{"id":6786,"date":"2020-07-06T15:51:43","date_gmt":"2020-07-06T17:51:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=6786"},"modified":"2020-07-06T15:58:31","modified_gmt":"2020-07-06T17:58:31","slug":"a-plenitude-do-tempo-e-a-simultaneidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-plenitude-do-tempo-e-a-simultaneidade\/","title":{"rendered":"A plenitude do tempo e a simultaneidade"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Ryotan-Tokuda-Igarashi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Ryotan-Tokuda-Igarashi.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"363\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6768\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Ryotan-Tokuda-Igarashi.jpg 545w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Ryotan-Tokuda-Igarashi-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Ryotan-Tokuda-Igarashi-450x300.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 545px) 100vw, 545px\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Texto de <a href=\"dhttp:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/ryotan-tokuda-igarashi\/\">Ryotan Tokuda Igarashi<\/a><br \/>Texto extra\u00eddo de <br \/>www.geocities.com\/~bodisatva.<\/b><\/i><\/div>\n<hr \/>\n<p><dir><i>Esta \u00e9 a transcri\u00e7\u00e3o da segunda palestra do monge Tokuda sobre o pensamento comparado dos mestres Dogen e Eckart, pronunciada em Porto Alegre, outubro de 1989, como promo\u00e7\u00e3o do Centro de Estudos Budistas.<\/i><\/dir> <\/p>\n<p align=justify>O que significam as express\u00f5es &#8220;plenitude do tempo&#8221; e &#8220;simultaneidade&#8221;? Inicialmente vamos ver algumas cita\u00e7\u00f5es apresentadas por mestre Eckart com diferentes significados para a &#8220;plenitude do tempo&#8221;: S\u00e3o Paulo diz: &#8220;<i>Na plenitude do tempo, Deus mandou seu Filho.<\/i>&#8221; Santo Agostinho diz: &#8220;Esta plenitude do tempo consiste do seguinte: onde n\u00e3o existe mais tempo, isto \u00e9 a plenitude do tempo.&#8221; Um outro significado da plenitude do: Se algu\u00e9m tivesse habilidade e poder de ajuntar no momento presente o tempo e tudo o que aconteceu em seis mil anos ou o que acontecer\u00e1 at\u00e9 o fim dos tempos, agora, isto \u00e9 que seria a plenitude dos tempos.<\/p>\n<p align=justify>Em <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-palavra-secreta\/\">A Palavra Secreta<\/a> falei que para escutar a voz de Deus existem tr\u00eas tipos de obst\u00e1culos: a corporalidade, a temporariedade e a multiplicidade. Tomemos inicialmente a temporariedade. Nessa dimens\u00e3o de temporariedade \u00e9 que temos a vida e a morte, os pecados e todo o tipo de dificuldades. Para superar essas dificuldades todas temos ent\u00e3o que transcender a temporariedade. A &#8220;plenitude do tempo&#8221;, como compreendida por Santo Agostinho, significa &#8220;onde n\u00e3o h\u00e1 mais tempo&#8221;, ou seja, o tempo se torna a eternidade. Isso, essa dimens\u00e3o, \u00e9 a simultaneidade.<\/p>\n<p align=justify>Quem come\u00e7ou a empregar esta palavra nessa acep\u00e7\u00e3o foi Kierkegaard. Nesse contexto, . a express\u00e3o n\u00e3o significa que est\u00e3o ocorrendo eventos diferentes ao mesmo tempo. N\u00e3o. O sentido disso \u00e9 diferente. O sentido \u00e9 o da simultaneidade original, onde Jesus Cristo est\u00e1 com seu Pai; simultaneidade original transcendental. Sendo assim, par a superar a temporariedade \u00e9 preciso que se morra enquanto exist\u00eancia temporal. Todos querem viver, mas \u00e9 preciso morrer. De certo modo todos buscamos, o tempo todo, o caminho para chegar a esta eternidade, ao absoluto, \u00e0 paz eterna. Com este objetivo nos encaminhamos ao cristianismo, ao budismo, ou a outras filosofias e religi\u00f5es. Nos sentimos irresistivelmente atra\u00eddos e compelidos a encontrar esta eternidade.<\/p>\n<p align=justify>&#8220;Simultaneidade&#8221; \u00e9 isto, o lugar de onde viemos e para onde voltaremos. \u00c9 a origem e tamb\u00e9m o destino final de nosso ser. Este \u00e9 o sentido da express\u00e3o. H\u00e1 ainda a simultaneidade hist\u00f3rica, isto \u00e9, Jesus Cristo veio a este mundo, nasceu, e com trinta e tr\u00eas anos foi crucificado. Ele viveu como homem na terra, sofreu como n\u00f3s, mas ao mesmo tempo est\u00e1 transcendendo o temporal, est\u00e1 sempre presente.<\/p>\n<p align=justify>Quem busca o encontro com Deus, a realiza\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio, em primeiro lugar tem que ter a energia para buscar a dire\u00e7\u00e3o da simultaneidade original, o lugar onde est\u00e1 Deus, im\u00f3vel, quieto: esta \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o a percorrer. Mas, paradoxalmente, a dificuldade de chegar at\u00e9 l\u00e1 est\u00e1 justamente na pr\u00f3pria exist\u00eancia dessa vontade. Quando se tem essa vontade, h\u00e1 a id\u00e9ia de que &#8220;eu estou aqui e algo absoluto est\u00e1 l\u00e1&#8221;. Isto \u00e9, h\u00e1 a dualidade, h\u00e1 &#8220;eu e o absoluto&#8221;. Fica tudo dual, todas as coisas ficam separadas. \u00c9 preciso transcender isso, ou seja, na busca, a pr\u00f3pria vontade \u00e9 obst\u00e1culo para a realiza\u00e7\u00e3o. Mas se n\u00e3o h\u00e1 a vontade, como chegar l\u00e1? Indo, indo, indo e repentinamente reconhecendo que a vontade, ela mesma, \u00e9 um obst\u00e1culo. A\u00ed come\u00e7a-se a abandonar tudo. Em vez de buscar, \u00e9 ent\u00e3o necess\u00e1rio esquecer, abandonar, cortar, morrer, perder. Dentro da experi\u00eancia m\u00edstica, esse tipo de morte n\u00e3o pode faltar. Chama-se &#8220;via negativa&#8221;. A via negativa \u00e9 depois sucedida pela via positiva, mas primeiro sempre vem essa via negativa. O processo \u00e9 doloroso mas e necess\u00e1rio passar por ele pois a presen\u00e7a do ego e sempre muito forte.<\/p>\n<p align=justify>Para entrar no estado de simultaneidade \u00e9 necess\u00e1rio transcender a temporariedade, a corporalidade e a multiplicidade. Buda ganhou a ilumina\u00e7\u00e3o dia 8 de dezembro em Bodigaia. Sentado im\u00f3vel sob a \u00e1rvore Bodi, viu as estrelas na madrugada e disse, &#8220;que maravilhoso, todos os seres viventes tem a natureza de Buda&#8221;. E completou, &#8220;juntos est\u00e3o c\u00e9u e terra comigo mesmo, ao mesmo tempo&#8221;. Isto \u00e9 simultaneidade. Originalmente estamos iluminados junto com Buda. Quando Buda ganhou a ilumina\u00e7\u00e3o, n\u00f3s a ganhamos ao mesmo tempo. E com esta id\u00e9ia, a pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o, o treinamento budista, muda inteiramente.<\/p>\n<p align=justify>Geralmente a pessoa pensa que se pratica o caminho para colher frutos depois, que \u00e9 necess\u00e1rio treinar para alcan\u00e7ar aquele estado. Neste enfoque, treinamento e ilumina\u00e7\u00e3o s\u00e3o duas coisas diferentes. O tempo tamb\u00e9m \u00e9 visto dentro do sentido convencional, primeiro o treinamento, depois ilumina\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um obst\u00e1culo! H\u00e1 no entanto a outra id\u00e9ia: estamos praticando, treinando, meditando&#8230; Por qu\u00ea? Porque somos iluminados originalmente, por isso estamos sentando.<\/p>\n<p align=justify>Esta compreens\u00e3o surgiu originalmente ao mestre Dogen. Mestre Dogen defrontou-se com uma grande d\u00favida: <i>&#8220;Todos os budas dizem que somos intrinsecamente de uma natureza pura, sem qualquer m\u00e1cula. Por que ent\u00e3o treinar e realizar o caminho?&#8221; Consultou os mestres da \u00e9poca e nenhum soube responder, at\u00e9 que algu\u00e9m disse, &#8220;retornou da China recentemente um mestre zen japon\u00eas. E a \u00fanica pessoa que pode lhe dar a resposta&#8221;. A resposta que Dogen buscava n\u00e3o poderia ser verbal, mas deveria conduzir a realiza\u00e7\u00e3o, a entender mesmo, a sentir experimentando. A resposta tinha que conduzir \u00e0 pr\u00e1tica e \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o. Ele a encontrou no som dos vales e nas cores das montanhas, reconhecendo a impossibilidade de transmitir verbalmente essa experi\u00eancia. Sobre isso, assim falou: &#8220;Saibam que esta realiza\u00e7\u00e3o [quanto \u00e1s cores das montanhas e ao som dos vales] \u00e9 intransfer\u00edvel. Saibam que o Buda n\u00e3o p\u00f4de expor o sentido da apresenta\u00e7\u00e3o da flor e nem Hui Neng, ficando em seu lugar, p\u00f4de alcan\u00e7ar a medula de Bodidarma. Mas gra\u00e7as \u00e0s virtudes dos sons dos vales, \u00e0s formas das montanhas e \u00e0 terra imensa, todos os seres sensoriais realizam o caminho, ao mesmo tempo que Sakiamuni e todos os budas atingem o despertar no instante em que aparece a estrela da manh\u00e3. &#8220;<\/i><\/p>\n<p align=justify>&#8220;Os seres sensoriais realizam o caminho ao mesmo tempo que Sakiamuni&#8221;, diz mestre Dogen. Quando o Buda Sakiamuni viu aquela estrela da madrugada, ganhou a ilumina\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, todos os seres sensoriais realizaram o caminho perfeitamente. Ou seja, nada falta, apenas n\u00e3o percebemos isto. As cores das montanhas est\u00e3o presentes, assim como os sons dos vales, como o serm\u00e3o de Buda, como o corpo de Buda. Isso nunca esteve oculto, a dificuldade \u00e9 nossa. Temos vis\u00e3o c\u00e1rmica, limitada, condicionada e por isso n\u00e3o vemos; eis a\u00ed o sentido do treinamento e da purifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=justify>Qual \u00e9, no entanto, a raz\u00e3o da pr\u00e1tica, se estamos j\u00e1 iluminados? \u00c9 que sentando, j\u00e1 iluminado, cada um se encontra consigo mesmo. O momento da pr\u00e1tica do zazen \u00e9 ent\u00e3o a pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o. Mestre Eckart disse, <i>&#8220;A alma \u00e9 criada como se estivesse num ponto entre o tempo e a eternidade, tocando a ambos. Com os poderes mais elevados ela toca a eternidade, mas com os poderes mais baixos ela toca o tempo. Assim, observem, ela funciona no tempo n\u00e3o de acordo com o tempo, mas de acordo com a eternidade.&#8221;<\/i> Isto \u00e9 simultaneidade. O mundo \u00e9 visto como fuma\u00e7a, sombra, rel\u00e2mpago, algo transit\u00f3rio.<\/p>\n<p align=justify>Mas, e se voc\u00ea encontrar esta simultaneidade, onde Deus sempre est\u00e1 presente? Ent\u00e3o, \u00e9 preciso compreender que apesar de Jesus Cristo ter nascido em Nazar\u00e9, vivido e morrido aos 33 anos, n\u00f3s estamos em Porto Alegre, etc. Enquanto um lado toca o tempo, no mesmo instante o outro lado est\u00e1 tocando a eternidade. Ent\u00e3o percebemos nosso sofrimento, nossas dores, e compreendemos que um dia morreremos. Mas ao mesmo tempo em que compreendemos isto, ao mesmo tempo em que compreendemos este aspecto temporal da exist\u00eancia, percebemos que vivemos na eternidade. Neste caso, nascimento-e-morte perdem seu sentido anterior. Houve o encontro com Deus, a realiza\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 ao mesmo tempo budismo e cristianismo, assim \u00e9 que vejo.<\/p>\n<p align=justify>N\u00e3o estou falando em cristianismo e budismo para comparar estas duas religi\u00f3es; tampouco para comparar mestre Eckart e Dogenzenji. Claro, comparando podemos conhecer melhor a n\u00f3s mesmos. Ainda assim, o sentido que me move a estudar mestre Eckart e Dogenzenji n\u00e3o \u00e9 o de compara\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s dessas duas figuras tento entender o que \u00e9 o ser humano, e, afinal de contas, o que \u00e9 Deus e o que \u00e9 Buda, qual a origem do nosso ser; esta \u00e9 a raz\u00e3o do meu estudo. Quando encontramos Buda-Deus, encontramos a paz eterna, apesar de estarmos sujeitos a surgimento e desaparecimento.<\/p>\n<p align=justify>Segue mestre Eckart: <i>&#8220;Voc\u00ea sabe dizer me por que Deus \u00e9 Deus? Ele \u00e9 Deus porque \u00e9 sem criatura n\u00e3o nomeou-se no tempo. No tempo est\u00e3o todas as criaturas, o pecado e a morte, e estes s\u00e3o, em certo sentido, parecidos. T\u00e3o pronto a alma sai do tempo, ali n\u00e3o existem dor e lamenta\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo o desespero ela transforma ent\u00e3o em alegria.&#8221; <\/i>mestre Eckart est\u00e1 falando sobre o estado de nirvana. A\u00ed n\u00e3o existem mais pecados, dores; mesmo o desespero se transforma em alegria. Desespero e dor existem mas n\u00e3o atingem esse estado, por isso chama-se de nirvana. Existem dois tipos de nirvana. Enquanto estamos vivos h\u00e1 o corpo, e por isso a doen\u00e7a, envelhecimento e morte. Isso ningu\u00e9m pode evitar. Mas, morrendo, entra-se em parinirvana, o nirvana perfeito; este \u00e9 o estado de simultaneidade. Simultaneidade e nirvana s\u00e3o a mesma coisa, s\u00e3o sin\u00f4nimos, apenas as express\u00f5es s\u00e3o diferentes, como &#8220;crist\u00e3o e budista&#8221;.<\/p>\n<p align=justify>Mestre Eckart diz: &#8220;Ele deve dar tudo ou nada. Seu soar \u00e9 simples, completamente simples e perfeito, sem divis\u00f5es. E n\u00e3o se d\u00e1 no tempo, mas na eternidade. Estejam certos disto, assim como eu vivo. Se \u00e9 que vamos perceber esta forma dele, devemos nos elevar at\u00e9 a eternidade, al\u00e9m do tempo. Na eternidade todas as coisas est\u00e3o presentes.&#8221;<\/p>\n<p align=justify>Todas as coisas est\u00e3o presentes, nada falta.<\/p>\n<p align=justify>Mestre Dogen disse: &#8220;Zazen \u00e9 como um caramanch\u00e3o no topo de um mirante.&#8221; Voc\u00ea est\u00e1 l\u00e1 sentado e v\u00ea todas as coisas, tem aquela vis\u00e3o panor\u00e2mica. Estamos agora montando o Mosteiro de Ouro Preto, no morro de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, o morro mais alto da cidade. De l\u00e1 vemos a cidade. Vemos os carros, \u00f4nibus e motos entrando, passando e saindo. Ali pode-se ver passado, presente e futuro ao mesmo tempo. Isto mestre Dogen diz, &#8220;entrando nas montanhas, subindo montanhas, descendo montanhas&#8230; chega-se ao pico&#8221;. De l\u00e1 voc\u00ea tem a vis\u00e3o panor\u00e2mica, muitas montanhas, muitos picos. \u00c9 lindo! Vi a montanha de baixo, subi na montanha e estive em seu pico e agora estou aqui. Isto \u00e9 passado, presente e futuro e est\u00e1 tudo aqui no presente. Isto chama-se &#8220;agora&#8221;, &#8220;absoluto&#8221;, &#8220;presente&#8221;. A\u00ed n\u00e3o h\u00e1 mais tempo. Entrando nesse estado, presente, passado e futuro est\u00e3o todos a\u00ed.<\/p>\n<p align=justify>Tive uma vez uma experi\u00eancia um pouco esquisita. Meditando, pensei em cortar o tempo. Um ano em doze meses, um m\u00eas em 30 dias, um dia em 24 horas, uma hora em 60 minutos, um minuto em 60 segundos, e a\u00ed um segundo. Um segundo eu visualizei como uma unidade e comecei a cort\u00e1-lo, inicialmente pela metade, 1\/2 segundo, e depois a metade da metade e assim por diante, at\u00e9 que restou algo bem pequenino como o intervalo de tempo, e n\u00e3o era mais poss\u00edvel cortar. A\u00ed ent\u00e3o eu usei meu &#8220;aparelho cerebral&#8221; e tomei essa por\u00e7\u00e3o como nova unidade e comecei a cortar, cortar&#8230; e com grande aten\u00e7\u00e3o, como se estivesse sentado sobre um galho seco sobre um rio e qualquer movimento pudesse me derrubar. Assim, prossegui cortando, cortando&#8230; Enquanto havia o tempo, podia cort\u00e1-lo, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o sei durante quanto tempo isso se deu, repentinamente meu corpo mergulhou dentro desse instante, no momento. Esse instante tornou-se tanto o passado como o futuro.<\/p>\n<p align=justify>Esta \u00e9 uma experi\u00eancia muito estranha, o passado infinito funde-se com o futuro infinito e ao mesmo tempo \u00e9 o presente agora! Isso n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o, vejo assim! Com essa experi\u00eancia eu posso dizer, o passado j\u00e1 passou, voc\u00ea n\u00e3o pode pegar; o futuro n\u00e3o veio ainda, e agora mesmo podemos peg\u00e1-lo, ou n\u00e3o? Quando dizemos &#8220;ah, peguei&#8221;, j\u00e1 passou&#8230; Como pegar o tempo? A \u00fanica maneira \u00e9 mergulhar dentro do tempo, onde n\u00e3o h\u00e1 mais tempo. Isto \u00e9 prender o tempo, quando n\u00e3o h\u00e1 mais tempo, a eternidade. Com o espa\u00e7o pode acontecer isto tamb\u00e9m. N\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o, n\u00e3o h\u00e1 mais dimens\u00e3o.<\/p>\n<p align=justify>Quando crian\u00e7a, mestre Gensha era pescador, e ajudava seu pai no mar. Numa ocasi\u00e3o, foram pescar \u00e0 noite. Durante a noite, \u00e0s vezes, a pescaria \u00e9 muito boa. L\u00e1 estavam quando, n\u00e3o sei por que, de repente seu pai caiu no mar, e ele imediatamente estendeu o remo em sua dire\u00e7\u00e3o. Neste momento a luz da lua refletiu-se nas ondas e ele ficou paralisado, n\u00e3o mais movendo-se para salvar seu pai, abandonando-o a sua sorte. O pai chamou &#8220;oh, filho, o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo?!&#8221; Ele ent\u00e3o virou-se, e foi embora com o barco, enquanto seu pai, exausto, afundava no mar.<\/p>\n<p align=justify>Voltando \u00e0 praia, deixou o mar, abandonou a pesca, e imediatamente buscou as montanhas procurando um mosteiro, onde tornou-se monge. Seu treinamento foi diferente do de outros monges, foi muito duro. Passou um ano, outro e mais outro com o mestre Sepu, um grande mestre. Mesmo assim n\u00e3o conseguiu realizar a compreens\u00e3o, sofrendo muito sempre. Sentia que n\u00e3o conseguia avan\u00e7ar. Um dia pensou, &#8220;tenho um carma muito pesado, talvez n\u00e3o tenha condi\u00e7\u00e3o de realizar a ilumina\u00e7\u00e3o apenas com o aux\u00edlio desse mestre. Gostaria de fazer uma viagem, uma peregrina\u00e7\u00e3o, visitando outros mosteiros e conhecendo outros mestres&#8221;. E tratou de obter licen\u00e7a para a viagem.<\/p>\n<p align=justify>Liberado por seu mestre, descendo a montanha do mosteiro, no meio do caminho bateu o p\u00e9 numa pedra, quebrou a unha, sangrou muito e teve de suportar muita dor. Em meio ao seu grito de dor, nesse exato momento, lembrou-se do sutra e perguntou, &#8220;de onde vem esta dor?&#8221; Mas n\u00e3o era verdadeiramente uma pergunta, e sim a realiza\u00e7\u00e3o dele, a sua pr\u00f3pria ilumina\u00e7\u00e3o. Com a dor, ele gritou &#8220;ai! ai!&#8221;; neste momento n\u00e3o tinha mais o seu corpo, o universo inteiro era dor. J\u00e1 que o corpo inteiro, o universo inteiro era dor, de onde poderia vir essa dor? O sentido da pergunta era este.<\/p>\n<p align=justify>Imediatamente ele voltou ao mosteiro de onde acabara de sair. Vendo isso, o mestre disse, &#8220;voc\u00ea come\u00e7ou sua peregrina\u00e7\u00e3o apenas para quebrar seus p\u00e9s?&#8221; Ele respondeu &#8220;mestre, n\u00e3o brinque mais comigo&#8230;&#8221; E o mestre: &#8220;Tudo bem, mas por que voc\u00ea n\u00e3o retoma a peregrina\u00e7\u00e3o?&#8221; Gensha respondeu: &#8220;Bodidarma n\u00e3o veio \u00e0 China, o segundo patriarca n\u00e3o foi \u00e0 \u00cdndia.&#8221; Isto na verdade \u00e9 um koan. Bodidarma foi da \u00cdndia para a China para transmitir o Darma correto. Ele foi o primeiro patriarca da China, isto todos sabem e pertence \u00e0 hist\u00f3ria. Mas Gensha disse: &#8220;Bodidarma n\u00e3o veio \u00e0 China e o segundo patriarca n\u00e3o foi \u00e0 \u00cdndia.&#8221; E, historicamente, n\u00e3o foi. Aqui, a express\u00e3o &#8220;Bodidarma n\u00e3o veio e o segundo patriarca n\u00e3o foi \u00e0 India&#8221; \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se refere a ir e vir, mas ao n\u00e3o haver mais no mundo ocidente e oriente, \u00cdndia, China. Isto havia passado. Ele experimentava um mundo uno. Este \u00e9 o sentido desse di\u00e1logo.<\/p>\n<p align=justify>Mestre Eckart diz, <i>&#8220;Ali, o que est\u00e1 a mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia est\u00e1 t\u00e3o pr\u00f3ximo a mim como o lugar onde estou agora. Existe plenitude e gozo na divindade, existe uma s\u00f3 unidade. Ah, que nobre \u00e9 aquele poder que transcende o tempo e transcende o lugar, pois que est\u00e1 acima do tempo e tanto cont\u00e9m todo o tempo como \u00e9 todo o tempo. E, por menos que o homem possa ter este poder que transcende o tempo, ele \u00e9 rico de fato com isto, pois aquilo que est\u00e1 al\u00e9m do mar mais distante n\u00e3o est\u00e1 mais longe deste poder do que aquilo que est\u00e1 presente aqui e agora. Portanto, s\u00e3o tais os que o Pai procura. &#8220;<\/i><\/p>\n<p align=justify>Para este poder do intelecto nada \u00e9 distante ou externo. O que est\u00e1 mais al\u00e9m do mar ou a mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia \u00e9 t\u00e3o verdadeiramente conhecido e presente quanto este lugar onde estou neste momento. Este poder apanha Deus nu em seu ser essencial. Ele \u00e9 uno na unidade, n\u00e3o-semelhante na semelhan\u00e7a. Com esta experi\u00eancia, ele entra na dimens\u00e3o de simultaneidade, est\u00e1 tudo presente, em unidade. Mestre Gensha disse: &#8220;eu e Buda Sakiamuni somos colegas&#8221;. Ao que um monge retrucou, &#8220;estranho, com quem voc\u00ea aprendeu?&#8221;. E o mestre Gensha respondeu: &#8220;Jassapru&#8221;, nome do pescador menino antes de tornar-se monge. Este foi o segundo koan.<\/p>\n<p align=justify>&#8220;Eu e Buda Sakiamuni somos colegas&#8221;. Estranho, mas tamb\u00e9m acontece. Na B\u00edblia tamb\u00e9m encontramos frases assim. Jesus Cristo disse uma vez: &#8220;estou aqui antes de Abra\u00e3o e Davi&#8221;. Estranho, n\u00e3o? Abra\u00e3o e Davi aparecem j\u00e1 no Velho Testamento, e Jesus Cristo no Novo Testamento. Como poderia ele fazer tal afirma\u00e7\u00e3o tantos anos depois? O tempo est\u00e1 ent\u00e3o invertido aqui! Por qu\u00ea? Jesus Cristo \u00e9 o \u00fanico Filho de Deus. Quando Deus estava criando, Jesus Cristo estava l\u00e1, vendo. Assim, isso n\u00e3o \u00e9 nada estranho. O tempo para n\u00f3s existe aqui, mas em algum momento o tempo desaparece, e surge a eternidade. Temos que viver este mundo com o tempo e al\u00e9m do tempo. Voc\u00ea realiza a si pr\u00f3prio encontrando-se com Deus e trabalhando para os outros.<\/p>\n<p align=justify>Em Jo\u00e3o 15.15, diz Jesus: <i>&#8220;Tudo o que ouvi de meu Pai eu vos disse; eu n\u00e3o vos chamei de servos, mas de amigos. O servo n\u00e3o conhece a vontade de seu mestre, mas o amigo sabe tudo que sabe o seu amigo. Tudo aquilo que ouvi de meu Pai transmiti a voc\u00eas, e tudo o que meu Pai sabe eu tamb\u00e9m sei, e tudo aquilo que eu sei voc\u00eas sabem, pois eu e meu Pai temos um s\u00f3 esp\u00edrito&#8221;<\/i>: S\u00e3o Paulo disse: <i>&#8220;Se voc\u00ea for criado com o Cristo, ent\u00e3o procure o que est\u00e1 acima, onde o Cristo est\u00e1 sentado ao lado direito de sen Pai, e que n\u00e3o prov\u00e9m das coisas que est\u00e3o na terra. Voc\u00eas morrer\u00e3o e suas vidas est\u00e3o ocultas com o Cristo em Deus, no c\u00e9u. &#8220;<\/i><\/p>\n<p align=justify>Simultaneidade \u00e9 isto. Ao entrar na simultaneidade, Buda, assim como Jesus Cristo, s\u00e3o seus amigos, seus colegas, seus contempor\u00e2neos. Aqui n\u00e3o h\u00e1 o tempo, nem antes e nem depois, voc\u00ea vive no mesmo mundo, voc\u00ea v\u00ea com os mesmos olhos e escuta com os mesmos ouvidos dos budas e de Jesus Cristo, e tudo est\u00e1 realizado neste momento. Buda disse, &#8220;para entender a natureza de Buda, voc\u00ea tem que entender o tempo, mas estudando voc\u00ea chega a\u00ed&#8221;. Mestre Dogen interpreta isto assim: &#8220;O tempo vai chegar e voc\u00ea entender\u00e1, mas na verdade o tempo j\u00e1 chegou, j\u00e1 est\u00e1 aqui&#8221;. Quando se fala &#8220;o tempo vai chegar&#8221;, mesmo treinando com mestres competentes, a realiza\u00e7\u00e3o nunca chega. Deixando o tempo, meditando e treinando, o tempo j\u00e1 chegou. J\u00e1 est\u00e1 realizado neste momento. Mas n\u00e3o esperando o tempo chegar e amadurecer. Enquanto voc\u00ea esta sentado, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 realizado. \u00c9 dif\u00edcil sentir isso com o consciente, mas \u00e9 verdade. Por isso, independentemente de ganhar a ilumina\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o, treine, pratique. A pr\u00e1tica j\u00e1 \u00e9 a ilumina\u00e7\u00e3o. Mestre Dogen disse: &#8220;chegando ao \u00faltimo ponto, n\u00e3o pare, continue!&#8221;<\/p>\n<p align=justify>Diz mestre Eckart: <i>&#8220;Uma mulher perguntou a Nosso Senhor como dever\u00edamos rezar, e Nosso Senhor disse: &#8216;Vir\u00e1 o tempo, e j\u00e1 chegou de fato, quando os verdadeiros veneradores v\u00e3o venerar em esp\u00edrito e em verdade, pois que Deus \u00e9 um esp\u00edrito; portanto, voc\u00ea deve rezar em esp\u00edrito e em verdade.'&#8221; <\/i>Anotem bem o que \u00e9 dito, a hora vir\u00e1 e \u00e9 agora. Aquele que veneraria o Pai, deve conduzir a eternidade em seus desejos e esperan\u00e7as. Existe um ponto mais elevado da alma, que est\u00e1 al\u00e9m do tempo e nada sabe do tempo ou do corpo. Ele fala aqui da promessa ou juramento do Pai. Essa promessa tamb\u00e9m foi dada a n\u00f3s, para que f\u00f4ssemos batizados no Esp\u00edrito Santo e receb\u00eassemos o presente dele, morando al\u00e9m do tempo, na eternidade. No tempo , o Esp\u00edrito Santo n\u00e3o pode ser dado e nem recebido. <\/p>\n<p align=justify>Dentro de treinamento zen, quando chega o momento, se recebe a transmiss\u00e3o do Darma. Esse documento chama-se &#8220;Shiho&#8221;. \u00c9 um documento que demonstra sua \u00e1rvore da linhagem de transmiss\u00e3o. Est\u00e1 escrito em seda pura, com a marca de uma flor de ameixeira. \u00c9 raro esse documento. A\u00ed encontra-se o nome de Buda e uma sucess\u00e3o de nomes de budas e patriarcas at\u00e9 seu mestre. A linhagem dos budas e patriarcas come\u00e7a com Shakamunibutsu Daiosho, ap\u00f3s Makakasho Daiosho, Ananda Daiosho, etc., at\u00e9 Bodaidaruma Daiosho, seguindo ainda at\u00e9 o sexto patriarca. Depois prossegue, passando de nome em nome at\u00e9 o mestre atual e chega a uma linha final com o nome do novo Buda, o pr\u00f3prio nome do monge que recebe o documento. Ap\u00f3s esse nome, h\u00e1 uma linha que conduz novamente de volta ao Buda Sakiamuni. Isto significa que nesse momento tudo fica uma coisa s\u00f3; apesar de haver tantos patriarcas diferentes, na verdade todos s\u00e3o o mesmo. Isso \u00e9 a transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p align=justify>Os budas, patriarcas e grandes mestres, todos treinaram e transmitiram este Darma at\u00e9 a mim. Eu estou treinando; se isto for interrompido, essa transmiss\u00e3o n\u00e3o ir\u00e1 adiante para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, terminar\u00e1 em mim mesmo. Isso significa que todos os treinamentos dos que me antecederam acabam comigo. Minha responsabilidade \u00e9 muito grande; esta \u00e9 a \u00fanica diferen\u00e7a entre monges e leigos. Os leigos podem aprender, alcan\u00e7ar, ter a ilumina\u00e7\u00e3o da mesma forma que os monges, mas a especialidade do monge \u00e9 a responsabilidade em transmitir adiante esses ensinamentos. Agora o budismo est\u00e1 chegando ao ocidente ocidente e tamb\u00e9m ao Brasil. Isto significa que tamb\u00e9m depende de mim e de meu treinamento a realiza\u00e7\u00e3o continuada de todos aqueles mestres, patriarcas e budas. Quando temos esta consci\u00eancia, o treinamento do dia-a-dia n\u00e3o pode ser abandonado. N\u00e3o \u00e9 muita coisa, n\u00e3o, \u00e9 simplesmente manter continuamente o treinamento de modo igual. Isto \u00e9 importante. As dificuldades aparecem, os obst\u00e1culos. Estes momentos, ao transcender as dificuldades, tornarn-se momentos de ilumina\u00e7\u00e3o, de realiza\u00e7\u00e3o. Dentro da tradi\u00e7\u00e3o budista, temos sete budas do passado at\u00e9 Sakiamuni Buda, que s\u00e3o: Bibashibutsu Daiosho, Shikibutsu Daiosho, Bishafubutsu Daiosho, Kurusonbutsu Daiosho, Kunagonmunibutsu Daiosho, Kashobutsu Daiosho e Shakamunibutsu Daiosho, o Buda Sakiamuni. E Ananda perguntou, &#8220;esses sete budas do passado aprenderam com quem?&#8221;, Buda Sakiamuni disse, &#8220;eu sou o mestre deles&#8221;. Aqui tamb\u00e9m o tempo est\u00e1 invertido, os budas do passado, os que vieram antes de Buda, aprenderam com o novo Buda! Como pode ser isso?<\/p>\n<p align=justify>Uma coisa semelhante pode ser encontrada dentro da B\u00edblia. Quando Jesus Cristo chegou para ser batizado por Jo\u00e3o Batista, este disse, &#8220;n\u00e3o, eu n\u00e3o mere\u00e7o isso!&#8221; E Cristo: &#8220;Eu compreendo, mas d\u00e1-me o batismo neste momento&#8221;. S\u00e3o Jo\u00e3o ent\u00e3o falou, &#8220;vou dar o batismo com \u00e1gua, mas esta pessoa a quem batizo \u00e9 que poder\u00e1 batizar com o Esp\u00edrito Santo&#8221;. Quando Cristo foi batizado o c\u00e9u abriu-se e apareceu um pombo branco. S\u00e3o Jo\u00e3o ent\u00e3o disse, &#8220;Eu n\u00e3o mere\u00e7o nem mesmo lavar os seus p\u00e9s, mas neste momento eu o batizo&#8221;. Assim s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es mestre-disc\u00edpulo. Quando torna-se &#8220;um&#8221;, o disc\u00edpulo tem que ter capacidade de dar ensinamento para seu pr\u00f3prio mestre! N\u00e3o fosse assim, essa for\u00e7a desapareceria.<\/p>\n<p align=justify>Na tradi\u00e7\u00e3o zen diz-se que, se o disc\u00edpulo tem uma for\u00e7a igual a do mestre, se ambos t\u00eam igual altura de ombros, ent\u00e3o a for\u00e7a fica dividida por dois. O disc\u00edpulo tem que subir e apoiar seus p\u00e9s sobre os ombros de seu mestre. Tem que ser maior e melhor do que seu pr\u00f3prio mestre. Com isto ele consegue transmitir por inteiro a for\u00e7a completa de seu mestre, sem nada perder. Dentro do zen, essa transmiss\u00e3o \u00e9 algo que preocupa muito. Passar de uma pessoa para outra \u00e9 dif\u00edcil. Neste momento, o oriente est\u00e1 querendo transmitir para o ocidente. A\u00ed d\u00e1-se um grande choque cultural. A linguagem \u00e9 diferente, os costumes, a religi\u00e3o, a comida, tudo \u00e9 diferente. Mas mesmo assim, confiando na natureza de Buda e na alma pura, h\u00e1 essa possibilidade de transmitir. Isto porque, apesar de tudo, n\u00e3o h\u00e1 ocidente nem oriente para a natureza de Buda.<\/p>\n<p align=justify>Santo Agostinho encontrou duas grandes linhas de filosofia antiga, a filosofia grega e a hebraica, e ocorreu ent\u00e3o um grande evento para os seres humanos e para a f\u00e9 em Cristo: a sua obra teol\u00f3gica. O encontro do ocidente com o oriente j\u00e1 est\u00e1 acontecendo intensamente. H\u00e1 grande interc\u00e2mbio entre padres cat\u00f3licos e monges zen. Em 1986, na cidade de Assis, na It\u00e1lia, houve um encontro de todas as religi\u00f5es, em todas suas variadas origens geogr\u00e1ficas. Estiveram l\u00e1 budistas, crist\u00e3os, africanos, \u00edndios, mu\u00e7ulmanos, judeus, hindu\u00edstas, etc., reunidos e falando sobre paz internacional. Isso revela este crescente esp\u00edrito de interc\u00e2mbio e paz.<\/p>\n<p align=justify>H\u00e1 um cap\u00edtulo do Shobogenzo de mestre Dogen chamado &#8220;A Lua&#8221;. A lua tem quatro fases, a nova, a crescente, a cheia e a minguante. Todos pensam que quando a lua \u00e9 cheia, est\u00e1 realizada, despertando aquela vontade de buscar o caminho supremo, depois o treinamento, a ilumina\u00e7\u00e3o e nirvana. Mas mestre Dogen diz, quando a lua \u00e9 crescente, mesmo a\u00ed j\u00e1 h\u00e1 a realiza\u00e7\u00e3o completa, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio nem mesmo chegar \u00e0 lua cheia. Com a lua minguante \u00e9 a mesma coisa. Falta um pequeno peda\u00e7o, mas exatamente assim ela est\u00e1 perfeita e realizada. Essas afirma\u00e7\u00f5es nos aliviam muito, pois temos muitos defeitos e dificuldades. Por\u00e9m com isto j\u00e1 h\u00e1 realiza\u00e7\u00e3o completa, por que preocupar-se? A \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 praticar, seguir. Algumas pessoas j\u00e1 est\u00e3o satisfeitas, nem mesmo precisam chegar \u00e0 lua cheia. Alguns j\u00e1 realizaram, assim n\u00e3o precisam se preocupar se a lua est\u00e1 ou n\u00e3o cheia, ou se est\u00e1 come\u00e7ando a lua minguante. Nossa vida \u00e9 assim, muitos querem aprender sempre mais; \u00e9 bom, mas na verdade a realiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 pronta.<\/p>\n<p align=justify>\u00c9 importante compreender que o primeiro passo no budismo \u00e9 estar satisfeito com o que voc\u00ea tem agora. Ter poucos desejos, poucas ambi\u00e7\u00f5es, e estar satisfeito. Quando voc\u00ea chega a este estado, voc\u00ea est\u00e1 j\u00e1 realizado, \u00e9 lua cheia. N\u00e3o precisa ter tudo. Uma pessoa que j\u00e1 realizou a sua vida n\u00e3o precisa de muito luxo, j\u00f3ias, muitos carros. Simplificar a vida, a comida, a maneira de viver \u00e9 bom. E com isso vem a felicidade, a aus\u00eancia das preocupa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias&#8230; Neste sentido, mestre Eckart fala do sol pela madrugada, das 10 horas da manh\u00e3, do meio-dia, da tarde e da noite. Com o sol subindo o dia se aquece, mas depois come\u00e7a a diminuir. A luz da manh\u00e3 \u00e9 a luz da natureza, a luz do meio-dia \u00e9 a luz dos anjos, a luz da tarde \u00e9 como a luz divina e, durante a noite, \u00e9 a luz de Deus. A noite n\u00e3o tem luz, mas \u00e9 a luz m\u00e1xima. A luz come\u00e7a aquecendo pela manh\u00e3, passando para o meio-dia o calor que vai se acumulando at\u00e9 a tarde. Ou seja, em cada um dos aspectos todos os outros est\u00e3o presentes ao mesmo tempo. Quando desperta a vontade de buscar o Caminho supremo, j\u00e1 est\u00e1 realizado. Isso n\u00e3o quer dizer que deve-se interromper o treinamento a\u00ed, s\u00f3 despertar a vontade n\u00e3o basta. \u00c9 preciso treinar.<\/p>\n<p align=justify>Treinar constantemente alimenta a vontade. A busca da mente Bodi \u00e9 como olho de peixe, n\u00e3o \u00e9 diamante, apodrece se n\u00e3o cuidar. \u00c9 preciso apenas continuar constantemente. Chegando-se \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o pode-se pensar, &#8220;ah, cheguei, vou parar com isto&#8221;. N\u00e3o, treinamento \u00e9 ilumina\u00e7\u00e3o, e ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 treinamento. Por isso Buda passou por seis anos de treinamento. Bodidarma foi \u00e0 China e sentou nove anos antes de pregar. Esses nove anos n\u00e3o foram para obter a ilumina\u00e7\u00e3o, ele j\u00e1 estava iluminado, foi apenas a continuidade do sentar. Ningu\u00e9m pode mais parar. Dentro do zazen, com as pernas cruzadas, cruzam-se tempo e eternidade. Apesar de vivermos neste mundo mortal, quando voc\u00ea senta, est\u00e1 no estado de simultaneidade, junto com todos os budas do passado, presente e futuro!\n<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<hr \/>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Ryotan Tokuda IgarashiTexto extra\u00eddo de www.geocities.com\/~bodisatva. Esta \u00e9 a transcri\u00e7\u00e3o da segunda palestra do monge Tokuda sobre o pensamento comparado dos mestres Dogen e Eckart, pronunciada em Porto Alegre, outubro de 1989, como promo\u00e7\u00e3o do Centro de Estudos &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-plenitude-do-tempo-e-a-simultaneidade\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6769,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25,40],"tags":[16],"class_list":["post-6786","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mestres","category-zen","tag-thich-nhat-hanh"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6786","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6786"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6786\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6792,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6786\/revisions\/6792"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6769"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6786"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6786"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6786"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}