{"id":6810,"date":"2020-07-06T17:55:09","date_gmt":"2020-07-06T19:55:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=6810"},"modified":"2020-07-06T17:55:09","modified_gmt":"2020-07-06T19:55:09","slug":"entrevista-com-coen-sensei-por-mariana-sayad","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/entrevista-com-coen-sensei-por-mariana-sayad\/","title":{"rendered":"Entrevista com Coen Sensei por Mariana Sayad"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/monja-coen.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/monja-coen.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"490\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6808\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/monja-coen.jpg 700w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/monja-coen-300x210.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/monja-coen-429x300.jpg 429w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:center\"><font SIZE=\"4\"><b>Entrevista com Coen Sensei por Mariana Sayad<\/b><\/font><sup>1<\/sup><\/div>\n<hr \/>\n<p><dir><br \/>\n<i>Monja Coen, nossa entrevistada desta semana, estar\u00e1 falando sobre o Zen Budismo que \u00e9 uma das linhas do Budismo. Como isso mudou sua vida e sua maneira de ver o mundo.<\/i><br \/>\n<\/dir><br \/>\n<b>WM &#8211; O que a fez se tornar monja? Como e quando isso aconteceu?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Eu me interessei pelo Zen atrav\u00e9s do Zazen (medita\u00e7\u00e3o sentado) e da medita\u00e7\u00e3o. Ao fazer, na pr\u00e1tica religiosa, descobri que era a melhor coisa que tinha acontecido e poderia acontecer para qualquer pessoa. Como \u00e9 que n\u00e3o poderia dedicar o que resta da minha vida a essa pr\u00e1tica. <\/p>\n<p><b>WM &#8211; A senhora foi influenciada por algu\u00e9m? Quem?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Pelos Beatles (risos), \u00e9 verdade. \u00c9 interessante isso, porque tiveram v\u00e1rias influ\u00eancias, nunca podemos dizer que o que fazemos na vida foi uma coisa s\u00f3 que influenciou, \u00e9 uma s\u00e9rie de causas, circunst\u00e2ncias e condi\u00e7\u00f5es. Mas, o que mais me interessou \u00e9 porque os Beatles faziam, n\u00e3o era f\u00e3 deles, eu ouvia muito pouca m\u00fasica sempre fui uma pessoas mais de verbaliza\u00e7\u00e3o de palavras, lia e escrevia muito. O mais me impressionava neles (Beatles) era a simplicidade, a capacidade de carisma e o controle de massa. Notava que eles eram extremamente inteligentes e \u00e1geis, isso me fascinava. Quando vi que aqueles meninos, estavam fazendo uma coisa chamada medita\u00e7\u00e3o. Quando fui morar em Londres, comecei a reparar que v\u00e1rias grupos de m\u00fasica faziam a tamb\u00e9m. Isso ficou no fundo da minha cabe\u00e7a, antes de voltar ao Brasil, comecei a fazer uma esp\u00e9cie de medita\u00e7\u00e3o sozinha, inventar uma coisa, deve ser isso agente senta e come\u00e7a a fazer &#8220;ononon&#8230;&#8221;. Era uma del\u00edcia.<br \/>\n<br \/> Quando voltei ao Brasil continuei a fazer os meus &#8220;onzinhos&#8221;, ler alguns livros que me deram e diziam que quando voc\u00ea fizer esse &#8220;on&#8221;, imagine seu guru l\u00e1 na \u00cdndia. Ent\u00e3o, tem um raio de luz que vai do centro sua cabe\u00e7a at\u00e9 ele, outro que vai da garganta at\u00e9 ele e outro que vai do cora\u00e7\u00e3o at\u00e9 ele. Era uma del\u00edcia.<br \/>\nQuem era o guru que eu estava ligada n\u00e3o sei, mas era muito agrad\u00e1vel. Quando fui morar nos Estado Unidos, comecei a praticar com alguns grupos, mas queria fazer a posi\u00e7\u00e3o de L\u00f3tus completa (colocar o p\u00e9 esquerdo sobre a coxa direita e o p\u00e9 direito sobre a coxa esquerda; as plantas dos p\u00e9s ficam voltadas para cima). Mas, ningu\u00e9m tinha falado muito dessa posi\u00e7\u00e3o, principalmente, quando eu li um livro, que falava das ondas mentais alfa, e comecei a me indagar se aquilo que estava fazendo em medita\u00e7\u00e3o era alfa. Ser\u00e1 que estava fazendo certo ou estava invento algo novo? Ent\u00e3o, fui procurar Zen Centro de Los Angeles. Antes disso, fui trabalhar no Jornal da Tarde e tiveram coisas que me influenciaram muito nessa \u00e9poca. Primeiro, nossa vis\u00e3o de mundo, esse contato que voc\u00ea tem com todas as esferas da vida, com os todos os seres de diversas as camadas, transformam o ser, voc\u00ea deixa de pensar s\u00f3 num grupo de uma maneira, voc\u00ea percebe que os valores que te deram na escola, na casa, na fam\u00edlia e naquele bairro s\u00e3o muito relativos a eles mesmos. Voc\u00ea come\u00e7a seres que vivem com outros valores e padr\u00f5es e, ent\u00e3o acaba quebrando aquele seu senso de valores, voc\u00ea fica meio balan\u00e7ado. \u00c9 uma coisa interessante. Nisso fizemos uma mat\u00e9ria sobre grupos e sociedades alternativas e eles falavam das comunidades Zen, nos Estados Unidos. Em que estavam buscando uma alternativa para a sociedade norte americana, era mais ou menos depois da guerra do Vietn\u00e3. Quando os estudantes saiam na rua fazendo passeatas, naquela \u00e9poca a juventude tinha muito interesse de mudan\u00e7as sociais, houve um momento era muito isso, &#8220;n\u00f3s queremos transformar o mundo&#8221;. E os monges vietnamitas que se queimavam e esmolavam. Uma das fotos que apareciam na imprensa naquela \u00e9poca, tinha uma em que um monge sentado em medita\u00e7\u00e3o e tudo pegando fogo a sua volta, que controle \u00e9 esse? Como \u00e9 que um ser humano com aquele fogo? Com tudo isso que d\u00f3i terrivelmente como \u00e9 capaz de ficar im\u00f3vel? Ser\u00e1 que eu posso conter isso? Ent\u00e3o, isso me chamou. Houve v\u00e1rios eventos e eu acabei indo para os Estados Unidos, em Los Angeles esse livro de ondas mentais alfa dizia, que quando estamos em zazen, estamos em alfa. Ent\u00e3o eu perguntava ao monge: a ci\u00eancia usa el\u00e9trons, existem v\u00e1rias maneiras para induzir alfa. O que acha disso? N\u00e3o precisa ficar sentado em medita\u00e7\u00e3o, uma m\u00e1quina, uma droga ou uma m\u00fasica voc\u00ea entra em alfa. Ele respondeu, &#8220;para que entrar pela janela&#8221;. Essa frase eu achei maravilhosa, para que entrar pela janela, se existe a porta. N\u00e3o precisa de indu\u00e7\u00e3o de nada, n\u00f3s naturalmente, podemos entrar nesse universo que \u00e9 ondas alfa, que \u00e9 paz, tranq\u00fcilidade e a maior capacidade nossa mental.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; Porque resolveu seguir a tradi\u00e7\u00e3o Zen Budista?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Foi por causa do Zazen, sai em busca de medita\u00e7\u00e3o. E no Zen budismo a base da pr\u00e1tica \u00e9 a medita\u00e7\u00e3o sentada, foi atrav\u00e9s dessa medita\u00e7\u00e3o foi que eu entrei em contato com a ess\u00eancia do ser. Foi a partir da\u00ed que eu comecei a me interessar por religi\u00e3o, at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tinha nenhuma, dos 13 aos quase 30. Questionava muito isso chamado Deus, existe isso? Onde fica? Que hist\u00f3ria \u00e9 essa? Porque agente nasce? Porque agente morre? O que \u00e9 morte? Eram as coisas que eu perguntava. O questionamento principal era o que \u00e9 Deus. Principalmente sendo criada em fam\u00edlia Crist\u00e3, atrav\u00e9s da medita\u00e7\u00e3o voc\u00ea come\u00e7a a encontrar essas resposta dentro de voc\u00ea e n\u00e3o coisas que est\u00e3o escritas em livros, a minha experi\u00eancia foi essa de pr\u00e1tica, n\u00e3o tinha lido nada sobre o Zen Budismo, n\u00e3o era uma pessoa interessada pelo Jap\u00e3o e pela cultura japonesa. Era uma coisa muito distante quanto brasileira, quando viajava pelo mundo pensava em ir para a Europa, EUA e para a \u00cdndia, mas o Jap\u00e3o n\u00e3o passava pela minha cabe\u00e7a. Mas, quando o meu cora\u00e7\u00e3o se abriu para o Zen Budismo e essa medita\u00e7\u00e3o me trouxe as respostas, ent\u00e3o, quando comecei a ler os textos sobre Budismo, pensei: ent\u00e3o aquilo que eu experimentei est\u00e1 aqui no texto, eles est\u00e3o colocando em palavras aquilo que eu sei que \u00e9 verdade, que analogia boa. Ent\u00e3o foi um processo da experi\u00eancia entrar na teoria e n\u00e3o ao contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; Como foi a aceita\u00e7\u00e3o da sua fam\u00edlia quando decidiu ser Monja?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Meu pai n\u00e3o segue nenhuma religi\u00e3o, ele \u00e9 meio incr\u00e9dulo das pessoas religiosas, porque ele acha que est\u00e3o sempre colocando ilhais acima das possibilidades humanas. Ent\u00e3o, ele nunca foi muito favor\u00e1vel as minha religiosidade que eu tive aos 12 e 13 anos, quando queria ser freira. Quanto ao Budismo, nunca disse nada. J\u00e1 a minha m\u00e3e dizia: &#8220;voc\u00ea \u00e9 crist\u00e3, nasceu crist\u00e3. Por que voc\u00ea n\u00e3o vira freira?<br \/> J\u00e1 que voc\u00ea quer servir a Deus, venha servir dentro da sua tradi\u00e7\u00e3o&#8221;. Ent\u00e3o comecei questionar com ela e comigo o que \u00e9 a minha tradi\u00e7\u00e3o; a tradi\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 brasileira, \u00e9 importada, nasceu na \u00c1frica e se espalhou. Ela n\u00e3o \u00e9 nativa nem do Brasil, nem de Portugal, de onde veio a minha fam\u00edlia, \u00e9 t\u00e3o estrangeira quando o Budismo. Ent\u00e3o, n\u00e3o tenho essa tal tradi\u00e7\u00e3o. Comecei a discutir comigo mesmo e sempre ficava aquela coisa, nossa estou traindo a minha religi\u00e3o: nossa que coisa medonha que eu estou fazendo, desde criancinha ensinaram ler Padre Nosso e Ave Maria, tinha aquelas imagens de Jesus em casa, sempre tiveram. Teve uma fase que foi um pouco dif\u00edcil, at\u00e9 que apareceu uma esp\u00e9cie de um sonho, era uma coisa muito viva e clara, em que Jesus e Buda conversavam, estavam na mesma esfera e no mesmo n\u00edvel. S\u00e3o como grandes amigos, que falam a mesma linguagem, que se compreendem. E porque que eu estava fazendo essa batalha entre os dois enquanto, n\u00e3o existe isso no n\u00edvel superior. S\u00e3o coisas que n\u00f3s criamos, t\u00e3o pequenas e limitadas. Se essa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a que responde ao meu cora\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o. Sem que eu falasse disso com a minha m\u00e3e, ela me ligou e disse &#8220;acho que voc\u00ea est\u00e1 servindo a Deus, seja qual for a religi\u00e3o escolhida. Ent\u00e3o v\u00e1 minha filha, eu te aben\u00e7oou&#8221;, disse a ela que n\u00e3o podia me tornar monja sem a sua ben\u00e7\u00e3o. No dia que ela disse isso para mim, foi num domingo de manh\u00e3, fui falar com o meu professor, n\u00e3o contei minha conversa com minha m\u00e3e, &#8220;quero marcar a minha ordena\u00e7\u00e3o&#8221;. Ent\u00e3o, ele abriu o calend\u00e1rio dele e disse &#8220;que tal no dia 14 de janeiro&#8221; e eu disse &#8220;est\u00e1 \u00f3timo&#8221;. Minha m\u00e3e, a partir do meu interesse pelo Budismo, come\u00e7ou a estudar sobre o Zen Budismo, ela \u00e9 muito interessada em psican\u00e1lise. E me lembro quando fazia minhas curtas incurs\u00f5es no Brasil, ela reunia as amigas dela para falarem sobre o Zen Budismo e me chamava para debater. Ent\u00e3o comecei a perceber que ela come\u00e7ou a defender e ensinar a elas sobre o Zen Budismo, achei interessante. E o meu pai vem aqui todo domingo e oferece um incenso no altar ao Buda e um dia me perguntou &#8220;posso fazer um pedido&#8221; e falei &#8221; quantos voc\u00ea quiser&#8221;, ele todo bonitinho, coloca as m\u00e3os palma com palma, oferece o incenso, olhando para o Buda, conversando com ele e pedindo as coisas que ele quer pedir.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; Como era sua vida antes do Zen Budismo?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Ficava brava, muito brava. Triste, muito triste e alegre, muito alegre. Hoje eu fico triste e alegre, mas era diferente, porque era como se eu fosse uma marionete. As pessoas eram capazes de mexer demais comigo, conforme o que me falavam. De repente o Zen Budismo d\u00e1 uma estabilidade e um centro. Voc\u00ea sabe que isso existe, voc\u00ea consegue voltar mais r\u00e1pido, continuo tendo problemas, mas s\u00e3o transit\u00f3rios. N\u00e3o fica muito pegajoso, nem &#8220;lamacento&#8221;. \u00c9 mais r\u00e1pido o processo, \u00e9 mais profundo, voc\u00ea fica mais em contato com os seus sentimentos, suas tristezas e alegrias s\u00e3o mais profundas e quietas.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; Como fica o quesito celibato para monges budistas?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Dentro da tradi\u00e7\u00e3o japonesa, dos monges budistas japoneses, \u00e9 a \u00fanica, em que permite casamento. Ent\u00e3o, alguns outros grupos de budistas, dizem que os monges japoneses s\u00e3o meios leigos, porque eles se casam e constituem fam\u00edlia. Tamb\u00e9m dentro da nossa tradi\u00e7\u00e3o japonesa, n\u00e3o s\u00e3o todos que se casam, geralmente, os abades os Mosteiros Cedi, se eles s\u00e3o casados, se divorciam para assumir a lideran\u00e7a. Isso ainda \u00e9 uma exig\u00eancia para os mosteiros Cedi e alguns de treinamento mon\u00e1sticos. A maioria dos monges do Jap\u00e3o, mais ou menos 90%, s\u00e3o casados e das monjas, mais ou menos 90% delas, s\u00e3o celibatas. N\u00e3o \u00e9 proibido, mas \u00e9 esperado.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; Qual o significado de raspar a cabe\u00e7a?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Nem todos os monges budistas raspam a cabe\u00e7a, na nossa tradi\u00e7\u00e3o Zen \u00e9 mais enf\u00e1tico isso, em outros grupos n\u00e3o. \u00c9 fazer o que Buda fez. Cabelo na \u00cdndia era sinal de Casta, avalia o n\u00edvel social que voc\u00ea \u00e9 conforme o tamanho do cabelo, o corte e o penteado. Ent\u00e3o, raspar a cabe\u00e7a \u00e9 manter-se fora da casta e, a outra coisa, \u00e9 n\u00e3o ter apego. Hoje em dia, \u00e9 algo atemporal, olhar uma pessoa de cabe\u00e7a raspada e uma roupa que se usa h\u00e1 muitos s\u00e9culos, n\u00e3o \u00e9 exatamente do futuro, nem do passado e nem do presente, mas est\u00e1 presente dentro da impress\u00e3o. Uma outra coisa que acho importante, minha abadessa, minha professora no Jap\u00e3o, costumava dizer: &#8220;quando voc\u00ea anda na rua, n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea, e sim, um monge, \u00e9 um disc\u00edpulo de Buda. Ent\u00e3o, lembre-se que tudo que voc\u00ea faz \u00e9 o Budismo que est\u00e1 fazendo, tudo que voc\u00ea est\u00e1 criando \u00e9 uma imagem para o Budismo&#8221;. Isso era interessante, porque tinham algumas monjas, inclusive eu, que \u00edamos comprar um chocolate e dava vontade de comprar aquele caro e gostoso, mas, ficava pensando, &#8220;sou monja e ganhei esse dinheiro com esmola e n\u00e3o posso ficar esbanjando&#8221;. E comprava o mais barato. Ent\u00e3o, a cabe\u00e7a raspada tem uma certa import\u00e2ncia, porque voc\u00ea na rua \u00e9 um Serm\u00e3o ambulante, se alguma pessoa est\u00e1 triste e desesperada, quando v\u00ea um monge andando pela rua, s\u00f3 a figura j\u00e1 faz a pessoa lembrar da sua parte espiritual.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; Qual a sua opini\u00e3o sobre os jovens de hoje, que segundo o Papa Jo\u00e3o Paulo II, est\u00e3o &#8220;matando&#8221; Deus?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Como voc\u00ea pode matar o que n\u00e3o sabe o que \u00e9. O que voc\u00ea n\u00e3o encontrou. Um dia me contaram uma piada, que gostei muito. Tinha dois meninos muito levados e a freira n\u00e3o ag\u00fcentava mais e resolveu lev\u00e1-los ao Padre, quem sabe ele faz alguma coisa. Chegou e falou com o padre &#8220;fala com o Zezinho e com o Paulinho, pois est\u00e3o insuport\u00e1veis, ningu\u00e9m consegue dar aula com eles&#8221;. Ent\u00e3o, o padre pensou o que falaria para eles. &#8220;Manda entrar, mas um de cada vez&#8221;, entrou o Zezinho. O padre perguntou &#8220;voc\u00ea sabe onde est\u00e1 Deus?&#8221;, o Zezinho fechou os bra\u00e7os e respondeu &#8220;n\u00e3o&#8221;. &#8220;Como n\u00e3o&#8221;, retrucou o padre, &#8220;Onde est\u00e1 Deus? Zezinho&#8221;, onde est\u00e1?, me diga, onde est\u00e1?&#8221; Desesperado, Zezinho, saiu correndo da sala batendo a porta e falou com o Paulinho &#8220;vamos sair daqui r\u00e1pido, porque Deus desapareceu e est\u00e3o querendo nos culpar&#8221; (risos).<\/p>\n<p><b>WM &#8211; O Budismo tem v\u00e1rias linhas, quais s\u00e3o as principais diferen\u00e7as do Zen Budismo das outras linhas?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; A palavra Zen, quer dizer estado de medita\u00e7\u00e3o profunda. \u00c9 que a base da pr\u00e1tica \u00e9 o Zazen. N\u00f3s nem chamamos de medita\u00e7\u00e3o, e sim, de Zazen, sentar-se em Zen. Porque n\u00e3o \u00e9 meditar em alguma coisa ou ficar pensando em algo, nem usar Mantra, nem usar visualiza\u00e7\u00f5es de alguma coisa, n\u00e3o \u00e9 repetir um nome sagrado. Mas, estar presente e em contato com a ess\u00eancia do ser, n\u00e3o \u00e9 diferente da ess\u00eancia de tudo que existe. Enquanto as outras tradi\u00e7\u00f5es evocam o nome de Buda, algumas evocam o nome de um Sutra sagrado, dizendo que esse Sutra \u00e9 o pr\u00f3prio Buda, porque o seus ensinamento \u00e9 o corpo dele. Como em outras tradi\u00e7\u00f5es tem v\u00e1rios rituais para entrar em contato com essa unidade.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; Ao vir para o Ocidente, o Budismo passa por alguma adapta\u00e7\u00e3o?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Est\u00e1 sofrendo adapta\u00e7\u00f5es ainda, agente n\u00e3o fala de um Budismo praticamente Ocidental, est\u00e1 se comentando muito sobre o Budismo norte americano como algo que j\u00e1 tenha entrado no esp\u00edrito da cultura da Am\u00e9rica do Norte. Na verdade, ainda \u00e9 muito cedo pra falar isso, porque o Budismo no Ocidente tem, praticamente, um s\u00e9culo de exist\u00eancia; \u00e9 muito pouco para fazer uma adapta\u00e7\u00e3o cultural. Mas, tem sido feitas muitas mudan\u00e7as, na \u00cdndia tinha algumas caracter\u00edsticas da linguagem e da cultura, a linguagem traduz muito a maneira de pensar de um povo. Quando passa para a China e \u00e9 feita a tradu\u00e7\u00e3o, vai entrar no pensamento chin\u00eas. Da China vai passar por outros pa\u00edses, o Jap\u00e3o por exemplo, haver\u00e1 uma acultura\u00e7\u00e3o do pensamento japon\u00eas. O que estamos recebendo, por esse templo, \u00e9 o Budismo japon\u00eas que est\u00e1 chegando no Brasil. Algumas diferen\u00e7as, por exemplo, um dia fomos fazer uma palestra com o novo Superior Geral e algumas pessoas presentes na palestra me falaram: &#8220;\u00c9 t\u00e3o dif\u00edcil dizer que apreciamos a palestra dele, porque ele fala de v\u00e1rios assuntos e n\u00e3o faz a conex\u00e3o&#8221;. Ent\u00e3o respondi, &#8220;isso \u00e9 muito maneira japonesa de ser, porque voc\u00ea fala uma coisa e outra, deixando que o ouvinte fa\u00e7a a conex\u00e3o em vez de dar o &#8216;prato pronto'&#8221;. \u00c9 uma diferen\u00e7a educacional. \u00c9 a mesma coisa se eu chegar aqui falando o portugu\u00eas de Cam\u00f5es, ningu\u00e9m iria entender nada. O que fa\u00e7o de tradu\u00e7\u00f5es, procuro muitas vezes deix\u00e1-la literal, porque acho o gosto japon\u00eas agrad\u00e1vel. Por isso, algumas pessoas me criticam porque muitas vezes n\u00e3o acham muito bonito, nem muito po\u00e9tico em portugu\u00eas. Mas, queria que sentissem , um pouco, a sutileza da l\u00edngua japonesa. Algumas coisas que me impressionou no Jap\u00e3o foi a gentileza das pessoas, independente das discrimina\u00e7\u00f5es que existem; \u00e9 no dia a dia. Acho que isso \u00e9 importante, muda nossa maneira de ser. As coisas boas que vemos em outros pa\u00edses, podemos incorporar nas nossas.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; O que a Senhora aconselharia para quem est\u00e1 iniciando no Zen Budismo agora?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Zazen. \u00c9 bom ter algu\u00e9m que j\u00e1 tenha tido alguma experi\u00eancia para orientar. Porque alguns pensam que \u00e9 s\u00f3 sentar e ficar divagando, pensando, imaginando e sonhando, mas n\u00e3o \u00e9 isso. Uma das coisas que recomendamos, \u00e9 que fa\u00e7a o Zazen, quando aprender, pelo menos duas vezes por dia, de manh\u00e3 e de noite. Procurar dar uma continuidade na pr\u00e1tica, n\u00f3s somos aquilo que fazemos. Quando fazemos a pr\u00e1tica de Buda, ele se aproxima de n\u00f3s, quando paramos ele se afasta. Outro dia, estava lendo um texto do Dalai Lama, que \u00e9 de outra tradi\u00e7\u00e3o, que dizia assim: &#8220;quando uma pessoa quebra os preceitos, \u00e9 como se ela estivesse tirado coroa de ouro, que \u00e9 lev\u00edssima, e tivesse colocado uma coroa de ferro pesad\u00edssima na cabe\u00e7a&#8221;. Ent\u00e3o tudo que \u00e9 agrad\u00e1vel de se ter \u00e9 substitu\u00eddo por um grilh\u00e3o que te aperta e pesa.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; Como a Senhora definiria o Zen Budismo?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Gosto muito do que um monge que viveu no s\u00e9culo oitavo na China, quando perguntavam a ele, qual a ess\u00eancia do Zen? E ele dizia &#8221; o universo \u00e9 uma j\u00f3ia redonda e n\u00f3s a vida desse universo, dessa j\u00f3ia. Todos n\u00f3s e tudo, n\u00e3o viemos de fora e nem vamos ficar de fora, n\u00e3o existe fora nem dentro, apenas a j\u00f3ia. O Zen nos leva a realizar e conhecer.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; A senhora j\u00e1 conheceu v\u00e1rias partes do mundo? O que mais gostou e o que a deixou mais triste?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Talvez uma das coisas de que mais tenha gostado foi o Budismo japon\u00eas, porque tinha professores muito bons, que era melhor do que qualquer doce, que qualquer carinho, melhor do que qualquer coisa. Esse sentido de pr\u00e1tica mesmo, que \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o agrad\u00e1vel, bom e machuca. Isso encontrei muito nos Estados Unidos e no Jap\u00e3o, v\u00e1rios lugares de treinamento e professores . N\u00f3s monges, pelo menos no Jap\u00e3o, independente de ter dinheiro ou n\u00e3o, somos muito bem tratados, t\u00ednhamos reuni\u00f5es muito agrad\u00e1veis. Agora o que achei de mais triste no mundo e ainda acho, \u00e9 a viol\u00eancia, em todos os aspectos, na natureza, aquele caso do vazamento de Petr\u00f3leo, todos aqueles passarinho molhados. D\u00e1 vergonha fazer parte de uma humanidade que faz tanta bobagem, como \u00e9 que podemos ajudar. Quando ando nas ruas de S\u00e3o Paulo, tem tantos pobres, com os p\u00e9s calosos e descal\u00e7os, aqueles calos que tem at\u00e9 um rasgo e sujo. Sem perspectiva, sem casa, largado, perder todo o desejo pela vida e n\u00e3o existe mais nada que os mova. Fica aquela sensa\u00e7\u00e3o &#8220;o que fazer para transformar isso?&#8221;, &#8221; que isso possa fazer aquelas coisas boas, que eu sente, de ser respeitado, querido, necess\u00e1rio e participante. Como \u00e9 que voc\u00ea transforma isso?&#8221; Acho isso a coisa mais triste do mundo, independente do pa\u00eds, no Jap\u00e3o existe menos mis\u00e9ria do que aqui, com poucos mendigos. \u00c9 menor a quantidade, mas a tristeza e o sofrimento s\u00e3o os mesmos.<\/p>\n<p><b>WM &#8211; Qual a sua opini\u00e3o sobre a internet?<\/b><br \/>\nMonja Coen &#8211; Interessante, estamos com um programa em que estamos colocando inform\u00e1tica dentro do Carandiru. O que as pessoas tem reclamado, \u00e9 essa globaliza\u00e7\u00e3o s\u00f3 esta pegando uma parte da popula\u00e7\u00e3o, s\u00f3 a camada rica, ent\u00e3o vai ter mais pessoas exclu\u00eddas. Acho que depende de n\u00f3s n\u00e3o permitir, isso torne uma exclus\u00e3o, n\u00f3s podemos tornar uma inclus\u00e3o. Isso vai come\u00e7ar, pois \u00e9 natural est\u00e1 aumentando muito o n\u00famero de computadores, de aparelhos em si. Primeiro eram s\u00f3 alguns que tinham porque era muito caro, ent\u00e3o foi ficando mais barato. A pessoa que tem dinheiro, est\u00e1 sempre trocando por um computador mais moderno e o antigo, por n\u00e3o valer mais nada, ela doa para institui\u00e7\u00f5es, que naturalmente, n\u00e3o \u00e9 \u00faltimo modelo, mas para come\u00e7armos a ensinar as pessoas da favela n\u00e3o tem problema nenhum. Isso \u00e9 importante para que possamos romper essas barreiras. Hoje \u00e9 muito simples falar com o mundo, de perceber que estamos em contato, mas isso, j\u00e1 estava acontecendo sem a internet. N\u00f3s vivemos em uma internet, que \u00e9 uma rede interligada, isso \u00e9 o ensinamento b\u00e1sico, somos interligados e interconectados, queiramos ou n\u00e3o. Agora inventaram uma &#8220;maquininha&#8221; , que est\u00e1 mostrando isso fisicamente, para quem n\u00e3o percebeu ainda, ela est\u00e1 tornando mais f\u00e1cil, mais r\u00e1pido, do que tentarmos telepaticamente.<\/p>\n<hr \/>\n<ol TYPE=\"1\">\n<li><font SIZE=\"1\">Extra\u00eddo do site www.monjacoen.com.br.<\/font><\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<hr \/>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Coen Sensei por Mariana Sayad1 Monja Coen, nossa entrevistada desta semana, estar\u00e1 falando sobre o Zen Budismo que \u00e9 uma das linhas do Budismo. Como isso mudou sua vida e sua maneira de ver o mundo. WM &#8211; &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/entrevista-com-coen-sensei-por-mariana-sayad\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6807,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25,40],"tags":[16],"class_list":["post-6810","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mestres","category-zen","tag-thich-nhat-hanh"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6810","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6810"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6810\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6811,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6810\/revisions\/6811"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6807"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6810"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6810"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6810"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}