Reflexões sobre a linguagem no budismo ZEN

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agoraquiEsse texto é uma resposta de Ronaldo Pinheiro, pesquisador incansável da natureza com vários trabalhos publicados, praticante e um respeitável conhecedor do budismo, à nossa querida monja Tenzin Namdrol.

Cara monja Tenzin Namdrol, tua mensagem me conduziu a algumas reflexões apoiadas em D.T.Suzuki e Fritjof Capra.Não sei se servem para algo, mas aí vão. Se não servirem simplesmente esqueça-as …
A contradição que se mostra tão enigmática em face do pensamento usual provém do fato de termos de utilizar a linguagem para comunicar nossas experiências mais íntimas, as quais, em sua própria natureza, transcendem a lingüística”.

D.T.Suzuki

Temos consciência do fato de que todas as descrições verbais da realidade são imprecisas e incompletas. A experiência direta da realidade transcende o reino do pensamento e da linguagem e, uma vez que o “ver” espiritual se baseia nessa experiência direta, tudo aquilo que se diz acerca dessa experiência só é verdadeiro em parte.

O importante é a experiência da realidade e não a descrição dessa experiência, mas quando se deseja comunicar a experiência, depara-se com as limitações da linguagem. Vários meios diferentes foram desenvolvidos para tratar desse problema.

O misticismo indiano e tibetano revestem suas afirmativas sob a forma de mitos, através do uso de metáforas e símbolos, de imagens poéticas, de comparações e alegorias. A linguagem mítica acha-se muito menos acorrentada à lógica e ao senso comum; ao contrário, apresenta-se repleta de situações mágicas e paradoxais, ricas em imagens sugestivas e jamais precisas, o que lhe permite expressar a maneira pela qual os mestres experimentam a realidade de forma muito melhor que a linguagem factual. O mito incorpora a abordagem mais próxima da verdade absoluta capaz de ser expressa em palavras.

A rica imaginação indiana e tibetana criaram um vasto número de deuses e deusas cujas encarnações e proezas constituem o tema de lendas fantásticas, reunidas em épicos de grandes dimensões. Os praticantes sabem, em sua profunda percepção, que todos esses deuses são criações da mente, imagens míticas que representam as inúmeras facetas da realidade. Por outro lado, sabem igualmente que todos esses deuses não foram simplesmente criados com o fito de tornar mais atraentes essas histórias, pois elas constituem, em verdade, veículos essenciais para a transmissão das experiências mesmas.

Os chineses e japoneses encontraram uma forma diversa de lidar com o problema da linguagem. Em vez de tornarem mais agradáveis e de mais fácil entendimento a natureza paradoxal da realidade pelo uso de símbolos e de imagens do mito, preferem, com muita freqüência, acentuá-la, lançando mão da linguagem factual. Assim, os taoistas fizeram uso constante dos paradoxos a fim de expor as inconsistências que derivam da comunicação verbal, e de exibir os limites dessa comunicação. Essa técnica foi passada para os budistas chineses e japoneses que, por sua vez, desenvolveram-na ainda mais. Sua forma extrema pode ser encontrada no Zen com seus koans, enigmas absurdos utilizados pelos mestres Zen na transmissão de seus ensinamentos.

Os mestres Zen possuem um talento especial para lidar com as inconsistências geradas pela comunicação verbal; e, com o sistema koan, desenvolveram uma modalidade única, inteiramente não-verbal, de transmissão de seus ensinamentos. Os koans são enigmas paradoxais, cuidadosamente preparados com o fito de fazer com que o praticante do Zen se aperceba, de modo mais dramático, das limitações da lógica e do raciocínio lógico, O palavreado irracional e o conteúdo paradoxal desses enigmas torna impossível sua resolução através do pensamento lógico. Os koans são elaborados precisamente para parar o processo do pensamento conceitual e, dessa forma, preparar o praticante para a experiência não-verbal da realidade.

“Apontar diretamente” constitui o sabor especial do Zen. É na verdade típico da mente chinesa e japonesa, que prefere anunciar fatos como fatos, sem muitos comentários e que é mais intuitiva do que intelectual. Os mestres Zen não eram dados à verbosidade e desprezavam toda a teorização e especulação. Desenvolveram, assim, métodos de apontar diretamente para a verdade, com ações ou palavras repentinas e espontâneas que expõem os paradoxos do pensamento conceitual e, à semelhança dos koans anteriormente referidos, têm por objetivo deter o processo de pensamento de modo a preparar o discípulo para a experiência mística. Essa técnica acha-se bem ilustrada em exemplos, que representam diálogos entre mestre e discípulo. Nestas conversações, que constituem quase toda a literatura Zen, os mestres falam o menos possível e utilizam suas palavras com a finalidade de deslocar a atenção dos discípulos dos pensamentos abstratos para a realidade concreta.

Esses diálogos trazem à luz outro aspecto característico do Zen. A iluminação, no Zen, não significa retirar-se do mundo, mas sim tomar parte ativa nas questões cotidianas. Esse ponto de vista deve muito à mentalidade chinesa, que conferia grande importância a uma vida prática e produtiva e à idéia de perpetuação da família, não podendo dessa forma aceitar o caráter monástico do Budismo indiano. Os mestres chineses sempre destacaram o fato de que o Ch’an, e depois o Zen, é nossa própria experiência cotidiana, a “mente cotidiana” de que falava Matsu. A ênfase estava no despertar em meio às questões de todos os dias. Dessa forma, os mestres Zen deixavam bem claro que, a seu ver, a vida diária não era apenas um caminho para a iluminação, mas a própria iluminação.

No Zen, o satori equivale à experiência imediata da natureza de Buda de todas as coisas. Acima de tudo, entre essas coisas estão os objetos, os fatos e os indivíduos envolvidos na vida cotidiana de modo que, embora enfatize o lado prático da vida, o Zen é, contudo, profundamente místico. Vivendo inteiramente no presente e concedendo atenção integral às coisas do cotidiano, aquele que alcançou o satori experimenta a maravilha e o mistério da vida em todos os atos. A perfeição do Zen reside precisamente em viver-se a vida diária com naturalidade e espontaneidade. “Quando tiver fome, coma; quando tiver sono, durma”.

De todas as formas uma das grandes preocupações dos mestres Zen sempre foi a de que as palavras, os koans e todas as formas de comunicações das experiências são meros dedos apontando. O praticante deve estar permanentemente alertado deste fato para que não se apegue ao dedo e possa viver sua própria experiência. Da mesma forma em todas as outras formas de comunicação, sejam deidades, mandalas, mantras, o praticante deve estar alerta de que são todas meras criações mentais e que devem apenas servir como meios, sendo abandonadas sempre que seja possível vivenciar-se as experiências diretamente.

Carinhosamente,
Ronaldo.

6 ideias sobre “Reflexões sobre a linguagem no budismo ZEN

  1. Caro amigo Ronaldo, quando você fala do dedo que aponta a lua está se referindo a esse conto zen:

    UM CONTO ZEN

    Um monge aproximou-se de seu mestre – que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da Lua – com uma grande dúvida:
    “Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?”.
    O velho sábio respondeu: “As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que aponta”.
    O monge replicou: “Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?”
    “Poderia”, confirmou o mestre, “e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a Lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio”.
    “Então”, o monge perguntou, “Porque os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?”
    “Porque”, completou o sábio, “da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário”.
    O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então de súbito, simplesmente apontou para a Lua.

    • ***Olá, boa noite: sou iniciante (neófito) do budismo e passei a fazer reflexões quando leio um texto. Permita-me comentar uma frase do texto: “A lua está e sempre esteve á vista”.(sic) –
      *** Pensei: é verdade, a lua aparece sempre, tanto de dia como á noite. Então pensei (a mente humana é capaz de criar as imagens mais absurdas): digamos que a lua só aparecesse no céu de 100 em 100 anos e só fosse vista durante uma noite, passando perto da terra e voltasse a percorrer a imensidão cósmica. Quem viu, viu; quem não viu não verá nunca mais. – Então comecei a pensar o que os habitantes da terra seriam capazes de fazer para “ver a lua passar” – nem é bom pensar. – Grato – sou de Lins, uma pequena cidade do interior de São Paulo.

      • De fato Antônio Carlos. Seu raciocino é válido. Mas uma questão importante é observarmos como nossa visão é limitada. Nós em geral damos excessiva importância ao que vemos como sendo algo verdadeiro e ao que não vemos como sendo algo falso. Apesar da lua não nascer e nem morrer nós achamos que ela nasce pela manhã e se põe a noite. Apesar de estarmos girando com a terra e grande velocidade nós achamos que estamos fixos. Esta convicção sobre o que percebemos com nossos sentidos como sendo ser a “verdade” nos leva a muitos sofrimentos desnecessários. Nos impede ver a unidade que temos com todas as coisas. Não como usuários, mas como parte delas.

  2. Mestre Flávio.
    A leitura me remete também a um outro conto:

    A estátua do Buda

    Certa vez Tan-hsia, monge da dinastia Tang, fez uma parada em Yerinji, na Capital, cansado e com muito frio.

    Como era impossível conseguir abrigo e fogo, e como era evidente que não sobreviveria à noite, retirou em um antigo templo uma das imagens de madeira entronizadas de Buddha, rachou-a e preparou com ela uma fogueira, assim aquecendo-se.

    O monge guardião de um templo mais novo próximo, ao chegar ao local de manhã e ver o que tinha acontecido, ficou estarrecido e exclamou:
    “Como ousais queimar a sagrada imagem de Buda?!?”

    Tan-hsia olhou-o e depois começou a mexer nas cinzas, como se procurasse por algo, dizendo:

    “Estou recolhendo as Sariras (*) de Buda…”
    “Mas,” disse o guardião confuso “este é um pedaço de madeira! Como podes encontrar Sariras em um objeto de madeira?”
    “Nesse caso,” retorquiu o outro “sendo apenas uma estátua de madeira, posso queimar as duas outras imagens restantes?”

    (*) Sariras – tais objetos são depósitos minerais – como pequenas pedras – que sobram de alguns corpos cremados, e que segundo a tradição foram encontrados após a cremação do corpo de Gautama Buda, sendo considerados objetos sagrados.

    Koan: Em que parte de um objeto fica o reverenciado Sagrado?

    • Oi Ronaldo,
      Muito bom! Koan: “Em que parte de um objeto fica o reverenciado Sagrado?” Esse koan desmistifica os conceitos de sagrado e profano. Poderíamos responder “Em todas as partes e/ou em nehuma!” Obrigado, amigo.

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