Despertar para Infinitas Possibilidades

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Todo pensamento, todo momento da experiência, tem uma natureza silenciosa dentro de si que podemos contatar diretamente. Se entendermos essa qualidade meditativa silenciosa, não há necessidade de lutar nem de subjugar nada nem ninguém.

O caminho mais rápido para a iluminação é o da meditação. A meditação nos permite desafiar nossos problemas diretamente, de modo que possamos aliviar qualquer tensão ou atrito entre nossa experiência, nosso conhecimento intelectual e o conhecimento do nosso coração. Uma vez que tenhamos limpado nosso carma dessa forma, podemos tocar nossa natureza pura diretamente. Podemos descobrir a qualidade meditativa perfeita que está sempre aí, em todos os momentos de nossa vida.
É por isso que a iluminação pode acontecer a qualquer momento. Não importa o nível da nossa experiência, idade, sexo ou outras características pessoais. O procedimento comum é buscar a iluminação por meio de um longo estudo e aprendizagem, mas pode acontecer também que você vá dormir à noite e desperte iluminado na manhã seguinte. É possível que aconteça dessa forma.
Até que comecemos a meditar, é provável que o conheci¬mento que adquirimos consista, sobretudo de informações e não de experiências diretas. É verdade que temos experiências, mas elas simplesmente formam o pano de fundo para afirmar ou rejeitar conceitos e imagens já estabelecidos.
A meditação pode nos levar além do conhecimento conceitual, à natureza genuína da mente. Ninguém, nem mesmo o Buda, pode nos dar essa experiência direta, mas a meditação pode fazê-lo. O Buda pode nos mostrar o que fazer, mas temos que assumir a responsabilidade de fazê-lo por nós mesmos. É por isso que dizemos que dinheiro, propriedades e poder podem acabar, mas a meditação é um tesouro inesgotável; está aqui, é confiável e podemos buscar refúgio nela a qualquer momento.
Alguns tipos de instrução de meditação dizem: “Sente-se até que suas pernas fiquem dormentes”, mas essa técnica é de quem tem uma natureza inflexível – forçada, rígida, estreita. Reflete uma visão de vida, um julgamento de que a vida é uma luta. É verdade que, desde que nascemos, lutar tem sido uma parte importante de nossa vida. Muitas vezes sentimos que há algo errado a que devemos resistir, que há alguma posição que devemos assumir. Mas, à medida que começamos a compreender a meditação, percebemos que não há nada contra que lutar. Tendo alcançado a realização, compreendemos que todo pensamento, todo momento da experiência, tem uma natureza silenciosa dentro de si que podemos contatar diretamente. Se entendermos essa qualidade meditativa silenciosa, não há necessidade de lutar nem de subjugar nada nem ninguém. Não há nada a fazer além de “ser” e estar completamente aberto.
Há várias formas de desenvolver a meditação. A primeira é a forma gradual: podemos sentar por aproximadamente dez minutos sem pensamentos nem conceitos; com o tempo podemos aumentar mais esse período. Mas a forma mais rápida é olhar para o problema, ou a dor, bem no início, e nesse exato momento abrir-se para ele de modo que instantaneamente o problema “se torne” meditação. Enquanto a forma gradual é uma limpeza, de modo que não haja mais problemas, a segunda forma de meditação – mais “esotérica” – não é, de modo algum, uma limpeza ou purificação, mas trabalha diretamente com o que está presente: emoções, negatividades, ego ou desejo. O inimigo e o antídoto trabalham juntos.
Há também um terceiro tipo de meditação, baseado em uma compreensão mais ampla ainda do que o anterior. Esse tipo vai além da dualidade, muito além de trabalhar “junto” com as coisas, porque este último enfoque ainda contém a orientação sujeito e objeto. Este terceiro tipo transcende qualquer categorização da experiência. Vemos que não há substância nem no positivo ou no negativo, nem na felicidade ou na infelicidade. A verdade de cada experiência se mostra naturalmente.
Esses diferentes ensinamentos são apropriados para diferentes níveis de consciência. Cada ensinamento tem um efeito positivo, mas os ensinamentos mais elevados trazem maiores resultados. Entretanto, embora os ensinamentos mais elevados possam parecer bons para nós, não podem nos ajudar se não estivermos prontos para eles. E se nos forçarmos, tentando praticar de acordo com um método para o qual não estamos naturalmente prontos, poderemos criar mais agitação ainda. A mente tem uma energia muito forte e, se deixarmos essa energia ser guiada pelo sentimento de que nossa meditação tem de ser perfeita, ela pode se revelar perigosa. Como nunca ficamos satisfeitos, acabamos por criar um número maior de problemas do que quando começamos.
É mais útil aplicarmos os ensinamentos sobre a meditação, em qualquer nível, sem pretensão ou expectativas, pois, quando não assumimos posições, a energia flui. Quando cessamos a busca, podemos nos apoiar diretamente em nossa experiência. Então o crescimento virá por si só e com ele, a compreensão plena.
Quando integramos a atenção plena meditativa ao nosso corpo, mente e sentidos, a meditação pode ser usada para nos ajudar nos problemas diários. E esses problemas, por sua vez, podem se tornar parte da nossa meditação. A rapidez com que isso acontece depende de nossas condições e obrigações cármicas e de nossos padrões psicológicos. À medida que atitudes positivas se criarem e que nossas emoções negativas perderem seu poder sobre nós, o crescimento ocorrerá dia após dia.
Podemos intensificar esse crescimento lembrando-nos de olhar para o que está acontecendo. Qualquer que seja sua atividade, pergunte: “Ei, o que estou fazendo?” No mo¬mento em que olhar, a qualidade meditativa estará presente. No início tente olhar por alguns minutos várias vezes ao dia. Gradualmente faça-o com maior freqüência e por períodos mais longos, até que sua atenção plena meditativa se torne tão intensa que você poderá levá-la até para seus sonhos.

Finalmente não haverá nenhum espaço a não ser a meditação. Se uma emoção surgir e se apossar de sua consciência, ela durará apenas pouco tempo; você poderá desp

ertar no mesmo instante. Você se tornará como uma bailarina que praticou por quinze anos: ela pode cair, mas rapidamente volta a se levantar. Da mesma forma, o meditador experiente pode se sustentar e equilibrar qualquer experiência com facilidade. Com o tempo, o ato de se lembrar de olhar para o que está acontecendo não é mais forçado; acontece naturalmente e nenhum esforço adicional é necessário. A que começa como uma técnica, torna-se uma forma natural de ser. Não há separação entre você e a meditação.
Quanto mais a atenção plena meditativa se manifestar, mais sensíveis e despertos nos tornaremos. O estado desperto amplia a luz disponível, até que possamos ver e conhecer tudo: não há mais nenhum canto escuro. A atenção plena meditativa é a sabedoria perfeita e iluminará qualquer situação.
Nossos problemas de fato parecem muito pequenos quando vistos dessa perspectiva mais ampla. Na verdade, percebemos que estar excessivamente preocupados com problemas é apenas uma maneira de enganar a nós mesmos e de nos enfraquecer. Os problemas nascem do fato de vermos as coisas do nosso jeito, de adotarmos uma perspectiva estreita. Mas, enquanto nossa perspectiva não se abrir, não poderemos realmente despertar nossa atenção plena.
Por meio da meditação, podemos polir a mente e dar-lhe uma qualidade brilhante, como uma jóia. Podemos abrir um potencial incrível que nos permitirá contribuir para a harmonia do mundo. É realmente muito simples: tomando o remédio da meditação, é possível tomarmos conta de nós mesmos e, se pudermos cuidar de nós mesmos, adquiriremos a experiência positiva e o conhecimento que vamos compartilhar com os outros. Abrindo nosso coração, a princípio para alguns amigos e depois de uma forma mais ampla, poderemos tornar valioso o privilégio de termos nascido neste mundo.
Para que esses benefícios se propaguem, devemos primeiro desenvolver a confiança. Nossos padrões habituais são tão poderosos que pode ser difícil abandoná-los. Mas, com a atenção plena despertada pela meditação, entramos em contato com uma nova forma de poder, baseada no conhecimento. A comunicação entre nós e o resto do mundo se aprimora, e então surge um profundo sentido de compreensão que se transforma em confiança. Finalmente, essa confiança levará a uma experiência da realidade tal como ela é – a verdade única daquilo que podemos chamar de natureza absoluta. Embora estejamos (aparentemente) separados dela há muito tempo, podemos voltar para a realidade original e não-criada, pois ela é também uma parte de nós. Talvez possamos chamá-la de “Deus” ou “experiência extraordinária” ou “mente iluminada”: esses termos, de qualquer modo, vão apenas impor limitações. Não importa o nome; podemos entrar em contato direto com essa realidade por meio da meditação.
Meditar é defrontar-se com o que surge sem seguir informações, instruções ou ideais. Pressuposições ou descrições do que é meditação ou iluminação não são reais. O verdadeiro conhecimento vem através da experiência. Uma vez que tenhamos limpado nossos pensamentos, podemos experienciar o que está presente e saber quem somos nós. Com esse conhecimento, podemos guiar a nós mesmos e curar nossos enganos.
Sendo um caminho efetivo para a realização, a meditação não é nenhum tipo de fixação. Ela é simplesmente um modo de destravar ou abrir toda a nossa experiência. Mas pode ser difícil ficar com essa simplicidade. Sempre que começamos alguma coisa, tendemos a projetar determinadas metas, e isso também acontece quando começamos a meditar. Psicologicamente a ansiedade já começou em um nível sutil, e podemos facilmente nos enganar com a ideia de que poderíamos ou deve¬ríamos conseguir alguma coisa. Esperamos alcançar nosso objetivo e temos medo de não conseguir; agarrados às nossas esperanças e aos nossos medos, não conseguimos relaxar e apreciar nossa experiência; e o caminho para o crescimento fica bloqueado.
Se abandonarmos a intenção de atingir determinado objetivo, tudo isso muda.

Podemos compreender que o mundo, como ele é, é interessante e valioso – rico em todos os tipos de experiências, das quais podemos desfrutar e nos beneficiar. Não precisamos aceitar nenhuma experiência como sendo mais correta do que outra. Algumas vezes temos vivências extraordinárias; outras vezes sentimo-nos deprimidos ou completamente perdidos – a experiência gira em ciclos e nós giramos com ela. Dessa maneira, a própria experiência nos revelará quando precisamos meditar. Todo dia haverá momentos em que de repente temos uma mente feliz e leve, e outros em que estamos confusos e entorpecidos. São estes os momentos para testar nossa concentração e nosso relaxamento, para perguntar o que estamos fazendo. É mais importante cultivar uma atenção plena meditativa nesses momentos do que praticar uma meditação formal em determinados períodos da manhã e da noite.
A questão é apreciar cada momento tão plenamente quanto possível – qualquer que seja ele. Isso não significa que esquecemos o futuro, mas sim que o objetivo, o fruto já está aqui. Poderíamos passar a vida morrendo de fome lentamente, tro¬cando o presente pelo futuro, sem ganhar nenhum sustento em troca. Mas podemos também agir diferente. Por meio de uma investigação e indagação refinadas, observando a mente, podemos aprender grandes lições. O espaço de silêncio entre os pensamentos está sempre disponível. O não-nascido está sempre aqui, e o “aqui” não é um lugar. Como sempre, a linguagem é um gesto ou um símbolo. Se pudermos usar os símbolos para passar de um lado para o outro, descobriremos que há muitos significados importantes por trás deles, no outro lado.
Esta vida nos presenteia com uma valiosa oportunidade de incorporar um modo de ser saudável e de despertar a mente. O Dharma nos mostra como fazê-lo. Nesse sentido, o Budismo não é necessariamente uma religião; ao contrário, é um modo de vida. Praticando o Dharma, nossa vida se torna uma obra de arte.
O mais precioso recurso que temos é a nossa energia mental e física. Neste exato momento podemos aprender a usar esta energia de modo econômico e produtivo. Daqui a dez ou quinze anos isso poderá ser mais difícil. Outras condições poderão prevalecer e nossa mente mudar. É por isso que o dia de hoje é tão importante. Esta pode ser a oportunidade mais preciosa que temos para despertar nosso potencial pleno. Podemos mudar nossa vida. Agora é a hora.

Do livro: INTRODUÇÃO AO CAMINHO DO DIAMANTE – TARTHANG TULKU

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