{"id":6759,"date":"2020-07-06T13:04:32","date_gmt":"2020-07-06T15:04:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=6759"},"modified":"2020-07-06T13:04:32","modified_gmt":"2020-07-06T15:04:32","slug":"seis-palestras-darma","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/seis-palestras-darma\/","title":{"rendered":"Seis palestras-darma"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/MoriyamaDaigyo4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/MoriyamaDaigyo4.jpg\" alt=\"\" width=\"425\" height=\"640\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6755\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/MoriyamaDaigyo4.jpg 425w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/MoriyamaDaigyo4-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"> de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/horin-daigyo\/\">Daigyo Moriyama Rosh<\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">\n<p align=\"JUSTIFY\"> 13 de setembro, 1994<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Falarei hoje sobre Buda, que foi um pr&iacute;ncipe indiano e se rebelou contra as correntes religiosas de seu tempo, o hindu&iacute;smo e o bramanismo. Ele se insurgiu contra a hierarquia e o elitismo que existiam nelas. Como todas as religi&otilde;es, o budismo tem uma hist&oacute;ria c&iacute;clica: nasceu, se desenvolveu e se hierarquizou. E quando isto acontece com uma religi&atilde;o, ela perde sua vitalidade, perde o verdadeiro esp&iacute;rito do Dharma. Mas o Dharma continua existindo, com sua criatividade faz com que surjam novas tend&ecirc;ncias e abordagens religiosas, e assim se revitaliza.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Buda n&atilde;o fundou uma religi&atilde;o. Simplesmente passou a viver e atuar de outra maneira quando se iluminou. As pessoas, percebendo isto, come&ccedil;aram a segui-lo e a querer viver como ele. Quando chegou &agrave; China, o budismo foi aceito pelos imperadores, que constru&iacute;ram muitos templos, imagens, est&aacute;tuas, e assim o institucionalizaram. E o esp&iacute;rito do Dharma foi esquecido. A origem do zen est&aacute; em Bodidharma, que vindo da &Iacute;ndia encontrou essa situa&ccedil;&atilde;o, afastou-se dela e foi viver nas montanhas pouco povoadas. Os primeiros monges zen viviam procurando a autenticidade, o primitivo esp&iacute;rito do Dharma. Acho que os monges zen modernos tamb&eacute;m buscam a autenticidade. Eles s&atilde;o como novos hippies, anti-establishment, e por isso existe neles a energia do Dharma. <\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Eu tamb&eacute;m quero trabalhar assim. Recebi este estranho t&iacute;tulo de sokan, chefe do soto zen, n&atilde;o para tentar expandir o zen, mas para continuar com a minha pr&aacute;tica. E eu quero praticar, gosto da pr&aacute;tica, gosto de zazen e gosto de ajudar as pessoas que querem praticar. O ano passado, quando vim assumir meu templo na comunidade japonesa de S&atilde;o Paulo, surpreendi as pessoas. Penso que elas esperavam encontrar uma alta autoridade religiosa, ricamente vestida, com belas t&uacute;nicas, e me viram chegar com uma mochila nas costas. E eu continuo assim, vou de minha casa para o templo diariamente com a mochila nas costas, e as pessoas ficam espantadas comigo. Mas eu quero ser monge. E &eacute; por isso que gosto de Porto Alegre. Aqui encontrei este mesmo tipo de pr&aacute;tica. E apesar de ser um homem muito ocupado com quest&otilde;es administrativas, com dinheiro, com cerim&ocirc;nias e funerais para oficiar e um templo para cuidar, e mesmo tendo minha vida privada, venho a Porto Alegre e aqui estou novamente.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Gostaria de lembrar que existem tr&ecirc;s pontos essenciais no zen: a sabedoria, o samadi e os preceitos. Se a pr&aacute;tica for mantida, se fizermos zazen, naturalmente os preceitos ser&atilde;o seguidos e naturalmente a sabedoria vir&aacute; e ir&aacute; se aprofundando.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">14 de setembro, 1994<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ontem falei sobre Buda, hoje falarei sobre Dogen. <\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Dogen tem a mesma import&acirc;ncia, para os budistas japoneses, que Buda teve para o budismo na &Iacute;ndia. Ele come&ccedil;ou a ensinar h&aacute; 750 anos. Quando jovem, teve muitos mestres japoneses, mas nenhum o satisfez. Era um intelectual e os velhos budistas japoneses eram eruditos, mas faltava-lhes o verdadeiro esp&iacute;rito do zen. Os japoneses n&atilde;o liam o p&aacute;li nem o s&acirc;nscrito. Por isso, iam &agrave; China procurar ensinamentos traduzidos para o chin&ecirc;s. Dogen tinha 24 anos e estudava com um mestre da escola Tendai, em Kioto, quando resolveu abandonar tudo e ir procurar um professor de budismo na China. Suponho que atingiu a ilumina&ccedil;&atilde;o, reconhecida por seu mestre, e ent&atilde;o voltou para ensinar no Jap&atilde;o. E com a volta de Dogen, o budismo japon&ecirc;s foi ficando cada vez mais forte.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Naquela &eacute;poca existiam v&aacute;rias correntes budistas \u2014 terra pura, nichirem e outras \u2014 que se desenvolviam em torno de um sutra trazido da China e transformado em texto sagrado. Dogen trouxe da China uma abordagem diferente, que aprendeu com a genu&iacute;na pr&aacute;tica mon&aacute;stica do dia-a-dia. Como o Zuimonki-Shobogenzo est&aacute; para ser publicado em portugu&ecirc;s, voc&ecirc;s poder&atilde;o ler, em breve, os ensinamentos de Dogen sobre a vida mon&aacute;stica, anotados por seu disc&iacute;pulo Ejo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Voc&ecirc;s, estudantes de zen, conhecem e vivenciam a principal pr&aacute;tica da vida mon&aacute;stica, o zazen, e com ela conseguir&atilde;o atingir a ess&ecirc;ncia deste tipo de vida. Essa pr&aacute;tica ir&aacute; desenvolver todos os n&iacute;veis de sua atua&ccedil;&atilde;o, sua compaix&atilde;o, sua energia, sua intelig&ecirc;ncia e intui&ccedil;&atilde;o. Todas essas qualidades ser&atilde;o refinadas. Estou dizendo isso baseado na intui&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o sou um erudito, mas a pr&aacute;tica ir&aacute; melhorar a sua capacidade de adaptar-se, de estar alerta, atento e autoconfiante. Aos poucos, essa capacidade leva a uma forte integridade de car&aacute;ter e a um aprofundamento da sabedoria. Praticando a religi&atilde;o, cada um de voc&ecirc;s vai se tornar um ser humano cada vez mais completo.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">15 de setembro, 1994<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"> Hoje vou falar sobre os mosteiros zen do Jap&atilde;o e sobre como fui para o mosteiro de Eihei-ji depois que recebi a ordena&ccedil;&atilde;o de meu mestre. No soto zen existem v&aacute;rias regras, e quem deseja se ordenar monge deve seguir v&aacute;rias etapas de treinamento. Quando eu era estudante universit&aacute;rio de filosofia, n&atilde;o levava os estudos muito a s&eacute;rio. Estudava, mas n&atilde;o tinha talento especial para essa mat&eacute;ria. Meus professores vinham sempre com textos em ingl&ecirc;s, franc&ecirc;s, latim, grego, s&acirc;nscrito, mas nunca em japon&ecirc;s. Eu gostava de usufruir a vida, gostava de arte, de m&uacute;sica, de literatura, e assim passei pela universidade, mas quando me formei tive que tomar um rumo na vida. Estudando filosofia hindu e budismo, eu ficara muito interessado pelo budismo primitivo e o zen. <\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Comecei, ent&atilde;o, a pr&aacute;tica de zazen. Eu queria conhecer aquela pr&aacute;tica. Naquela &eacute;poca, existiam muitos grupos de zen, muitos mestres, mas nem todos eram bons mestres. No &uacute;ltimo ano da universidade visitei v&aacute;rios deles, at&eacute; que um amigo me levou a um, n&atilde;o muito famoso, mas que era o mestre que foi meu mestre. Meu primeiro encontro com ele me deixou uma impress&atilde;o muito forte. Nenhum dos outros mestres que eu conhecera era como ele. Seu templo era pobre, ele era um profundo conhecedor do Shobogenzo e praticava a disciplina estrita, os preceitos, o celibato, a mendic&acirc;ncia, e l&aacute; pude come&ccedil;ar a compreender o zen de Dogen, que era muito diferente de nossa vida moderna, era uma vida simples que eu n&atilde;o encontrara em nenhum outro lugar. Com meu mestre compreendi que este outro tipo de vida era poss&iacute;vel, que existia o tipo de vida descrito por Dogen. Decidi de repente ser seu disc&iacute;pulo, pedi que me aceitasse e ele concordou. Minha fam&iacute;lia foi contra essa decis&atilde;o. Disseram que eu n&atilde;o tinha sido um bom aluno, que n&atilde;o tinha sido um bom estudante, que eu estava louco. Mas continuei com minha escolha e pouco depois meu mestre me mandou para o tangaryo. (Antes de entrar para um mosteiro, deve-se ficar sete dias em uma pequena sala anexa, fazendo determinadas pr&aacute;ticas.) Antes, quando era estudante, eu lia at&eacute; tarde, ficava ouvindo m&uacute;sica, ia dormir &agrave;s tr&ecirc;s da manh&atilde;. No mosteiro minha vida se inverteu totalmente. L&aacute;, a disciplina era muito rigorosa, o regulamento muito estrito, eu dormia de quatro a cinco horas por noite e passei a acordar no hor&aacute;rio em que antes ia dormir. A lembran&ccedil;a que me ficou desse mosteiro &eacute; de que eu estava sempre com fome, sempre com sono e sempre trabalhando demais. O treinamento era muito duro e havia estranhas regras, como levantar &agrave;s tr&ecirc;s e ficar at&eacute; as dez da noite fazendo zazen. Podia-se ir ao banheiro e comia-se tr&ecirc;s vezes ao dia. Foi um teste dur&iacute;ssimo. Esse treinamento especial durava sete dias, mas o monge chefe me odiava e me fez fazer tr&ecirc;s dias a mais. Na &eacute;poca, meu zazen era muito ruim, zazen de diletante, em que as pernas doem tanto que a dor vai subindo at&eacute; o abdome, vai para o t&oacute;rax, depois para a cabe&ccedil;a e a&iacute; come&ccedil;a a doer o corpo inteiro.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Comecei a ter alucina&ccedil;&otilde;es, a ver coisas ao meu redor. Uma vez vi uma flor brotando e crescendo na minha frente. Ela ia crescendo aos poucos. Pensei que estava iluminado e fui contar para o monge chefe, que me deu uma forte bordoada com o kiosaku e disse: &#8220;Voc&ecirc; est&aacute; louco, isso n&atilde;o &eacute; ilumina&ccedil;&atilde;o.&#8221; Depois de dez dias desse treinamento, recebi autoriza&ccedil;&atilde;o para estudar normalmente no mosteiro. Mas eu me sentia enfraquecido, estranho, tonto. Um dia, lavando o rosto, vi refletida na &aacute;gua a face de um animal que parecia um lobo. Olhando melhor, percebi que era a minha face e que eu estava mudando. <\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">As refei&ccedil;&otilde;es no mosteiro eram arroz com gergelim e sal pela manh&atilde;, sopa de arroz com legumes ao meio dia e, &agrave; noite, sopa de massa com algumas verduras. Eu me sentia muito fraco e doente, como se estivesse convalescendo num hospital. Um dia, quando eu estava a ponto de desmaiar, o monge chefe me trouxe um pequeno copo com uma bebida deliciosa. Meu corpo estava dolorido e insens&iacute;vel e tive a sensa&ccedil;&atilde;o de nunca ter bebido nada t&atilde;o doce, t&atilde;o maravilhoso, como um n&eacute;ctar divino. Perguntei ao monge que bebida era aquela, e ele respondeu que era um pouco de &aacute;gua morna com a&ccedil;&uacute;car. &#8220;Ah&#8221;, pensei, &#8220;ent&atilde;o &eacute; isto o que estou bebendo&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Essas s&atilde;o apenas algumas das muitas experi&ecirc;ncias que tive em tangaryo. S&oacute; quis lhes falar sobre elas para mostrar como minha vida mudou, como houve uma grande transforma&ccedil;&atilde;o depois do meu encontro com o zen. Amanh&atilde; falaremos mais sobre o Darma.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">16 de setembro, 1994<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Depois de um ano em Eihei-ji, passei mais cinco anos em outro mosteiro, o Soji-ji, e ent&atilde;o meu mestre recomendou que eu fizesse um curso especial para ser mestre. Aos poucos, comecei a ensinar o zen e o zazen, e como est&aacute;vamos perto de Yokohama e de T&oacute;quio, apareciam muitos estudantes para visitar o templo e aprender zazen. Minha fun&ccedil;&atilde;o passou a ser a de me relacionar com pessoas de outros pa&iacute;ses. Percebi, ent&atilde;o, que havia entre os estrangeiros um grande interesse pelo budismo. O zen de Dogen come&ccedil;ou a me interessar cada vez mais, e percebi que havia algo de universal no budismo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ent&atilde;o fui visitar a &Iacute;ndia, a terra do Buda Sakiamuni, e visitei alguns lugares importantes em sua vida. Fui ao lugar onde ele nasceu, onde se iluminou, onde fez seu primeiro serm&atilde;o e onde morreu. Tive uma impress&atilde;o muito forte destes quatro lugares sagrados. Encontrei l&aacute; peregrinos de todas as partes do mundo e de todos os ramos do budismo: tibetanos, teravadas, chineses, pessoas de Cingapura, do Ceil&atilde;o, etc. E em nenhum lugar que visitei encontrei tantas pessoas interessadas no budismo como l&aacute;. Quero recomendar a voc&ecirc;s que visitem os lugares sagrados de Buda. Comecem a guardar um pouco de dinheiro para poderem fazer essas visitas. Tamb&eacute;m desejo, se estudarem Dogen, que visitem o Jap&atilde;o, Eihei-ji, mas penso que &eacute; mais importante visitar a &Iacute;ndia. Ao visitar o primeiro templo de Buda, senti uma grande tristeza porque ali encontrei apenas ru&iacute;nas, apenas os alicerces do que fora o templo. Agora h&aacute; poucos budistas na &Iacute;ndia, e eu me perguntei por qu&ecirc;. Depois da morte de Buda muitas coisas mudaram, e o budismo migrou para outros pa&iacute;ses. Claro que houve um motivo, por um longo tempo a &Iacute;ndia se tornou mu&ccedil;ulmana. E aquele sentimento de estranha tristeza ficou em mim, mas ent&atilde;o entendi que o pr&oacute;prio Buda ensinou a imperman&ecirc;ncia, e compreendi a situa&ccedil;&atilde;o da &Iacute;ndia. Compreendi que o budismo n&atilde;o existe mais l&aacute;, mas existe no Ocidente, na Am&eacute;rica Latina, no Brasil, aqui em Porto Alegre. Ent&atilde;o senti que estava tudo bem, que aquilo era apenas um sentimentalismo meu.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Hoje, na &Iacute;ndia, Buda &eacute; considerado apenas um santo, mas n&atilde;o aquilo que realmente foi, o maior de todos os seres de sua &eacute;poca. Para os indianos, ele &eacute; apenas uma entre tantas divindades de sua longa hist&oacute;ria religiosa. Hoje falei sobre minha primeira visita &agrave; &Iacute;ndia, que &eacute; um pa&iacute;s muito grande, muito interessante e muito religioso. Mais tarde, quero falar especificamente sobre zazen e sobre o seshin de amanh&atilde;.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">17 de setembro, 1994<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"> Estamos praticando em Porto Alegre e esta &eacute; uma experi&ecirc;ncia nova para mim. Nos pa&iacute;ses budistas o esp&iacute;rito do budismo vem se perdendo, e por isso falo que as religi&otilde;es nascem, crescem e depois decaem, como est&aacute; acontecendo no Jap&atilde;o de hoje. Em 1970, eu estava em San Francisco, na Calif&oacute;rnia, e via os americanos buscarem experi&ecirc;ncias diferentes, hippies praticando zazen, ioga e outras t&eacute;cnicas de medita&ccedil;&atilde;o. A impress&atilde;o que tenho &eacute; que aqui no Brasil se d&aacute; algo semelhante ao que assisti nos Estados Unidos. Claro que a situa&ccedil;&atilde;o atual do Brasil n&atilde;o &eacute; a mesma da Calif&oacute;rnia de ent&atilde;o. Estamos em 1994, muito mais internacionalizados, o transporte &eacute; mais f&aacute;cil, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o mais eficientes. Os brasileiros t&ecirc;m muita sorte. Eles est&atilde;o praticando o budismo. Hoje pela manh&atilde;, depois do zazen, quando ouvi cantar Dai, sai, ge dap-puku, por um momento me senti no Jap&atilde;o, porque todos cantavam em japon&ecirc;s. Ent&atilde;o lembrei que estava no Sanguen Dojo de Porto Alegre, fundado pelo reverendo Tokuda, que conheci trinta e tr&ecirc;s anos atr&aacute;s, na universidade. E senti que isto aqui deveria ser conservado. Esta &eacute; a minha id&eacute;ia do Brasil, onde existem tradu&ccedil;&otilde;es dos c&acirc;nticos para o portugu&ecirc;s mas voc&ecirc;s cantam em japon&ecirc;s, o que sugere liga&ccedil;&otilde;es muito fortes com o Jap&atilde;o. E tudo isso me faz pensar que voc&ecirc;s t&ecirc;m muita sorte. O Centro de Estudos Budistas aqui de Porto Alegre est&aacute; certamente criando um novo budismo. Penso que precisamos de dois tipos de energia para estudar o budismo, a primeira para os velhos pa&iacute;ses budistas, a segunda para pa&iacute;ses novos como o Brasil. E o budismo aqui tem um novo esp&iacute;rito, algo novo est&aacute; surgindo aqui, como vi acontecer na Calif&oacute;rnia na d&eacute;cada de 70 com Shunryu Suzuki Roshi, onde foi desenvolvido um budismo &uacute;nico num pa&iacute;s onde antes o budismo n&atilde;o existia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Nasci no Jap&atilde;o, pa&iacute;s de longa tradi&ccedil;&atilde;o budista. Aprendi com muitos mestres zen um budismo cheio de cerim&ocirc;nias, t&eacute;cnicas e outras coisas. Mas nos pa&iacute;ses novos sinto-me renovado, forte. Aqui existe uma energia que n&atilde;o encontro no Jap&atilde;o. L&aacute; tenho o meu templo, muitos disc&iacute;pulos, mas n&atilde;o &eacute; a mesma coisa. A energia aqui &eacute; uma energia nova.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Passei de 1970 a 1973 na Calif&oacute;rnia e voltei ao Jap&atilde;o. A experi&ecirc;ncia de tr&ecirc;s anos nos Estados Unidos me deu um grande impulso e eu quis come&ccedil;ar um novo Centro Zen Internacional no Jap&atilde;o. Assim, dezessete anos atr&aacute;s, constru&iacute; meu templo perto do Monte Fuji. Agora estou em Porto Alegre pela segunda vez e me sinto muito feliz em poder aprofundar o sentido do Darma com todos voc&ecirc;s.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Hoje recebi a not&iacute;cia de que voc&ecirc;s v&atilde;o iniciar trabalhos de constru&ccedil;&atilde;o para ampliar o zendo. Com o tempo, acho que voc&ecirc;s poderiam ter uma casa nas montanhas. Eu tive experi&ecirc;ncia com a constru&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s casas nas montanhas. A primeira delas foi no Jap&atilde;o, onde tenho amigos e algum apoio, e l&aacute; n&oacute;s compramos, perto do Monte Fuji, uma casa muito simples, sem eletricidade, sem telefone, sem &aacute;gua corrente, onde bebemos &aacute;gua no regato. Quando estou no Jap&atilde;o passo l&aacute; os fins-de-semana, com uma dezena de disc&iacute;pulos que t&ecirc;m de viajar uma hora e meia de trem, de T&oacute;quio &agrave; montanha, e depois subir a montanha. Os estrangeiros ficam l&aacute; mais tempo, de tr&ecirc;s a seis meses. Joshin Sensei, que esteve aqui em Porto Alegre, ficou l&aacute; quatro anos. Minha segunda experi&ecirc;ncia foi na Fran&ccedil;a, com Joshin. N&oacute;s n&atilde;o t&iacute;nhamos muito dinheiro e quer&iacute;amos um local n&atilde;o muito caro. Come&ccedil;amos a procurar pelas fazendas antigas, at&eacute; que encontramos uma casa, e os disc&iacute;pulos foram chegando. N&oacute;s a reconstru&iacute;mos por dentro, e isso levou muito tempo. Era uma casa de pedra, de trezentos anos, e este tipo de casa &eacute; dif&iacute;cil de reformar. Para recolocar uma janela s&atilde;o precisos tr&ecirc;s meses de trabalho. Eu gosto mais das casas de madeira, que s&atilde;o mais f&aacute;ceis de arrumar. As pessoas da Sanga querem ajudar no trabalho, elas pensam &#8220;Este &eacute; o meu dojo&#8221;, e todas trabalham voluntariamente. Isso foi o que vi acontecer no templo de Joshin.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Minha terceira experi&ecirc;ncia foi em San Francisco, em Oakland, perto da Universidade de Berkeley. Um amigo meu, o reverendo Akiba, quis construir um templo e decidiu faz&ecirc;-lo no estilo japon&ecirc;s. Precisava de um carpinteiro japon&ecirc;s especializado, porque estas constru&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m aspectos complicados, como os telhados curvos, que necessitam de pe&ccedil;as especiais. Muitas tiveram que ser feitas no Jap&atilde;o e remetidas para l&aacute;. Mas a experi&ecirc;ncia n&atilde;o foi t&atilde;o boa. O templo de estilo japon&ecirc;s &eacute; lindo e consumiu muito dinheiro, mas n&atilde;o pertence &agrave; paisagem americana. &Eacute; um pr&eacute;dio bom para os turistas tirarem fotos, como alguns restaurantes chineses que vi por aqui, com pr&eacute;dios em estilo chin&ecirc;s que destoam e n&atilde;o pertencem &agrave; cultura local. A experi&ecirc;ncia na Fran&ccedil;a foi diferente, &eacute; uma casa antiga que foi reformada, de fora ningu&eacute;m sabe que &eacute; um zendo. Mas l&aacute; dentro se pratica o Darma. N&atilde;o se preocupem com belos edif&iacute;cios, reconstruam casas velhas, sejam simples, o que importa n&atilde;o &eacute; o pr&eacute;dio em si, mas o Darma que se pratica dentro dele. <\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"> <b>18 de setembro, 1994<\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Estou muito feliz por estar aqui fazendo este seshin com voc&ecirc;s. Esta manh&atilde;, depois do zazen, compus um haiku:<\/p>\n<p><i><\/p>\n<p align=\"CENTER\">De manh&atilde; cedo<\/p>\n<p align=\"CENTER\">Ouvi o galo cantar<\/p>\n<p align=\"CENTER\">Senti o sil&ecirc;ncio<\/p>\n<p><\/i><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"> H&aacute; mais de 30 pessoas praticando o shikantaza, mas o canto do galo n&atilde;o nos atrapalha.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A impress&atilde;o desta minha segunda visita e da pr&aacute;tica com voc&ecirc;s &eacute; a de que somos velhos amigos no Darma. N&atilde;o posso expressar com palavras o sentimento de intimidade que me envolve. Isso significa que n&oacute;s temos a mesma mente, a mente que procura; que temos as mesmas id&eacute;ias e a mesma esperan&ccedil;a. Por isso tenho este sentimento de que temos a mesma vibra&ccedil;&atilde;o. O que quero dizer &eacute; que h&aacute; um tipo de fus&atilde;o, de integra&ccedil;&atilde;o de uns com os outros. Hoje &eacute; um dia muito precioso para voc&ecirc;s e para mim. N&oacute;s todos j&aacute; fizemos muitos seshins, mas aqui, hoje, h&aacute; mais de trinta pessoas e &eacute; muito importante para o Sanguen Dojo e para o Darma que estejamos todos aqui reunidos. <\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">H&aacute; trinta e dois anos eu era como voc&ecirc;s, estudante do zen, e tinha quest&otilde;es e objetivos que queria resolver. Naquela &eacute;poca eu n&atilde;o era um bom estudante, e nem bom budista. S&oacute; queria respostas para os meus problemas. Se voc&ecirc;s praticarem zazen sem objetivos pessoais, o interesse de voc&ecirc;s vai se dirigir para o aspecto religioso da pr&aacute;tica. Nesta minha visita, senti que os praticantes de zen est&atilde;o ficando mais fortes. Quando se estuda &eacute; preciso ter um bom professor. Voc&ecirc;s j&aacute; tiveram o reverendo Tokuda e tamb&eacute;m Narazaki Roshi, que esteve no Brasil. Um bom mestre nos d&aacute; uma confian&ccedil;a maior no Darma. Se praticarmos sem um bom mestre nossa caminhada ser&aacute; insegura, n&atilde;o ser&aacute; reta e ficaremos cambaleando pelo caminho. Com um mestre, podemos estudar budismo de uma maneira mais personalizada. Cada um tem necessidades diferentes. Como o m&eacute;dico que diagnostica individualmente cada doen&ccedil;a, o mestre diagnosticar&aacute; o problema de cada mente. O zazen tamb&eacute;m vai clarear a nossa compreens&atilde;o. Eu quero continuar a pr&aacute;tica com voc&ecirc;s.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Quando me tornei um monge budista, depois de compreender o Darma e receber a transmiss&atilde;o de meu mestre eu lhe disse: &#8220;Atingi meu objetivo, que bom, agora sou um monge budista&#8221;. Meu mestre respondeu: &#8220;Muito ao contr&aacute;rio, agora &eacute; que voc&ecirc; est&aacute; come&ccedil;ando, agora &eacute; o come&ccedil;o de tudo.&#8221; Quando perguntei quando iria me formar ele respondeu, &#8220;n&atilde;o existe formatura em budismo, voc&ecirc; nunca vai se formar, este &eacute; o caminho do bodisatva&#8221;. E assim &eacute; a pr&aacute;tica \u2014 sempre iniciando, somos sempre principiantes. E isso n&atilde;o &eacute; apenas para mim, para voc&ecirc;s &eacute; a mesma coisa, por isso temos que fazer o esfor&ccedil;o constante de um bodisatva, o esfor&ccedil;o que nunca termina. O que estou querendo dizer &eacute;: tentem tirar o maior proveito poss&iacute;vel do Darma, tentem usar bem o Darma.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Tenho, no Jap&atilde;o, muitos alunos de zen, pessoas s&eacute;rias, que viajam uma hora e meia de trem at&eacute; a montanha e outro tanto a p&eacute; para chegar ao templo. Mas noto que quando retornam a T&oacute;quio nem sempre s&atilde;o bons maridos, bons filhos, e que sua pr&aacute;tica em casa n&atilde;o &eacute; t&atilde;o s&eacute;ria quanto sua pr&aacute;tica no templo. Lembro de um aluno meu que gosta muito de beber sake e que me disse: &#8220;Zazen &eacute; bom para mim porque durante os dias em que estou aqui eu paro de beber. Quando volto para casa bebo e o gosto do sake &eacute; delicioso. &Eacute; por isso que venho a este templo&#8221;. Tudo bem, este &eacute; um problema pessoal deste aluno, &eacute; um questionamento que ele faz a si mesmo. Fico feliz porque o budismo &eacute; bom para ele. Mas a verdadeira pr&aacute;tica n&atilde;o &eacute; separar a experi&ecirc;ncia da vida cotidiana da experi&ecirc;ncia da pr&aacute;tica, pelo contr&aacute;rio, &eacute; aproximar as duas. O zazen leva as pessoas a transformarem o seu cotidiano. O que vou contar agora n&atilde;o &eacute; um bom exemplo do que estou dizendo. Um famoso mestre zen no Jap&atilde;o deu um seshin muito rigoroso, e ao terminar disse: &#8220;Que bom que terminou o seshin. Agora vamos fazer uma festa, agora vamos beber.&#8221;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">&Eacute; muito bom podermos ir at&eacute; o fim de um seshin, mas para mim o seu objetivo &eacute; podermos continuar a pr&aacute;tica no dia-a-dia. O sentimento que devemos ter &eacute; o de que na pr&oacute;xima vez faremos um seshin melhor ainda. Eu me sinto muito feliz, estou sentindo a alegria do Darma porque estou vendo um beb&ecirc; aqui no zendo. Meus pais poderiam ter me levado a um seshin quando eu era crian&ccedil;a. Mas eu comecei muito tarde no budismo, aos vinte e quatro anos, e por isso estou contente com esta presen&ccedil;a. Este fato &eacute; muito auspicioso, estou cheio da alegria do Darma. <\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Hoje foi o melhor dia que tive desde que estou no Brasil, h&aacute; um ano e quatro meses. Isto significa que a maneira como voc&ecirc;s praticam o Darma foi um verdadeiro presente para mim. Espero repetir esta experi&ecirc;ncia muitas vezes, e quero lhes dizer, para encerrar este seshin, muito obrigado. <\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<hr \/>\n<\/div>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>de Daigyo Moriyama Rosh 13 de setembro, 1994 Falarei hoje sobre Buda, que foi um pr&iacute;ncipe indiano e se rebelou contra as correntes religiosas de seu tempo, o hindu&iacute;smo e o bramanismo. Ele se insurgiu contra a hierarquia e o &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/seis-palestras-darma\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6756,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25,40],"tags":[16],"class_list":["post-6759","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mestres","category-zen","tag-thich-nhat-hanh"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6759","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6759"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6759\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6760,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6759\/revisions\/6760"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6756"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6759"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6759"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6759"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}