{"id":758,"date":"2013-11-10T18:44:01","date_gmt":"2013-11-10T20:44:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=758"},"modified":"2018-02-10T15:54:28","modified_gmt":"2018-02-10T17:54:28","slug":"a-penetracao-na-realidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-penetracao-na-realidade\/","title":{"rendered":"A penetra\u00e7\u00e3o na realidade"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=611\" rel=\"attachment wp-att-611\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/Fract055.gif\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" class=\"aligncenter size-full wp-image-611\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Depois da magn\u00edfica s\u00e9rie de confer\u00eancias que o Dr. Suzuki deu para a Sociedade, e em outros lugares na Inglaterra, em 1953, n\u00e3o poder\u00edamos aprovar sua visita ao continente, em 1954, sem que nos fizesse outra visita. Ele poderia ficar na Inglaterra menos de uma semana, mas ap\u00f3s sobrevoar o Atl\u00e2ntico durante a noite, ele veio direto para a Classe de Zen da Sociedade, em 5 de julho. N\u00e3o era justo esperar por uma confer\u00eancia inteira, mas ele perguntou se havia perguntas e a primeira delas foi: \u201cQual a melhor forma de se penetrar a Realidade?\u201d V\u00e1rios estudantes escreveram o que puderam da resposta, mas como n\u00e3o houve tempo para que o Sr. Suzuki fizesse uma revis\u00e3o de nossas anota\u00e7\u00f5es de sua palestra, o que se segue deve ser tomado mais como o nosso entendimento do que como suas palavras.<\/em><\/p>\n<p><em>Ao ser perguntado, \u201cQual a melhor forma de se penetrar a Realidade\u201d<\/em>,<em> o Dr. Suzuki respondeu:<\/em>\u00a0&#8220;Primeiro devemos saber o que \u00e9 o intelecto e quais s\u00e3o suas limita\u00e7\u00f5es. Enquanto nos limitarmos \u00e0 an\u00e1lise intelectual, n\u00e3o podemos deixar de sentir uma certa inquieta\u00e7\u00e3o mental. Pois somos t\u00e3o dependentes dos sentidos e, ainda que para conhecer a Realidade tenhamos que encontr\u00e1-la atrav\u00e9s dos sentidos, estes, por eles mesmos, n\u00e3o nos proporcionam a Realidade. Os dados sensoriais s\u00e3o sintetizados pelo intelecto e o intelecto e os sentidos trabalham juntos, por\u00e9m mais cedo ou mais tarde devemos desenvolver um conjunto interno de sentidos para o mundo interior. O mundo exterior n\u00e3o pode existir sem o outro, o mundo interior e n\u00e3o devem ser divididos em dois. Se forem divididos, n\u00e3o podemos transcender as limita\u00e7\u00f5es do intelecto. Tendemos a colocar \u00eanfase demais no aspecto exterior; devemos nos concentrar mais no interior.<br \/>\nAgora, o intelecto funciona desta maneira. Os dados sensoriais s\u00e3o fornecidos pelos sentidos e o intelecto pensa, mas ser\u00e3o os dados fornecidos ao intelecto o que o intelecto realmente analisa como vindos do exterior? O intelecto trabalha baseado no princ\u00edpio de sujeito e objeto. Os dados que v\u00eam dos sentidos pertencem ao mundo exterior, mas em oposi\u00e7\u00e3o a este mundo exterior o intelecto tem um mundo interior. O intelecto trabalha baseado no princ\u00edpio desta dicotomia e, o interior e o exterior s\u00e3o t\u00e3o correlacionados que, sem um o outro n\u00e3o pode existir. Por isso, assim que come\u00e7amos a dividir a Realidade em duas, n\u00e3o podemos transcender as limita\u00e7\u00f5es do intelecto. Todo o problema surge desta bifurca\u00e7\u00e3o, que deve ser transcendida; n\u00e3o ignorada, mas transcendida.<br \/>\nOs dois devem se fundir um no outro enquanto perma\u00acnecem dois. Colocamos muita \u00eanfase no exterior; agora devemos ver o que est\u00e1 dentro. Mas descobrir o que te\u00acmos interiormente \u00e9 muito dif\u00edcil, porque dirigimos a nossa aten\u00e7\u00e3o para aquilo que chamamos de \u201ceu\u201d. Assim que nos voltamos para o eu, o eu divide a si pr\u00f3prio naquele que quer ver e naquele que \u00e9 visto. Quando queremos ver o que \u00e9 a realidade interior, no mesmo momento em que pensamos nela, n\u00f3s a dividimos em duas e esta dualidade nunca poder\u00e1 acabar enquanto tentarmos ver algo fora de n\u00f3s mesmos. O intelecto fez-se prisioneiro desta dualidade, e a subjetividade pura resulta sempre nesta divis\u00e3o.<br \/>\nA quest\u00e3o \u00e9: pode uma pessoa pensar sem se dividir? Do ponto de vista intelectual isto \u00e9 imposs\u00edvel. Quando dependemos do intelecto, n\u00e3o podemos escapar desta divis\u00e3o. Como ent\u00e3o, podemos fazer sem o intelecto? Possu\u00edmos alguma faculdade que nos permita ver uma coisa sem dividi-la, isto \u00e9, v\u00ea-la em si mesma, atrav\u00e9s de si mesma e n\u00e3o a objetivando? Pode a Realidade ver a si mesma refletindo-se em si mesma? \u00c9 isto que eu chamo de subjetividade pura e de transcend\u00eancia do intelecto. Isto \u00e9 poss\u00edvel por meio daquilo que \u00e9 chamado de <em><strong>Prajna<\/strong> (Sabedoria),<\/em> e este <em>Prajna<\/em> est\u00e1 na base do intelecto. O que faz poss\u00edvel o intelecto \u00e9 o fato de que <em>Prajna<\/em> est\u00e1 em sua base; sem <em>Prajna,<\/em> o intelecto nunca pode trabalhar. Portanto, devemos ver o que \u00e9 <em>Prajna.<\/em> <em>Prajna<\/em> \u00e9 intui\u00e7\u00e3o, mas a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 entendida, geralmente, como uma forma de intelecto. A verdadeira intui\u00e7\u00e3o-<em>Prajna<\/em> n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Quando olho para um quadro, os sentidos percebem sem a media\u00e7\u00e3o de um conceito. A percep\u00e7\u00e3o sem media\u00e7\u00e3o \u00e9 chamada de intui\u00e7\u00e3o. A percep\u00e7\u00e3o sensorial comum cont\u00e9m dois elementos: aquele que v\u00ea e aquele que \u00e9 visto. Esta vis\u00e3o, da percep\u00e7\u00e3o sensorial, n\u00e3o requer nenhum agente mediador. Em seguida, o intelecto inter\u00acp\u00f5e-se entre sujeito e objeto. Por\u00e9m, a intui\u00e7\u00e3o-<em>Prajna<\/em> n\u00e3o \u00e9 apenas ver uma coisa individual, mas a totalidade da Realidade concentrada naquele objeto particular. \u00c9 um objeto individual, n\u00e3o dividido, n\u00e3o como um objeto particular, mas o infinito da pr\u00f3pria Realidade presente nele. Ent\u00e3o, quando vejo uma flor, a flor \u00e9 um objeto particularizado, mas ao mesmo tempo \u00e9 a pr\u00f3pria totalidade. Portanto, quando se menciona o 1, pensamos em 1, mas 1 nunca pode ser 1 a n\u00e3o ser que existam 2, 3, etc. Quando dizemos \u201ceu vejo\u201d, naquele mesmo momento atua o infinito, mas, geralmente, o intelecto v\u00ea apenas o 1 como objeto \u00fanico em vez de 1 como infinito. A flor deve ser vista como uma <strong>flor-infinito, mas tamb\u00e9m como uma flor \u00fanica.<\/strong><br \/>\nA onipresen\u00e7a de \u201cDeus\u201d consiste em ser um anjo num anjo, uma pedra numa pedra, etc. \u00c9 isto que \u00e9 chamado de \u201cTal-qual-ismo\u201d, ver as coisas como elas s\u00e3o. <strong>Por isso o Ser de \u201cDeus\u201d \u00e9 o nosso Ser e somos todos um neste Ser.<\/strong> E quando dizemos 1, n\u00e3o \u00e9 como um objeto dividido, <strong>mas 1 como o infinito mesmo<\/strong>. Esta \u00e9 a intui\u00e7\u00e3o-Prajna, que est\u00e1 na base do intelecto. Quando estamos insatisfeitos, quando nos tornamos conscientes das limita\u00e7\u00f5es do intelecto, isto se deve aos trabalhos internos da intui\u00e7\u00e3o-<em>Prajna.<\/em> O <em>Prajna<\/em> \u00e9 negligenciado quando enfatizamos o intelecto. Portanto, \u00e9 o <em>Prajna<\/em> quem produz a insatisfa\u00e7\u00e3o. Conhecer esta insatisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 nos tornarmos conscientes de nossas imperfei\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, quando o intelecto torna-se consciente de suas limita\u00e7\u00f5es, este \u00e9 o exato momento em que conhecemos o que \u00e9 <em>Prajna.<\/em><br \/>\n<strong>O momento da consci\u00eancia das limita\u00e7\u00f5es do intelecto \u00e9, em si mesmo, <em>Prajna<\/em>.<\/strong> Portanto, quando perguntamos o que \u00e9 a Realidade, neste mesmo instante a Realidade j\u00e1 est\u00e1 aqui. Perceber isto \u00e9 <em>Prajna.<\/em> Ent\u00e3o, no come\u00e7o de nossa busca, estamos tateando vagamente no escuro, mas quando <em>Prajna<\/em> assume o comando, sabemos o que \u00e9 a Realidade, o que significa esta insatisfa\u00e7\u00e3o e sabemos onde estamos. Esta foi a maneira pela qual o Buda atingiu a Ilumina\u00e7\u00e3o. Quando o Buda come\u00e7ou a sua busca, ele dividiu a si mesmo. Havia a Realidade que ele queria ver e havia uma pessoa que queria v\u00ea-la. Mais tarde, em vez de sair, o Buda voltou-se para dentro e a Realidade estava l\u00e1&#8230; <strong>O Buda \u00e9 a Realidade e a Realidade \u00e9 o Buda<\/strong>, e a pergunta se torna a pr\u00f3pria pessoa que a faz. A sa\u00edda \u00e9 a volta. Quando acontece esta identidade da pergunta e da pessoa que faz a pergunta, isto \u00e9 <em>Prajna<\/em> e toda a inseguran\u00e7a e ansiedade acabam.<br \/>\nPor tr\u00e1s dos sentidos devemos ter algo, que \u00e9 a intui\u00e7\u00e3o-<em>Prajna.<\/em> A intui\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 atrav\u00e9s dos sentidos e, no entanto, se d\u00e1 atrav\u00e9s dos sentidos; isto \u00e9 dif\u00edcil de assimilar. Enquanto formos dotados dos sentidos, n\u00e3o podemos escapar ao mundo sensorial. N\u00e3o podemos neg\u00e1-los, porque neg\u00e1-los \u00e9 afirm\u00e1-los. Isto \u00e9 intui\u00e7\u00e3o-<em>Prajna<\/em>. Para medir nossos valores, dependemos dos nossos sentidos, mas por tr\u00e1s dos sentidos devemos ter algo que possa julgar o valor real dos sentidos e, para encontr\u00e1-lo devemos ir atrav\u00e9s dos sentidos. A menos que todas as diferen\u00e7as dos sentidos estejam sintetizadas por esta intui\u00e7\u00e3o-<em>Prajna,<\/em> n\u00e3o podemos ter uma Realidade sistematizada.<br \/>\nAo ser perguntado sobre a Compaix\u00e3o <em>(Karuna, Bodhichitta)<\/em> e sua rela\u00e7\u00e3o com o amor humano, o Dr. Suzuki respondeu:<br \/>\nEu entendo que os te\u00f3logos dividem o amor em dois, o Eros, pertencente ao amor humano e \u00c1gape, pertencente ao divino. O amor humano tem um objeto, mas o amor divino \u00e9 um amor sem objeto. <em>Karuna, Bodhichitta<\/em> (Compaix\u00e3o) corresponde a \u00c1gape. Quando o aspecto <em>Prajna<\/em> \u00e9 enfatizado, vemos o aspecto metaf\u00edsico da Realidade, o \u201cTal-qualismo\u201d, as coisas como elas s\u00e3o. Quando n\u00e3o vemos as coisas como elas s\u00e3o, o elemento <em>Karuna,<\/em>\u00a0<em>Bodhichitta<\/em> n\u00e3o aparece, e a perman\u00eancia no <em>Prajna<\/em> \u00e9 uma fraqueza humana. Quando esta fraqueza \u00e9 superada, o <em>Prajna<\/em> \u00e9 <em>Karuna. Karuna<\/em> sem <em>Prajna<\/em>, assim como <em>Prajna<\/em> sem <em>Karuna<\/em> \u00e9 unilateral; a totalidade da Realidade \u00e9 perdida; esta \u00e9 a defici\u00eancia humana. Quando o Buda realizou a Ilumina\u00e7\u00e3o, seu primeiro pensamento foi de que esta Realidade n\u00e3o poderia ser comunicada aos outros seres. Eu n\u00e3o posso, disse ele a si mesmo, comunicar minha experi\u00eancia aos outros. Mas, depois disso, ele tentou comunicar sua experi\u00eancia porque os outros seres tamb\u00e9m poderiam entend\u00ea-la. Por isso, a motiva\u00e7\u00e3o de comunicar surge da pr\u00f3pria experi\u00eancia do <em>Prajna<\/em>. Todo mundo pode ter a experi\u00eancia do Buda e, at\u00e9 onde diz respeito \u00e0 Ilumina\u00e7\u00e3o, o Buda \u00e9 cada um de n\u00f3s e todos somos Buda. Quando o Buda teve um pensamento de comunica\u00e7\u00e3o, este pensamento surgiu da pr\u00f3pria experi\u00eancia. \u00c9 isto que faz dela uma experi\u00eancia verdadeiramente humana, e sua motiva\u00e7\u00e3o de comunic\u00e1-la \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia de sua Ilumina\u00e7\u00e3o. Sem este sentido de transmiss\u00e3o, a Ilumina\u00e7\u00e3o do Buda n\u00e3o seria real. A Ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 o desejo de comunicar, isto \u00e9 a pr\u00f3pria compaix\u00e3o. A pr\u00f3pria motiva\u00e7\u00e3o de transmitir, faz do <strong><em>Prajna, Karuna.<\/em><\/strong> Eles devem complementar um ao outro.<br \/>\n[&#8230;]<\/p>\n<p>Do livro: O CAMPO DO ZEN de Daisetz Teitaro Suzuki<\/p>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois da magn\u00edfica s\u00e9rie de confer\u00eancias que o Dr. Suzuki deu para a Sociedade, e em outros lugares na Inglaterra, em 1953, n\u00e3o poder\u00edamos aprovar sua visita ao continente, em 1954, sem que nos fizesse outra visita. Ele poderia ficar &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-penetracao-na-realidade\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":611,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-758","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meditacao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=758"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/758\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1470,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/758\/revisions\/1470"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/611"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}