{"id":712,"date":"2013-09-28T19:41:16","date_gmt":"2013-09-28T21:41:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=712"},"modified":"2018-02-10T18:46:58","modified_gmt":"2018-02-10T20:46:58","slug":"mente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/mente\/","title":{"rendered":"Mente"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=1420\" rel=\"attachment wp-att-1420\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/mente-alerta.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1420\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/mente-alerta.jpg 500w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/mente-alerta-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/mente-alerta-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\nDo livro: Luminous mind: the way of the Buddha. Compilado por Denis T\u00f6ndrup, traduzido por Maria Montenegro, pref\u00e1cio de S.S. o Dalai Lama.<br \/>\nBoston: Wisdom, 1997. P\u00e1g. 15-44.<\/p>\n<p>Mente, Realidade e Ilus\u00e3o<br \/>\nApesar de todos n\u00f3s termos a sensa\u00e7\u00e3o de possuir uma mente e de existir, nossa compreens\u00e3o a respeito de nossa mente e de como existimos geralmente \u00e9 vaga e confusa. Instantaneamente dizemos, \u201cEu tenho uma mente ou uma consci\u00eancia\u201d, \u201cEu sou\u201d, \u201cEu existo\u201d; nos identificamos com um \u201ceu\u201d, ao qual atribu\u00edmos qualidades, mas n\u00e3o conhecemos a natureza desta mente, nem deste \u201ceu\u201d. N\u00e3o sabemos do que s\u00e3o feitos, como funcionam, \u201co que\u201d ou \u201cquem\u201d realmente s\u00e3o.<\/p>\n<p>O paradoxo fundamental<br \/>\nAo procurar a mente, inicialmente o mais importante \u00e9 reconhecer a natureza da mente ao questionar, no n\u00edvel mais profundo, o que realmente somos. Aqueles que realmente examinaram suas mentes e refletiram sobre o que ela \u00e9 s\u00e3o realmente raros, e para aqueles que tentam, a procura prova ser dif\u00edcil. Ao buscarmos e observarmos o que nossa mente \u00e9, muitas vezes n\u00e3o a cercamos verdadeiramente; n\u00e3o chegamos realmente a uma compreens\u00e3o sobre ela.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, uma perspectiva cient\u00edfica pode oferecer muitas respostas para uma defini\u00e7\u00e3o de \u201cmente\u201d, mas n\u00e3o \u00e9 o tipo de conhecimento ao qual estamos nos referindo aqui. A quest\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que a mente conhe\u00e7a a si mesma porque aquele que procura, o sujeito, \u00e9 a pr\u00f3pria mente, e o objeto que ele procura examinar tamb\u00e9m \u00e9 a mente. H\u00e1 um paradoxo aqui: posso procurar por mim em todos os lugares, procurar por todo o mundo, sem nunca me encontrar, porque eu n\u00e3o sou o que procuro.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 o mesmo ao tentar enxergar o nosso pr\u00f3prio rosto: nossos olhos est\u00e3o muito pr\u00f3ximos do rosto, mas n\u00e3o podem ver muita coisa dele. N\u00e3o reconhecemos a nossa mente simplesmente porque ela est\u00e1 muito pr\u00f3xima. Um prov\u00e9rbio do Dharma diz, \u201cO olho n\u00e3o pode ver a sua pr\u00f3pria pupila\u201d. Igualmente, nossa pr\u00f3pria mente n\u00e3o tem a capacidade de ver a si mesma; ela est\u00e1 pr\u00f3xima, t\u00e3o \u00edntima, que n\u00e3o podemos discerni-la.<\/p>\n<p>Precisamos saber como mudar as perspectivas. Para enxergar nosso rosto, usamos um espelho. Para estudar nossa pr\u00f3pria mente, precisamos de um m\u00e9todo que funcione como um espelho, para permitir que reconhe\u00e7amos a mente. Este m\u00e9todo \u00e9 o Dharma, que \u00e9 transmitido a n\u00f3s por um guia espiritual.<\/p>\n<p>\u00c9 na rela\u00e7\u00e3o com este ensinamento e com este amigo, ou guia, que a mente ser\u00e1 gradualmente capaz de despertar para a sua verdadeira natureza e de finalmente ir al\u00e9m do paradoxo inicial, realizando um outro tipo de conhecimento. Esta descoberta \u00e9 efetuada atrav\u00e9s de v\u00e1rias pr\u00e1ticas conhecidas como medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em busca da mente<br \/>\nA mente \u00e9 uma coisa estranha. Os asi\u00e1ticos tradicionalmente a situam no centro do corpo, no n\u00edvel do cora\u00e7\u00e3o. Os ocidentais entendem que a mente est\u00e1 localizada na cabe\u00e7a, no c\u00e9rebro. Apesar dos diferentes pontos de vistas serem justificados, estas designa\u00e7\u00f5es s\u00e3o inadequadas. Basicamente, a mente n\u00e3o est\u00e1 mais no cora\u00e7\u00e3o do que no c\u00e9rebro. A mente habita o corpo, mas \u00e9 apenas uma ilus\u00e3o achar que a mente possa ser localizada neste ou naquele lugar. Essencialmente, n\u00e3o podemos dizer que a mente \u00e9 encontrada em um lugar espec\u00edfico da pessoa, ou em qualquer outro lugar.<\/p>\n<p>Buscar a mente n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil porque, al\u00e9m do paradoxo do conhecedor n\u00e3o poder conhecer a si mesmo, sua natureza essencial \u00e9 indescrit\u00edvel. N\u00e3o tem forma, nem cor ou qualquer caracter\u00edstica que poderia permitir que conclu\u00edssemos, \u201c\u00c9 isso\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, cada um de n\u00f3s desenvolve uma experi\u00eancia da natureza de nossa mente ao nos perguntarmos o que o observador est\u00e1 fazendo: o observador, o conhecedor, o sujeito que experimenta os pensamentos e as diferentes sensa\u00e7\u00f5es. Onde exatamente ele pode se encontrado? O que ele \u00e9? \u00c9 uma quest\u00e3o de observar nossa pr\u00f3pria mente. Onde ele est\u00e1? Quem sou eu? O que sou eu? O corpo e a mente s\u00e3o o mesmo ou s\u00e3o diferentes? Minhas experi\u00eancias se desdobram dentro ou fora de minha mente? A mente e seus pensamentos s\u00e3o distintos ou s\u00e3o a mesma coisa? Se sim, como? Se n\u00e3o, como? A busca \u00e9 levada \u00e0 medita\u00e7\u00e3o, em conex\u00e3o pr\u00f3xima com um guia qualificado que pode nos dizer o que est\u00e1 correto e o que est\u00e1 errado. O processo pode demorar muitos meses, ou at\u00e9 mesmo muitos anos. <\/p>\n<p>\u00c0 medida que esta busca se aprofunda, o lama progressivamente nos direciona para a experi\u00eancia da verdadeira natureza da mente. \u00c9 dif\u00edcil compreender e realizar porque n\u00e3o \u00e9 algo que possa ser compreendido atrav\u00e9s de conceitos ou representa\u00e7\u00f5es. O principal estudo da mente n\u00e3o pode se feito atrav\u00e9s da teoria; precisamos da experi\u00eancia pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o para penetrar em sua verdadeira natureza.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma abordagem dupla: podemos dizer que h\u00e1 uma abordagem anal\u00edtica e outra contemplativa. A primeira \u00e9 feita de quest\u00f5es como aquelas que perguntamos anteriormente. Se levarmos este tipo de busca persistentemente, enquanto somos guiados competentemente, uma compreens\u00e3o definitiva se desenvolve.<\/p>\n<p>Na segunda abordagem, a mente simplesmente descansa em sua pr\u00f3pria lucidez, sem for\u00e7ar ou usar artif\u00edcios. Esta pr\u00e1tica vai al\u00e9m de todas as formas anteriores de an\u00e1lise, ao nos fazer deixar a esfera dos conceitos e de nos fazer abrir para uma experi\u00eancia imediata. No final destas medita\u00e7\u00f5es, descobrimos a vacuidade essencial da mente. Isto \u00e9, a mente \u00e9 vazia de determina\u00e7\u00f5es e caracter\u00edsticas, tais como forma, cor ou aspecto, e sua natureza est\u00e1 al\u00e9m das representa\u00e7\u00f5es, conceitos, nomes e formas. Para tentar invocar o reconheciment<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">o da vacuidade, poder\u00edamos compar\u00e1-lo \u00e0 \u201cindetermina\u00e7\u00e3o\u201d do espa\u00e7o: a mente \u00e9 vazia como o espa\u00e7o. Mas isto \u00e9 apenas como imagem e, como veremos, a mente n\u00e3o \u00e9 apenas vazia.<\/p>\n<p>Por enquanto, gostaria de enfatizar como \u00e9 importante o conhecimento da mente, assim como os frutos deste conhecimento. A mente \u00e9 o que somos. \u00c9 ela que experimenta a felicidade e o sofrimento. A mente \u00e9 o que experimenta diferentes pensamentos e sensa\u00e7\u00f5es; \u00e9 ela que est\u00e1 sujeita \u00e0s emo\u00e7\u00f5es agrad\u00e1veis e desagrad\u00e1veis, \u00e9 ela que experimenta o desejo, a avers\u00e3o etc. Uma compreens\u00e3o real da natureza \u00e9 libertadora porque nos desengaja de todas as ilus\u00f5es e, conseq\u00fcentemente, de toda fonte de sofrimentos, medos e dificuldades que constituem nossa vida di\u00e1ria.<\/p>\n<p>Por exemplo, se tivermos a ilus\u00e3o de que uma pessoa m\u00e1 \u00e9 um ajudante, ele poder\u00e1 nos enganar, abusar de n\u00f3s e nos causar dano, mas assim que o reconhecemos como sendo mau, n\u00e3o seremos mais ing\u00eanuos; ao desmascar\u00e1-lo, podemos evitar cair como v\u00edtimas de seus maus atos. Aqui, a pessoa m\u00e1 \u00e9 a ignor\u00e2ncia do que realmente somos, ou mais precisamente, a ilus\u00e3o do ego, do eu. O conhecimento que desmascara isto \u00e9 a consci\u00eancia da natureza da mente; ela nos libera das ilus\u00f5es e do conhecimento doloroso. Esta compreens\u00e3o da mente \u00e9 o fundamento do Buddhadharma e de todos os seus ensinamentos.<\/p>\n<p>Ilumina\u00e7\u00e3o e ilus\u00e3o<br \/>\nA mente tem dois rostos, duas facetas, que s\u00e3o os dois aspectos da realidade. Estes aspectos s\u00e3o a ilumina\u00e7\u00e3o e a ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>A ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 o estado da mente pura. \u00c9 o conhecimento n\u00e3o-dualista, chamado sabedoria primordial. Suas experi\u00eancias s\u00e3o aut\u00eanticas, isto \u00e9, elas s\u00e3o sem ilus\u00e3o. A mente pura \u00e9 livre e dotada de numerosas qualidades.<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o \u00e9 o estado da mente impura. Seu modo de conhecimento \u00e9 dualista; \u00e9 a consci\u00eancia condicionada. Suas experi\u00eancias est\u00e3o maculadas pelas ilus\u00f5es. A mente impura \u00e9 condicionada e dotada de muito sofrimento.<\/p>\n<p>Os seres comuns experimentam este estado de mente impura e deludida como sendo o seu estado habitual. A mente pura, iluminada, \u00e9 um estado no qual a mente realiza sua pr\u00f3pria natureza, livre das condi\u00e7\u00f5es habituais e do sofrimento associado a elas. Este \u00e9 o estado iluminado do Buda.<\/p>\n<p>Quando nossa mente est\u00e1 em seu estado impuro, deludido, somos seres comuns que se movem atrav\u00e9s dos diferentes reinos da consci\u00eancia condicionada. As transmigra\u00e7\u00f5es da mente dentro destes reinos fazem seus giros indeterminados na exist\u00eancia condicionada, c\u00edclica, ou ciclo de vidas \u2014 samsara em s\u00e2nscrito.<\/p>\n<p>Quando \u00e9 purificada de toda ilus\u00e3o sams\u00e1rica, a mente n\u00e3o mais transmigra. Este \u00e9 o estado iluminado de um Buddha, \u00e9 a experi\u00eancia da pureza essencial de nossa pr\u00f3pria mente, de nossa natureza b\u00faddhica. Todos os seres, quaisquer que sejam, t\u00eam a natureza b\u00faddhica. Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual todos podem realizar a natureza b\u00faddhica. Como cada um de n\u00f3s possui a natureza b\u00faddhica, \u00e9 poss\u00edvel atingir a ilumina\u00e7\u00e3o. Se j\u00e1 n\u00e3o a tiv\u00e9ssemos, nunca poder\u00edamos ser capazes de realiz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o estado comum e o estado iluminado s\u00e3o distintos apenas pela impureza ou pureza da mente, pela presen\u00e7a ou aus\u00eancia de ilus\u00f5es. Nossa mente neste instante, j\u00e1 tem as qualidades do estado b\u00faddhico; essas qualidades permanecem em nossa mente, elas s\u00e3o a natureza pura da mente. Infelizmente, nossas qualidades iluminadas s\u00e3o invis\u00edveis para n\u00f3s porque est\u00e3o mascaradas por diferentes mortalhas, v\u00e9us e outros tipos de m\u00e1cula.<\/p>\n<p>Buda Shakyamuni disse, \u201cA natureza b\u00fadica est\u00e1 presente em todos os seres, por\u00e9m escondida por ilus\u00f5es advent\u00edcias; quando purificada, eles realizam verdadeiramente o Buda\u201d.<\/p>\n<p>A dist\u00e2ncia entre o estado comum e o estado iluminado \u00e9 o que separa a ignor\u00e2ncia do conhecimento desta natureza pura da mente. No estado comum, \u00e9 desconhecida. No estado iluminado, \u00e9 totalmente realizada. A situa\u00e7\u00e3o na qual a mente \u00e9 ignorante de seu estado real \u00e9 o que chamamos de ignor\u00e2ncia fundamental. Ao realizar sua profunda natureza, a mente \u00e9 liberada desta ignor\u00e2ncia, das ilus\u00f5es e condicionamentos que a mente cria, e ent\u00e3o entra no incondicionado estado iluminado, chamado libera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo o Buddhadharma e suas pr\u00e1ticas envolvem a purifica\u00e7\u00e3o, tirar as ilus\u00f5es da mente, e proceder de um estado maculado para um imaculado, da ilus\u00e3o para a ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A natureza da mente<br \/>\nA verdadeira experi\u00eancia da natureza essencial da mente est\u00e1 al\u00e9m das palavras. Querer descrev\u00ea-la \u00e9 como a situa\u00e7\u00e3o de um mudo que quer descrever o sabor de um doce em sua boca: ele n\u00e3o tem um meio adequado de se exprimir. Mesmo assim, gostaria de oferecer algumas id\u00e9ias que aludem a esta experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Podemos pensar que a natureza da mente pura tem tr\u00eas aspectos essenciais, complementares e simult\u00e2neos: a abertura, a claridade e a sensitividade.<\/p>\n<p>A abertura<br \/>\nA mente \u00e9 o que pensa, \u201cEu sou\u201d, \u201cEu quero\u201d, \u201cEu n\u00e3o quero\u201d; \u00e9 o pensador, o observador, o sujeito de todas as experi\u00eancias. Eu sou a mente. De um ponto de vista, esta mente existe, j\u00e1 que eu sou e eu tenho a capacidade de a\u00e7\u00e3o. Se eu quero ver, eu posso ver; se eu quero ouvir, eu posso ouvir; se eu decido fazer algo com minhas m\u00e3os, eu posso comandar meu corpo, e assim por diante. Neste sentido, a mente e suas faculdades parecem existir.<\/p>\n<p>Mas se buscarmos por ela, n\u00e3o poderemos encontrar qualquer parte dela em n\u00f3s, nem em nossa cabe\u00e7a, em nosso corpo ou em qualquer outro lugar. Ent\u00e3o, desta outra perspectiva, ela parece n\u00e3o existir. Portanto, de outro lado a mente parece existir, mas por outro lado n\u00e3o \u00e9 algo que verdadeiramente existe.<\/p>\n<p>Por mais exaustivas que sejam nossas investiga\u00e7\u00f5es, nunca seremos capazes de encontrar quaisquer caracter\u00edsticas formais da mente: n\u00e3o tem dimens\u00e3o, nem cor, forma ou qualquer qualidade tang\u00edvel. \u00c9 neste sentido que ela \u00e9 chamada de aberta, porque \u00e9 essencialmente indeterminada, desqualificada, al\u00e9m do conceito e, assim, compar\u00e1vel ao espa\u00e7o. Esta natureza indefin\u00edvel \u00e9 a abertura que nos faz experimentar a mente como um &#8220;eu&#8221; que possui as caracter\u00edsticas que habitualmente atribu\u00edmos a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Mas devemos ter cuidado aqui! Dizer que a mente \u00e9 aberta como o espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 reduzi-la a algo n\u00e3o-existente, no sentido de ser n\u00e3o-funcional. Como o espa\u00e7o, a mente pura n\u00e3o pode ser localizada, mas \u00e9 onipresente e permeia tudo; ela abra\u00e7a e permeia todas as coisas. Acima de tudo, ela est\u00e1 al\u00e9m da mudan\u00e7a e sua natureza aberta \u00e9 indescrit\u00edvel e atemporal.<\/p>\n<p>A claridade<br \/>\nApesar da mente ser essencialmente vazia no sentido explicado acima, ela n\u00e3o \u00e9 apenas aberta ou vazia, porque se fosse, a mente seria inerte e n\u00e3o iria experimentar ou conhecer qualquer coisa, nem sensa\u00e7\u00f5es, nem alegria ou sofrimento. A mente n\u00e3o \u00e9 apenas vazia \u2014 ela possui uma segunda qualidade essencial, que \u00e9 a sua capacidade de experi\u00eancias, de cogni\u00e7\u00e3o. Esta qualidade din\u00e2mica \u00e9 chamada claridade. Ela \u00e9 tanto a lucidez da intelig\u00eancia<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"> da mente quanto a luminosidade destas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Para melhorar nossa compreens\u00e3o da claridade, podemos comparar a abertura da mente ao espa\u00e7o da sala onde estamos. Este espa\u00e7o sem forma permite que aconte\u00e7am nossas experi\u00eancias; ele cont\u00e9m a experi\u00eancia em sua totalidade. \u00c9 onde a nossa experi\u00eancia toma o seu lugar. A claridade, ent\u00e3o, seria a luz que ilumina a sala e que nos permite reconhecer diferentes coisas. Se houvesse apenas o inerte espa\u00e7o vazio, n\u00e3o haveria a possibilidade de haver consci\u00eancia. Isto \u00e9 apenas um exemplo, porque a claridade da mente n\u00e3o \u00e9 como a luz comum do sol, da lua ou da eletricidade. \u00c9 a claridade da mente que torna poss\u00edvel toda cogni\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia.<\/p>\n<p>A natureza aberta e luminosa da mente \u00e9 o que chamamos de \u201cclara luz\u201d; \u00e9 uma claridade aberta que, no n\u00edvel da mente pura, est\u00e1 consciente em e por si mesma; \u00e9 por isso que a chamamos de cogni\u00e7\u00e3o auto-luminosa ou claridade.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um exemplo verdadeiramente adequado para ilustrar esta claridade no n\u00edvel puro, mas no n\u00edvel comum, que podemos relatar mais facilmente, podemos ter uma id\u00e9ia de alguns de seus aspectos, ao compreender uma das manifesta\u00e7\u00f5es da mente \u2014 o estado do sonho. Vamos dizer que \u00e9 uma noite escura, e que nesta escurid\u00e3o estamos sonhando, ou experimentando um mundo de sonho. O espa\u00e7o mental onde o sonho acontece, independente do lugar f\u00edsico onde estamos, poderia ser comparado \u00e0 abertura da mente, enquanto sua capacidade de experimentar, apesar da escurid\u00e3o externa, corresponde \u00e0 sua claridade. Esta lucidez abarca todo o conhecimento da mente e \u00e9 a claridade inerente nestas experi\u00eancias. \u00c9 tamb\u00e9m a lucidez do que ou quem as experimenta; o conhecedor e o conhecido, a lucidez e <\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">a claridade, nada mais s\u00e3o do que duas facetas da mesma qualidade. A intelig\u00eancia que experimenta o sonho \u00e9 a lucidez, e a claridade presente em suas experi\u00eancias \u00e9 a sua luminosidade; mas no n\u00edvel n\u00e3o-dual da mente pura, \u00e9 apenas uma e a mesma qualidade, a \u201cclaridade\u201d, chamada prabhasvara em s\u00e2nscrito, ou de selwa em tibetano. Este exemplo pode ser \u00fatil para o entendimento, mas tenha em mente que isto \u00e9 apenas uma ilustra\u00e7\u00e3o, mostrando um n\u00edvel de manifesta\u00e7\u00e3o espec\u00edfico da claridade em um n\u00edvel habitual. No exemplo, h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre a lucidez, o conhecedor e a luminosidade das experi\u00eancias do sujeito, porque o sonho \u00e9 uma experi\u00eancia dualista, diferenciada em termos de sujeito e objeto, na qual a claridade se manifesta de uma vez, na consci\u00eancia ou lucidez do sujeito, e na luminosidade de seus objetos. De fato, o exemplo \u00e9 limitado, pois fundamentalmente n\u00e3o h\u00e1 dualidade nas mentes puras: \u00e9 a mesma qualidade da claridade que \u00e9 essencialmente n\u00e3o-dual.<\/p>\n<p>A sensitividade<br \/>\nPara uma descri\u00e7\u00e3o completa da mente pura, um terceiro aspecto deve ser adicionado \u00e0s duas primeiras qualidades j\u00e1 discutidas; \u00e9 a sensitividade, ou desimpedimento. A claridade da mente \u00e9 a sua capacidade de experienciar; tudo pode surgir na mente, ent\u00e3o suas possibilidades de consci\u00eancia ou intelig\u00eancia s\u00e3o ilimitadas. O termo tibetano que designa esta qualidade significa literalmente &#8220;aus\u00eancia de impedimento&#8221;. Esta \u00e9 a liberdade da mente experienciar sem obstru\u00e7\u00e3o. No n\u00edvel puro, estas experi\u00eancias t\u00eam as qualidades da ilumina\u00e7\u00e3o. No n\u00edvel condicionado, elas s\u00e3o as percep\u00e7\u00f5es da mente de cada coisa como sendo isto ou aquilo; ou seja, \u00e9 a habilidade de distinguir, perceber e conceber todas as coisas.<\/p>\n<p>Voltando ao exemplo do sonho, a qualidade inerente de sensitividade da mente, por causa de sua abertura e claridade, seria a sua habilidade de experimentar a multiplicidade de aspectos do sonho, tanto as percep\u00e7\u00f5es do sujeito sonhador quanto as experi\u00eancias do mundo sonhado. A claridade \u00e9 o que permite surgir as experi\u00eancias, enquanto a sensitividade \u00e9 a totalidade de todos os aspectos distintamente experimentados.<\/p>\n<p>Esta sensitividade corresponde, no n\u00edvel habitual e dualista, a todos os tipos de pensamentos e emo\u00e7\u00f5es que surgem na mente e, no n\u00edvel puro da mente de um Buda, \u00e0 sabedoria ou qualidades iluminadas colocadas em pr\u00e1tica para ajudar os seres.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a mente pura pode ser compreendida assim: em ess\u00eancia, \u00e9 aberta; em natureza, \u00e9 clara; e em todos os seus aspectos, \u00e9 uma sensitividade desimpedida. Estas tr\u00eas facetas, a abertura, a claridade e a sensitividade, n\u00e3o est\u00e3o separadas, mas s\u00e3o concomitantes. Elas s\u00e3o as qualidades simult\u00e2neas e complementares da mente desperta.<\/p>\n<p>No n\u00edvel puro, estas qualidades s\u00e3o o estado de buddha; no n\u00edvel impuro da ignor\u00e2ncia e da delus\u00e3o, elas se tornam todos os estados da consci\u00eancia condicionada, todas as experi\u00eancias do samsara. Mas n\u00e3o importa se a mente \u00e9 iluminada ou deludida, nada h\u00e1 al\u00e9m dela, e ela \u00e9 essencialmente a mesma em todos os seres, humanos ou n\u00e3o-humanos. A natureza de buddha, com todos os seus poderes e qualidades iluminadas, est\u00e1 presente em cada ser. Todas as qualidades do Buddha est\u00e3o em nossas mentes, por\u00e9m veladas e obscurecidas, assim como uma vidra\u00e7a \u00e9 naturalmente transparente e transl\u00facida, mas fica opaca pela densa camada de sujeira.<\/p>\n<p>A purifica\u00e7\u00e3o, ou remo\u00e7\u00e3o destas impurezas, permite que todas as qualidades iluminadas presentes na mente seja<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">m reveladas. Realmente, nossa mente tem pouca liberdade e poucas qualidades positivas porque ela \u00e9 condicionada pelo nosso karma, pelas marcas habituais do passado. Pouco a pouco, por\u00e9m, as pr\u00e1ticas do Dharma e da medita\u00e7\u00e3o livram a mente e a despertam para todas as qualidades de um Buddha.<\/p>\n<p>Uma breve medita\u00e7\u00e3o<br \/>\n Neste ponto, provavelmente ajudaria fazer uma curta pr\u00e1tica experimental, uma medita\u00e7\u00e3o para tentar melhorar nossa compreens\u00e3o sobre tudo isso.<\/p>\n<p>Sentando confortavelmente, vamos deixar a mente descansar em seu estado natural. Relaxamos a n\u00f3s mesmos, nossas tens\u00f5es, e permanecemos sem tens\u00e3o, sem qualquer inten\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, sem artif\u00edcios&#8230; Soltamos nossa mente e permitimos que ela fique aberta, como o espa\u00e7o&#8230; Espa\u00e7osa, a mente permanece clara e l\u00facida&#8230; Relaxada, solta, a mente permanece transparente e luminosa&#8230; N\u00e3o mantemos nossa mente encerrada em n\u00f3s mesmos&#8230; Ela n\u00e3o est\u00e1 confinada em nossa cabe\u00e7a, em nosso corpo, no ambiente ou em qualquer lugar. Relaxada, ela \u00e9 vasta como o espa\u00e7o que abarca tudo&#8230; Ela abarca tudo, todo o mundo e todo o universo. Ela permeia nosso mundo inteiro. Permanecemos descansados, relaxados, neste estado de abertura, ilimitado, totalmente l\u00facido e transparente.<br \/>\n A abertura e a transpar\u00eancia da mente, similares ao espa\u00e7o infinito, s\u00e3o sinais do que temos chamado de abertura. Sua consci\u00eancia livre e clara \u00e9 o que temos chamado de claridade.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a sua sensitividade, que \u00e9 a capacidade da mente experimentar tudo em uma desimpedida consci\u00eancia de pessoas, de lugares e de todas as outras coisas. A mente pode conhecer todas estas coisas e pode reconhec\u00ea-las distintamente.<\/p>\n<p>Mais uma vez, sem orientar \u201ca mente\u201d \u2014 o sujeito-conhecedor \u2014 para fora nem para dentro, permanecemos como estivermos, \u00e0 vontade e relaxados&#8230; Sem afundar num estado de indiferen\u00e7a ou estagna\u00e7\u00e3o mental, nossa mente permanece alerta e vigilante&#8230; Neste estado, a mente \u00e9 aberta e desengajada. Isto \u00e9 a abertura&#8230; Na consci\u00eancia l\u00facida est\u00e1 a sua claridade&#8230; Todos os aspectos que conhece, distinta e desobstruidamente, s\u00e3o a sua sensitividade.<\/p>\n<p>Um obst\u00e1culo importante surge como resultado de habitualmente confinarmos a mente ao corpo, que percebemos como sendo o nosso corpo; identificamo-nos com este corpo, nos fixamos nele e nos encerramos nele. Para neutralizar isto, \u00e9 importante relaxar toda tens\u00e3o, toda inquieta\u00e7\u00e3o. Tensa e inquieta, a mente fica presa. Estas tens\u00f5es terminar\u00e3o causando dores f\u00edsicas e de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Deixe a mente permanecer descansada em sua vastid\u00e3o l\u00facida, aberta e relaxada.<\/p>\n<p>Podemos come\u00e7ar a meditar deste modo, mas \u00e9 fundamental continuar a pr\u00e1tica sob a dire\u00e7\u00e3o de um guia qualificado, que nos conduzir\u00e1 no caminho correto. Com a ajuda dele ou dela, podemos realizar a vacuidade da mente, dos pensamentos e das emo\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 o melhor de todos os m\u00e9todos de nos livrarmos da delus\u00e3o e do sofrimento. Reconhecer a natureza das emo\u00e7\u00f5es negativas permite que elas sejam liberadas; \u00e9, portanto essencial aprender a reconhecer sua vacuidade assim que as emo\u00e7\u00f5es negativas surgirem. Se permanecermos ignorantes de sua natureza vazia, elas nos carregar\u00e3o em sua torrente, nos escravizando e subjugando. Elas t\u00eam controle sobre n\u00f3s porque atribu\u00edmos a elas uma realidade que, na verdade, elas n\u00e3o t\u00eam. Se realizarmos sua vacuidade, ent\u00e3o o seu poder alienador e o sofrimento que eles causam ir\u00e3o desaparecer.<\/p>\n<p>Esta habilidade de reconhecer a natureza aberta e vazia da mente e de todas as suas produ\u00e7\u00f5es, proje\u00e7\u00f5es, pensamentos e emo\u00e7\u00f5es \u00e9 a panac\u00e9ia, o rem\u00e9dio universal que, em e por si mesmo, cura toda delus\u00e3o, toda emo\u00e7\u00e3o negativa e todo sofrimento.<\/p>\n<p>Nossa mente pode ser comparada a uma m\u00e3o que est\u00e1 atada ou amarrada; neste caso, a mente est\u00e1 presa pela representa\u00e7\u00e3o de nosso \u201ceu\u201d, \u201cego\u201d ou \u201csi-mesmo\u201d, assim como pelos conceitos e fixa\u00e7\u00f5es que pertencem a esta id\u00e9ia. Pouco a pouco, a pr\u00e1tica do Dharma elimina estas fixa\u00e7\u00f5es e conceitos de auto-estima e, assim como uma m\u00e3o desatada pode se abrir, a mente <\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">se abre e ganha todos os tipos de possibilidades de atividade. Ela ent\u00e3o descobre muitas qualidades e habilidades, como a m\u00e3o livre de suas amarras. As qualidades que s\u00e3o lentamente reveladas s\u00e3o aquelas da ilumina\u00e7\u00e3o, da mente pura.<\/p>\n<p>Os v\u00e9us da mente<br \/>\nSe n\u00e3o h\u00e1 uma diferen\u00e7a essencial entre a mente de um Buda e a nossa pr\u00f3pria mente, por que um Buda tem tantas qualidades atribu\u00eddas a ele, e n\u00f3s n\u00e3o? A diferen\u00e7a \u00e9 que em nossas mentes a natureza de Buda est\u00e1 obscurecida por todos os tipos de cobertura.<\/p>\n<p>No n\u00edvel impuro \u2014 isto \u00e9, na ignor\u00e2ncia \u2014 cada uma das tr\u00eas facetas da mente pura se torna um dos elementos que constituem a experi\u00eancia dualista. Para come\u00e7ar, a ignor\u00e2ncia sobre a abertura da mente conduz \u00e0 uma concep\u00e7\u00e3o de um sujeito, de um &#8220;eu&#8221;, de um observador; e a ignor\u00e2ncia sobre a claridade essencial conduz \u00e0 ignor\u00e2ncia dos objetos exteriores. \u00c9 assim que surge a dicotomia sujeito-objeto, eu-outro.<\/p>\n<p>Uma vez que os dois p\u00f3los da vis\u00e3o dualista tenham sido estabelecidos, v\u00e1rios relacionamentos se desenvolvem entre eles, que por sua vez motivam diferentes atividades. Os est\u00e1gios deste processo s\u00e3o constitu\u00eddos de quatro v\u00e9us que mascaram a mente pura, a natureza de Buda. Eles s\u00e3o: o v\u00e9u da ignor\u00e2ncia, o v\u00e9u da tend\u00eancia b\u00e1sica, o v\u00e9u das afli\u00e7\u00f5es mentais e o v\u00e9u do karma. Eles s\u00e3o consecutivos e est\u00e3o estruturados um ap\u00f3s o outro.<\/p>\n<p>O v\u00e9u da ignor\u00e2ncia<br \/>\nA ignor\u00e2ncia sobre a verdadeira natureza da mente, isto \u00e9, o simples fato dela n\u00e3o reconhecer o que \u00e9 realmente, \u00e9 chamada ignor\u00e2ncia fundamental. \u00c9 a inabilidade b\u00e1sica da mente condicionada perceber a si mesma. Podemos comparar a mente pura, que possui as tr\u00eas qualidades essenciais, com as \u00e1guas calmas e transparentes, nas quais tudo pode ser visto claramente. O v\u00e9u da ignor\u00e2ncia \u00e9 uma falta de intelig\u00eancia, um tipo de estado nublado, assim como um vaso opaco faz a \u00e1gua perder sua claridade transparente. Tal mente obscurecida perde a experi\u00eancia da abertura l\u00facida e se torna ignorante de sua natureza essencial.<\/p>\n<p>Diz-se que a ignor\u00e2ncia fundamental \u00e9 inata, porque ela \u00e9 inerente \u00e0 nossa exist\u00eancia; nascemos com ela. De fato, ela \u00e9 o ponto de partida da dualidade, a raiz de todas as delus\u00f5es e a fonte de todo sofrimento.<\/p>\n<p>O v\u00e9u da tend\u00eancia b\u00e1sica<br \/>\nA mente controlada pela ignor\u00e2ncia se engaja em todas as delus\u00f5es, entre as quais a mais b\u00e1sica, a raiz de todas as outras delus\u00f5es, \u00e9 o apego dualista em termos de sujeito e objeto.<\/p>\n<p>Quando a mente n\u00e3o conhece a extens\u00e3o de sua abertura, ao inv\u00e9s de experimentar sem centro ou periferia, percebe tudo atrav\u00e9s de um ponto central de refer\u00eancia. Este ponto, o centro que se apropria de todas as experi\u00eancias, \u00e9 o observador, o sujeito-ego. \u00c9 deste modo que a mente, ignorante de sua abertura, produz a experi\u00eancia delus\u00f3ria de um \u201ceu\u201d.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, quando a natureza da claridade permanece sem ser reconhecida, experimentamos uma sensa\u00e7\u00e3o de \u201coutro\u201d ao inv\u00e9s da qualidade auto-consciente da mente. Assim, o sujeito-ego distingue coisas que se tornam a qualidade auto-consciente. Assim o sujeito-ego distingue coisas que se tornam objetos externos. Surge a dicotomia do sujeito e do objeto, do \u201ceu\u201d e do outro. As \u201coutras\u201d coisas t\u00eam uma forma dual: as apar\u00eancias do mundo externo e os fen\u00f4menos duais.<\/p>\n<p>Esta tend\u00eancia da mente ser ignorante de sua natureza, e de perceber todas as situa\u00e7\u00f5es de modo dualista, \u00e9 o v\u00e9u da tend\u00eancia b\u00e1sica. Desta perspectiva, este segundo v\u00e9u pode ser chamado o v\u00e9u do apego dualista.<\/p>\n<p>O v\u00e9u das afli\u00e7\u00f5es mentais<br \/>\nComo vimos, a mente ignorante de sua abertura e de sua claridade fica imersa na dualidade. Ent\u00e3o, a ignor\u00e2ncia da sensitividade da mente d\u00e1 surgimento a todos os relacionamentos que existem entre os dois p\u00f3los da dicotomia sujeito-objeto. No n\u00edvel puro, a sensitividade \u00e9 a presen\u00e7a e a multiplicidade das qualidades iluminadas, mas na ignor\u00e2ncia, estas qualidades s\u00e3o substitu\u00eddas pelas infinitas possibilidades relativas e dualistas. Na ignor\u00e2ncia, come\u00e7amos tomando os objetos externos como sendo coisas reais. Ent\u00e3o experimentamos atra\u00e7\u00e3o aos objetos agrad\u00e1veis, avers\u00e3o aos objetos desagrad\u00e1veis e indiferen\u00e7a aos objetos que parecem neutros. Se um objeto \u00e9 agrad\u00e1vel, queremos possu\u00ed-lo. Por outro lado, diante de objetos ou situa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis, temos uma atitude de rejei\u00e7\u00e3o ou fuga. Finalmente, n\u00e3o nos relacionamos com certos objetos ou situa\u00e7\u00f5es por causa da <\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">indiferen\u00e7a ou estagna\u00e7\u00e3o mental.<\/p>\n<p>Estes tr\u00eas tipos de relacionamentos \u2014 atra\u00e7\u00e3o, avers\u00e3o e indiferen\u00e7a \u2014 correspondem ao desejo, ao \u00f3dio e \u00e0 ignor\u00e2ncia. Estes s\u00e3o os tr\u00eas venenos mentais prim\u00e1rios, as tr\u00eas principais afli\u00e7\u00f5es mentais que animam e condicionam a mente habitual.<\/p>\n<p>Na base destes tr\u00eas tipos de relacionamento, outras numerosas afli\u00e7\u00f5es mentais ou emocionais se multiplicam, notavelmente o orgulho, a gan\u00e2ncia e a inveja. O orgulho surge deste &#8220;eu&#8221; que nasce da ignor\u00e2ncia; a gan\u00e2ncia \u00e9 uma extens\u00e3o do apego desejoso; enquanto a inveja prov\u00e9m do \u00f3dio e da avers\u00e3o. Assim, os tr\u00eas venenos prim\u00e1rios se ramificam em seis afli\u00e7\u00f5es mentais: \u00f3dio, gan\u00e2ncia, ignor\u00e2ncia, apego desejoso, inveja e orgulho. Elas correspondem aos seis estados de consci\u00eancia caracter\u00edsticos dos seis reinos da exist\u00eancia. Depois, eles s\u00e3o subdivididos de novo e de novo, totalizando 84 mil tipos diferentes de afli\u00e7\u00f5es mentais! Todos estes relacionamentos dualistas e aflitos comp\u00f5em o v\u00e9u das afli\u00e7\u00f5es mentais.<\/p>\n<p>O v\u00e9u do karma<br \/>\nAs v\u00e1rias afli\u00e7\u00f5es mentais conduzem a uma grande variedade de a\u00e7\u00f5es dualistas, que podem ser \u2014 em termos de karma \u2014 positivas, negativas ou neutras. Elas condicionam a mente e a fazem nascer em um dos seis reinos da exist\u00eancia condicionada. Isto \u00e9 o que chamamos de v\u00e9u da atividade condicionada, ou v\u00e9u do karma.<\/p>\n<p>O Dharma: uma pr\u00e1tica de desvelamento<br \/>\nEstes quatro v\u00e9us que encobrem a mente nos fazem ser seres comuns, lan\u00e7ados pelas delus\u00f5es nos seis reinos do samsara. N\u00e3o podemos ficar livres desta condi\u00e7\u00e3o, exceto eliminando os v\u00e9us e desvelando a mente. A pr\u00e1tica do Dharma oferece numerosos m\u00e9todos que permitem que estas impurezas caiam pouco a pouco, revelando assim a j\u00f3ia da mente pura.<\/p>\n<p>A natureza pura da mente pode ser comparada a uma bola de cristal, e os quatro v\u00e9us a quatro peda\u00e7os de pano que a encobrem e escondem mais e mais. De acordo com uma outra imagem, estes v\u00e9us podem ser comparados \u00e0s camadas de nuvens que encobrem o c\u00e9u da mente. Do mesmo que as nuvens obscurecem o c\u00e9u, os v\u00e9us mascaram o espa\u00e7o aberto, assim como a claridade de sua lucidez. A pr\u00e1tica do Dharma, e primariamente a medita\u00e7\u00e3o, gradualmente removem estes diferentes v\u00e9us, do mais grosseiro ao mais sutil.<\/p>\n<p>Quando todos estes v\u00e9us ou coberturas s\u00e3o removidos, h\u00e1 um desvelar completo, um estado de purifica\u00e7\u00e3o chamado sang em tibetano. O desabrochar de todos os aspectos do espa\u00e7o e da luz, revelados por esta purifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 descrito pelo termo gye. Estas duas s\u00edlabas, sang gye, que literalmente significam \u201cpureza e desabrochar perfeitos\u201d ou \u201ccompletamente puro e totalmente desabrochado\u201d, juntas formam a palavra tibetana para Buda. O estado de buddha \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o das qualidades inerentes \u00e0 mente, uma vez que ela tenha sido purificada dos v\u00e9us que a obscurecem.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nO desvelamento, que revela as puras qualidades inerentes da mente, marca todo o progresso no caminho da pr\u00e1tica do Dharma.<\/p>\n<p>O jogo da ilus\u00e3o<br \/>\nA mente \u00e9 a base de tudo, tanto da ilumina\u00e7\u00e3o quanto da ilus\u00e3o. Como a base para a ilumina\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 a fundamental sabedoria primordial que tem as tr\u00eas qualidades que detalhamos anteriormente. Encoberta pelos quatro v\u00e9us, ela se torna a consci\u00eancia fundamental, que \u00e9 a base para todas as ilus\u00f5es que comp\u00f5em os diferentes aspectos da exist\u00eancia c\u00edclica ou samsara.<\/p>\n<p>O karma<br \/>\nA consci\u00eancia fundamental pode ser comparada a um solo que recebe as marcas ou sementes deixadas pelas nossas a\u00e7\u00f5es. Uma vez plantadas, estas sementes permanecem no solo da consci\u00eancia fundamental at\u00e9 que as condi\u00e7\u00f5es para sua germina\u00e7\u00e3o e amadurecimento venham juntas. Deste modo, realizamos seu potencial ao produzir as plantas e os frutos que s\u00e3o as v\u00e1rias experi\u00eancias do samsara. Os rastros que as a\u00e7\u00f5es deixam na consci\u00eancia fundamental s\u00e3o causas que, quando as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis se apresentarem, resultar\u00e3o em um estado espec\u00edfico de consci\u00eancia individual, acompanhado por suas pr\u00f3prias experi\u00eancias espec\u00edficas. Em geral, a cole\u00e7\u00e3o de marcas deixadas nesta consci\u00eancia fundamental pelas a\u00e7\u00f5es passadas seve para condicionar todos os estados e experi\u00eancias da consci\u00eancia individual, isto \u00e9, o que n\u00f3s somos e tudo o que experimentamos. A liga\u00e7\u00e3o dos diferentes passos deste processo, desde as causas \u2014 os atos iniciais \u2014 at\u00e9 as suas conseq\u00fc\u00eancias \u2014 as experi\u00eancias presentes e futuras \u2014 \u00e9 chamado karma, ou o que causa as a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Karma \u00e9 uma palavra em s\u00e2nscrito que significa &#8220;atividade condicionada&#8221;. Esta no\u00e7\u00e3o inclui toda gama de atividade, desde a causa at\u00e9 a conseq\u00fc\u00eancia de uma a\u00e7\u00e3o. O karma \u00e9, portanto, a atividade compreendida como sendo a s\u00e9rie de causas e resultados das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O samsara<br \/>\nO karma, ou nossas a\u00e7\u00f5es e suas marcas, condiciona a mente. Por causa do karma, a mente experimenta as ilus\u00f5es que comp\u00f5em os v\u00e1rios seres e ambientes \u2014 em outras palavras, a consci\u00eancia e suas diferentes experi\u00eancias. Portanto, os diferentes tipos de consci\u00eancia, toda alegria e sofrimento, s\u00e3o apar\u00eancias ilus\u00f3rias manifestadas pelo poder do karma. Todas as suas categorias s\u00e3o agrupadas nos seis reinos.<\/p>\n<p>Os seis reinos ou seis classes de seres incluem todos os tipos de estados nos quais a mente pode nascer. Eles comp\u00f5em todo o samsara, um termo s\u00e2nscrito que significa literalmente \u201cexist\u00eancia c\u00edclica\u201d, o \u201cciclo das exist\u00eancias condicionadas\u201d, ou a \u201croda de nascimentos\u201d, assim chamada porque os seres karmicamente condicionados transmigram infinitamente nesse ciclo. Ocasionalmente, pelo poder de uma influ\u00eancia positiva ou do karma positivo, a mente nasce em um reino superior; em seguida, pelo poder de uma influ\u00eancia negativa ou do karma negativo, a mente nasce em um reino inferior. Esta roda de nascimentos gira continuamente, com um ponto conduzindo a mente para um reino superior, e ent\u00e3o para um reino inferior. Esta altera\u00e7\u00e3o ininterrupta termina apenas com a realiza\u00e7\u00e3o da libera\u00e7\u00e3o \u2014 emergir da exist\u00eancia condicionada. Isto \u00e9 o fim do samsara, o despertar de um Buda. Enquanto n\u00e3o tivermos atingido a libera\u00e7\u00e3o, a mente transmigrar\u00e1 nos v\u00e1rios reinos do samsara; n\u00f3s j\u00e1 viajamos por todos eles.<\/p>\n<p>Hoje somos humanos; amanh\u00e3 poderemos renascer em um outro estado de exist\u00eancia. O que realmente transmigra de uma vida para outra \u00e9 a mente condicionada pelo karma, que determina sua felicidade, seu sofrimento e suas habilidades. O que somos hoje \u2014 os diferentes reinos onde fomos e iremos \u2014 resulta do karma que condicionada as proje\u00e7\u00f5es da mente e assim forma as suas ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Karma e liberdade<br \/>\nEnt\u00e3o, a partir desta perspectiva, o karma \u00e9 positivo quando ele serve como uma causa para um estado feliz e nos traz mais pr\u00f3ximos da liberdade, e \u00e9 negativo quando resulta em estados dolorosos e nos distancia da libera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante compreender claramente que, apesar de o karma condicionar nossas experi\u00eancias e a\u00e7\u00f5es, n\u00f3s ainda desfrutamos de certa medida de liberdade \u2014 o que chamar\u00edamos de livre arb\u00edtrio no Ocidente \u2014, que est\u00e1 sempre presente em n\u00f3s, em propor\u00e7\u00f5es variadas. Ca<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">da vez nos encontramos em uma encruzilhada: um caminho conduz \u00e0 felicidade e \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o, o outro conduz \u00e0 infelicidade e ao sofrimento. Estamos continuamente confrontados com uma escolha: a escolha certa gera karma favor\u00e1vel ao desenvolvimento positivo, enquanto uma escolha ruim produz karma negativo, a causa para a infelicidade no futuro. A escolha \u00e9 nossa, mas as conseq\u00fc\u00eancias s\u00e3o inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>A liberdade ou livre arb\u00edtrio \u00e9 poss\u00edvel porque, no meio do samsara, apesar de sua natureza condicionada, sempre temos um grau de consci\u00eancia direta e de experi\u00eancia aut\u00eantica. Nossa mente e suas experi\u00eancias participam simultaneamente nos condicionamentos de ignor\u00e2ncia e na liberdade da consci\u00eancia direta. Da ignor\u00e2ncia vem um modo dualista de experimentar as coisas em termos de sujeito e objeto, e isto cria a consci\u00eancia individual centrada no ego, que manifesta as diferentes paix\u00f5es. Da consci\u00eancia direta, por outro lado, surgem qualidades positivas, n\u00e3o centradas no ego. S\u00e3o destas afli\u00e7\u00f5es ou destas qualidades positivas que surgem, respectivamente, o karma negativo ou positivo.<\/p>\n<p>Assim, o karma positivo flui das atitudes mentais virtuosas, tais como o amor, a compaix\u00e3o, a boa vontade, o altru\u00edsmo, os desejos modestos, junto com suas seis principais afli\u00e7\u00f5es da raiva, gan\u00e2ncia, estupidez, apego desejoso, inveja e orgulho.<\/p>\n<p>Diz-se que existe um terceiro tipo de karma, chamado karma inamov\u00edvel. \u00c9 produzido por certos tipos de medita\u00e7\u00e3o que estabilizam a mente e a colocam em um estado de equanimidade. Este tipo de karma resulta em nascimentos nos reinos divinos, ou estados de consci\u00eancia caracterizados por uma mente est\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em geral, tudo o que existe no samsara \u00e9 gerado por estes tr\u00eas tipos de karma contaminado. Por \u201ccontaminado\u201d queremos dizer que s\u00e3o atividades dualistas que fazem distin\u00e7\u00f5es de sujeito, objeto e a\u00e7\u00e3o. De fato, todas as atividades da consci\u00eancia ordin\u00e1ria podem ser resumidos sob estes tr\u00eas tipos de karma.<\/p>\n<p>Entre os diferentes tipos de karma, podemos distinguir ainda o karma propelente e o karma complementador. O karma propelente, como o nome sugere, propele-nos a um estado de exist\u00eancia, seja ele qual for. O karma complementador determina as circunst\u00e2ncias espec\u00edficas dentro dess<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">e estado de exist\u00eancia; ele preenche o contorno b\u00e1sico produzido pelo karma propelente. Estes dois tipos de karma podem se combinar; por exemplo, se o karma que propele um certo modo de exist\u00eancia for positivo e o karma que preenche os aspectos espec\u00edficos for negativo, podemos nascer em um estado superior de consci\u00eancia, mas podemos experimentar condi\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis nessa vida. Por exemplo, apesar de termos nascido como humanos, podemos ser pobres. Inversamente, um karma propelente negativo associado a um karma complementador positivo poderia nos fazer nascer na exist\u00eancia de um reino inferior no qual desfrutar\u00edamos de boas circunst\u00e2ncias. Por exemplo, podemos nascer no Ocidente como um animal dom\u00e9stico, que teria condi\u00e7\u00f5es de vida privilegiadas.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o karma colet<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">ivo e individual. Todos seres em um estado de exist\u00eancia desenvolveram um karma similar, ent\u00e3o o mundo aparece para eles de maneira similar. Este karma \u00e9 dito com sendo coletivo. Ainda assim, a situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de cada ser em termos de localiza\u00e7\u00e3o, apar\u00eancia f\u00edsica, felicidade e sofrimento \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o do karma \u00fanico daquele ser. Este \u00e9 o karma individual, porque produz experi\u00eancias espec\u00edficas.<\/p>\n<p>O sofrimento das tr\u00eas classes de seres dos reinos inferiores e a felicidade das tr\u00eas classes de seres dos reinos superiores resulta de diferentes combina\u00e7\u00f5es de karma. Juntos, eles constituem todas as condi\u00e7\u00f5es flutuantes e variadas, causadas pelas muitas variedades de karma.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nDiferentes efeitos v\u00eam de diferentes a\u00e7\u00f5es; diferentes tipos de karma criam a diversidade de seres e os estados de exist\u00eancia. \u00c9 neste sentido que o karma \u00e9 o criador do samsara.<\/p>\n<p>Os seis reinos<br \/>\n Qualitativamente, cada<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"> uma das seis afli\u00e7\u00f5es mentais engendra certo tipo de nascimento: o \u00f3dio conduz a um reino infernal, a gan\u00e2ncia a um reino de fantasmas famintos, a estupidez a um reino animal, o apego desejoso a uma condi\u00e7\u00e3o humana, a inveja ao reino dos deuses invejosos, e o orgulho aos estados divinos.<\/p>\n<p>Quantitativamente, estes diferentes estados resultam da acumula\u00e7\u00e3o de karma. Ent\u00e3o, muito karma negativo gera um reino infernal; um karma um pouco menos negativo, o reino dos fantasmas famintos; um pouco menos que isso, um reino animal. Geralmente, quando o karma positivo est\u00e1 misturado com alguns aspectos negativos, nascemos em um dos tr\u00eas reinos superiores da exist\u00eancia, de acordo com as respectivas for\u00e7as destes karmas.<\/p>\n<p>O reino do inferno<br \/>\nA mente no dominada pela raiva e pelo \u00f3dio produz o karma para a vida em um inferno. O que sofre nesse estado infernal \u00e9 a mente, nossa mente. As apar\u00eancias infernais, os seres que nos atacam ou nos matam, o ambiente e todo o sofrimento que nos aflige nesse reino, s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es de nossa pr\u00f3pria mente condicionada pelo nosso karma.<\/p>\n<p>Nestes estados infernais, somos atormentados inflexivelmente por um sofrimento inconceb\u00edvel: somos mortos e, em alguns reinos infernais, experimentamos ser mortos de novo e de novo; somos torturados pelo calor e frio extremos. E n\u00e3o h\u00e1 liberdade, nem qualquer possibilidade de nos dedicarmos \u00e0 pr\u00e1tica espiritual.<\/p>\n<p>O reino dos fantasmas famintos<br \/>\nSe nossas mentes ca\u00edrem presas da gan\u00e2ncia ou cobi\u00e7a, o karma que resulta \u00e9 o nascimento como um fantasma faminto. Neste estado, nunca podemos obter o que queremos, nem podemos desfrutar da comida ou bebida que desejamos desesperadamente como fantasmas famintos. Sempre estamos precisando e procurando algo, mas somos completamente incapazes de satisfazer nossos desejos e sofremos de fome, de sede e de constantes frustra\u00e7\u00f5es intensas. \u00c9 tamb\u00e9m um estado produzido pela nossa pr\u00f3pria mente e, apesar de ser um pouco menos desfavor\u00e1vel que o reino infernal, ainda \u00e9 um estado miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>O reino animal<br \/>\nA mente tamb\u00e9m pode cair sob a influ\u00eancia da cegueira, da estagna\u00e7\u00e3o mental e da estupidez, o que causa o nascimento com um animal. H\u00e1 muitas esp\u00e9cies animais: animais selvagens, animais dom\u00e9sticos e assim por diante. Todos eles experienciam diferentes formas de sofrimento, tais como ser comido vivo, brigar uns com os outros, ou ser subserviente e abusado. Todo sofrimento encontrado no reino animal tamb\u00e9m \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o da mente e a manifesta\u00e7\u00e3o de karma resultante de a\u00e7\u00f5es negativas anteriores.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nEstes tr\u00eas tipos de exist\u00eancia comp\u00f5em os estados dos reinos inferiores. Entre eles, o mais favor\u00e1vel \u00e9 o reino animal. Mas mesmo nesse estado, \u00e9 muito dif\u00edcil despertar o amor e a compaix\u00e3o, e \u00e9 imposs\u00edvel praticar o Dharma.<\/p>\n<p>Em todos estes reinos inferiores, n\u00e3o h\u00e1 a possibilidade de praticar o Dharma e de atingir a realiza\u00e7\u00e3o; a mente est\u00e1 constantemente perturbada pela raiva, \u00f3dio, desejo e assim por diante. Al\u00e9m disso, os seres dos reinos inferiores tendem a realizar mais a\u00e7\u00f5es negativas que criam ainda mais karma doloroso. Deste modo, eles perpetuam o condicionamento das vidas nos reinos inferiores que, al\u00e9m disso, duram por um tempo extremamente longo.<\/p>\n<p>O reino humano<br \/>\nA condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 a primeira das exist\u00eancias nos reinos superiores. Os humanos s\u00e3o praticamente os \u00fanicos <\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">seres dotados com as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para o progresso espiritual, assim como as faculdades que permitem a pr\u00e1tica e a compreens\u00e3o do Dharma. Por\u00e9m, ser humano n\u00e3o garante o progresso espiritual. O valor da vida humana \u00e9 vari\u00e1vel e apenas aqueles que obtiveram a chamada \u201cpreciosa exist\u00eancia humana\u201d podem praticar o Dharma; eles s\u00e3o t\u00e3o raros quanto estrelas durante o dia! Apesar desta ser uma condi\u00e7\u00e3o menos dolorosa que as exist\u00eancias nos reinos inferiores, a condi\u00e7\u00e3o humana ainda tem muitos tipos de sofrimento, sendo que os quatro tipos principais s\u00e3o o nascimento, a doen\u00e7a, a velhice e a morte. Al\u00e9m destas quatro grandes fontes de sofrimento, os humanos sofrem quando s\u00e3o separados daqueles que amam apegadamente, durante suas vidas ou na morte, ou quanto t\u00eam de lidar com pessoas com as quais n\u00e3o querem lidar ou que s\u00e3o hostis diante eles. Os humanos sofrem ao perder suas posses, ao n\u00e3o serem capazes de manter o que planejaram adquirir e ao n\u00e3o serem capazes de obter o que querem.<\/p>\n<p>O reino dos deuses invejosos<br \/>\nO karma que \u00e9 acima de tudo positivo, por\u00e9m misturado com a inveja, causa o nascimento no reino dos deuses invejosos. Este \u00e9 um estado feliz, dotado com muitos poderes e prazeres mas, por causa da for\u00e7a da inveja, h\u00e1 constantes brigas e conflitos. Os deuses invejosos op\u00f5em-se aos deuses que s\u00e3o seus superiores e brigam entre si mesmos.<\/p>\n<p>O reino divino<br \/>\nO karma positivo combinado com pouqu\u00edssimo karma negativo resulta em um renascimento nos estados divinos. H\u00e1 diferentes n\u00edveis de exist\u00eancia divina. Os primeiros s\u00e3o os estados divinos do reino do desejo, assim chamados porque a mente nesses reinos ainda est\u00e1 sujeita aos desejos e ao apego. Estes deuses t\u00eam uma vida extremamente longa: em um dos primeiros reinos dos deuses, um dia dura o equivalente a cem anos humanos, e eles vivem quinhentos dos anos deles. No n\u00edvel seguinte dos reinos divinos, cem de nossos anos equivalem a um dos dias deles, e eles vivem mil anos! Nestes reinos geralmente felizes, ainda h\u00e1 algum sofrimento, causado por ocasionais brigas com os seres do reino dos deuses invejosos.<\/p>\n<p>As exist\u00eancias no reino do desejo v\u00e3o desde os reinos mais miser\u00e1veis \u2014 os reinos infernais \u2014 at\u00e9 os primeiros reinos dos deuses; todos estes estados est\u00e3o sob o controle do desejo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do reino do desejo, h\u00e1 o reino da forma sutil, que inclui uma hierarquia de dezessete n\u00edveis divinos sucessivos. Os seres nestes estados t\u00eam uma forma sutil e corpos extremamente grandes, luminosos; suas mentes conhecem poucas paix\u00f5es, poucos pensamentos; e eles desfrutam de uma felicidade incr\u00edvel. A paix\u00e3o predominante \u00e9 o orgulho sutil \u2014 os seres destes reinos acham que atingiram algo superior e vivem um tipo de auto-satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estes estados do reino da forma correspondem aos quatro n\u00edveis de concentra\u00e7\u00e3o meditativa, caracterizados pela transcend\u00eancia progressiva da investiga\u00e7\u00e3o, da an\u00e1lise, da alegria e do \u00eaxtase.<\/p>\n<p>Finalmente, al\u00e9m at\u00e9 mesmo destes quatro n\u00edveis de concentra\u00e7\u00e3o do reino da forma, pode haver o nascimento no reino sem forma. Os seres do reino sem forma n\u00e3o experimentam qualquer sofrimento severo e virtualmente n\u00e3o t\u00eam quaisquer paix\u00f5es; eles permanecem apenas em uma forma extremamente sutil. A impureza que permanece em suas mentes \u00e9 um tipo de estagna\u00e7\u00e3o mental que impede a realiza\u00e7\u00e3o da natureza \u00faltima da mente. No reino sem forma, a mente tem acesso a quatro estados sucessivos de consci\u00eancia; absor\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o infinito, absor\u00e7\u00e3o na consci\u00eancia infinita, absor\u00e7\u00e3o no nada, e absor\u00e7\u00e3o nem na diferencia\u00e7\u00e3o nem na n\u00e3o-diferencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os deuses do reino sem forma t\u00eam o sentimento de possuir um corpo, mas este corpo \u00e9 impercept\u00edvel. Eles t\u00eam apenas o quinto agregado da individualidade \u2014 a consci\u00eancia \u2014 ainda apresente como uma ignor\u00e2ncia sutil que lhes d\u00e1 um sentimento de existir neste corpo sem forma. Esta consci\u00eancia finalmente age como uma m\u00e3e que novamente d\u00e1 a luz aos outros agregados. Deste modo, os deuses do reino sem forma retornam aos reinos inferiores. Para ficar livre do samsara, a consci\u00eancia em si deve ser definitivamente transformada na sabedoria primordial, a sabedoria da ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estes oito estados dos reinos da forma e sem forma pertencem a uma mente positiva, n\u00e3o-distra\u00edda; seus est\u00e1gios sucessivos s\u00e3o progressivamente livres do apego. Todos estes estados dos seis reinos do samsara s\u00e3o transit\u00f3rios e condicionados: todos eles s\u00e3o parte da roda do samsara. Apesar dos deuses dos reinos da forma e sem forma terem poucas formas severas de sofrimento, eles ainda est\u00e3o sujeitos \u00e0 morte e \u00e0 transmigra\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o t\u00eam o poder de permanecer em sua condi\u00e7\u00e3o divina e sofrem, tendo de renascer em um reino inferior.<\/p>\n<p>Se acharmos dif\u00edcil aceitar a no\u00e7\u00e3o destes diferentes reinos, vamos simplesmente lembrar que a experi\u00eancia de cada um \u00e9 a sua realidade. Quando estamos sonhando, nossos sonhos tornam-se a nossa realidade, e acontece o mesmo com os seis reinos. Por exemplo, \u00e1gua pode ser experimentada de maneiras muito diferentes: para os seres do inferno, ela causa tortura; para os fantasmas famintos, \u00e9 o que desejam desesperadamente; para alguns animais, \u00e9 o meio necess\u00e1rio para a vida; para as pessoas, \u00e9 uma bebida; para os deuses invejosos, \u00e9 uma arma; e para os deuses, \u00e9 um n\u00e9ctar sublime. As profundezas do oceano s\u00e3o o habitat natural dos peixes, mas os humanos n\u00e3o podem viver l\u00e1. Os p\u00e1ssaros voam no c\u00e9u, mas isto \u00e9 imposs\u00edvel para o corpo humano. As pessoas que s\u00e3o cegas n\u00e3o podem ir aonde querem, enquanto aqueles que t\u00eam a vis\u00e3o normal podem se mover livremente por a\u00ed. Cada um vive em seu pr\u00f3prio mundo ou reino, sem perceber o dos outros.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o samsara \u00e9 composto por tr\u00eas reinos: o reino do desejo, o reino da forma e o reino sem forma. Todas as possibilidades da exist\u00eancia condicionada est\u00e3o inclu\u00eddas neles.<\/p>\n<p>Tornando-nos conscientes de que todos os seres sofrem neste ciclo de exist\u00eancia, nos inspiraremos a nos liberarmos da ignor\u00e2ncia e da delus\u00e3o onde estamos imersos, a nos libertarmos do samsara, que \u00e9 um oceano de sofrimento, e a nos esfor\u00e7armos para atingir a felicidade suprema do estado b\u00faddhico perfeito.<\/p>\n<p>No passado, tivemos incont\u00e1veis nascimentos na exist\u00eancia c\u00edclica. Hoje, somos seres humanos; se usarmos este oportunidade sabiamente, poder\u00e1 ser o ponto de partida para a nossa libera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As duas verdades<br \/>\nA cren\u00e7a err\u00f4nea que dolorosamente condiciona todos os seres na exist\u00eancia c\u00edclica surge da ignor\u00e2ncia. Essa ignor\u00e2ncia \u00e9 uma aus\u00eancia de consci\u00eancia sobre a verdadeira vacuidade da mente e das suas produ\u00e7\u00f5es. De fato, a cren\u00e7a err\u00f4nea \u00e9 a ignor\u00e2ncia sobre o verdadeiro modo de exist\u00eancia de todas as coisas.<\/p>\n<p>Todas as coisas, todos os fen\u00f4menos, todos os objetos de conhecimento \u2014 isso \u00e9, o universo externo e todos os seus seres, tudo que experimentamos em termos de formas, sons, sabores, odores, objetos tang\u00edveis e objetos da consci\u00eancia mental \u2014 tudo o que somos e que podemos conhecer, manifesta-se pelo poder das tend\u00eancias da mente, que s\u00e3o essencialmente vazias.<\/p>\n<p>A mente n\u00e3o \u00e9 existente ou n\u00e3o-existente. Do mesmo modo, os fen\u00f4menos que ela produz n\u00e3o s\u00e3o completamente ilus\u00f3rios nem completamente reais. Como n\u00f3s os experimentamos ordinariamente, eles s\u00e3o relativamente reais, mas de uma perspectiva absoluta, essa realidade relativa \u00e9 ilus\u00f3ria.<\/p>\n<p>Todas as coisas podem ser vistas de acordo com dois n\u00edveis de realidade: o n\u00edvel relativo, ou convencional, e o n\u00edvel absoluto, ou \u00faltimo. Estas duas verdades correspondem aos dois pontos de vista, \u00e0s duas vis\u00f5es da realidade: a verdade ou vis\u00e3o relativa \u00e9 convencional ou relativamente verdadeira, mas absolutamente ilus\u00f3ria; e a verdade ou vis\u00e3o absoluta \u00e9 definitivamente verdadeira, a experi\u00eancia aut\u00eantica al\u00e9m de toda ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas as percep\u00e7\u00f5es sams\u00e1ricas s\u00e3o experi\u00eancias da verdade relativa. O nirvana, que est\u00e1 al\u00e9m das ilus\u00f5es e do sofrimento do samsara, \u00e9 o n\u00edvel da verdade absoluta. Portanto, por exemplo, as experi\u00eancias de um ser do reino infernal s\u00e3o bastante reais do ponto de vista relativo, enquanto essas percep\u00e7\u00f5es s\u00e3o ilus\u00f3rias de uma perspectiva absoluta. Isto significa que um ser que se encontra em um reino infernal realmente experimenta sofrimento l\u00e1: desta perspectiva, suas experi\u00eancias e sofrimento s\u00e3o reais e totalmente infernais. Mas do ponto de vista absoluto, o inferno n\u00e3o existe; ele \u00e9 realmente apenas uma proje\u00e7\u00e3o, uma produ\u00e7\u00e3o da mente condicionada, cuja natureza \u00e9 a vacuidade.<\/p>\n<p>O sofrimento vem do n\u00e3o-reconhecimento da vacuidade das coisas, o que resulta em atribuirmos a elas uma realidade que verdadeiramente n\u00e3o t\u00eam. Este apego \u00e0s coisas como sendo reais, sujeita-nos a experi\u00eancias dolorosas.<\/p>\n<p>Podemos ter uma melhor compreens\u00e3o disto ao usar o exemplo de um sonho. Quando algu\u00e9m tem um pesadelo, essa pessoa sofre. Para o sonhador, o pesadelo \u00e9 real; de fato, \u00e9 a \u00fanica realidade que o sonhador conhece. Mas ainda assim, o sonho n\u00e3o tem realidade tang\u00edvel e n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente &#8220;real&#8221;; ele n\u00e3o tem realidade fora da mente condicionada do sonhador, fora do pr\u00f3prio karma do sonhador. Do ponto de vista \u00faltimo, \u00e9 de fato uma ilus\u00e3o. A ilus\u00e3o do sonhador est\u00e1 em falhar no reconhecimento da natureza de suas experi\u00eancias. Ignorante do que elas verdadeiramente s\u00e3o, o sonhador considera sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o \u2014 as cria\u00e7\u00f5es de sua pr\u00f3pria mente \u2014 como sendo uma realidade aut\u00f4noma; assim deludido, ele \u00e9 amedrontado pelas suas pr\u00f3prias proje\u00e7\u00f5es e portanto cria sofrimento para si mesmo. A delus\u00e3o \u00e9 perceber como real o que verdadeiramente n\u00e3o \u00e9. O Buddha Shakyamuni ensinou que todos os reinos da exist\u00eancia c\u00edclica ou condicionada, todas as coisas, todas as experi\u00eancias s\u00e3o, em geral, apar\u00eancias ilus\u00f3rias que n\u00e3o podem ser consideradas nem verdadeiramente reais, nem completamente ilus\u00f3rias. Ele demonstrou essa natureza dual usando o exemplo da apar\u00eancia da lua sobre a superf\u00edcie de um corpo d&#8217;\u00e1gua: \u201cA natureza de todas as coisas e de todas as apar\u00eancias \u00e9 como o reflexo da lua sobre a \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>A lua refletida sobre a superf\u00edcie da \u00e1gua \u00e9 real enquanto for vis\u00edvel l\u00e1, mas sua realidade \u00e9 apenas uma apar\u00eancia relativa, ilus\u00f3ria, porque a lua sobre a \u00e1gua \u00e9 apenas um reflexo. N\u00e3o \u00e9 verdadeiramente real nem completamente ilus\u00f3ria. Desta perspectiva, podemos nos referir \u00e0 verdade relativa como a verdade das apar\u00eancias. O Buda Shakyamuni usou outros exemplos, dizendo que todas as coisas s\u00e3o como uma proje\u00e7\u00e3o, uma alucina\u00e7\u00e3o, um arco-\u00edris, uma sombra, uma miragem, um reflexo no espelho, e um eco; fora da simples apar\u00eancia resultante da &#8220;funcionalidade&#8221; dos fatores inter-relacionados, coisa alguma tem exist\u00eancia em, de ou por si mesma.<\/p>\n<p>Compreender isto pode realmente nos ajudar porque, apesar de n\u00e3o terem exist\u00eancia verdadeira, nos apegamos a todas estas coisas como se fossem reais. O objetivo do ensinamento de Buddha \u00e9 dissolver esta fixa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a fonte de todas as ilus\u00f5es e \u00e9 t\u00e3o tenaz quanto o nosso condicionamento k\u00e1rmico.<\/p>\n<p>Karma, interdepend\u00eancia e vacuidade<br \/>\nDentro do conceito de karma, n\u00e3o h\u00e1 no\u00e7\u00e3o de destino ou fatalismo; apenas colhemos o que plantamos. Experimentamos os resultados de nossas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es. A no\u00e7\u00e3o do karma est\u00e1 extremamente conectada com a do surgimento dependente (Roda da Vida), ou tendrel em tibetano. A corrente do karma tamb\u00e9m \u00e9 a intera\u00e7\u00e3o do tendrel, fatores interdependentes cujas causas e resultados mutuamente originam uns aos outros.<\/p>\n<p>A palavra tibetana tendrel significa intera\u00e7\u00e3o, interconex\u00e3o, inter-rela\u00e7\u00e3o, interdepend\u00eancia, ou fatores interdependentes. Todas as coisas, todas as nossas experi\u00eancias, s\u00e3o o tendrel, o que quer dizer s\u00e3o eventos que existem por causa do relacionamento entre fatores inter-relacionados. Esta id\u00e9ia \u00e9 essencial para a compreens\u00e3o do Dharma em geral e, em particular, para a compreens\u00e3o de como a mente transmigra na exist\u00eancia c\u00edclica.<\/p>\n<p>Para compreender o que o \u00e9 o tendrel, ou surgimento dependente, vamos pegar um exemplo. Quando voc\u00ea ouve o som de um sino, pergunte a voc\u00ea mesmo: o que faz o som? \u00c9 o corpo do sino, o badalo, a m\u00e3o que move o sino para c\u00e1 e para l\u00e1, ou os ouvidos que escutam o som? Nenhum destes fatores produz sozinho o som; ele resulta da intera\u00e7\u00e3o de todos estes fatores. Todos os elementos s\u00e3o necess\u00e1rios para o som do sino ser percebido, e eles n\u00e3o s\u00e3o uma sucess\u00e3o, s\u00e3o simult\u00e2neos. O som \u00e9 um evento cuja exist\u00eancia depende da intera\u00e7\u00e3o daqueles elementos; isso \u00e9 o tendrel.<\/p>\n<p>Similarmente, todas as vidas condicionadas, todos os fen\u00f4menos do samsara, resultam de uma multiplicidade de intera\u00e7\u00f5es que pertencem aos doze elos do surgimento dependente. Estes doze fatores d\u00e3o origem uns aos outros, mutuamente. N\u00e3o \u00e9 que cada fator faz o pr\u00f3ximo ocorrer, sucessivamente; como no exemplo do sino, eles s\u00e3o simult\u00e2neos, coexistentes. Para produzir uma exist\u00eancia condicionada, \u00e9 necess\u00e1rio que os doze fatores estejam presentes ao mesmo tempo. O cativeiro de causas e resultados destes fatores interdependentes, que geram a ilus\u00e3o, \u00e9 a a\u00e7\u00e3o do samsara. Tudo dentro do samsara \u00e9 o inter-relacionamento karmicamente condicionado; todas as nossas experi\u00eancias s\u00e3o tendrel. A verdade das apar\u00eancias criadas pelo cativeiro dos surgimentos dependentes \u00e9 a verdade convencional ou dualista. \u00c9 assim que ordinariamente vivemos: governados pelo karma. A natureza vazia do que existe no n\u00edvel relativo \u00e9 o que chamamos de verdade \u00faltima.<\/p>\n<p>Compreender verdadeiramente o surgimento dependente nos permite ir al\u00e9m do condicionamento do n\u00edvel relativo, ou convencional, e atingir a paz e a liberdade da incondicionalidade. Quando voc\u00ea compreende completamente o surgimento dependente, voc\u00ea tamb\u00e9m compreende a vacuidade. E isso \u00e9 a liberdade.<\/p>\n<p>Portanto, a sabedoria, ou conhecimento, n\u00e3o est\u00e1 fundamentalmente separada da ilus\u00e3o. Isso porque muitas vezes \u00e9 dito que o samsara e o nirvana n\u00e3o s\u00e3o diferentes, e que uma forma de sabedoria \u00e9 latente na ignor\u00e2ncia. A l\u00f3gica e o racioc\u00ednio conduzem definitivamente a estas afirma\u00e7\u00f5es, que parecem ser contradit\u00f3rias e il\u00f3gicas. A l\u00f3gica e o racioc\u00ednio n\u00e3o podem ir at\u00e9 o infinito. Elas s\u00e3o parte do processo do samsara e definitivamente conduzem a contradi\u00e7\u00f5es. Mesmo assim, j\u00e1 que s\u00e3o ferramentas que podem trazer a realiza\u00e7\u00e3o da verdade, elas s\u00e3o \u00fateis e n\u00e3o devem ser rejeitadas, apesar delas serem eventualmente liberadas no momento da realiza\u00e7\u00e3o da vacuidade.<\/p>\n<p>Mas tenha cuidado. A compreens\u00e3o correta da vacuidade n\u00e3o \u00e9, de qualquer modo, niilista. Se decidirmos que tudo \u00e9 vazio e sem realidade, que o estado de Buda n\u00e3o tem exist\u00eancia real, que a causalidade k\u00e1rmica \u00e9 vazia e que, portanto n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para preocupa\u00e7\u00e3o, isto seria uma vis\u00e3o niilista, pior at\u00e9 do que a vis\u00e3o que considera as coisas relativas como sendo verdadeiramente existentes. As concep\u00e7\u00f5es niilistas s\u00e3o mais gravemente err\u00f4neas do que a concep\u00e7\u00e3o realista que considera os fen\u00f4menos como se existissem do modo como aparecem.<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o correta da vacuidade est\u00e1 entre os dois extremos do eternalismo (acreditar que as coisas sejam inerentemente ou verdadeiramente existentes) e o niilismo (acreditar que elas n\u00e3o existem). A vis\u00e3o do caminho do meio elimina as id\u00e9ias err\u00f4neas e nos permite ir, definitivamente, para al\u00e9m das no\u00e7\u00f5es conceituais sobre a realidade.<\/p>\n<p>Mas tome cuidado: imaginar a vacuidade fecha a porta para a ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O grande detentor da linhagem, Saraha, disse: \u201cConsiderar o mundo como sendo real \u00e9 uma atitude brutal. Consider\u00e1-lo como irreal \u00e9 ainda mais selvagem\u201d.<\/p>\n<p>E Nagarjuna disse: \u201cAqueles que apenas imaginam a vacuidade s\u00e3o incur\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do livro: Luminous mind: the way of the Buddha. Compilado por Denis T\u00f6ndrup, traduzido por Maria Montenegro, pref\u00e1cio de S.S. o Dalai Lama. Boston: Wisdom, 1997. P\u00e1g. 15-44. Mente, Realidade e Ilus\u00e3o Apesar de todos n\u00f3s termos a sensa\u00e7\u00e3o de &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/mente\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1420,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-712","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meditacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=712"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/712\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1534,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/712\/revisions\/1534"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1420"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}