O Buda-Darma como Liberdade Absoluta

20130104
Traduzido por Giovanni Kakugen

Mestre Dogen

Palestra da monja Joshin Sensei

O que significa estudar Mestre Dogen hoje? Que respostas podemos encontrar para a nossa prática do Darma e para a nossa vida diária?

Parece-me que é precisamente esta pergunta que surge para todos os praticantes em um momento ou em outro: “Como nós podemos fazer uma conexão entre a prática do zazen – que ocorre num certo momento e local, através de uma forma precisa – e o resto de nossas vidas – nossa vida familiar, profissional, enfim, nossa vida ocidental do século XXI?” E tudo isso em uma sociedade que não parece se prestar à busca espiritual, para não dizer mais. Como podemos fazer para que a nossa prática concretamente se entenda a todas as nossas atividades? Pessoalmente, a primeira resposta que eu recebi veio do Tenzo Kyokun. Vocês todos conhecem esse texto, Instruções Para O Cozinheiro de Um Templo Zen. Vocês sabem como Mestre Dogen usa toda a sua compaixão para nos ajudar a superar o nosso pensamento dualista, o pensamento que classifica, julga e compara. Ele diz por exemplo: “Não seja negligente e desatento se os ingredientes para a refeição lhe parecerem comuns, e não se exalte se você tiver ingredientes de qualidade superior. Uma pessoa que se deixa influenciar pela qualidade de uma coisa, ou que muda a sua atitude, maneira de falar e conduta dependendo da aparência e posição das pessoas que encontra, não é um estudante do Caminho”. Essas palavras foram um grande espelho para mim; eu vi claramente que eu estava colocando as coisas (pessoas, situações) na minha própria ordem – o que eu gostava colocava no topo e o que eu não gostava colocava embaixo – baseada nas minhas próprias idéias e julgamentos. Como podemos deixar de fazer isso? Bem, no começo do texto, ao falar sobre as várias pessoas com responsabilidades dentro da comunidade, incluindo o tenzo, Mestre Dogen diz: “Todos os monges responsáveis realizam as ações do Buda através de suas atividades.”

Como posso eu, meu eu pequeno, realizar uma Ação-de-Buda ao lavar a louça ou descascar uma cenoura? Mestre Dogen continua, citando o Chanyuan Quinzzi, os “Regulamentos Monásticos” escrito na China no século XII: “Trabalhe com a sua Mente-Búdica, a mente que busca o despertar.” Essa Mente-Búdica é doshin: ‘do’ significa “O Caminho”; ‘shin’ significa tanto “mente” no sentido ocidental quanto “coração”, todo o nosso ser, e eu gostaria de traduzir doshin como “coracão-mente”. Doshin é o nosso coração-mente, que não é diferente do coração-mente do Buda, o despertar; é o coração-mente que busca o Caminho e que, através dessa busca, manifesta-o [ou “concretiza-o” ou “realiza-o”] neste momento, como Hotetsu se abanando[1]. Em sua grande compaixão Mestre Dogen nos ajuda a ver e a reconhecer esse coração-mente em nós, e a superar o que nós experimentamos como separação, corte, sofrimento: eu/fora, eu/outros. No Yuibutsu Yobutsu ele diz: “O universo inteiro é o verdadeiro corpo do homem, o universo inteiro é o portal da liberação. O verdadeiro corpo do homem significa o seu verdadeiro corpo, quer você saiba disso ou não”.

Como podemos entender isso? Como pode a nossa mente compreender algo maior que ela mesma? Talvez o nosso coração possa nos ajudar, fazendo-nos ir além da dualidade de dar e receber. No Gakudo Yojinshu lemos: “Com um corpo e mente pacíficos, receba os ensinamentos do seu mestre como a água que é derramada de um recipiente a outro”. “Em todas as manhãs” explica Mestre Dogen no Tenzo Kyokun, “O tenzo recebe de uma outra autoridade do templo a comida que será preparada ao longo do dia. E,” diz Dogen, “ele deve dar tanta atenção a essa comida quanto daria à pupila de seus olhos”. Como eu vou receber, cada manhã, tudo o que o dia me trará – como eu vou olhar como sendo precioso tanto aquilo que eu gosto quanto o que eu não gosto, o que quero e o que eu não quero, a felicidade e a tristeza, o amargo e o doce – se permanecer dentro do meu pequeno eu, do meu eu-gaki [2], sempre faminto de desejos e emoções? Como podemos apreciar com gratidão tudo a nossa volta – o ar, o sol, a chuva, todos os seres sencientes – Recebamos este alimento agradecidos [3]… Como posso receber os outros – aqueles que me incomodam, que me irritam – com respeito? Mestre Dogen nos mostra que aquilo que é recebido com respeito e gratidão pode ser devolvido com respeito e gratidão. “Depois de o alimento ter sido cuidadosamente preparado, coloque o seu Kesa e desdobre o seu zazu. Voltando-se em direção ao zendo, onde todos os monges estão sentados em zazen, ofereça incenso e prostre-se nove vezes, e então leve a comida para dentro do zendo”.

O universo inteiro recebeu, o universo inteiro deu. Não há diferença. Sem preocupação, sem medo, podemos receber tudo e deixar que tudo passe através de nós, pois nada nos falta. A nossa mente-gaki não consegue acreditar nisso, mas podemos viver isso. “Desde que a sua mente não seja limitada, você naturalmente receberá uma riqueza sem limites”.
Nós sabemos disso, é claro; tocamos isso durante o zazen. Tudo está lá. Não é preciso correr atrás de nada, não é preciso lutar – já temos tudo. “O universo inteiro é o verdadeiro corpo do homem”. A prática do Buda irá nutrir a maneira como nós expressamos o Buda-Darma através de nossa vida, em todas as atividades da nossa vida. Dar e receber são um. Em um templo colocamos esse “um” em prática o tempo todo – isso é gasshô, gasshô frente a uma pessoa, um zafu, as tigelas… Com cada gasshô retornamos à prática de Buda.

Parece-me que a relevância de Mestre Dogen reside nesta primeira articulação: entre o lado concreto da nossa vida – seja dentro ou fora de um templo – e esse coração, que precisa ser nutrido, especialmente porque a dimensão espiritual está esquecida no mundo atual. Quando compreendemos a prática do Buda nos tornamos unificados dentro e fora. Essa prática se apóia na confiança e se desenvolve através da devoção: confiança em nós mesmos, em nossos esforços e em nossa própria força – “Aqueles que relutantemente consagram seu corpo e mente ao Buda-Darma com profunda sinceridade inevitavelmente receberão ajuda compassiva”; mas também confiança em nossa verdadeira natureza, a Natureza Búdica – “Todos os seres dos seis reinos podem fazer surgir a mente do Despertar”. Confiança neste “nascimento-e-morte” que nos atravessa a cada instante, e que é a natureza do Despertar.

Essa confiança é fundamental. Mestre Hui-hui escreveu: “Um pensamento baseado na confiança: tal é a origem da entrada no Caminho, depois de inúmeras vidas”. E a partir dessa confiança extraímos a força do coração: a devoção que ajuda a nos abrir ao “nós” nos outros e a expressar a alegria e gratidão que apagam os limites do eu. Essa prática na vida cotidiana nos leva a uma segunda articulação: compreender o que não pode ser compreendido é a estrutura do Shobogengo.
Às vezes vemos surgir nos praticantes o que é conhecido na China como a “doença do Zen”. Mestre Dogen cita um exemplo no texto “Senmen” (“Lavando o Rosto”); primeiro ele cita uma passagem do Sutra de Lótus que fala sobre a necessidade de lavar o corpo e colocar roupas limpas, e ele acrescenta: “Os bêbados, estúpidos demais para ouvir os ensinamentos do Buda, retrucam ‘Nós podemos enxaguar a nossa pele o quanto quisermos, mas como não podemos lavar os cinco órgãos e as seis vísceras, não podemos ser puros. Então é inútil nos lavar. Esses ignorantes”, continua Mestre Dogen, “não conhecem o Buda-Darma e nunca encontraram um verdadeiro mestre”.

Certamente hoje em dia nós encontramos esse tipo de pessoa que caiu na armadilha do vazio (Ku)[4], que recusam os fenômenos baseando-se em uma idéia ilusória de vacuidade! Mas se ouvirmos apenas essa parte do texto nós apenas compreenderemos que “lavar-se é uma prática de Buda”, o que não é falso, mas incompleto; poderíamos talvez dizer, muito simplesmente: ir do eu ao Darma, dos fenômenos à vacuidade. Mas, Mestre Dogen prossegue dizendo: “Apenas os Budas e Ancestrais mantêm o princípio de lavar aquilo que ainda não foi sujo, e de lavar aquilo que já foi purificado. Receio que esse bêbado ainda não conheça o nosso método de lavar a vacuidade. Conhecendo a vacuidade lavamos a vacuidade, e conhecendo a vacuidade lavamos o nosso corpo e mente”.

O Darma não se separa do eu. “Forma nada mais é do que vazio, vazio nada mais é do que forma” [5]. Ir da forma ao vazio, e do vazio á forma.

Assim, vemos no Tenzo Kyokun o velho tenzo com sobrancelhas grossas responder ao jovem monge: “Os outros não sou eu”. É porque o eu deve reaparecer para concretizar [ou “manifestar” (N.T.)] o Despertar. Isso é shusho, “Prática e Iluminação são um, Iluminação e Prática são um”. Voltamos a Hotetsu se abanando.

Eu preciso praticar, isto é, realizar ações, e mais precisamente ações voltadas aos outros, para que essa Iluminação [ou “Despertar”] que já está presente se manifeste [ou “realize” (N.T.)]. Mas, é claro, isso é falso, pois falando assim eu crio uma separação entre eu e os outros; mas, ainda, temos que “os outros não sou eu”! É isso que é tão extraordinário no ensinamento de Mestre Dogen: por um lado vemos como a cada instante estamos tomando partidos e escolhendo, e com isso caindo em erro – não que isso seja falso “em si mesmo”, (pois não há um “si mesmo”), mas porque nós nos limitamos: “Ao olhar para o arroz veja também a areia, e ao olhar para a areia, veja também o arroz” [6]. E por outro lado ainda precisamos remover a areia e lavar o arroz! Mas na verdade não há nada a rejeitar, nada a remover ou acrescentar: “Não há nascimento e morte a serem rejeitados nem Nirvana a ser buscado” [7]. No entanto sempre buscamos remover algo, remover as partes de nós mesmos e dos outros que não gostamos, que nos incomodam, remover a dor ou os pensamentos durante o zazen… Ou então tentamos acrescentar algo, um pouco mais de felicidade, um pouco mais de satisfação, ou um pouco de iluminação para finalmente ter alguma paz.

No Hotsubodaishin lemos: “Sem pensamento discriminador (em sânscrito citta) não podemos fazer surgir a mente do despertar; isso não significa, entretanto, que a mente dualista é igual à mente do despertar, mas sim que é usando o pensamento (citta) que podemos produzir o despertar”. Nós não temos que fazer nada a não ser deixar o nosso coração-mente ser. Ele é o universo inteiro, é o coração do tenzo. Daishin dai significa “vasto, sem limites”; shin é “coração-mente”; estável como uma grande montanha, vasto como o oceano: “Todos os rios deságuam no oceano. E o grande oceano os recebe, mistura-os e os torna um”. “Simplesmente deixar ser… e, no entanto precisamos retirar a areia e lavar o arroz”. É “forma é vazio, vazio é forma”.[8]

Mestre Dogen nos ensina como ver ambos a diferença (“Os outros não sou eu”.) e a unidade (“Com o passar do tempo, os outros se tornam eu e eu me torno os outros”)… Isso é o Sandokai, a harmonia entre a diferença e a unidade: se quisermos caminhar precisamos avançar um pé, e depois o outro – não os dois ao mesmo tempo. Nem podemos decidir colocar o pé direito sempre na frente, pois ele não existe sem o pé esquerdo.

Então avançamos assim – um pé após o outro, ancorado na terra, ancorado na nossa prática – nyoho : ”Prática e ensinamento são um”, em harmonia com tudo o que existe. Uma prática tão correta quanto uma caixa e sua tampa. Uma prática de ações, completamente transparente – um fazer que é também não-fazer. Essa é a prática da forma através da não-forma: é o pássaro que voa pelo céu e não está separado do céu; o peixe que nada no oceano e também é um com o oceano.

Então cada ação, cada respiração se torna a expressão viva do Buda-Darma, e não está separado do zazen. Assim, o zazen se torna a nossa própria vida e a nossa própria vida se torna zazen.
Cada instante é exatamente “esse instante”; zazen pode fazer zazen através de nós. Nenhum obstáculo. Apenas unidade.
Gratidão além das palavras ao ensinamento supremo, ao Mestre Dogen, a todos os mestres que o preservaram e o transmitiram até nós.

Muito obrigada.

(Palestra dada por Joshin Sensei no evento “Serviço Memorial Preliminar pelo aniversario de 750 anos da entrada de Dogen Zenji no Nirvana”, evento comemorativo que ocorreu nos dias 16 e 17 de junho de 2001, na Europa.)
(Traduzido em Julho de 2004, em Hokaiji. Revisado em Outubro de 2004)

NOTAS:
[1] O Mestre Zen Pao-che do Monte Ma-Ku estava se abanando quando veio um monge e lhe perguntou: “A natureza do vento é eterna e alcança todos os lugares. Por que, então, você está se abanando?” Pao-che disse: “Você pode saber que a natureza do vento é eterna, mas não conhece o significado dela alcançar todos os lugares”. O monge perguntou: “O que você quer dizer com isso?” Mas Pao-che apenas continuou se abanando. Vendo isso o monge inclinou-se com gratidão perante o mestre.
[2] Gaki – em japonês: preta, em sânscrito: fantasma faminto.
[3] Primeira frase do Sutra das Refeições.
[4] Ku significa “vacuidade” em japonês. O mesmo ideograma também significa “céu”.
[5] Shiki soku ze ku, ku soku ze shiki. Trecho do Sutra do Coração.
[6] Trecho do Tenzo Kyokun.
[7] Trecho do Shoji, “Vida-e-morte” (Capítulo 91 do Shobogenzo de Mestre Dogen) .
[8] Capítulo 79 do Shobogenzo.

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