{"id":766,"date":"2013-11-12T15:47:48","date_gmt":"2013-11-12T17:47:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=766"},"modified":"2018-02-09T16:17:05","modified_gmt":"2018-02-09T18:17:05","slug":"a-percepcao-da-natureza-da-realidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-percepcao-da-natureza-da-realidade\/","title":{"rendered":"A percep\u00e7\u00e3o da natureza da realidade"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a href=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/092.jpg\" class=\"broken_link\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignrigth size-medium wp-image-767\" alt=\"092\" src=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/092-300x201.jpg\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/092-300x201.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/092-1024x687.jpg 1024w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/092-446x300.jpg 446w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Toda pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o do <i>Dharma<\/i> tem sido ensinada com um \u00fanico motivo: conduzir os seres \u00e0 vis\u00e3o correta da realidade \u2014 a de que todas as coisas s\u00e3o desprovidas de auto-exist\u00eancia independente. Se adquirirmos uma compreens\u00e3o irrepreens\u00edvel da verdadeira forma em que tudo existe, poderemos conquistar a liberdade pessoal da roda <i>sams\u00e1rica<\/i> do sofrimento. A ignor\u00e2ncia \u00e9 o elo fundamental na cadeia do infort\u00fanio, que nos arrasta involuntariamente para a repeti\u00e7\u00e3o de nascimento, morte e renascimento em <i>samsara<\/i>. Com sabedoria, eliminamos a ignor\u00e2ncia e, assim, libertamo-nos por completo das cadeias de nosso <i>carma<\/i>. Al\u00e9m do mais, caso obtenhamos essa sabedoria enquanto em posse do motivo iluminado de <i>bodhicitta<\/i>, alcan\u00e7aremos n\u00e3o s\u00f3 a liberta\u00e7\u00e3o pessoal mas tamb\u00e9m a onisci\u00eancia do pleno despertar. Ent\u00e3o, seremos inteiramente capazes de guiar maternalmente todos os seres \u00e0 desejada cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Para compreendermos o vazio <i>(shunyata),<\/i> devemos familiarizar-nos com ensinamentos inequ\u00edvocos sobre esse assunto. Tais preceitos foram ensinados pelo Buda Shakyamuni e transmitidos at\u00e9 os nossos dias por uma ilustre linhagem inc\u00f3lume de meditadores e mestres<i>, <\/i>incluindo figuras proeminentes como Nagarjuna, Chandrakirti e Je Tsong-khapa. Se seguirmos ensinamentos divergentes que n\u00e3o explicam a natureza fundamental das coisas, jamais seremos capazes de perceber a verdadeira natureza da realidade, por mais que meditemos. Assim, \u00e9 muito importante buscar explica\u00e7\u00f5es corretas e, ent\u00e3o, estudar, refletir e meditar sobre elas tamb\u00e9m. O que segue esbo\u00e7a os ensinamentos desses grandes gurus indianos e tibetanos.<\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Je Tsong-khapa disse:<\/p>\n<p>\u00a0<i>Aquele que pode ver a causa e o resultado<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>De toda exist\u00eancia dentro do samsara e a liberta\u00e7\u00e3o<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>Como n\u00e3o trai\u00e7oeira, e cuja vis\u00e3o falsa \u00e9 dissolvida,<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>Entrou no caminho que agrada aos Budas.<\/i><\/p>\n<p>\u00a0A sabedoria do vazio (<i>shunyata)<\/i> deve constituir rem\u00e9dio imediato para a nossa ignor\u00e2ncia da verdadeira natureza da realidade. Se essa sabedoria n\u00e3o for completamente oposta \u00e0 nossa vis\u00e3o comum das coisas, ent\u00e3o n\u00e3o refletir\u00e1 em absoluto a verdadeira sabedoria. Por nossa ignor\u00e2ncia concebemos objetos de maneira distorcida, nossa sabedoria deve ser-lhe diametralmente oposta para revelar-se efetiva. Assim, devemos em primeiro lugar adquirir a compreens\u00e3o de como nossa percep\u00e7\u00e3o normalmente funciona a fim de saber o que combater.<\/p>\n<p>Nossa mente tanto se acostumou a enxergar tudo com distor\u00e7\u00e3o que se torna dif\u00edcil obter uma imagem clara da realidade. Devido \u00e0 limita\u00e7\u00e3o de nossa sabedoria, \u00e9 \u00e1rduo bastante reconhecer nossas cren\u00e7as equivocadas, quanto mais o estado real das coisas. Por exemplo, se nos perguntarmos. \u201cO que exatamente \u00e9 esse \u2018eu\u2019 a que sempre me refiro?\u201d, teremos grande dificuldade em formular uma resposta. Assim \u00e9, apesar de pensarmos em termos de \u201ceu\u201d a toda hora, mesmo em sonhos. Nossas ilus\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o densas que sequer conseguimos explicar o que estamos habituados a ver.<\/p>\n<p>Desde as vidas <i>sams\u00e1ricas<\/i> mais remotas at\u00e9 agora, pensamos em nosso \u201ceu\u201d como inerentemente \u00fanico, auto-gerado e de exist\u00eancia total\u00admente independente. N\u00e3o parece depender de nosso corpo, mente ou qualquer outra coisa. Pelo contr\u00e1rio, parece completamente auto-suficiente. N\u00e3o precisamos aprender essa cren\u00e7a err\u00f4nea; nascemos, morremos e renascemos instintivamente com ela. De fato, a \u00fanica raz\u00e3o para nascermos em um corpo \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o de nossa mente com a suposta auto-exist\u00eancia desse \u201ceu\u201d \u2014 isso nos levou a ansiar por seguran\u00e7a em seu favor.<\/p>\n<p>Essa maneira de olhar para n\u00f3s mesmos \u00e9 completamente errada. Por exemplo, quando ficamos assustados ou zangados, a forte sensa\u00e7\u00e3o de \u201cEu n\u00e3o gosto nem um pouco disso!\u201d nasce dentro de n\u00f3s e tudo o mais perde a import\u00e2ncia. A \u00fanica coisa em que pensamos \u00e9 como defender esse \u201ceu\u201d aparentemente auto-existente alojado em nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, de fato, tal \u201ceu\u201d supostamente independente n\u00e3o possui nenhuma exist\u00eancia real. Trata-se do produto de uma concep\u00e7\u00e3o inteiramente ignorante.<\/p>\n<p>H\u00e1 um \u201ceu\u201d convencional que <i>realmente <\/i>possu\u00edmos, mas o fato de existir de um jeito, enquanto cremos existir de outro, totalmente oposto, constitui a principal fonte de todo o nosso sofrimento. Constantemente enfrentamos problemas de cria\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria porque nossas expectativas baseiam-se numa id\u00e9ia falsa de quem somos. Nossos julgamentos s\u00e3o equivocados, e somos incapazes de lidar h\u00e1bil ou efetivamente com as situa\u00e7\u00f5es que encontramos. N\u00e3o admira estejamos sempre decepcionados com o desenrolar das coisas e, por conseq\u00fc\u00eancia, sofremos grande incomodo e insatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que \u00e9 errado julgar o \u201ceu\u201d uma esp\u00e9cie de entidade independente que existe por si s\u00f3? Se abordarmos essa quest\u00e3o com aten\u00e7\u00e3o, a resposta ir\u00e1 eventualmente tomar-se clara. \u00c9 imposs\u00edvel pensar no \u201ceu\u201d sem tamb\u00e9m de algum modo considerar a mente ou o corpo. Assim, se o \u201ceu\u201d fosse verdadeiramente independente e auto-suficiente, teria de equivaler exatamente ao corpo e \u00e0 mente, existindo em perfeita harmonia com eles, ou ent\u00e3o ser algo totalmente separado e distinto deles. Se meditarmos bem sobre o caso, concluiremos que s\u00e3o essas as duas \u00fanicas possibilidades.<\/p>\n<p>Entretanto, <i>\u00e9 \u00f3bvio que o \u201ceu\u201d n\u00e3o existe em separado do corpo e da mente<\/i>, pois n\u00e3o existe nenhum \u201ceu\u201d que possamos indicar sem tamb\u00e9m apontar algum aspecto de nossa constitui\u00e7\u00e3o mental ou f\u00edsica. Por exemplo, quando o corpo dorme, dizemos: <i>\u201cEu <\/i>estou dormindo.\u201d Quando se ocupa em comer, dizemos: <i>\u201cEu <\/i>estou comendo.\u201d Quando descansa numa cadeira, dizemos: <i>\u201cEu <\/i>estou sentado.\u201d Se o \u201ceu\u201d existisse de fato como instintivamente o concebemos \u2014 como algo independente de nosso corpo ou mente \u2014 ent\u00e3o, n\u00e3o haveria sentido em referirmo-nos \u00e0s nossas atividades dessa maneira. Se o \u201ceu\u201d fosse algo que existisse em separado do corpo, por que pensar\u00edamos \u201cEu estou sentado\u201d quando o nosso corpo est\u00e1 numa cadeira?<\/p>\n<p>O mesmo se aplica \u00e0 mente. Num espa\u00e7o muito curto de tempo, a mente ocupa-se de muitas atividades diferentes, e muitas vezes opostas. No entanto, esteja a mente pensando, dormindo, meditando, zangando-se ou apenas sonhando, dizemos: <i>\u201cEu <\/i>estou pensando\u201d, <i>\u201cEu <\/i>estou meditando\u201d, <i>\u201cEu <\/i>estou zangado\u201d e assim por diante. Se houvesse um \u201ceu\u201d que de algum modo existisse separadamente a esses v\u00e1rios estados de esp\u00edrito, n\u00e3o faria<i> <\/i>sentido aludirmo-nos a tais atividades mentais em fun\u00e7\u00e3o de um \u201ceu\u201d considerado \u00fanico e independente.<\/p>\n<p>A \u00fanica alternativa restante com rela\u00e7\u00e3o a um \u201ceu\u201d supostamente independente \u00e9 tamb\u00e9m equivocada. Trata-se de imaginar que se equipara ao corpo, \u00e0 mente ou a um de seus aspectos. Tal vis\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o resiste a uma an\u00e1lise. Apesar de o r\u00f3tulo \u201ceu\u201d referir-se de alguma forma ao corpo e \u00e0 mente, n\u00e3o existe nenhuma parte de nossa constitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou mental que possamos apontar e dizer: \u201cEste sou \u2018eu\u2019.\u201d Nem a m\u00e3o, nem o cora\u00e7\u00e3o, nem qualquer outra parte do corpo \u00e9 nosso \u201ceu\u201d. Tampouco podemos afirmar que o que pensamos ou sentimos neste ou naquele momento \u00e9 nosso \u201deu\u201d. Identificarmo-nos com nosso corpo ou mente e ainda continuar a pensar: \u201cEste \u00e9 <i>meu <\/i>corpo\u201d ou \u201cEsta \u00e9 <i>minha <\/i>mente\u201d representa um contra-senso. Tais pensamentos implicariam: \u201cEste \u00e9 o corpo do corpo\u201d e \u201cEsta \u00e9 a mente da mente\u201d, ambas as declara\u00e7\u00f5es completamente sem sentido. Al\u00e9m do mais, h\u00e1 tantos \u00e1tomos no corpo e tantos pensamentos que passam pela mente que, se cham\u00e1ssemos cada um deles de eu concluir\u00edamos que somos um bilh\u00e3o de pessoas diferentes. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 racional identificar o \u201ceu\u201d com qualquer \u00e1tomo ou pensamento em particular, pois o que seria o resto? A quem pertenceria?<\/p>\n<p>Se refletirmos sistematicamente sobre esses pontos, usando-os para investigar a maneira como nos enxergamos, veremos que n\u00e3o pode existir algo como um \u201ceu\u201d de exist\u00eancia independente. A inexist\u00eancia ou aus\u00eancia desse falso eu \u00e9 o que se quer dizer com <i>anatma.<\/i> Considerando que a ignor\u00e2ncia cr\u00ea que de certa forma existimos como um \u201ceu\u201d realmente independente e o crit\u00e9rio do vazio (<i>shunyata<\/i>) percebe com clareza que tal \u201ceu\u201d jamais teve sequer a menor exist\u00eancia, diz-se que essas duas vis\u00f5es s\u00e3o completamente opostas. Apesar de nossa cren\u00e7a instintiva a respeito do falso \u201ceu\u201d, o \u201ceu\u201d convencionalmente real nem \u00e9 separado de nosso corpo e mente nem equivale a qualquer de suas partes. Ao contr\u00e1rio, existe na depend\u00eancia de ambos.<\/p>\n<p>Existem os n\u00edveis (relativo ou convencional) e o (fundamental ou absoluto) da verdade, O \u201ceu\u201d convencional parece \u00e0 mente ignorante como o anteriormente mencionado \u201ceu\u201d falso, ou seja, independente e auto-existente, assim constituindo uma verdade relativa. A verdade fundamental desse \u201ceu\u201d convencional \u00e9 a forma real em que existe, o que n\u00e3o pode ser captado por uma mente ignorante. Apenas urna mente que compreenda o vazio (<i>shunyata<\/i>) e perceba claramente que todas as coisas carecem de auto-exist\u00eancia independente pode distinguir essa verdadeira ess\u00eancia absoluta. Tal mente elevada n\u00e3o est\u00e1 polu\u00edda por concep\u00e7\u00f5es err\u00f4neas quanto a verdades relativas e, portanto, consegue ver tudo como realmente existe em ambos os n\u00edveis.<\/p>\n<p>Ao adquirirmos a compreens\u00e3o do vazio <i>(shunyata<\/i>), enxergaremos as coisas de uma <i>forma <\/i>muito diferente da atual. Ser\u00e1 <i>como se <\/i>tudo fosse um fantasma ou uma miragem. Mas isso <i>n\u00e3o <\/i>significa que nada existe. \u00c9 importante perceber que, embora o \u201ceu\u201d n\u00e3o seja nem <i>separado de <\/i>nem <i>exata\u00admente o mesmo que <\/i>o corpo e a mente, isso <i>n\u00e3o <\/i>implica que inexista por completo. Seria uma conclus\u00e3o errada e muito perigosa. Uma pessoa que sofre da ilus\u00e3o comum da consci\u00eancia do eu pode come\u00e7ar a investigar como \u00e9 o seu \u201ceu\u201d problem\u00e1tico. Ap\u00f3s procurar e n\u00e3o encontrar o tipo independente de \u201ceu\u201d, ela pode concluir que esse \u201ceu\u201d \u00e9 inteiramente inexistente. Uma vez assim minada a sua cren\u00e7a na realidade, n\u00e3o lhe seria dif\u00edcil negar tudo. Ela n\u00e3o s\u00f3 pensaria que de certa forma ela pr\u00f3pria n\u00e3o existe mas tamb\u00e9m nutriria o mesmo sentimento em rela\u00e7\u00e3o a outras pessoas e objetos.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o extrema de nega\u00e7\u00e3o, chamada niilismo, pode levar a esta\u00addos muito s\u00e9rios de doen\u00e7a mental e, por conseguinte, a um sofrimento muito intenso. Portanto, qualquer investiga\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d deve processar-se com muito cuidado. Devemos ser capazes de distinguir entre duas concep\u00e7\u00f5es inteiramente diferentes de \u201ceu\u201d. A comum e equivocada, considera-o como algo de exist\u00eancia independente. Quando essa falsa vis\u00e3o de \u201ceu\u201d \u00e9 refutada, resta-nos o \u201ceu\u201d real, de exist\u00eancia convencional. Trata-se do \u201ceu\u201d que existe na depend\u00eancia de nosso corpo e mente. Executa a\u00e7\u00f5es, cria <i>carma<\/i> e sofre seus resultados de acordo com a lei de causa e efeito, conforme descrito pelos doze elos. Tal \u201ceu\u201d, por <i>n\u00e3o <\/i>ser realmente independente, faz parte de um <i>continuum <\/i>de a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es. Ao com\u00adpreendermos isso, constataremos que h\u00e1 uma raz\u00e3o para experimentar\u00admos o que experimentamos. Tamb\u00e9m perceberemos como \u00e9 poss\u00edvel moldar nossas experi\u00eancias futuras atrav\u00e9s do que pensamos, dizemos e fazemos agora. Assim, \u00e0 medida que nossa sabedoria aumenta, o mesmo acontecer\u00e1 com nosso controle sobre o destino.<\/p>\n<p>Se estabelecermos uma distin\u00e7\u00e3o clara entre o \u201ceu\u201d falso, independente, e aquele que realmente existe, n\u00e3o correremos o risco de cair no extremo do niilismo. Caso contr\u00e1rio, a medita\u00e7\u00e3o que realizamos sobre o vazio servir\u00e1 apenas para dobrar nossa ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ao meditarmos sobre o vazio passamos por v\u00e1rios est\u00e1gios de compreens\u00e3o. Primeiro, obtemos uma vis\u00e3o clara de como concebemos nosso falso \u201ceu\u201d, aquele que parece existir independentemente. Ent\u00e3o, ao tentarmos distinguir esse falso \u201ceu\u201d, verificando se est\u00e1 em \u201cequil\u00edbrio com\u201d ou separado de nosso corpo e mente, nossa \u201cvis\u00e3o falsa \u00e9 dissolvida\u201d, como disse Je Tsong-khapa. Esse \u201ceu\u201d come\u00e7a a esmorecer e eventualmente desaparece, dissolvendo-se em sua verdadeira ess\u00eancia absoluta.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o mais encontrarmos esse \u201ceu\u201d, sentiremos uma profunda sensa\u00e7\u00e3o de vazio interior. \u00c9 como se perd\u00eassemos um bem precioso. Nesse ponto, pode surgir o medo por n\u00e3o termos mais esse \u201ceu\u201d a que nos ater. Quando e se isso acontecer, devemos alertar-nos para n\u00e3o cair no extremo de negar tudo ao estilo niilista. Trata-se de um erro perigoso, como j\u00e1 mencionamos. Ao contr\u00e1rio, devemos persistir em nossa medita\u00e7\u00e3o, e eventualmente uma percep\u00e7\u00e3o muito sutil do <i>vazio <\/i>aparecer\u00e1. Seremos capazes de discernir a verdadeira ess\u00eancia absoluta do \u201ceu\u201d \u2014 sua aus\u00eancia de exist\u00eancia independente \u2014 e tamb\u00e9m aceitar plenamente sua exist\u00eancia fantasmag\u00f3rica no n\u00edvel relativo da verdade. Como afirmado no <i>Guru Puja:<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><i>Nem mesmo um \u00e1tomo de samsara ou nirvana<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>possui algo como uma exist\u00eancia pr\u00f3pria,<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>contudo, n\u00e3o h\u00e1 engano em dizer que todos esses \u00e1tomos<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es dependentes de causa e efeito.<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>Por favor, aben\u00e7oe-me para que eu adquira a grande vis\u00e3o de Nagarjuna<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>Da fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o-contradit\u00f3ria, mutuamente ben\u00e9fica dos dois n\u00edveis da verdade.<\/i><\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 Ao obtermos essa percep\u00e7\u00e3o abrangente, estaremos efetivamente no \u201ccaminho que agrada aos Budas\u201d.<\/p>\n<p>A nossa vis\u00e3o equivocada do \u201ceu\u201d como algo independente e auto-existente estende-se \u00e0 maneira como captamos todos os outros fen\u00f4menos. Por exemplo, quando olhamos para um objeto, como uma mesa, n\u00e3o atentamos para o fato de que existe em fun\u00e7\u00e3o do nome que lhe demos e esse nome, ou r\u00f3tulo, \u00e9 conferido a um conjunto dependente de partes, causas e circunst\u00e2ncias. Em vez de considerar a mesa em fun\u00e7\u00e3o da interdepend\u00eancia de todos esses v\u00e1rios fatores, tomamo-la de um modo muito simplista e equivocado. Com uma cren\u00e7a instintiva e errada, profundamente inculcada em nossa mente, sentimos que esse objeto \u00e9 muito real e auto-suficiente, que nos vem de fora. N\u00e3o o consideramos como algo que nomeamos e, nesse sentido, de fato criamos.<\/p>\n<p>Por exemplo, suponhamos que um casal teve um filho e decidiu cham\u00e1-\u00adlo Geraldo. Apesar do fato de que eles criaram esse nome para o beb\u00ea, logo passar\u00e3o a consider\u00e1-lo como um \u201cGeraldo\u201d real. Tomam Geraldo como algo que existe apenas da parte do beb\u00ea, independente e auto-existente, pare\u00adcendo-lhes como que externo. Em vez de julg\u00e1-lo algu\u00e9m dependente de um corpo, mente, nome e coisas assim, v\u00eaem-no como um Geraldo real, independente, que n\u00e3o depende de mais nada para a sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos livros que tratam de como meditar mais profundamente sobre a aus\u00eancia de auto-exist\u00eancia independente do \u201ceu\u201d e todos os outros fen\u00f4menos. Atrav\u00e9s da leitura de tais textos sobre o vazio po\u00addemos acumular uma grande quantidade de conhecimento intelectual. Contudo, o mais importante \u00e9 realmente purificarmo-nos de todas as vis\u00f5es, ilus\u00f5es e concep\u00e7\u00f5es err\u00f4neas. Enquanto continuarmos a ignorar o que \u00e9 pr\u00f3prio e impr\u00f3prio, a deixar de perceber qu\u00e3o distorcida \u00e9 nossa imagem da realidade, todo o nosso conhecimento carecer\u00e1 de sentido e valor real. Por conseguinte, h\u00e1 muito que purificar em nossas mentes. Devemos tentar diminuir tanto as ilus\u00f5es flagrantes como o \u00f3dio e a fixa\u00e7\u00e3o, que dificultam a concentra\u00e7\u00e3o e capta\u00e7\u00e3o do sentido do vazio, quando a mais sutil e b\u00e1sica vem da da ignor\u00e2ncia, da qual emanam essas ilus\u00f5es mais gritantes. Al\u00e9m disso, jamais devemos deixar de observar o nosso carma, pois o controle r\u00edgido sobre nossas a\u00e7\u00f5es constitui a pr\u00e1tica primor\u00addial do <i>Dharma<\/i>.<\/p>\n<p>Eventualmente, veremos como essa cren\u00e7a obstinada numa real exis\u00adt\u00eancia independente contamina a mente de todos os seres comuns. Aconte\u00adcimentos no mercado ou em qualquer outro lugar parecer\u00e3o um drama absurdo em que todos partilham de uma ilus\u00e3o comum. Embora tr\u00e1gico, faz-nos rir. O processo de purifica\u00e7\u00e3o da mente dessa ilus\u00e3o pode levar muito tempo para completar-se, mas \u00e9 essencial, se pretendemos escapar do sofrimento e mostrar aos outros o caminho para a liberdade. Portanto, devemos tentar ao m\u00e1ximo, sempre mantendo nossa motiva\u00e7\u00e3o a mais pura poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong><i>Conclus\u00e3o<\/i><\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o houve tempo suficiente para uma discuss\u00e3o exaustiva dos tr\u00eas princi\u00adpais aspectos do caminho para a ilumina\u00e7\u00e3o. Mas, agora que temos alguma id\u00e9ia da import\u00e2ncia de adquirirmos uma mente plenamente abnegada, um motivo iluminado de <i>bodhicitta<\/i> e uma vis\u00e3o correta do vazio, devemos esfor\u00e7ar-nos para seguir esses ensinamentos ao m\u00e1ximo de nossa capacidade. Devemos procurar um mestre espiritual capaz de guiar-nos para um caminho correto de conhecimento. Al\u00e9m disso, devemos ler e estudar explica\u00e7\u00f5es v\u00e1lidas dos pontos essenciais do Dharma. Entretanto, o mais importante, devemos procurar controlar nossa mente atrav\u00e9s da medita\u00e7\u00e3o conscienciosa de tudo que aprendemos. Vamos efetivamente integrar esses ensinamentos \u00e0 vida di\u00e1ria. Dessa maneira, nossa pr\u00e1tica resultar\u00e1 prazerosa para todos os seres iluminados e, eventualmente, capacitar-nos-\u00e1 para ser de grande ajuda aos outros.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7amos uma sess\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o sobre qualquer desses preceitos \u2014 de fato, sempre que estivermos prestes a dedicar-nos a qualquer atividade virtuosa \u2014 devemos lembrar-nos de purificar nossa motiva\u00e7\u00e3o. Isso assegurar\u00e1 que o maior benef\u00edcio poss\u00edvel resulte do que quer que fa\u00e7amos. Portanto, por favor, cultivem pensamentos como os que se seguem:<\/p>\n<p><i>Eu, e todos os seres vivos tamb\u00e9m, temos sofrido no samsara desde \u00e9pocas remotas at\u00e9 agora. E continuo a sofrer, aceitando cegamente como verdadeira minha concep\u00e7\u00e3o ignorante de quem sou. Creio erroneamente num \u201ceu\u201d auto-existente e, por consequ\u00eancia, considero as impurezas do samsara puras e desej\u00e1veis.<\/i><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o preciso mais padecer sob essas ilus\u00f5es. Houve um tempo antes de sua ilumina\u00e7\u00e3o em que o pr\u00f3prio Buda Shakyamuni era t\u00e3o ignorante e iludido quanto eu, contudo, eventualmente, ele conseguiu alcan\u00e7ar o despertar pleno do estado de Buda. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para eu n\u00e3o poder fazer o mesmo.<\/p>\n<p><i>Entretanto, n\u00e3o basta penetrar na realidade e conquistar a liberdade para mim apenas. N\u00e3o sou o \u00fanico ser que almeja felicidade e liberta\u00e7\u00e3o da dor. N\u00e3o \u00e9 certo prezar a mim mesmo mais do que a outrem. De fato, minha atitude de auto-estima foi a verdadeira causa do meu sofrimento por todas essas muitas vidas e, portanto, deve ser abandonada agora. Todos os seres vivos, essas minhas preciosas m\u00e3es, proporcionaram-me toda a alegria e felicidade que j\u00e1 tive. Embora nenhum desses benfeitores desejem ser infelizes, ignorantemente destroem suas chances de felicidade. Como posso abandon\u00e1-los quando se encontram em t\u00e3o terr\u00edvel necessidade de orienta\u00e7\u00e3o?<\/i><\/p>\n<p><i>Meus pr\u00f3ximos n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos seres que infligem puni\u00e7\u00e3o a si mesmos. Os animais e todas as criaturas vis\u00edveis e invis\u00edveis do universo agem de foma igualmente iludida. Sofrem desde os tempos mais remotos e continuar\u00e3o a sofrer enquanto permanecerem envoltos na ignor\u00e2ncia. N\u00e3o posso esquecer que todas essas criaturas desafortunadas tamb\u00e9m conferiram-me grande bondade.<\/i><\/p>\n<p><i>Assim, como reconhe\u00e7o minha responsabilidade em assegurar o bem-estar de todos os seres vivos, meditarei agora sobre o profundo caminho para a ilumina\u00e7\u00e3o. Que todo m\u00e9rito gerado de tal atividade resulte no controle de minha mente. Que eu progrida atrav\u00e9s de todos os est\u00e1gios do desenvolvimento espiritual o mais r\u00e1pido poss\u00edvel e obtenha a plena ilumina\u00e7\u00e3o, para o benef\u00edcio de todas as minhas muitas m\u00e3es. Que os\u00a0ensinamentos\u00a0dos seres iluminados sobre a verdade continuem a florescer e\u00a0propiciar\u00a0conforto a todos.<\/i><\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Muito obrigado<\/p>\n<p align=\"center\"><i>[Extrato da palestra proferida pelo Lama Zopa em Fair Lawn, New Jersey, em 10 e 11.08.74 como parte de um curso de medita\u00e7\u00e3o de dois dias, para aqueles que j\u00e1 haviam estudado no Nepal e \u00cdndia.]<\/i><\/p>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o do Dharma tem sido ensinada com um \u00fanico motivo: conduzir os seres \u00e0 vis\u00e3o correta da realidade \u2014 a de que todas as coisas s\u00e3o desprovidas de auto-exist\u00eancia independente. 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