{"id":6637,"date":"2020-07-02T19:22:12","date_gmt":"2020-07-02T21:22:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=6637"},"modified":"2020-07-02T19:22:12","modified_gmt":"2020-07-02T21:22:12","slug":"uji","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/uji\/","title":{"rendered":"Uji"},"content":{"rendered":"<p><font FACE=\"Verdana\" SIZE=\"2\"><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:justify\">\n<a NAME=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/dogen.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/dogen.jpg\" alt=\"\" width=\"199\" height=\"253\" class=\"alignleft size-full wp-image-1276\" \/><\/a><br \/>\n<font FACE=\"Verdana\" SIZE=\"2\"><br \/>\n<a NAME=\"inicio\"><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:center\"><font SIZE=\"4\"><b>UJI<\/b><\/font><\/div>\n<p><\/a><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:right\"><font SIZE=\"1\"><i><b>de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/eihei-dogen\/\"><font SIZE=\"1\">Eihei Dogen Zenji <\/font><\/a><\/b><\/i><\/font><\/div>\n<p><\/p>\n<table WIDTH=\"100%\" BORDER=\"0\" CELLSPACING=\"0\" CELLPADDING=\"0\">\n<tr>\n<td WIDTH=\"30\"><\/td>\n<td>\n<div STYLE=\"text-align:justify\"><font FACE=\"VERDANA\" SIZE=\"1\" COLOR=\"#000080\"><i><b>Desde o momento em que a teoria da relatividade postulou o tempo como a quarta dimens\u00e3o do espa\u00e7o, fil\u00f3sofos, assim como f\u00edsicos te\u00f3ricos, come\u00e7aram a ocupar-se novamente com este fen\u00f4meno que n\u00f3s chamamos de &#8220;tempo&#8221;.<br \/>\nMotivados pela mesma raz\u00e3o, japan\u00f3logos passaram a traduzir o tratado &#8220;UJI&#8221; do fil\u00f3sofo japon\u00eas e Mestre Zen Eihei Dogen (linhagem Soto Zen), que trata sobre a quest\u00e3o do tempo. No entanto, a maioria das tradu\u00e7\u00f5es do texto japon\u00eas apareceu em l\u00edngua inglesa. Com a exce\u00e7\u00e3o de algumas tradu\u00e7\u00f5es particulares, ainda n\u00e3o existe um original em l\u00edngua portuguesa deste texto, que esteja acompanhado de coment\u00e1rios voltados a facilitar a compreens\u00e3o deste tema dif\u00edcil.  A presente tradu\u00e7\u00e3o para a l\u00edngua portuguesa foi feita por Gehrard Kahner e Alfredo Aveline, em maio de 1988. O leitor, formado sob a cultura greco-romana, talvez ache uma certa &#8220;falta de l\u00f3gica&#8221; neste tratado de Dogen, mas o leitor mais cuidadoso se achar\u00e1 confrontado com a quest\u00e3o de se a l\u00f3gica aristot\u00e9lica \u00e9 a \u00fanica l\u00f3gica v\u00e1lida, ou se existem tamb\u00e9m outras formas de l\u00f3gica igualmente v\u00e1lidas, mas baseadas na intui\u00e7\u00e3o.<\/b><\/i><\/font><\/div>\n<\/td>\n<td WIDTH=\"30\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<div STYLE=\"text-align:justify\">\n<p>O texto original foi escrito pelo Mestre Dogen. Visto que nem o japon\u00eas e nem o chin\u00eas s\u00e3o l\u00ednguas do grupo indo-europeu, uma tradu\u00e7\u00e3o literal, ou seja, s\u00edmbolo por s\u00edmbolo, seria incompreens\u00edvel.  Depois de uma longa pesquisa entre as tradu\u00e7\u00f5es acess\u00edveis, existentes em l\u00edngua inglesa, foi escolhida a vers\u00e3o de N.A.Waddell, a qual foi publicada na revista &#8220;New Series&#8221; em maio de 1979.  Existem tamb\u00e9m outras tradu\u00e7\u00f5es, algumas de alto valor ling\u00fc\u00edstico, mas de interesse mais espec\u00edfico para pessoas com conhecimento da l\u00edngua japonesa. Waddell mesmo n\u00e3o pode evitar o uso de s\u00edmbolos chineses como recurso para fundamentar sua vers\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o do texto japon\u00eas em l\u00edngua japonesa e n\u00e3o, como foi costume nesta \u00e9poca, no estilo cl\u00e1ssico chin\u00eas. O presente tratado n\u00e3o servia somente como base para uma apresenta\u00e7\u00e3o oral aos monges, mas especialmente para um estudo mais profundo pelos monges que viviam no mosteiro de Dogen.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo UJI consiste de dois caracteres chineses: U (japon\u00eas) ou Yu (chin\u00eas), significando &#8220;ter, existir, haver, ser, a Exist\u00eancia, o Ser&#8221;; e Ji (japon\u00eas) ou Shih (chin\u00eas), significando &#8220;tempo&#8221;.<\/p>\n<p>A express\u00e3o UJI tem um sentido amb\u00edguo. Usado na conversa\u00e7\u00e3o pode significar &#8220;em algum tempo&#8221; ou &#8220;num certo tempo&#8221;, ou ainda &#8220;\u00e0s vezes&#8221;. Dogen Zenji, no entanto, usa esta express\u00e3o como dois substantivos geminados, o que resulta no sentido &#8220;Ser-Tempo&#8221;, sentido este j\u00e1 confirmado na primeira frase do pr\u00f3prio texto.<\/p>\n<p>No decorrer de sete s\u00e9culos formou-se no Jap\u00e3o uma consider\u00e1vel literatura de coment\u00e1rios sobre este tratado. Para facilitar a compreens\u00e3o, foram intercalados coment\u00e1rios entre os diversos par\u00e1grafos do texto.<\/p>\n<p>O tratado come\u00e7a com oito versos, atribu\u00eddos a um antigo mestre chin\u00eas, mas provavelmente foram compostos por Dogen Zenji mesmo.<\/p>\n<p>&#8220;Um velho mestre falou:<br \/>\nO Ser-Tempo se ergue nos mais altos picos das montanhas;<br \/>\nO Ser-Tempo se move no mais profundo leito dos oceanos;<br \/>\nO Ser-Tempo tem tr\u00eas cabe\u00e7as e oito bra\u00e7os;<br \/>\nO Ser-Tempo tem a altura de oito ou dezesseis p\u00e9s;<br \/>\nO Ser-Tempo \u00e9 um bast\u00e3o de mestre (Hossu);<br \/>\nO Ser-Tempo \u00e9 um pilar ou uma lanterna de pedra;<br \/>\nO Ser-Tempo \u00e9 Jos\u00e9 ou Jo\u00e3o (ou tu ou eu);<br \/>\nO Ser-Tempo \u00e9 a grande terra e os c\u00e9us acima.&#8221;<\/p>\n<p>O &#8220;Ser-Tempo&#8221; significa tempo; sendo tempo, \u00e9 ser Exist\u00eancia, e ser \u00e9 totalmente tempo. A forma de uma est\u00e1tua dourada de Buda com dezesseis p\u00e9s de altura \u00e9 tempo; porqu\u00ea ela \u00e9 tempo, ela tem a gloriosa radi\u00e2ncia dourada do tempo. Voc\u00eas devem aprender a ver esta gloriosa radi\u00e2ncia nas vinte e quatro horas de seu dia. O dem\u00f4nio Asura {guardi\u00e3es da entrada do templo}, com tr\u00eas cabe\u00e7as e oito bra\u00e7os, \u00e9 tempo; e por ser tempo, n\u00e3o pode, de modo algum, ser diferente das vinte e quatro horas de seu dia. Apesar de voc\u00eas nunca terem avaliado a extens\u00e3o ou brevidade das vinte e quatro horas, sua rapidez ou lentid\u00e3o, voc\u00eas mesmo assim as chamam &#8220;as vinte e quatro horas&#8221;.  Como as evid\u00eancias de suas idas e vindas s\u00e3o \u00f3bvias, voc\u00eas n\u00e3o chegam a duvidar delas. Mas mesmo que voc\u00eas n\u00e3o venham a ter d\u00favidas sobre elas, isto n\u00e3o quer dizer que voc\u00eas realmente as conhe\u00e7am. Visto que as d\u00favidas de um ser sensorial \u00e0 respeito das muitas e variadas coisas desconhecidas \u00e0 ele, s\u00e3o naturalmente vagas e indefinidas, o curso que suas d\u00favidas tomam provavelmente n\u00e3o coincidir\u00e1 com estas presentes d\u00favidas. E ainda, as pr\u00f3prias d\u00favidas, ao final de tudo, s\u00e3o nada mais do que tempo.<\/p>\n<p>N\u00f3s colocamos o eu em uma estrutura Uma matriz de elementos independentes e fazemos dela o mundo inteiro. Voc\u00eas devem ver todas as v\u00e1rias coisas de todo o mundo como muitos v\u00e1rios tempos. Estas coisas n\u00e3o perturbam umas \u00e0s outras mais do que os v\u00e1rios tempos perturbam uns aos outros.<\/p>\n<p>Um bamb\u00fa \u00e9 um bamb\u00fa ou um &#8220;bamb\u00fa-tempo&#8221;, e n\u00e3o impede que um pinheiro seja &#8220;pinheiro-tempo&#8221;. Noite \u00e9 noite e n\u00e3o impede o dia de ser dia. <\/p>\n<p>Por isto, h\u00e1 o surgimento da mente ao mesmo tempo, e isto \u00e9 o surgimento do tempo da mesma mente. Assim se d\u00e1 tamb\u00e9m com a pr\u00e1tica e etapas do caminho. N\u00f3s colocamos nosso eu em uma estrutura e o vemos. Tal \u00e9 a raz\u00e3o fundamental do Caminho: que nosso eu \u00e9 tempo.<\/p>\n<p>Voc\u00eas deveriam estudar e aprender que por causa desta raz\u00e3o intr\u00ednseca, existem mir\u00edades de fen\u00f4menos e inumer\u00e1veis pequenas coisas que aparecem e desaparecem por todo o planeta, e cada uma das coisas e cada uma das formas existe por si mesma em toda a terra. A compreens\u00e3o desta din\u00e2mica \u00e9 o in\u00edcio da pr\u00e1tica budista. Quando voc\u00eas atingem o n\u00edvel de &#8220;ver as coisas como elas s\u00e3o&#8221;, Tathata, at\u00e9 mesmo um pequeno objeto individual \u00e9 uma forma \u00fanica. As formas s\u00e3o entendidas e n\u00e3o entendidas. As coisas s\u00e3o discriminadas e n\u00e3o discriminadas.<\/p>\n<p>Como o tempo neste exato momento \u00e9 tudo o que sempre \u00e9, cada ser-tempo \u00e9, sem exce\u00e7\u00e3o, o tempo inteiro. Um ser-coisa e um ser-forma, ambos s\u00e3o tempos.<\/p>\n<p>Existe somente o presente imediato, no qual todo o tempo e todo o ser est\u00e1 englobado. <\/p>\n<p>Isto \u00e9 verdadeiro para mim e para todas as outras coisas tamb\u00e9m. <\/p>\n<p>Toda a exist\u00eancia, o mundo inteiro, existe no seu tempo pr\u00f3prio e em cada momento presente.  Reflitam: neste momento existe algum ser ou algo do mundo faltando em seu tempo presente, ou n\u00e3o? <\/p>\n<p>Naturalmente nada falta em qualquer momento presente. Dogen chama a aten\u00e7\u00e3o dos estudantes para que realizem a verdade de ser-tempo como sua pr\u00f3pria experi\u00eancia. Sem esta, a express\u00e3o ser-tempo seria uma frase oca com o estudante distinguindo-se de todo o mundo e de todo o tempo. <\/p>\n<p>Apesar disto, uma pessoa sustenta v\u00e1rias opini\u00f5es enquanto n\u00e3o est\u00e1 iluminada e precisa ainda aprender a doutrina do Buda. Ouvindo as palavras &#8220;ser-tempo&#8221; (Uji) E entendendo como &#8220;\u00e0s vezes&#8221;, ele pensa que em um momento o velho Buda torna-se um ser de tr\u00eas cabe\u00e7as, ou uma criatura de oito bra\u00e7os e em um outro momento torna-se um Buda de dezesseis p\u00e9s de altura. Ele imagina que isto \u00e9 igual a cruzar um rio ou uma montanha: ainda que o rio e a montanha possam ainda existir, &#8220;eu&#8221; agora j\u00e1 os cruzei, e &#8220;eu&#8221; neste momento presente resido em um bonito pal\u00e1cio.  Para ele o rio, a montanha e &#8220;eu&#8221;, s\u00e3o t\u00e3o distantes quanto o c\u00e9u da terra.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 apenas nesta dire\u00e7\u00e3o que se encontra a face verdadeira das coisas. Na \u00e9poca em que a montanha foi escalada e o rio foi cruzado, eu estava l\u00e1 Em tempo. O tempo tem que estar em mim.  Visto que eu estou l\u00e1, n\u00e3o pode ser que o tempo passe. <\/p>\n<p>Tempo n\u00e3o apenas passa &#8211; ainda que mesmo ent\u00e3o ele n\u00e3o seja separado do eu &#8211; mas ao mesmo tempo est\u00e1 contido em cada instante presente, mesmo aqui e agora em mim, e em cada um daqueles pontos do meu ser-tempo os outros tempos est\u00e3o inclu\u00eddos. Ainda que meu instante presente seja sempre um ponto na passagem do tempo, este ponto \u00fanico inclui os outros pontos passados e futuros.<\/p>\n<p>Quando o tempo n\u00e3o \u00e9 considerado como uma modalidade de ir-e-vir, ent\u00e3o este tempo na montanha \u00e9 o presente, agora mesmo, do ser-tempo. E ainda, quando o tempo assume a modalidade de ir e vir sobre si mesmo, o ser em mim do imediato agora do &#8220;ser-tempo&#8221; \u00e9 ser-tempo.  Sendo assim, n\u00e3o \u00e9 que o tempo de subir a montanha ou de cruzar o rio engole o tempo do pal\u00e1cio bonito? N\u00e3o \u00e9 que aquele tempo segrega este tempo? <\/p>\n<p>Nestes tr\u00eas \u00faltimos par\u00e1grafos Doguen compara a vis\u00e3o comum (n\u00e3o-iluminada) do tempo com outros aspectos do tempo. A vis\u00e3o comum mostra uma compreens\u00e3o dual\u00edstica do eu e das coisas como entidades permanentes e independentes. O tempo n\u00e3o apenas passa. O tempo n\u00e3o est\u00e1 separado do eu, mas ao mesmo tempo est\u00e1 contido em cada instante presente, aqui e agora em mim. E em cada um daqueles pontos do meu Ser-Tempo todos os outros tempos est\u00e3o contidos. Ainda que meu instante presente seja sempre um ponto na passagem do tempo, este ponto inclui sempre todos os outros pontos do passado e do futuro. Realmente, Ser-Tempo apresenta os dois aspectos, vir-e-ir bem como n\u00e3o-vir e n\u00e3o-ir. Assim, o tempo n\u00e3o passa, pois o tempo passado (nas montanhas), o que foi meu tempo, bem como o tempo presente o qual \u00e9 tamb\u00e9m meu tempo; sendo que nunca estou separado do tempo, est\u00e3o ambos aqu\u00ed e agora em mim. <\/p>\n<p>Qualquer tempo (ser) sempre cont\u00e9m um princ\u00edpio de auto-afirma\u00e7\u00e3o, no qual todos os outros s\u00e3o negados, e um princ\u00edpio de auto-nega\u00e7\u00e3o no qual todos os outros tempos s\u00e3o afirmados. O tempo na montanha engole (nega) o tempo no pal\u00e1cio bonito e manifesta-o (afirma-o). A auto-identidade desta contradi\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre presente no Ser-Tempo do agora. O tempo presente engole todo o tempo do ser passado bem como o tempo do ser futuro e manifesta-os. Assim existe uma constante conflu\u00eancia do passado e futuro no presente.<\/p>\n<p>A criatura com tr\u00eas cabe\u00e7as e oito bra\u00e7os \u00e9 tempo de ontem. O buddha de dezesseis p\u00e9s de altura \u00e9 tempo de hoje. N\u00e3o menos correto, a natureza da verdade deste ontem e hoje se baseia no mesmo tempo no qual voc\u00eas v\u00e3o diretamente para as montanhas e olham em torno para a mir\u00edade de picos &#8211; desta forma n\u00e3o existe qualquer transcorrer. Assim, mesmo aquela criatura com tr\u00eas cabe\u00e7as e oito bra\u00e7os faz uma passagem como meu ser-tempo. Embora pare\u00e7a que isto \u00e9 l\u00e1 fora longe daqui, \u00e9 o tempo agora mesmo.<\/p>\n<p>Por isto, pinheiros s\u00e3o tempo. O mesmo com os bamb\u00fas. Voc\u00eas n\u00e3o deveriam entender que &#8220;escoar&#8221; \u00e9 a \u00fanica peculiaridade inerente ao tempo. Se tempo fosse somente este &#8220;fluir&#8221;, deveriam ocorrer falhas (intervalos). Voc\u00eas deixam de ter a experi\u00eancia da passagem do ser-tempo e de ouvir a voz de sua verdade porque voc\u00eas aprendem somente que tempo \u00e9 alguma coisa que flui. O ponto essencial \u00e9: cada ser inteiro no mundo inteiro \u00e9, \u00e0 cada instante, um tempo independente, at\u00e9 mesmo quando formam uma s\u00e9rie cont\u00ednua. Portanto, como eles s\u00e3o ser-tempo, eles s\u00e3o meu ser-tempo. <\/p>\n<p>Ser-tempo tem a caracter\u00edstica de uma passagem de momentos em s\u00e9rie: passa de hoje para amanh\u00e3, passa de hoje para ontem, passa de ontem para hoje, passa de hoje para hoje, passa de amanh\u00e3 para amanh\u00e3. Isto \u00e9 porque a passagem em momentos \u00e9 uma caracter\u00edstica do tempo.  Tempo passado e tempo presente n\u00e3o se superp\u00f5em ou se amontoam em uma fila, por\u00e9m Ching-yuan \u00e9 tempo, Huang-po \u00e9 tempo. Ma-tsu e Shih-t&#8217;ou s\u00e3o tamb\u00e9m tempos. Como o eu e o outro, ambos s\u00e3o tempo, pr\u00e1tica e compreens\u00e3o s\u00e3o tempos, entrar na lama e entrar na \u00e1gua. <\/p>\n<p>Participar da vida cotidiana, \u00e9 igualmente tempo. O mundo com todos seus tempos e seres (exist\u00eancia), presentes e futuros, passa em mim como o ser-tempo de meu agora imediato. Todos os seres no universo existem como tempo; tempo \u00e9 o verdadeiro rosto deles. Para mim e para cada um destes inumer\u00e1veis ser-tempos pode-se dizer &#8220;meu&#8221; ser-tempo.<\/p>\n<p>O movimento do tempo no seu sentido aut\u00eantico como ser-tempo ocorre nunca deixando o instante presente. Isto \u00e9 uma ocorr\u00eancia de &#8220;agoras&#8221;, manifestando-se &#8220;descontinuamente&#8221; como est\u00e1gios independentes. Esta passagem em s\u00e9rie, entendida do ponto de vista do ser-tempo, \u00e9 assim uma continuidade descont\u00ednua destes est\u00e1gios, cada um separado do &#8220;antes&#8221; e do &#8220;depois&#8221; e cada um independente de outros &#8220;ser-tempos&#8221;, mas incluindo todos eles em si-mesmo. Na passagem em s\u00e9rie o ser-tempo se move completamente livre e irrestrito. Cada um dos mestres Zen mencionados acima, \u00e9 ser-tempo, separado por\u00e9m id\u00eantico.<\/p>\n<p>Apesar de que as opini\u00f5es que o homem comum e n\u00e3o-iluminado sustenta assim como as causas para estas opini\u00f5es sejam o que o homem comum realmente pode ver, isto n\u00e3o \u00e9 a Lei do homem n\u00e3o-iluminado; isto \u00e9 apenas a Lei que temporariamente o faz ver assim. Uma vez que ele considera que este tempo, este &#8220;ser&#8221; n\u00e3o \u00e9 a Lei, ele considera que o corpo dourado do Buda de 16 p\u00e9s de altura n\u00e3o \u00e9 ele mesmo. Sua tentativas de escapar, dizendo: &#8220;Eu n\u00e3o sou o buda dourado de 16 p\u00e9s de altura&#8221;, s\u00e3o elas mesmas como tal partes do ser-tempo tamb\u00e9m. Isto \u00e9 o &#8220;Olha! Olha!&#8221; para aqueles que ainda n\u00e3o perceberam isto. <\/p>\n<p>A exclama\u00e7\u00e3o &#8220;Olha! Olha!&#8221; \u00e9 uma alus\u00e3o ao antigo mestre Rinzai que costumava pressionar seus disc\u00edpulos a ver a realidade diretamente em lugar de usar dedu\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas.<\/p>\n<p>O fato que cavalos e carneiros s\u00e3o estruturados como o s\u00e3o agora em todo o mundo \u00e9 tamb\u00e9m devido ao est\u00e1gio de cada coisa como elas s\u00e3o no seu pr\u00f3prio momento de passagem, ascendendo e descendo. Ratos s\u00e3o ratos e tigres s\u00e3o tigres. Seres sensoriais s\u00e3o tempo e Budas tamb\u00e9m. Este tempo realiza o mundo inteiro como sendo o asura com tr\u00eas cabe\u00e7as e oito bra\u00e7os, e realiza o mundo inteiro como sendo o Buda dourado de 16 p\u00e9s de altura. Assim, identificar o mundo inteiro com o mundo inteiro chama-se &#8220;penetrar exaustivamente&#8221;. <\/p>\n<p>O manifestar da corporifica\u00e7\u00e3o do Buda dourado com o corpo do grande Buda dourado, assim como o surgimento da mente, como a pr\u00e1tica, como a ilumina\u00e7\u00e3o e como o nirvana, isto \u00e9 tempo, isto \u00e9 ser. N\u00f3s nada mais fazemos do que &#8220;penetrar exaustivamente&#8221; o tempo inteiro como ser inteiro. Assim n\u00e3o resta mais coisa alguma.  Isto \u00e9: Tempo (ser) manifesta o mundo inteiro como si mesmo e nada fica de fora nesta interpenetra\u00e7\u00e3o exaustiva de todas as coisas.<\/p>\n<p>Mesmo a forma de compreens\u00e3o que aparece como erro crasso, \u00e9 ser. Num plano mais abrangente, os tempos antes e depois de quando se manifesta o erro crasso, s\u00e3o, ambos, juntamente com ele, momentos na passagem do ser-tempo. A pr\u00f3pria manifesta\u00e7\u00e3o vital das coisas como pontos moment\u00e2neos de uma continuidade descont\u00ednua, \u00e9 ser-tempo. Voc\u00eas n\u00e3o devem, por suas pr\u00f3prias manobras, fazer disto um &#8220;nada&#8221;, nem fazer disto for\u00e7osamente um &#8220;algo&#8221;.<\/p>\n<p>Voc\u00eas somente entendem o tempo como algo que apenas escoa e voc\u00eas n\u00e3o o entendem como algo ainda n\u00e3o discriminado. Apesar de nossas compreens\u00f5es serem tempo, n\u00e3o existe qualquer possibilidade de elas serem descritas por meio do tempo. Nunca houve algu\u00e9m que, entendendo o tempo como &#8220;vir e ir&#8221;, penetrou a ponto de ver o tempo como um Ser-Tempo elemento de uma s\u00e9rie descont\u00ednua. Que possibilidade t\u00eam ent\u00e3o voc\u00eas de, em um tempo, romper a barreira \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o total? Mesmo se houvesse algu\u00e9m que conhecesse isto, quem seria realmente capaz de dar uma descri\u00e7\u00e3o que preservasse sua experi\u00eancia? E mesmo sendo algu\u00e9m capaz de constantemente compreender tal descri\u00e7\u00e3o, ainda assim extern\u00e1-la seria imposs\u00edvel para ele que ficaria tateando ao tentar revelar sua face original.<\/p>\n<p>Suponhamos que algu\u00e9m julgasse ser capaz de descrever seu satori fundamental, a ele faltaria ainda a emancipa\u00e7\u00e3o total, na qual sua atividade inteira, ela mesma manifesta &#8220;seu ser-tempo&#8221; como o mundo e todo o tempo. Se algu\u00e9m tenta descrever suas intui\u00e7\u00f5es, logo compreende que sua descri\u00e7\u00e3o nunca poder\u00e1 reproduzir sua experi\u00eancia original. Quem fala n\u00e3o sabe, quem sabe n\u00e3o fala porque sabe que isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Deixados inteiramente ao ser-tempo dos n\u00e3o-iluminados, ambos, satori e nirvana, seriam ser-tempo em seu mero aspecto de &#8220;ir-e-vir&#8221;. Mas nem redes nem jaulas permanecem muito tempo. Restri\u00e7\u00f5es criadas pelas ilus\u00f5es da mente humana. Tudo \u00e9 a imediata manifesta\u00e7\u00e3o no presente, aqui e agora, do ser-tempo. Os reis e multid\u00f5es de devas, realmente presentes \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, s\u00e3o, mesmo agora, ser-tempo que apresenta meus esfor\u00e7os. E em todos os outros lugares do universo os inumer\u00e1veis ser-tempos na \u00e1gua e na terra est\u00e3o agora manifestando-se pelo esfor\u00e7o de minha for\u00e7a. Seres de toda forma e esp\u00e9cie, sendo tempo nas regi\u00f5es da escurid\u00e3o e da luz, s\u00e3o todos a imediata manifesta\u00e7\u00e3o do meu pleno esfor\u00e7o, modos passageiros de meu pleno esfor\u00e7o. Voc\u00eas devem aprender na pr\u00e1tica que sem o esfor\u00e7o do pr\u00f3prio eu, agora mesmo, nenhum ser ou coisa poderia imediatamente manifestar-se ou fazer uma passagem moment\u00e2nea.<\/p>\n<p>Voc\u00eas n\u00e3o devem interpretar esta passagem como um p\u00e9 de vento e um aguaceiro que se move de lugar para lugar. O mundo inteiro n\u00e3o \u00e9 imut\u00e1vel e im\u00f3vel, nem sem progresso e sem regresso &#8211; o mundo inteiro est\u00e1 passando de momento a momento. A passagem descont\u00ednua \u00e9 por exemplo como a primavera com todos seus muitos e variados sinais. Isto \u00e9 passar de momento a momento.  Voc\u00eas devem aprender na pr\u00e1tica que esta passagem descont\u00ednua acontece sem qualquer causa externa. Por exemplo, a passagem do tempo da primavera acontece invariavelmente durante a primavera. A passagem n\u00e3o \u00e9 a primavera, mas uma vez que \u00e9 a passagem do tempo da primavera, a passagem atinge o Caminho agora no tempo da primavera. Tudo isto voc\u00eas devem submeter a cuidadosos e repetidos exames. <\/p>\n<p>A passagem de momento a momento de todo o mundo n\u00e3o \u00e9 um movimento de um lugar ou tempo para outro, por\u00e9m o mundo n\u00e3o \u00e9 isento de movimento. A passagem do ser-tempo (o &#8220;eu&#8221; como o mundo inteiro e o tempo inteiro) \u00e9 como o &#8220;curso&#8221; do tempo da primavera passando pelo mundo. &#8220;Primavera&#8221; \u00e9 o nome circunstancialmente dado aos muitos e diversos sinais (como p\u00e1ssaros cantando, flores brotando, etc), os quais manifestam-se neste tempo e n\u00e3o em outro tempo.  Quando a primavera passa, nada existe que deixe de ser a primavera.<\/p>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p><\/font><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:right\"><a HREF=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p><\/font><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UJI de Eihei Dogen Zenji Desde o momento em que a teoria da relatividade postulou o tempo como a quarta dimens\u00e3o do espa\u00e7o, fil\u00f3sofos, assim como f\u00edsicos te\u00f3ricos, come\u00e7aram a ocupar-se novamente com este fen\u00f4meno que n\u00f3s chamamos de &#8220;tempo&#8221;. &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/uji\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1276,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25,40],"tags":[62,64],"class_list":["post-6637","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mestres","category-zen","tag-philip-kapleau","tag-yasutani-hakunn"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6637","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6637"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6637\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6638,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6637\/revisions\/6638"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1276"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6637"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6637"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6637"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}