08 -A FONTE SUPREMA

INTRODUÇÃO AO DZOGCHEN
Uma visão do Dzogchen através dos textos

Este é um trabalho de seleção e ordenação de textos
de vários autores e mestres dzogchen por
Karma Tenpa Darghye.

A meta do Dzogchen é o redespertar do indivíduo para o estado primordial de iluminação que é encontrado naturalmente em todos os seres. O mestre introduz o estudante a sua natureza real, a qual já é perfeita e iluminada, porém, somente pelo reconhecimento desta natureza e estabilidade neste estado de reconhecimento durante todas as atividades diárias é que o estudante torna-se um autêntico praticante do Dzogchen do caminho direto de auto-liberação. O praticante do Dzogchen está consciente da claridade absoluta e pureza da sua própria mente e, sem tentar modificar o que por si mesmo já é perfeito, sem lutar para obter de qualquer outro lugar o estado de realização, permanece sempre na natureza real da existência, a suprema fonte de todos os fenômenos. "Os que tentam meditar e realizar esta condição por meio do esforço são tais como um cego que tenta moldar o céu".

Neste livro, o ensinamento do Dzogchen é apresentado por meio de um dos seus textos mais antigos, o tantra Kundjed Gyalpo, "O Rei que Tudo Cria" – uma personificação do estado primordial de iluminação. Este tantra é a escritura fundamental da Semde – a tradição Dzogchen da "Natureza da Mente" – e é a fonte mais autorizada para se entender a visão do Dzogchen. O comentário oral por Chogyal Namkhai Norbu facilita intuir as profundezas deste texto desde um ponto de vista prático. Adriano Clemente traduziu a seleção de passagens principais do tantra original. A Fonte Suprema será de grande interesse para todos os estudantes de budismo tibetano.

O que segue é um extrato deste livro.

O Atiyoga do Dzogchen

Com o atiyoga alcançamos a culminância dos caminhos da realização: o Dzogchen – "a perfeição total" – cujo caminho característico, baseado no conhecimento da auto-liberação, não demanda qualquer outra transformação. De fato, quando entendemos o princípio da auto-liberação, reconhecemos que nem mesmo o método transformador do tantra é o caminho final. O ponto fundamental da prática do Dzogchen, chamado de tregchöd, o "relaxamento das tensões", é repousar no estado da contemplação, enquanto que o caminho de permanecer neste estado é chamado chogshag, "deixando como está".

Fazer uma visualização, uma prática de transformação da visão impura em uma mandala e etc. significa "construir" alguma coisa, trabalhar com a mente, enquanto que no estado da contemplação, o corpo, fala e mente estão totalmente relaxados, e é necessário que seja assim. Um termo usado muito freqüentemente no Dzogchen é machöpa, "não corrigido", "não alterado", enquanto que transformação significa corrigir, considerando que, por um lado, há visão impura e, pelo outro, visão pura. Então, tudo o que se necessita para se entrar no estado de contemplação é relaxar, não havendo necessidade de qualquer prática de transformação. Algumas pessoas crêem que o Dzogchen é apenas a fase final do processo tântrico, semelhante ao Mahamudra da tradição moderna, mas isso se dá porque o ponto de chegada do caminho do anuyoga, também é chamado de Dzogchen. Na verdade, o atiyoga do Dzogchen é um caminho completo em si mesmo e que, como mencionado acima, é independente do caminho dos métodos de transformação.

Quando seguimos o ensinamento do Dzogchen, se tivermos capacidade suficiente, poderemos iniciar diretamente pela prática de contemplação. A única coisa que é indispensável é a prática de guru yoga, a "unificação com o estado do professor", pois é do professor que recebemos a introdução direta ao conhecimento.

Os tantras originais sobre Atiyoga, como o Kundjed Gyalpo, afirmam freqüentemente que a qualidade característica do Dzogchen é a falta dos dez requisitos para a prática do tantra: iniciação, mantra, mandala, visualização e etc. Por que estes não estão presentes no Dzogchen? Porque são maneiras de corrigir ou alterar a natureza própria do indivíduo, mas na realidade nada há para ser mudado ou melhorado, tudo o que é necessário é a descoberta da condição real e permanecer repousado neste estado. Assim, é importante que se compreenda que a palavra Dzogchen refere-se ao estado (original) do indivíduo, e que o propósito do ensinamento do Dzogchen é capacitar à pessoa a entender esta condição.

Em geral, o ensinamento do Dzogchen é explicado por meio de três aspectos fundamentais: a base, o caminho e o fruto. A base é o estado primordial do indivíduo e será explicado posteriormente por meio do princípio das ‘três sabedorias’, isto é, as três condições naturais: essência, natureza e energia. Um dos exemplos mais claros que auxiliam a compreensão deste ponto é o espelho. De fato, a condição relativa e a absoluta podem ambas ser representadas por um espelho, a primeira pelas imagens refletidas e a última, pela capacidade intrínseca do espelho de refletir. O mesmo acontece com o estado do indivíduo. O que é o indivíduo? É aquele que possui o estado primordial de consciência, comparável à natureza do espelho que é pura, clara e límpida. Isto corresponde às três condições chamadas "essência, natureza e limpidez". Tal como um reflexo emerge do espelho e, de certo modo, é uma qualidade do espelho, todos os pensamentos e todas as manifestações de nossa energia, quer seja bonita ou feia, são apenas a nossa própria reflexão, uma qualidade de nosso estado primordial. Se estivermos conscientes e se realmente estivermos neste estado, tudo se torna uma qualidade de nós e não haverá mais qualquer separação entre sujeito e objeto ou qualquer consideração sobre relativo ou absoluto.

Dissemos que, como indivíduos, somos compostos por nosso próprio estado primordial como essência, natureza e energia. Contudo, não devemos pensar nestes três aspectos como se fossem três objetos separados: a condição original é somente uma, e o fato de ser explicada por meio de três conceitos distintos é apenas para auxiliar a sua compreensão. Na verdade, não podemos definir ou distinguir "isto é pureza, aquilo é claridade e esse outro é limpidez".

O que é a essência? A fim de descobrir o que é o estado primordial é necessário refletir, o que neste caso envolve o corpo, fala e mente, mais particularmente esta última. De fato, é da mente que os pensamentos surgem. Se um pensamento surge enquanto estamos observando a mente, poderíamos procurar de onde o pensamento se originou, onde ele se mantém, onde ele desaparece. Contudo, no momento em que reconhecemos o pensamento, ele desaparece e não encontramos nada sequer: não há origem, não local onde se mantenha, nem lugar onde ele desaparece. Encontramos que não há nada, de onde se diz que a essência é vacuidade.

O conceito de vacuidade, sunyata, é muito divulgado no Budismo Mahayana, particularmente na tradição Prajñaparamita. Contudo o ponto fundamental a ser entendido é que a vacuidade é a essência real dos fenômenos materiais e não uma entidade abstrata e separada. De fato, o mesmo exercício no qual se procura a origem do pensamento pode ser aplicado a qualquer objeto perceptível aos sentidos. Se enxergamos um objeto bonito e analisarmos de onde vem essa "beleza" e onde ela desaparece, não achamos nada que seja concreto: tudo está no mesmo nível, tanto o objeto quanto o sujeito são, em essência, vacuidade. Assim também é a condição última da individualidade.

O que é claridade? Se a essência é vacuidade isto não quer dizer que não exista nada. Quando observamos um pensamento e ele desaparece, imediatamente a seguir surge outro pensamento, que poderia ser "estou procurando a natureza do pensar e não estou achando nada!". Isto também é um pensamento, não é? É um pensamento que pensa sobre a origem do pensar. Desta forma, muitos pensamentos surgem continuamente. Mesmo que possamos estar convencidos de que sua essência é vacuidade, eles ainda se manifestam continuamente. O mesmo se aplica aos nossos sentidos: todos os objetos que percebemos são o surgimento incessante de nossa visãokármica. Esta, então, é a natureza da claridade.

O que é a energia, ou a potencialidade da energia? É a função ativa e ininterrupta da natureza de nosso estado primordial. Em geral, se fala da "função de sabedoria" em relação à visão pura de um ser iluminado e da "função da mente" em relação à visão impura de samsara. Por exemplo, pensamos em algo e então seguimos este pensamento e entramos em ação. Ou ainda, enquanto estamos praticando, transformamo-nos em uma deidade com o mandala daquela deidade e dimensão pura. Tudo isto evidencia a visão pura de energia nos aspectos de sua continuidade e sua capacidade de produzir algo. Através de nossa energia surgem todas as manifestações em termos de sujeito e objeto, as quais podem ser puras ou impuras, bonitas ou feias, etc. Se colocarmos um cristal na luz solar, vemos imediatamente que ele irradia muitos raios luminosos. Neste caso, o cristal representa o estado do indivíduo e as cores que se manifestam externamente representam tudo o que vemos e percebemos pelos sentidos. Este "modo de manifestação" da energia, no qual a reflexão se manifesta externamente, é chamado tsal em tibetano. A visão impura ligada ao karma e à dimensão material e a visão pura no nível de sujeito e objeto são ambas manifestações de energia tsal.

Há também um modo no qual a energia se manifesta "internamente", no sujeito em si, da mesma forma que imagens se refletem num espelho: isto é chamado de rolpa. Por exemplo, quando fazemos uma prática tântrica e transformamos a nós mesmos na dimensão da deidade com seu mandala, estamos trabalhando com este tipo de energia, pois tudo está ocorrendo dentro de nós. Obviamente, no primeiro estágio da prática de transformação, é muito importante utilizar a mente, a concentração, etc., a fim de alcançar esta função concretamente. Mas em um certo ponto, a dimensão pura do mandala pode se manifestar mesmo sem qualquer esforço da nossa parte, e isto ocorre por meio da energia de rolpa.

A terceira maneira pela qual a energia se manifesta é chamada de dang, e representa somente a condição básica da energia, sua potencialidade para assumir qualquer forma conforme as circunstâncias. O exemplo tradicional é o de um cristal colocado em um tecido: o cristal assumirá a cor do tecido mesmo sendo por si mesmo transparente e sem cor.

Essência, natureza e energia são chamadas de "as três sabedorias" porque elas representam o estado de iluminação em sua inteireza. O indivíduo possui estes três aspectos desde o próprio princípio e continua a tê-los mesmo após a realização da iluminação completa. Poderia se pensar "qual é, então, o objetivo de se fazer prática, se já temos as mesmas qualidades que um Buda tem?" "Basta apenas ficarmos quietos sem fazer nada!" É claro que podemos ficar quietos sem fazer nada pelo tempo que for possível se não tivermos perturbações, pelo tempo que for possível se estivermos realmente neste estado. Mas, se for de outra maneira, significa que somos escravos do dualismo, condicionados pelo objeto. Neste caso, não é suficiente pensar que temos a essência, natureza e energia: condicionados pela visão dualista que é exatamente o obstáculo que necessitamos superar para permitir que o sol do estado primordial brilhe novamente.

Este é o motivo pelo qual o caminho é necessário, o qual, por sua vez, engloba os três aspectos da visão, meditação e conduta. No Dzogchen a "visão", ou perspectiva, não se refere a algo externo, significando simplesmente a observação de si mesmo para se descobrir a própria condição verdadeira. Basicamente, significa discernir o condicionamento dualista atuando no corpo, na fala e na mente a fim de superá-lo pela prática. O ensinamento do Dzogchen de forma alguma sugere que se deva construir uma nova gaiola no lugar desta na qual já nos encontramos; pelo contrário, serve como a chave que abre a porta desta gaiola. De fato, não basta descobrirmos que estamos presos na prisão do dualismo: necessitamos sair dela, este é o propósito de "meditar".

Com relação ao segundo aspecto, meditação, mesmo desde o princípio é necessário fazer uso dos métodos de concentração, respiração, etc., para acalmar a mente e dar o sustento a uma condição de estabilidade, o real propósito da meditação é a continuidade do estado desperto, isto é, a presença do estado primordial. Aqui deveríamos falar sobre contemplação, o ponto essencial do qual é a presença instantânea pura, ou rigpa. O praticante do Dzogchen procura compreender este estado de presença por meio de diversas experiências de vacuidade, clareza, sensações prazerosas, e assim por diante. De fato, a meta dos métodos dos sutras e tantras é tão somente também incitar experiências. O caminho verdadeiro do praticante do Dzogchen, contudo, é a contemplação. De fato, apenas quando estivermos contemplando é que todas as tensões de corpo, fala e mente são finalmente liberadas sem esforço: até descobrirmos e mantermos estabilidade neste estado, nossa experiência de relaxamento será incompleta. Contemplação, como sugerimos anteriormente, pode estar ligada a uma experiência de vacuidade, de clareza ou de gozo, mas seu estado é somente um: a presença instantânea de rigpa. Há vários métodos para reconhecer, estabilizar e integrar este estado a todas as circunstâncias da vida cotidiana em correlação às séries fundamentais do Dzogchen: Semde, Longde e Mennagde.

"Conduta", o último dos três aspectos do caminho, diz respeito à atitude que os praticantes devem ter com relação ao momento no qual eles "saem" de uma sessão contemplativa e assumem as suas demais atividades. O propósito disto é alcançar a integração total da contemplação com a vida cotidiana, superando qualquer diferenciação que possa haver entre meditação e não-meditação.

Retomemos agora o terceiro e último aspecto do ensinamento do Dzogchen, o fruto ou o "resultado" da prática: a realização. Já dissemos que o estado primordial contém de forma potencial a manifestação da iluminação. O sol, por exemplo, possui naturalmente luz e raios, porém, quando o céu está nublado, ninguém pode vê-los. As nuvens, neste caso, representam nossos obstáculos que são um resultado do dualismo e condicionamento: quando forem superados, o estado da auto-perfeição brilha com todas as suas manifestações de energia, sem que nada tenha sido alterado ou melhorado. Este é o princípio característico do Dzogchen. Não compreender este ponto pode levar à idéia de que o Dzogchen é o mesmo que o Zen e o Ch’an. Em seu âmago, o Zen, que sem dúvida alguma é um ensinamento budista elevado e direto, é baseado no princípio da vacuidade tal como esta é explicada em sutras como o Prajñaparamita. Mesmo deste ponto de vista, em conteúdo, não há diferença com o Dzogchen, a particularidade do Dzogchen reside na introdução direta ao estado primordial não como "vacuidade pura" mas sim como este estando dotado com todos os aspectos da auto-perfeição de energia. É por meio da aplicação destes que se atinge a realização.

Com respeito ao fruto, há os três kayas, "corpos" ou "dimensões": dharmakaya, samboghakaya e nirmanakaya. De forma alguma os kayas são níveis de realização: não há como haver um dharmakaya sem um nirmanakaya, e vice-versa. Para entender o seu significado, devemos retornar aos conceitos de essência, natureza e energia. Kaya significa "corpo", e, por isso, a dimensão completa, tanto a material quanto a imaterial, na qual nós próprios nos achamos. Assim, o dharmakaya é a dimensão total da existência, sem qualquer exclusão. Por isso, corresponde à essência, a condição inefável e imensurável além dos conceitos e limites do dualismo.

Sambogha

quer dizer "bem-aventurança", "desfrute", portanto, samboghakaya quer dizer "a dimensão da bem-aventurança". Neste caso, bem-aventurança não se refere a algo material, mas sim, às qualidades perfeitas-por-si-mesmas que se manifestam através das substâncias dos elementos, isto é, por meio das cores. De fato, quando os elementos tomam o estado material, eles passam do nível de "cor" ao nível sólido dos elementos físicos. Em resumo, tudo o que consideramos ser a dimensão pura da mandala e da deidade pertence ao samboghakaya, a fonte de transmissão do tantra. Este corresponde ao aspecto da "natureza" de claridade do estado primordial.

Nirmana

significa "manifestação", "emanação" e corresponde ao aspecto da energia ininterrupta. Então, nirmanakaya quer dizer "dimensão da manifestação". De fato, através da energia, tanto a visão pura quanto a impura podem se manifestar e ambas são acreditadas como dimensão nirmanakaya. A visão pura transcende a dimensão material e constitui a essência dos elementos, enquanto que a visão impura ao que é chamado de "visão kármica", produzida como a conseqüência de determinadas ações feitas no passado.

A palavra nirmanakaya pode também se referir a um indivíduo realizado, tal como o Sakyamuni Buddha, que assumiu uma forma física para transmitir os ensinamentos. De fato, apenas no nirmanakaya é que os ensinamentos podem ser ditos e transmitidos em termos de sujeitos e objeto. O samboghakaya é aquela dimensão na qual as potencialidades de som, luz e raios (sgra, ‘od e zer), as três fontes fundamentais da manifestação, aparecem como a visão pura da mandala, a origem dos ensinamentos tântricos. Os livros chamados "tantras", que contêm as revelações destas manifestações, constituem o testemunho de mestres que tiveram contato direto com o samboghakaya e, somente depois, puseram por escrito. No que toca ao ensinamento do Dzogchen em particular, os seus tantras se diz que emanaram diretamente do dharmakaya, simbolizado pelo Buda primordial Samantabhadra, cuja imagem é a de um Buda azul celeste, nu e sem adornos, a pureza original do estado do indivíduo.

O Tantra Fundamental para o Dzogchen Semde – Comentários por Chogyal Namkhai Norbu & Adriano Clemente[Extraído de SNOW LION, P.º Box 6483 Ithaca, NY 14851 USA, vol 14, número 4, fall 1999, pág 1, 2 e 3. Tradução por André Collasiol – revisão pelo Lama Padma Samten – CEBB Caminho do Meio – março 2000]