pescarias e j\u00e1 adulto virou um pescador no rio Nandai. Durante o ano de 860, na Dinastia Tang, quando tinha cerca de trinta anos de idade, de repente desejou deixar o mundo e a sociedade; largou seu barco e come\u00e7ou sua pr\u00e1tica de Zen sob o Mestre Reikun do Monte Fuyo. Raspou sua cabe\u00e7a e recebeu os preceitos do Mestre de preceitos Dogen do Templo de Kaigenji em Kosei. Usando sempre um manto muito remendado e sand\u00e1lias comuns, comia somente o suficiente para ficar vivo. Durante todo dia praticava somente zazen. Todos os demais monges constataram que aquele era o tipo de praticante que raramente aparece no monast\u00e9rio. Ele se dava muito bem com Seppo Giso; era um relacionamento de Mestre e disc\u00edpulo. Seppo admirava a pr\u00e1tica sincera e concentrada de Shibi.<\/p>\n<p>Um belo dia Seppo indagou de Gensha: &#8220;Todos est\u00e3o comentando que tua pr\u00e1tica \u00e9 aut\u00eantica. Que querem dizer com isto?&#8221;<\/p>\n<p>Ele respondeu: &#8220;Querem dizer que nunca engano ningu\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Num outro dia, Seppo chamou Gensha e perguntou:&nbsp;&#8220;Monge de manto remendado, porque n\u00e3o praticas sob um Mestre que te transmita o Dharma?&#8221;<\/p>\n<p>Gensha respondeu:&nbsp;&#8220;Bodhidharma n\u00e3o foi \u00e0 China e o segundo ancestral tampouco se dirigiu at\u00e9 a \u00cdndia para praticar.&#8221;<\/p>\n<p>Seppo concordou com esta resposta de Gensha. Mais tarde, Seppo foi morar no Monte Seppo e juntamente com Gensha, ali erigiu um belo monast\u00e9rio. Muitos monges se ajuntaram, como nuvens no c\u00e9u, e Gensha sempre ia at\u00e9 o quarto de Seppo com suas muitas perguntas. Todos os monges, que de lugares t\u00e3o diversos provinham, sempre indagavam a Gensha sobre o Caminho, pois Seppo costumava dizer: &#8220;Se tiverem qualquer pergunta, fa\u00e7am-na a Gensha.&#8221;&nbsp;<\/p>\n<p>Gensha cumpria sempre sua responsabilidade para com seu Mestre. Isto n\u00e3o pode ser feito a menos que a pessoa possua aquele mundo de pr\u00e1tica incessante de zazen. A pr\u00e1tica incessante, aquela que n\u00e3o p\u00e1ra nunca, nem que seja por um s\u00f3 dia, \u00e9 extremamente dif\u00edcil de se encontrar. Tantas pessoas est\u00e3o preocupadas apenas com assuntos mundanos; \u00e9 muito dif\u00edcil se encontrar algu\u00e9m que se concentre apenas no zazen durante todo o dia. Como praticantes do Caminho, devemos estar conscientes que temos apenas um pouco mais de tempo de vida, anos e meses, e neste caso devemos nos concentrar no zazen durante todo o dia.<\/p>\n<p>O monge Erin de Chokei se tornou um Mestre destacado como Seppo depois de ter sido seu disc\u00edpulo. Com Seppo e Gensha ele praticou durante vinte e nove anos. Durante este per\u00edodo de tempo, gastou vinte almofadas de zazen. Aqueles que amam o zazen, apreciar\u00e3o este seu exemplo como uma pr\u00e1tica incessante do Caminho. Muitas pessoas competiram com ele mas n\u00e3o houve ningu\u00e9m que lhe houvesse superado. Mas sua longa pr\u00e1tica n\u00e3o foi em v\u00e3o e finalmente ao levantar um cortina de palha certo dia, obteve a grande compreens\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o retornou a seu pa\u00eds natal durante trinta anos e durante todo este tempo n\u00e3o teve nenhum contato com seus parentes e n\u00e3o conversava sequer com seus companheiros monges dentro da sala de zazen. Somente continuava sua pr\u00e1tica de zazen. Durante trinta longos anos manteve esta pr\u00e1tica incessante e manteve silentes todas suas d\u00favidas e perguntas. Devemos ver nesta pessoa um ser humano de extraordin\u00e1rias capacidades, fora do comum. Lendo sua hist\u00f3ria compreendemos que ali se encontrava uma mente cheia de determina\u00e7\u00e3o. Se quisermos viver uma tal vida como a de Erin, devemos nos envergonhar de nossas m\u00e1s a\u00e7\u00f5es passadas e nos concentrar em verificar seus trinta anos de pr\u00e1tica e compreens\u00e3o. Contudo, se n\u00e3o possuirmos esta mente que busca o Caminho, e n\u00e3o tivermos um tipo de pr\u00e1tica pura, preocupados demais em buscar sem parar status e lucro mundanos, meramente continuaremos a ser confusos.&nbsp;<\/p>\n<p>Depois que o Mestre Zen Daien do Monte Dai recebeu seu <i>inka <\/i>de Hyakujo, se mudou para o Monte Isan que era uma formid\u00e1vel montanha rochosa, muito alta e escarpada. Para ali esta figura se mudou e construiu uma pequena choupana; ficou amigo dos animais e passarinhos e vivia uma vida muito simples, concentrado e absorto por completo em sua pr\u00e1tica. N\u00e3o ligava para os fortes ventos, nem para a neve, nunca sendo pregui\u00e7oso demais para largar sua pr\u00e1tica de zazen. Como comida, apanhava pinh\u00f5es nas redondezas. Ali ele n\u00e3o tinha nenhum sal\u00e3o de cerim\u00f4nias, muito menos qualquer pr\u00e9dio bem constru\u00eddo e durante quarenta anos a \u00fanica forma que ali podia ser observada era sua pr\u00e1tica incessante. Aos poucos ficou famoso por todo o pa\u00eds e monges chegavam as dezenas, de todas as partes, para receber suas instru\u00e7\u00f5es. Finalmente ele se tornou fundador de uma seita, Igyo e produziu mais de quarenta Mestres Zen, inclu\u00eddos a\u00ed tais como Gyozan, Kyozen e Biun.<\/p>\n<p>Se um dia tivermos vontade de erigir um templo, que nos lembremos que o objetivo principal n\u00e3o \u00e9 a forma, fama, status, ou lucro, mas sim a pr\u00e1tica incessante do Dharma de Buddha. Praticar sem qualquer templo era o Caminho do buddhismo primitivo, da mesma forma que sentar em zazen no ch\u00e3o mesmo ou debaixo de uma \u00e1rvore qualquer tamb\u00e9m era costumeiro. O ponto a ser notado aqui \u00e9 a pr\u00e1tica de zazen, pois esta \u00e9 sem d\u00favida a base mesma da pr\u00e1tica incessante. Somente ap\u00f3s obtermos esta pr\u00e1tica incessante \u00e9 que podemos ent\u00e3o considerar se vamos ou n\u00e3o abrir um centro de pr\u00e1tica. Quando tivermos a verdadeira pr\u00e1tica incessante o lugar de pr\u00e1tica do Buddha nos ser\u00e1 transmitido at\u00e9 o dia presente. Imbecis hoje em dia se apegam \u00e0s formas externas de uma constru\u00e7\u00e3o ou um templo, mas os buddhas e ancestrais nunca ficaram apegados a qualquer pr\u00e9dio ou constru\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos de forma nenhuma esclarecer observa\u00e7\u00f5es e conclus\u00f5es sobre n\u00f3s mesmos pensando apenas sobre templos ou constru\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n<p>Para os buddhas e ancestrais, pr\u00e9dios n\u00e3o trazem qualquer forma de bem estar. Pr\u00e9dios e constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o somente intermedi\u00e1rios para a fama, status e lucro. Calmamente devemos observar e estudar a pr\u00e1tica dos grandes Mestres e logo veremos qual \u00e9 a forma aut\u00eantica e correta de se viver.<\/p>\n<blockquote>\n<p align=justify><font size=2>Chuva vespertina forte o bastante para quebrar rochas cobertas de musgo,&nbsp;<br \/>Noites cheias da neve do inverno.<br \/>N\u00e3o h\u00e1 sequer animais que possam ser vistos nas redondezas,&nbsp;<br \/>De t\u00e3o selvagem que s\u00e3o os elementos.<br \/>Nem existe qualquer fuma\u00e7a saindo de chamin\u00e9 de casa&nbsp;<br \/>Alguma nos arredores.<br \/>Longe demais de qualquer coisa mundana.<\/font><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=justify>Se n\u00e3o tivermos a pr\u00e1tica incessante nem dermos valor ao Dharma mais que a nossas vidas pessoais, nunca chegaremos a conhecer um tipo de vida como esta acima de Isan. N\u00e3o devemos estar apressados em aplainar o terreno e preparar os fundamentos para construir um templo, mas somente prosseguirmos em nossa pr\u00e1tica incessante.<\/p>\n<p>Ao compreendermos o que vem a ser uma compaix\u00e3o serena e devotada, poderemos ent\u00e3o ver que todos os ancestrais que possu\u00edam esta transmiss\u00e3o correta sofreram o diabo t\u00e3o profundo nas montanhas. Contudo, no que diz respeito a Isan, havia apenas um pequeno lago, \u00e1gua, gelo e nevoeiro. A maioria das pessoas &#8220;normais&#8221; jamais poderia ag\u00fcentar estar t\u00e3o profundamente dentro das montanhas. Contudo, permanece o fato de que o Caminho buddhista e a verdade profunda emergem somente de tal habitat como este em que vivia Mestre Daii, atrav\u00e9s de sua pr\u00e1tica incessante. Ao ouvirmos falar de tal pr\u00e1tica incessante n\u00e3o a devemos levar na mofa. Se formos praticantes sinceros, ficaremos muito encorajados pela pr\u00e1tica de Isan.&nbsp;<\/p>\n<p>Devido a pr\u00e1tica incessante de Isan, o mal se deteve antes que tivesse for\u00e7as para come\u00e7ar a se manifestar, o mundo n\u00e3o se fez em peda\u00e7os, o pal\u00e1cio dos celestes ficou sereno e nosso pa\u00eds permaneceu em paz.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o somos descendentes de Isan. Era ele um ancestral do Caminho buddhista. Mais tarde, Gyosan praticou sob Isan. Ele era uma pessoa de alta capacidade intelectual, que j\u00e1 havia praticado com o Mestre Zen Hyakujo; se o Mestre lhe indagasse uma s\u00f3 coisa, era capaz de responder de cem maneiras diferentes. Gyosan praticou durante tr\u00eas anos mais com Isan. Uma tal pr\u00e1tica n\u00e3o tinha precedentes. Nada mais se precisa dizer sobre Gyosan, porque estes tr\u00eas anos extras sob Isan j\u00e1 dizem tudo que necessitamos saber sobre sua pr\u00e1tica incessante.<\/p>\n<p>O Mestre Zen Fuyo Dokai do Monte Fuyo realizou a pr\u00e1tica incessante de onde ela se origina mesmo. O imperador lhe deu o t\u00edtulo de Mestre Zen Josho e lhe presenteou com um manto p\u00farpura, mas ele n\u00e3o o poderia aceitar e escreveu ao imperador lamentando sua inabilidade de aceitar, seja o manto, seja o t\u00edtulo.&nbsp;<\/p>\n<p>Ele costumava dar toda sua por\u00e7\u00e3o de arroz para os outros. Tendo erigido uma choupana no Monte Fuyo, monges e leigos come\u00e7aram a se reunir ao redor dele \u00e0s centenas. Contudo, porque havia somente uma refei\u00e7\u00e3o por dia, muitos se foram. Ele n\u00e3o sairia para mendigar comida para o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Um dia ele deu seu ensinamento para os monges em assembl\u00e9ia sobre o que era deixar o mundo: O caminho de um monge \u00e9 este: concentrar-se na pr\u00e1tica, abandonar as ilus\u00f5es e transcender a dicotomia da vida e morte. Por que deveria um monge se preocupar com o status mundano e com o lucro? Ele deveria cortar todos os relacionamentos e a cada momento ter uma mente tranq\u00fcila. Este \u00e9 o significado profundo de se deixar para tr\u00e1s a sociedade. Se gastarmos um minuto que seja em coisas in\u00fateis, perderemos nossa vida. Imediatamente devemos abandonar todo confronto, oposi\u00e7\u00e3o e compromisso. Se insistirmos em nossa oposi\u00e7\u00e3o, seria como plantar uma flor numa pedra. Se formos puxados para o status e lucro, seria como poeira dentro do olho. Se n\u00e3o soub\u00e9ssemos o que verdadeiramente se esconde por detr\u00e1s de tal, seria desculp\u00e1vel, mas desde os tempos antigos isto nos tem sido inculcado e transmitido. Entretanto, mesmo estando cientes de tudo, ainda persistimos em estarmos confusos.&nbsp;<\/p>\n<p>Porque sermos cobi\u00e7osos? Se n\u00e3o desistirmos disto agora, como poderemos nos desapegar? Todos os ancestrais nos ensinam que devemos fazer o melhor poss\u00edvel a cada momento. Sen\u00e3o fizermos o melhor poss\u00edvel a cada momento no presente, como o faremos mais tarde? Devemos nos esfor\u00e7ar ao m\u00e1ximo agora mesmo.<\/p>\n<p>Se alcan\u00e7armos aquele est\u00e1gio onde n\u00e3o buscamos nos apoderar de mais nada, at\u00e9 mesmo os buddhas e ancestrais ser\u00e3o de uma total inutilidade para n\u00f3s. Uma mente l\u00facida pode ser alcan\u00e7ada e seremos capazes de ver a realidade se abandonarmos todos os conflitos mundanos. Pela primeira vez seremos dignos porque veremos a verdade.<\/p>\n<p>Lembram-se das seguintes est\u00f3rias?&nbsp;<\/p>\n<p>O disc\u00edpulo de Baso, Injan, n\u00e3o tinha o menor desejo de ver ou conhecer ningu\u00e9m que fosse durante sua vida toda e Joshu n\u00e3o falou sua vida toda. Hentan pegava frutos do pinheiro para comer. Daibai se vestia com folhas de l\u00f3tus, e Shie utilizava-se apenas de papel para se proteger do frio. Gentai usava simplesmente pano. Sekiso se concentrava no zazen junto com seus disc\u00edpulos, vivendo de maneira t\u00e3o extremamente simples que as pessoas lhe chamavam de &#8220;velho monast\u00e9rio.&#8221; Pela sua estrita pr\u00e1tica incessante afora, dizia constantemente:&nbsp;&#8220;O que vem a ser sua mente?&#8221;<\/p>\n<p>Tosu Gisei fazia seus praticantes prepararem arroz e sempre trabalhava e comia junto com eles, porque queria que seus monges possu\u00edssem a observa\u00e7\u00e3o correta atrav\u00e9s da pr\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n<p>Ser\u00edamos acaso capazes de nos esquecer dos esfor\u00e7os destes ancestrais e suas transmiss\u00f5es do Dharma? Devemos tentar nos concentrar nestes exemplos de pr\u00e1tica incessante transmitidos pelos ancestrais. Devemos discutir isto com cada praticante e monge que sejam amigos nossos e com quem sejamos \u00edntimos. N\u00e3o devemos ir onde pessoas nos convidem, nem sequer pedir doa\u00e7\u00f5es. Que vivamos apenas com o que podemos colher daquilo que plantamos dentro do monast\u00e9rio. Dividamos tudo em 360 partes iguais e utilizemos uma parte a cada dia que passa, n\u00e3o importa que quantidade de pessoas possam estar ali. Se pudermos, devemos preparar arroz. Se n\u00e3o houver o bastante devemos ent\u00e3o fazer sopa. Se n\u00e3o for o bastante para sopa tamb\u00e9m, fa\u00e7amos um caldo ralo. Se mais e mais monges vierem, que bebamos apenas ch\u00e1. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que levemos o ch\u00e1 para cada monge: cada qual pode ir at\u00e9 um certo lugar para tom\u00e1-lo por si mesmo.<\/p>\n<p>Devemos nos concentrar somente em coisas vitais e cortar todas as que forem in\u00fateis e excessivas. Com este tipo de mentalidade, nossa pr\u00e1tica se tornar\u00e1 mais frut\u00edfera e n\u00e3o parecer\u00e1 ser t\u00e3o dif\u00edcil, nem t\u00e3o penosa. Talvez ela se torne como uma flor que se abre, passarinhos cantando alegremente, um cavalo de madeira relinchando a plenos pulm\u00f5es e uma vaca correndo a toda velocidade. As montanhas azuis do lado de fora n\u00e3o distrair\u00e3o nossas mentes, nem o barulho das fontes termais as perturbar\u00e3o. Ao olharmos as montanhas, poderemos ouvir os macaquinhos gritando e ver as gotas de orvalho cobrindo a lua minguante. O sabi\u00e1 cantar\u00e1 na floresta e o vento soprar\u00e1 pelos pinheiros na madrugada. Os ventos da primavera trar\u00e3o novos brotos para as velhas \u00e1rvores e as folhas de outono murchar\u00e3o e cair\u00e3o por fim na floresta que vai ficando cada vez mais fria. Os degraus do Monte Fuyo est\u00e3o cobertos de musgo; os rostos das pessoas cobertos de nevoeiro. N\u00e3o h\u00e1 som nenhum, n\u00e3o h\u00e1 poeira e n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m. Toda a montanha permanece completamente silenciosa e todas as coisas s\u00e3o transcendidas. \u00c9 esta a atmosfera que queremos no Monte Fuyo.<\/p>\n<p>Hoje, eu falei a esta assembl\u00e9ia reunida da import\u00e2ncia e o valor de se praticar o Caminho buddhista para se ganhar a felicidade neste mundo. Esta \u00e9 somente minha opini\u00e3o pessoal, ent\u00e3o n\u00e3o preciso falar desde um p\u00falpito, dar serm\u00f5es, usar s\u00edmbolos de autoridade, dar gritos Zen, bater em algu\u00e9m com uma vara, ou levantar ou abaixar as sobrancelhas. Ser\u00e1 que temos necessidade de fazermos estas coisas? \u00c0s vezes tais coisas podem ter valor, mas em outras ocasi\u00f5es s\u00e3o completamente contr\u00e1rias aos ensinamentos dos buddhas e ancestrais.<\/p>\n<p>Est\u00e3o lembrados que Bodhidharma veio da \u00cdndia e sentou durante nove anos em zazen de frente para uma parede? E que o segundo ancestral experimentou grandes dificuldades enquanto buscava a compreens\u00e3o e que finalmente decepou seu pr\u00f3prio bra\u00e7o? Isto \u00e9 o que n\u00f3s sabemos deles: que Bodhidharma nada ensinou e que o segundo ancestral nada perguntou. Mesmo assim, n\u00e3o podemos afirmar que Bodhidharma n\u00e3o tenha conduzido pessoas \u00e0 compreens\u00e3o. \u00c9 que ambos praticavam um <i>samadhi<\/i> sem palavras. Podemos afirmar que o segundo ancestral n\u00e3o saiu por a\u00ed, \u00e0 cata de um Mestre? Ao considerarmos o que fizeram estes ancestrais e suas pr\u00e1ticas incessantes, severas e s\u00e9rias, fico envergonhado de minha pr\u00f3pria pr\u00e1tica, que ainda \u00e9 t\u00e3o imatura e sem dire\u00e7\u00e3o. Devemos ter vergonha de nossa inten\u00e7\u00e3o d\u00e9bil para a pr\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n<p>Alguns que dizem ser praticantes insistem em manter seus desejos mundanos e apenas ap\u00f3s obterem comida, abrigos, roupas e rem\u00e9dios come\u00e7am a considerar a pr\u00e1tica. Percebam que o ponto \u00e9 a pr\u00e1tica, n\u00e3o comida, roupas, abrigos e rem\u00e9dios. Se esperarmos at\u00e9 obtermos o suficiente destes, podemos nos encontrar para sempre distanciados de nossa pr\u00e1tica buddhista.<\/p>\n<p>O tempo voa como uma flecha: n\u00e3o reclamem das pr\u00e1ticas a que ora est\u00e3o se submetendo. N\u00e3o queremos nos obrigar a nada. Quando o tempo chegar, saber\u00e3o do que estou falando.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que j\u00e1 ouviram falar deste poema escrito por um velho praticante?<\/p>\n<blockquote>\n<p align=justify><font size=2>Arroz integral direto das planta\u00e7\u00f5es nas montanhas junto com vegetais amarelados.&nbsp;<br \/>&#8230; Comer esta comida paup\u00e9rrima \u00e9 sua pr\u00f3pria decis\u00e3o.&nbsp;<br \/>Mas se isto n\u00e3o puder comer, v\u00e1 se embora daqui, soprado daqui para ali, do leste para o oeste.<\/font><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=justify>A\u00ed est\u00e1 a ess\u00eancia daquilo que foi transmitido de ancestral para ancestral. Existem muitas hist\u00f3rias sobre Fuyo Dokai e esta acima diz respeito \u00e0 pr\u00e1tica incessante. Devemos estar anelantes por uma pr\u00e1tica que seja parecida com esta descrita acima e devemos seguir os padr\u00f5es estabelecidos no Monte Fuyo. Isto nada mais \u00e9 que o prosseguimento do ensinamento correto de Shakyamuni.<\/p>\n<p>Na sangha do Mestre Zen Daijaku do monast\u00e9rio de Kaigenji, em Kosei Koshu, havia um monge chamado Baso Doitsu que era da regi\u00e3o de Jippoken em Koshu. Tinha ele j\u00e1 praticado sob o Mestre Zen Nangaku Ejo durante mais de dez anos. Um dia resolveu voltar \u00e0 sua terra natal. A caminho, repentinamente mudou de id\u00e9ia e voltou a Nangaku; ali ele queimou incenso e fez uma rever\u00eancia ante o Mestre Zen.<\/p>\n<p>Nangaku disse ent\u00e3o a Baso: &#8220;Eu te aconselho a n\u00e3o retornar a sua cidade natal. Se o fizeres, ser\u00e1s por completo incapaz de praticar o Caminho porque todos ali te chamar\u00e3o pelo teu nome anterior de leigo.&#8221;<\/p>\n<p>Ao ouvir tal, Baso acatou respeitosamente o conselho de Nangaku e assim lhe prometeu:&nbsp;&#8220;N\u00e3o voltarei a minha cidade natal durante tr\u00eas encarna\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>Ele ent\u00e3o ficou com Nangaku. Vieram muitos monges de toda parte do pa\u00eds, como as nuvens. Dentre estes monges todos, houveram muitos praticantes destacados e houveram alguns, tais como Hyakujo que se tornaram tamb\u00e9m Mestres Zen. Pelo menos vinte e sete se tornaram grandes Mestres. Baso dizia que nossa vida \u00e9 Buddha e nada mais. A vida de Baso nada mais era que Buddha; era ele um transmissor correto de Nangaku e um grande Mestre.<\/p>\n<p>Devemos esclarecer o significado de \u2018N\u00e3o deves absolutamente retornar a tua cidade natal&#8221; e &#8220;eu n\u00e3o retornarei a minha cidade natal.&#8221; No ir e vir daquele que tem a compreens\u00e3o completa, n\u00e3o existe lugar algum para se ir e nem para se retornar. N\u00e3o existe diferen\u00e7a entre ir e voltar. Ir e voltar s\u00e3o transcendidos de tal forma que ir \u00e9 a vida verdadeira da pessoa, a realiza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica incessante. Foi por esta raz\u00e3o que n\u00e3o foi necess\u00e1rio a Baso voltar a sua cidade natal em Kanshu. Devemos estar desapegados at\u00e9 mesmo da ilumina\u00e7\u00e3o, transcendendo-a. As pessoas podem dizer qual \u00e9 o nome de suas cidades natais, mas se elas estiverem vivendo realmente, o nome desta cidade nada mais \u00e9 que verdade. Como Ejo e Baso costumavam ensinar? Quando encaramos o norte ou o leste, \u00e9 o mundo todo que encara o norte e o leste. Aquilo que n\u00f3s sentimos, tudo no universo, at\u00e9 mesmo as estrelas, sol, oceano tamb\u00e9m sentem. Assim vemos que n\u00e3o devemos meramente seguir nossas id\u00e9ias preconceituosas.<\/p>\n<p>O Mestre Zen Daiman Konin, o trig\u00e9simo segundo ancestral [o quinto ancestral na China] era o transmissor correto do Dharma de Buddha. Ele era de Obai. Tendo nascido sem pai, ele tomou o nome de sua m\u00e3e, Shu. Foi o mesmo que ocorreu com Lao-tsu, que ficou com o nome de sua m\u00e3e. Desde a \u00e9poca em que tinha sete anos de idade at\u00e9 a idade de setenta e quatro anos transmitiu os ensinamentos buddhistas aut\u00eanticos e finalmente os passou ao sexto ancestral, En&#8217;o.&nbsp;<\/p>\n<p>En&#8217;o gastou nove meses apenas descascando arroz numa pila de pedra. No fim deste per\u00edodo, tendo sido a pr\u00e1tica de En&#8217;o t\u00e3o destacada, Daiman Konin lhe conferiu o <i>inka<\/i>, ao inv\u00e9s de a seu disc\u00edpulo Jinshu. E foi desta forma que o sangue vital correto foi transmitido at\u00e9 o presente e como o Dharma Verdadeiro tem sido incessantemente trazido at\u00e9 os dias presentes.<\/p>\n<p>O Mestre Zen Tendo Nyojo, meu falecido Mestre, era de Etsu. Ele se concentrou em seus estudos buddhistas no monast\u00e9rio de Kegonji da seita Tendai. Contudo achou que apenas aprender ensinamentos n\u00e3o era o suficiente para dominar o verdadeiro Caminho buddhista. Com a idade de dezenove anos ele abandonou seus estudos dos ensinamentos e Escrituras e se concentrou na pr\u00e1tica do zazen, n\u00e3o se detendo at\u00e9 os setenta anos de idade.<\/p>\n<p>O imperador Nei da Dinastia Sung do Sul, respeitava sua pr\u00e1tica e lhe conferiu o t\u00edtulo de Mestre Zen, lhe presenteando com um manto p\u00farpura. Tendo Nyojo n\u00e3o podia aceitar estes presentes e mandou ao imperador uma carta de desculpas dizendo isto. Monges e leigos vinham de todas as partes do pa\u00eds para v\u00ea-lo: todos o respeitavam em un\u00edssono. O imperador, em honra de sua profunda e serena pr\u00e1tica, realizou uma cerim\u00f4nia de ch\u00e1 especialmente para ele. Esta era uma honra incomum e nunca dantes vista, conferida a Nyojo.<\/p>\n<p>Tendo Nyojo cria que a pior de todas as coisas era desejar status mundano e lucro. Ele acreditava que isto era pior ainda que quebrar quaisquer preceitos ou mandamentos. Segundo ele este \u00faltimo era somente um erro tempor\u00e1rio que poderia ser concertado com a compreens\u00e3o do que havia sido feito. Enquanto que os primeiros eram um praga da qual a pessoa n\u00e3o chegaria mais a se desvencilhar durante toda sua vida. Se a pessoa deseja ver como se pratica o Zen, n\u00e3o deve abandonar este esp\u00edrito b\u00e1sico daquele que busca o Caminho. Igualmente n\u00e3o deve ser orgulhoso. Nada ter a ver com o status \u00e9 a pr\u00e1tica incessante e abandonar qualquer fortuna que a pessoa tenha chegado a acumular, tamb\u00e9m \u00e9 a pr\u00e1tica incessante.<\/p>\n<p>Do primeiro ancestral, Bodhidharma at\u00e9 o sexto ancestral, todos foram agraciados com o t\u00edtulo de Mestre Zen pelo imperador depois de terem falecido. Enquanto vivos n\u00e3o davam a menor pelota para o status ou gl\u00f3ria, cortando fora a busca de status e riquezas. Devemos implorar pela pr\u00e1tica dos buddhas e ancestrais. Ignoremos por completo o status e o lucro, e n\u00e3o queiramos qualquer coisa que diga respeito a nosso pequeno ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>Abandonar a busca de status e lucro \u00e9 dif\u00edcil para qualquer criatura e at\u00e9 mesmo para os buddhas e ancestrais. Eu j\u00e1 vi alguns que afirmavam que buscavam status e ganho porque queriam ajudar aos demais. N\u00e3o pode existir frase mais perversa e maliciosa. Apesar deles pensarem que est\u00e3o praticando o Caminho buddhista, dele est\u00e3o perfeitamente removidos. O fato \u00e9 que est\u00e3o caluniando o Buddha. Se o que estivessem dizendo tivesse qualquer percentagem de verdade, ent\u00e3o os buddhas e ancestrais que n\u00e3o cobi\u00e7am o status e lucro, a ningu\u00e9m poderiam salvar.<\/p>\n<p>Devemos amar aos outros, sem ambi\u00e7\u00e3o. Existem muitas formas de ajudar as pessoas e existem formas de salvar as pessoas sem ser cobi\u00e7oso por status e dinheiro. Come\u00e7ar a divulgar por a\u00ed que estamos salvando as pessoas e fazendo exatamente o contr\u00e1rio, \u00e9 uma coisa mal\u00e9vola. Se formos &#8220;salvos&#8221; por um destes animais, iremos direto para o inferno e ficaremos arrependidos de termos gasto toda uma vida na ignor\u00e2ncia. Uma tal s\u00f3rdida mentira deve ser reconhecida pelo que ela \u00e9, apenas isto.<\/p>\n<p>Foi assim que meu falecido Mestre, Nyojo, quando presenteado com o t\u00edtulo de Mestre Zen e um manto p\u00farpura, simplesmente os enviou de volta, junto com uma carta se desculpando por sua inabilidade em aceita-los. Uma est\u00f3ria t\u00e3o fora do comum como esta deve ser sempre relembrada para que os praticantes possam aprender com ela, e de sua experi\u00eancia; O significado de &#8220;Eu me encontrei com meu Mestre&#8221; \u00e9 &#8220;Eu me encontrei realmente com meu verdadeiro Mestre.&#8221;<\/p>\n<p>Meu falecido Mestre deixou sua cidade natal com a idade de dezenove anos e viajou a muitos lugares procurando por um Mestre at\u00e9 a idade de sessenta e cinco anos. Ele era muito en\u00e9rgico em sua busca pela compreens\u00e3o. Para tanto evitava completamente imperadores, ministros bem como todos os funcion\u00e1rios de alto escal\u00e3o do Estado. Tendo firmemente rejeitado o t\u00edtulo de Mestre Zen e o manto p\u00farpura, ele jamais, em toda sua vida, usou qualquer tipo de manto caro, colorido, ou que chamasse aten\u00e7\u00e3o. Sempre usava um manto preto e um kesa tamb\u00e9m preto ao dar suas palestras e instruir seus disc\u00edpulos em seu quarto.<\/p>\n<p>Certo dia, ele ensinou o seguinte a seus disc\u00edpulos: &#8220;Ao aprender como fazer zazen, o principal \u00e9 ter <i>doshin<\/i>. Ter <i>doshin<\/i> \u00e9 a verdadeira chave para o Caminho. Durante os dois \u00faltimos s\u00e9culos, o Caminho buddhista n\u00e3o tem florescido muito. Isto \u00e9 um fato deveras entristecedor e inquietante. Como resultado disto, muito poucas pessoas realmente sabem o que quer dizer tudo isto que se busca no buddhismo. Quando eu morava em Kinzan, me encontrei com uma pessoa chamada Tokko Busho, que era o encarregado do dep\u00f3sito de comida. Em certa ocasi\u00e3o ele falou o seguinte: &#8220;N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio estudar o que Mestres dizem, e tanto mais isto \u00e9 v\u00e1lido quanto mais se fala do Caminho buddhista. Muito melhor \u00e9 de fato estudarmos nosso pr\u00f3prio Caminho.&#8221; Ele n\u00e3o fazia jamais o zazen. Outros monges lhe copiavam o estilo e tampouco faziam zazen, e assim a sala de medita\u00e7\u00e3o se encontrava sempre vazia. Tokko estava por demais ocupado em cuidar de seus convidados e de pessoas influentes, concentrado que estava em obter status e fortuna. Se o Dharma de Buddha fosse, mesmo que de leve, como Tokko disse, ningu\u00e9m iria praticar nada. Durante a Dinasta Sung, haviam muitas pessoas idosas e famosas, mas a maioria delas de <i>doshin<\/i> nada sabia. Haviam sido influenciadas por Tokko Busho e assim tristemente n\u00e3o era mais poss\u00edvel se encontrar qualquer ensinamento buddhista entre todas estas pessoas pregui\u00e7osas.&#8221;<\/p>\n<p>Meu falecido Mestre Nyojo, me contou pessoalmente esta hist\u00f3ria. Quando os descendentes de Tokko Busho ouviram o que Nyojo falou de seus Mestres, n\u00e3o ficaram nem um pouco zangados com ele e isto por causa da personalidade de Nyojo.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m disse: &#8220;Aprender zazen \u00e9 jogar fora corpo e mente. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio queimar incenso, fazer prostra\u00e7\u00f5es, recitar o nome de Buddha, fazer arrependimentos, ou mesmo cantar sutras. Basta se concentrar no zazen e com isto nosso prop\u00f3sito original ser\u00e1 alcan\u00e7ado.&#8221;<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que muitos houveram que fingiam fazer zazen, se apelidando todo o tempo de descendentes dos ancestrais. Podemos enumerar nos dedos aqueles monges que mantiveram o zazen como seus objetivos \u00faltimos. Eu diria at\u00e9 que na China toda, somente meu Mestre Tendo Nyojo o fazia. Pessoas de todas as partes elogiavam a Nyojo, apesar dele mesmo n\u00e3o os elogiar de volta. Alguns monges que viviam em templos famosos, contudo sequer conheciam Nyojo. Apesar deles terem nascido no centro do mundo, isto \u00e9, na China, eram como idiotas, porque n\u00e3o se aplicavam ao estudo e gastavam seus tempos inutilmente. Infelizmente este tipo de pessoas, n\u00e3o compreendendo aquilo que Nyojo dizia, erigiam seus pr\u00f3prios estilos de buddhismo. A verdade \u00e9 que estavam muito longe da ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Meu falecido Mestre costumava ensinar o seguinte a seus disc\u00edpulos: &#8220;Eu procurei um verdadeiro Mestre pelo pa\u00eds todo, desde que tinha a idade de dezenove anos, e contudo n\u00e3o fui capaz de encontrar nenhum que pudesse ser chamado daquele Mestre que o fosse para todo e qualquer tipo de pessoas. Desde os dezenove anos de idade eu tenho me concentrado no zazen, n\u00e3o perdendo sequer um s\u00f3 dia ou noite que seja.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 mesmo antes de me ordenar como monge, nunca falava com as pessoas de minha cidade natal, porque n\u00e3o queria desperdi\u00e7ar tempo que poderia ser utilmente despendido na pr\u00e1tica. A maior parte do tempo permaneci no monast\u00e9rio; nem mesmo aqueles que eram residentes no dormit\u00f3rio eu visitava para prop\u00f3sitos sociais. Al\u00e9m disto, tampouco gastava tempo passeando pelas montanhas vendo as vistas, ou gozando de belas paisagens. Somente me concentrava na pr\u00e1tica e n\u00e3o desperdi\u00e7ava meu tempo por a\u00ed inutilmente. Quando morava no monast\u00e9rio, n\u00e3o apenas praticava zazen durante os per\u00edodos regulamentares, mas tamb\u00e9m me dedicava ao zazen sempre que podia encontrar uma boa ocasi\u00e3o, tal como um lugar alto nas montanhas no ver\u00e3o ou um local ensolarado durante o inverno. Em certas ocasi\u00f5es, quando tinha tempo, carregava meu zafu, e colocando-o num rochedo, ou no fundo de uma ravina profunda, fazia zazen. \u00c0s vezes apreciava me sentar na postura do l\u00f3tus completo, como Shakyamuni mas por fazer tanto zazen, finalmente acabei desenvolvendo hemorr\u00f3idas.<\/p>\n<p>&#8220;Neste ano tenho j\u00e1 sessenta e cinco anos de idade. Por causa da idade, minha mente j\u00e1 est\u00e1 ficando um pouco mais fraca e menos intensamente focalizada. Contudo, como vejo praticantes vindo de tantos lugares diferentes, continuo a ficar nesta montanha para os poder instruir e praticar junto deles. Especialmente sinto que os velhos monges de hoje em dia n\u00e3o conhecem o significado do Dharma buddhista.&#8221;<\/p>\n<p>Nyojo falava assim a seus disc\u00edpulos porque tinha uma profunda devo\u00e7\u00e3o ao Dharma e n\u00e3o porque quisesse receber quaisquer vantagens ou benef\u00edcios.<\/p>\n<p>Sobre Nyojo, a seguinte est\u00f3ria \u00e9 bem conhecida:&nbsp;Havia uma pessoa que se chamava Choteiko, um parente do imperador Neishu da Dinastia Sung que era o encarregado das tropas e das colheitas nas prov\u00edncias. Ele convidou meu falecido Mestre Nyojo para dar uma palestra e depois lhe deu dez mil moedas de prata por seus ensinamentos. Meu falecido Mestre disse ent\u00e3o a Choteiko:&nbsp;&#8220;Apenas porque me convidaste, desci de minha montanha e dei uma palestra sobre o Dharma correto que tem sido transmitido pelos buddhas e ancestrais. Mencionei <i>en passant<\/i> o significado profundo do nirvana e rezei tamb\u00e9m pelo bem estar de teu rec\u00e9m falecido pai. Contudo, de forma nenhuma posso aceitar este pagamento porque tal coisa n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para um monge. Eu te agrade\u00e7o muito por ter pensado em mim, mas n\u00e3o posso aceitar este dinheiro.&#8221;<\/p>\n<p>Choteiko, o diretor, disse: &#8220;Mestre, eu sou a pessoa mais respeitada dentre todos os parentes do imperador, e onde quer que eu v\u00e1, sou conhecido. N\u00e3o me faltam oportunidades para ganhar muito dinheiro e tesouros. Hoje rezaste por meu falecido pai e eu gostaria muito mesmo que aceitasses essas moedas como um oferenda para o meu pai. Ent\u00e3o porque n\u00e3o as aceitas? Por compaix\u00e3o, por um favor, aceite-as como um pequeno testemunho de minha gratid\u00e3o e ent\u00e3o eu me sentirei muito feliz.&#8221;<\/p>\n<p>Meu falecido Mestre disse ent\u00e3o:&nbsp;&#8220;Compreendo perfeitamente teus sentimentos e respeito tuas bon\u00edssimas inten\u00e7\u00f5es. Contudo, tenho eu c\u00e1 minhas raz\u00f5es, ent\u00e3o agora por favor me escutes cuidadosamente.&#8221;<\/p>\n<p>O diretor disse, &#8220;Sou todo ouvidos.&#8221;<\/p>\n<p>Meu falecido Mestre disse: &#8220;Fico extremamente feliz porque compreendeste tudo que eu acabei de te explicar sobre a ess\u00eancia do ensinamento buddhista.&#8221;<\/p>\n<p>O diretor disse ent\u00e3o: &#8220;\u00c9 bem verdade, foi cheio do mais profundo significado e eu fiquei deveras entusiasmado de ter podido ouvi-la.&#8221;<\/p>\n<p>Meu falecido Mestre saiu-se ent\u00e3o com esta frase: &#8220;\u00c9s t\u00e3o inteligente que quase hesito em falar diante de ti. Mas gostaria de te perguntar uma s\u00f3 coisinha a mais. Creio que tens uma compreens\u00e3o muito boa, ent\u00e3o por favor repita para mim o ensinamento que acabei de te dar. Se puderes me repetir <i>ipse literis <\/i>o que acabei de te falar, receberei neste caso as dez mil moedas. Se n\u00e3o puderes, deves ficar com teu dinheiro.&#8221;<\/p>\n<p>O diretor, sem uma pausa que fosse, replicou: &#8220;Me parece que est\u00e1s bem e estou feliz por ti.&#8221;<\/p>\n<p>Meu Mestre disse:&nbsp;&#8220;Isto \u00e9 apenas uma parte de tudo aquilo que eu te disse a um pouco atr\u00e1s. Foi tudo que ouviste de mim?&#8221;<\/p>\n<p>O diretor neste momento hesitou um pouco e meu Mestre arrematou a conversa da seguinte maneira: &#8220;N\u00f3s rezaremos por teu falecido pai. S\u00f3 pegaremos as moedas para fazer a oferenda durante a cerim\u00f4nia e em seguida as devolveremos a ti.&#8221;<\/p>\n<p>Com isto meu falecido Mestre fez men\u00e7\u00e3o de partir e se despediu. O diretor lhe disse enquanto se despedia: &#8220;N\u00e3o sinto pena de n\u00e3o ter podido compreender totalmente teu ensinamento; o que sinto mais, \u00e9 a felicidade de ter podido te conhecer.&#8221;<\/p>\n<p>Monges e leigos de todas as partes e meios de vida elogiavam a uma s\u00f3 voz o Mestre. Esta est\u00f3ria pode ser encontrada no di\u00e1rio de Hei que era o monge assistente de Nyojo. Hei comentando esta est\u00f3ria, disse o seguinte: &#8220;Nunca dantes hav\u00edamos visto um velho Mestre que n\u00e3o aceitasse dez mil moedas.&#8221;<\/p>\n<p>E meu Mestre disse: &#8220;Contemplar e aceitar ouro, prata e jade \u00e9 ser o mesmo que a lama. Mesmo que te desse moedas de ouro e prata, apesar de parecerem ouro e prata, n\u00e3o as devemos aceitar. \u00c9 este o verdadeiro caminho de um monge aut\u00eantico.&#8221;<\/p>\n<p>Esta a\u00e7\u00e3o a podemos encontrar em nosso Mestre apenas e em mais nenhum. Meu Mestre costumava dizer o seguinte: &#8220;Durante os cem anos passados, ningu\u00e9m gastou toda sua vida somente em zazen. Espero que todos aceitem minha pr\u00e1tica incessante como suas mesmas e se concentrem no zazen.&#8221;<\/p>\n<p>Um homem chamado Dosho, que era anteriormente um tao\u00edsta, de Menshu em Shihoku, visitou Nyojo, junto com cinco outras pessoas e lhe disse o seguinte daquela feita: &#8220;Gostar\u00edamos de praticar contigo, muito honrado Mestre Zen. Prometo-te com minha vida toda que se nos ordenares, jamais retornaremos novamente a nossa cidade natal.&#8221;<\/p>\n<p>Meu falecido Mestre ficou especialmente feliz de ouvir isto e lhes permitiu que se juntassem ao monast\u00e9rio. Nyojo os colocou para fazer zazen e samu, exatamente como todos os demais monges, tendo em seguida os colocado pr\u00f3ximos \u00e0s monjas em hierarquia. A\u00ed est\u00e1 realmente um tratamento excepcional.<\/p>\n<p>Um monge chamado Zennyo de Fukushu tamb\u00e9m fez uma promessa a Nyojo: &#8220;N\u00e3o voltarei pelo resto de minha vida para minha cidade natal, somente me concentrarei no Grande Caminho dos buddhas e ancestrais.&#8221;<\/p>\n<p>Haviam muitos tais praticantes ao redor de meu falecido Mestre na China. Nenhum outro Mestre Zen, apenas meu falecido Mestre manteve a pr\u00e1tica incessante num monast\u00e9rio Zen durante a Dinastia Sung. Contudo, aqui no meu pa\u00eds, o Jap\u00e3o, as pessoas n\u00e3o possuem uma tal tend\u00eancia. Que coisa mais lastim\u00e1vel. Apesar de praticar o Caminho buddhista, sinto que os demais devem se sentir envergonhados de n\u00e3o o fazerem. Devemos calmamente refletir sobre a brevidade da vida, tomar conhecimento de algumas palavras dos buddhas e ancestrais e basear nossa pr\u00e1tica da vida inteira nestas palavras verdadeiras. Este \u00e9 o aprendizado b\u00e1sico da verdade buddhista e isto \u00e9 a pr\u00e1tica e a compreens\u00e3o dentro do Caminho buddhista.<\/p>\n<p>Os buddhas e ancestrais possuem apenas um corpo e mente de tal forma que at\u00e9 mesmo uma s\u00f3 palavra faz parte deste corpo e mente \u00fanicos. Ao estudarmos o corpo e mente dos buddhas e ancestrais, isto nos ajudar\u00e1 a colocar este Caminho em nosso pr\u00f3prio corpo e mente. Ao obtermos o Caminho em nosso corpo e mente, ent\u00e3o finalmente nossa vida se tornar\u00e1 a verdadeira vida. Desta forma obtemos o Caminho bem no \u00e2mago de nossos corpos e assim nos tornamos buddhas e ancestrais e at\u00e9 mesmo os podemos superar. \u00c9 isto o que mesmo uma s\u00f3 ou at\u00e9 duas palavras sobre pr\u00e1tica incessante querem dizer. Assim aqueles que praticam n\u00e3o devem se apegar ao status, lucro ou fortuna, nem devem ficar indo de um lado para o outro. Assim fazendo ser\u00e3o capazes de obter a pr\u00e1tica incessante dos buddhas e ancestrais e a transmitir para outros.<\/p>\n<p>Aqueles que se desfizeram do status e lucro devem prosseguir na pr\u00e1tica incessante dos buddhas e ancestrais como suas pr\u00f3prias pr\u00e1ticas incessantes, sem qualquer tipo de apego.<\/p>\n<div STYLE=\"text-align:right\"><font SIZE=\"1\"><i><b>Extra\u00eddo do site www.dharmanet.com.br\/<\/b><\/i><\/font> <\/div>\n<\/div>\n<p><\/font> <\/p>\n<hr \/><\/div>\n<p><\/font> <\/p>\n<div STYLE=\"text-align:right\"><a HREF=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gy\u00f4ji &#8211; Pr\u00e1tica Incessante de Eihei Dogen Zenji Cap\u00edtulo 66 do Sh\u00f4b\u00f4genz\u00f4Adaptado da tradu\u00e7\u00e3o do monge Ryokyu Marcos Beltr\u00e3o. Por certo que no Grande Caminho dos buddhas e ancestrais existe a pr\u00e1tica suprema e incessante, infindavelmente. 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