O Dzogchen

VISÃO DZOGCHEN
 

 
Extratos do Livro: VAZIO LUMINOSO
De Francisca Fremantle – Ed. Nova Era
[Pág. 264-273]

Um texto complementar à "Liberação através da audição" [Livro tibetano dos Mortos], descoberto por Karma Lingpa no mesmo ciclo do terma, apresenta lindamente a Visão Dzogchen. Este texto é chamado "Autoliberação através da visão nua mostrando a consciência". Ele oferece instruções sobre como reconhecer e permanecer no estado de consciência suprema, que descreve com grande profundidade. Se um praticante torna-se acostumado com este estado ao longo da vida, então ele ou ela será capaz de entrar nele facilmente na hora da morte. […]

Ele começa por afirmar o ponto fundamental que mente confusa e mente desperta são uma e a mesma em essência, e que todos os diferentes caminhos dentro do budismo levam ao mesmo fim, o reconhecimento da natureza verdadeira da mente.

Maravilhoso!

Uma mente abrange todo o samsara e o nirvana.

É a própria natureza da pessoa desde o início,

No entanto não é reconhecida.

Sua claridade e consciência fluem incessantemente,

No entanto não é encontrada face a face.

Raiando sem obstrução por toda parte,

Sua realidade não é captada.

De tal forma que este si próprio possa reconhecer a si próprio,

Todas as inconcebíveis 84 mil portas para o Dharma são ensinadas pelos budhas do passado, do presente e do futuro.

Os budhas não ensinam nada

Exceto a realização desse si próprio.

É importante lembrar que no budismo "uma mente" não implica em nenhuma entidade cósmica ou substância. Ela se refere simplesmente à faculdade iluminadora, conhecedora da mente, que é a mesma, proceda ela de acordo com a verdade, que cria o nirvana, ou de uma forma distorcida, que cria o samsara. Não pode ser chamada precisamente de individual ou universal, de pessoal ou impessoal, porque tais distinções não se aplicam a ela. Essa mente contém o espectro total do estado desperto : seu vazio essencial, sua energia radiante e sua manifestação incessante.

Dentro de si o trikaya é indivisível e completo em um:

Vazio onde absolutamente nada existe é o dharmakaya,

Claridade, a radiância interior do vazio, é o sambhogakaya,

Nascendo em toda parte sem obstrução é o nirmanakaya,

Os três completos em um são sua natureza específica.

Já que nossa mente é inerentemente budha, tudo que precisamos fazer é reconhecer e se basear em nossa verdadeira natureza. A partir desse ponto de vista, o estado desperto é a nossa mente perfeitamente comum, a experiência diária. No entanto, mesmo depois que ela nos foi mostrada, parecemos ser incapazes de reter essa realização. Nossas próprias tentativas de faze-lo nos atrapalham, porque erram seu objetivo. Começamos fazendo esforço para mudar, para encontrar alguma coisa, ou para atingir alguma meta, mas esses mesmos esforços se tornam contraproducentes. No sentido último, não há realmente nada a fazer e nada a mudar. No entanto começamos a ter dúvidas e sentimos que somos incapazes de conquistar qualquer coisa. Desesperamo-nos para chegar em algum lugar, quando realmente não há nenhum lugar para ir. Esse paradoxo é enfatizado com uma série de perguntas para nos chocar e fazer ver o absurdo de toda a situação:

Quando o método poderoso de entrar nesse si próprio é mostrado,

Seu próprio auto-conhecimento no momento presente é apenas isso!

Sua própria auto-iluminaçao não elaborada é apenas isso,

Então porque dizer que não consegue compreender a natureza da mente?

Não existe nada mesmo para meditar dentro dela,

Então porque dizer que nada acontece quando você medita?

Sua própria experiência direta de consciência é apenas isso,

Então porque dizer que você não consegue encontrar sua própria mente?

Consciência ininterrupta e claridade são apenas isso,

Então por que dizer que não consegue reconhecer a sua mente!

Aquele que pensa sobre a mente é a própria mente,

Então por que dizer que não consegue encontrá-la mesmo se você procurar?

Não existe nada mesmo para ser feito com ela,

Então por que dizer que nada acontece, não importa o que você faça?

Ela só precisa ser deixada naturalmente em seu próprio lugar,

Então por que dizer que ela não vai parar quieta?

Ela só precisa ser deixada à vontade, fazendo nada,

Então por que dizer que você não consegue fazer isso?

Claridade, consciência e vazio inseparáveis estão espontaneamente presentes,

Então por que dizer que sua prática não é bem-sucedida?

Espontaneamente auto-manifestada sem causa ou condição,

Então por que dizer que você não consegue mesmo se tentar?

Pensamentos são liberados instantaneamente assim que surgem,

Então por que dizer que antídotos têm poder?

Saber no presente momento é apenas isso,

Então por que dizer que você não o sabe?

Essa passagem está cheia de termos típicos dzogchen, como auto-conhecimento, auto-consciência, auto-iluminação e assim por diante. Eles são ambíguos, e algumas vezes é difícil decidir que aspecto apresentar na tradução. A palavra usada para aqui "ser" (em sânscrito sva, em tibetano rang) também significa "seu próprio", portanto em alguns contextos parece apropriado enfatizar que é a sua própria mente, sua própria claridade, sua própria consciência. Essas qualidades não são criadas por ninguém, não vêm de nenhum outro lugar e não precisam ser alcançadas ou aperfeiçoadas de nenhuma forma. É por isso que com freqüência encontramos traduções como "natural", "inerente" ou "intrínseco". Entretanto, existe mais do que isso. No uso comum, auto-conhecimento implica conhecimento de suas condições interiores, como sendo diferentes do conhecimento do mundo exterior; mas aqui, o que quer que a pessoa saiba, perceba ou experimente, é reconhecido como estando dentro da mente, e portanto é auto-conhecimento (rang shes). O que quer que a mente experimente está experimentando a si própria. A claridade da mente faz com que as aparências surjam e se tornem visíveis; isso é chamado auto-claridade ou auto-iluminação (rang gsal). Os fenômenos que surgem são a própria mente, embora pareçam ser externos; são conhecidos como auto-aparência ou auto-exibição (rang snang). Auto-consciciência (rang-rig) em particular se refere ao conhecer fundamental, inato da realidade. Ela é a consciência da inseparabilidade do vazio e das aparências: a mente estando consciente de suas próprias criações, do jogo entre o observador e o observado, e ao mesmo tempo estando consciente dessa consciência. Dzogchen também utiliza o significativo termo auto-liberação (rang grol) [discutido no capítulo dois do livro]. Tudo que parece nos prender e nos iludir vem da nossa própria percepção equivocada; a mente construiu sua própria prisão e sua própria teia de enganos. Portanto, assim que a verdadeira natureza da mente é realizada, ela é vista como tendo estado sempre essencialmente livre; naquele instante, ela se libera por seu próprio poder. O texto nos exorta a olhar cuidadosamente para nossa própria mente e nos assegurar de que ela é de fato verdadeira.

É certo que a natureza da mente é vazia, sem fundamento;

Sua mente é não-existente como o espaço vazio.

Olhe para sua própria mente! Ela é assim ou não?

É certo que o que quer que apareça é tudo auto-exibição:

Originando-se de si própria como uma aparência, como uma imagem em um espelho.

Olhe para sua própria mente! Ela é assim ou não?

É certo que todas as qualidades são espontaneamente auto-liberadas:

Auto-produzidas e auto-liberadas como nuvens no céu.

Olhe para sua própria mente! Ela é assim ou não

?

Para entender todo esse conceito, não basta pensar ou sentir que nada é real ou que está tudo na mente; é preciso uma percepção genuína da essência do que a mente é realmente. É por isso que os ensinamentos sobre o vazio e o não-ser são fortemente enfatizados antes de qualquer outra coisa. A própria mente fundamental, a fonte de toda essa exibição, não é a "minha mente" ou a "sua mente" no sentido limitado e egocêntrico. Toda a ilusão do "eu" e do "outro" acontece dentro da mente, que abrange a ambos. Mas enquanto ainda acreditarmos em um eu separado e um mundo lá fora, a ilusão é certamente real em seus próprios termos. Dizer que tudo é mente a partir daquele ponto de vista seria loucura. Os praticantes dzogchen são conhecidos por serem extremamente práticos e realistas. Longchenpa, um grande mestre do séc. XIV, iria rir das pessoas que sustentam visões filosóficas idealistas, dizendo que é claro que o mundo externo é real! Com a realização da auto-consciência, tudo é visto como sendo real de uma maneira inteiramente diferente, como a expressão da natureza desperta. Entre essas visões da vida, existe o período de transmutação, cheio de paradoxos e ambigüidades. Precisamos estabelecer, por meio da experiência pessoal direta, os diferentes estágios de percepção que levam ao estado último.

Trungpa Rinpoche costumava dizer que a prática do Vajrayana é baseada no abandono da esperança de atingir o nirvana e do medo de permanecer no samsara. Ele chamou essa atitude de desesperança, e descreveu toda a vida e o ensinamento de Padmakara como uma ilustração da desesperança. Para a maioria das pessoas, incluindo grandes santos como Naropa e Milarepa, desesperança realmente significa o total desespero de perder toda a esperança, indo até o fundo, antes que sejamos capazes de aceitar a verdade simples e óbvia. Se o que estamos procurando já está dentro de nós, se nossa própria natureza já está desperta, então procurar em qualquer outro lugar só pode nos levar para mais longe dela. A intensidade da nossa desesperança, sua completitude e sua genuinidade determinam se podemos dar o salto para o reconhecimento direto, imediato, ou se precisamos seguir um caminho mais gradual de transformação. Durante o estágio de criação do vajrayana, a pessoa realiza sua prática com a atitude de que o resultado já está alcançado, de tal forma que a esperança de sucesso ou o medo do fracasso se desfazem gradualmente. Essa convicção é o caminho para superar o materialismo espiritual, a atitude de apego que vê a iluminação como um prêmio a ser conquistado no final da jornada. Com fé e confiança na realidade sempre presente da natureza de budha, o caminho se torna um processo contínuo de redescoberta, um revelar daquilo que já está plenamente presente, em vez de uma jornada difícil até uma meta muito distante.

Como é estranho que ele seja desconhecido, embora esteja presente em toda a parte!

Como é estranho esperar por um fruto diferente, outro que não esse!

Como é estranho procura-lo em outro lugar, embora ele esteja em si próprio!

Maravilhoso!

Isso, consciente no momento presente, claro, embora insubstancial,

Apenas isso é a culminação de todas as Visões!

Isso, sem objeto de pensamento, todo abrangente, embora livre de tudo,

Apenas isso é a culminação de toda a meditação!

Isso, que é chamado de natural, mundano e relaxado,

Apenas isso é a culminação de toda a conduta!

Isso, não buscado, espontaneamente existente desde o início de tudo,

Apenas isso é a culminação de toda a fruição!

Atingir a iluminação pode parecer não ser nada de especial; aqueles que a atingiram parecem viver de uma maneira completamente comum e mundana, sem mesmo meditar, sem nenhum sentido de ter conquistado algo. O estado ideal de ser de um praticante dzogchen é totalmente natural; combina consciência focada com relaxamento sem esforço. Desse ponto de vista, toda a meditação é inventada e todas as práticas são artificiais. Tentar atingir a liberação por meio delas é como uma cobra se enroscando em nós cada vez mais apertados, em vez de se desenroscar sem esforço no espaço. A pessoa deveria simplesmente se apoiar natural e espontaneamente na natureza básica da mente. Existe uma história sobre um lama chamado Zurchungpa que ilustra o estado contínuo de consciência focada que isso requer. Ele estava sendo questionado por um estudante de uma tradição diferente que perguntou: "No dzogchen, a meditação não é considerada a coisa mais importante?" Zurchungpa respondeu; "O que há para se meditar a respeito?". Então o estudante perguntou: "Bem, você nunca medita?" Ao que Zurchungpa respondeu: "O que é que existe que possa jamais me perturbar [distrair]?

Já que não existe nada sobre o que meditar, não meditar em nada mesmo,

Já que não existe nada para ser perturbado, estável em obsequiosidade,

Olhe de maneira desapegada para o estado de não-meditação e não-perturbação.

Auto-consciência, auto-conhecer, auto-iluminar, brilha claramente:

Essa própria alvorada é chamada mente desperta.

Se alguém olhou fundo o suficiente para a natureza da mente e é capaz de tornar-se como a base daquele estado, então se torna possível usar todas as percepções dos sentidos e toda a experiência da vida, para aumentar sua própria realização. Sem jamais perder de vista o vazio básico da mente, o que quer que aconteça é reconhecido como a exibição de seu aspecto luminoso. Esse é o caso durante nosso estado de vigília diário, durante sonhos e também após a morte durante o bardo. Torna-se especificamente importante reconhecer quando as visões do bardo aparecem. Se nos tornarmos acostumados a reconhecer o que quer que surja como uma expressão da natureza luminosa e vazia de nossa mente, então não seremos levados por nenhuma aparência, por mais impressionante ou aterrorizante que ela possa ser.

Consciência de todas as aparências como mente, sem apego,

Está desperta, embora ver e visto surjam.

Aparências não são equivocadas, o erro vem através do apego;

Conhecendo o pensamento de apego como mente, ele é auto-liberado.

O texto continua:

Não existe nenhuma aparência que não seja conhecida como originada da mente.

Qualquer aparência que surja é a própria mente, desobstruída.

Embora ela surja, como a água e as ondas do oceano,

Já que elas não são duas, isso é liberado na natureza da mente.

Nossa essência intrínseca é um estado da maior simplicidade, embora durante o processo de se revelar tenhamos de trabalhar com a complexidade e a confusão de nossas mentes, como elas são [estão] no presente. Pode parecer que ensinamentos como esse na verdade encorajem a não meditar ou fazer qualquer tipo de prática. Entretanto, as vidas dos grandes mestres dzogchen mostram que eles passaram muitos anos em retiro e fizeram esforços tremendos, antes que atingissem o estado espontâneo da consciência natural. Em adição, suas biografias revelam que tiveram uma fé e uma devoção extraordinárias a seus gurus e grande respeito por todos os estágios do caminho. Podem existir algumas poucas pessoas que, como resultado de práticas de vidas anteriores, possam penetrar direto na essência em um curto período de tempo, mas a grande maioria de nós precisa passar por um período mais longo de preparação. Para se basear no estado de não-meditação e não-perturbação [não-distração], precisamos praticar a meditação convencional primeiro, senão apenas permanecemos sob a influencia da perturbação/distração, quer estejamos conscientes disso ou não. Como diz o texto:

Todos os seres são na realidade a essência desperta,

Mas sem praticarem de fato eles não irão despertar.

Mesmo que não possamos perceber aquela essência no presente, simplesmente sabendo a respeito dela e tendo fé nela fazem uma enorme diferença. Esses maravilhosos ensinamentos são como o sol num dia nublado: podemos ter completa confiança que o sol está sempre por trás das nuvens. A visão dzogchen pode impregnar subitamente todo caminho, qualquer que seja a prática na qual estejamos engajados e em qualquer estágio que tenhamos atingido. O texto conclui com este último conselho:

Ver sua própria consciência de forma nua e direta,

Essa Auto-liberação através da visão nua é muito profunda,

Então comece a conhecer isso por si mesmo, sua própria auto-consciência!