A Compreensão se liberando de si-mesma

Texto de Patrul Riponche
Traduzido do tibetano e comentado por James Low
Traduzido para o português por Karma Tenpa Dhargye

INTRODUÇÃO

Esse texto de Patrul Rinpoche possui um estilo muito diferente de seu precedente sobre as duas verdades. O autor louva brevemente o valor do estado natural do despertar e anuncia que a Via e a prática que ele vai descrever são a essência autêntica de todos os ensinamentos do Dharma, e não qualquer coisa separada: “É o néctar essencial de todos os sutras e tantras, a pura essência de todos os vidyadharas dos mantras secretos. É o único ensinamento do Grande Selo, da Grande Perfeição e da Via do Meio”.

Este texto está particularmente focalizado sobre a prática e Patrul Rinpoche integra os conceitos do dzogchen nas diferentes respostas que ele dá aos problemas da meditação. Essas respostas não são uma panacéia de antídotos específicos aos diferentes problemas, mas, sobretudo uma explicação, com toda compreensão, de um princípio de base a tudo o que pode surgir. A consciência habitual [rNam-Shes] aparece ao mesmo tempo que seus objetos e desenvolve uma variedade de reações às situações que ela percebe como essencialmente diferentes de si mesma. É a experiência da fragmentação, de um mundo de objetos independentes, habitado por seres que parecem ser diferentes em situações diferentes, por exemplo, quando fazem amor ou quando falam com o patrão. Do ponto de vista do dzogchen, não há mais que uma só Base para a totalidade do samsara e do nirvana, e ela não oferece nenhum fundamento à dualidade sujeito-objeto. Quando reconhecemos isso diretamente, experimentamos um momento de integração. Mas em seguida a distração habitual volta, com todo o poder da interação sujeito-objeto, É precisamente aí que a Via dzogchen se distingue das outras Vias porque ela afirma que a integração não pode ser obtida pela fragmentação. Se dispusermos de numerosos antídotos que podemos aplicar aos problemas da meditação – pouco importa a utilidade e a eficácia desses antídotos – sua multiplicidade mesma é um fator que sustentará a fragmentação.

Assim, Patrul Rinpoche diz: “Se isso que surge, seja desejável ou indesejável, permaneçamos simplesmente sem artifícios com relação ao que surge”. É a mensagem incansavelmente repetida ao longo de todo o texto e, ainda que a formulação das palavras possa ser ligeiramente diferente, o ponto essencial é sempre o mesmo. Como um mestre de aikido, o praticante dzogchen deixa a energia do problema ser a força de sua liberação. A responsabilidade do meditante é de se desembaraçar da linha de conexão, assim o conflito não se produz e tudo o que se manifesta se torna autoliberado, supondo-se que não haja um “eu” ansioso esperando poder provocar obstáculos ou engajamentos (se apegando).

O TEXTO

Um ensinamento do coração de um nobre em andrajos.Maravilha!Não abandonando nunca o estado do modo natural perfeito,Tendo cortado a raiz da confusão, somos o Budha Primordial, Samantabhadra, possa eu rapidamente realizar minha compreensão, justa tal qual ela é.Se formos afortunados, desejaremos obter a iluminação, então pratiquemos com diligência a verdadeira compreensão. Dessas três palavras do coração desse mendigo errante, o velho cão Patrul.

O que chamamos “modo natural da vacuidade” é a realização dos votos de todos os mestres e adeptos. É a compreensão de todos os Budhas dos três tempos. É a essência da Via de todas as divindades, o sangue do coração de todas as dakinis e a morada de todos os protetores do Dharma. É o néctar essencial de todos os sutras e tantras, a pura essência de todos os Vidyadharas dos mantras secretos. É o único ensinamento do Grande Selo, da Grande Perfeição, e da Via do Meio. Isto é para nos introduzir na inseparabilidade de nossa própria mente e do modo natural. Sabendo isso, tudo é liberado. É suficiente para reinar. É a natureza última do Grande Selo. Se nós a realizarmos de manhã, seremos Budha de manhã. Se realizarmos à noite, seremos um Budha à noite – assim é dito. Esse Grande Nome tem uma grande significação. Todos esses títulos e esses atributos se referem simplesmente ao fato de permanecer na não-artificialidade – que vem de si mesmo – da vacuidade de nossa própria mente.

Se vós, yoguis e yoguinis, desejais realizar sem erro esta Via pura, então permaneçais claros e alertas no estado de vacuidade não artificial. Se a mente repousa na calma, então permanecemos sem artifício nesse repouso. Se não há reconhecimento, então permanecemos nesse não reconhecimento. Brevemente, permaneçamos sem artifício sobre tudo o que possa aparecer na mente. Não reagiremos, nem encorajando nem inibindo. Para tudo o que apareça permaneçamos unicamente sem artifícios sobre o que surge. Não guardemos a mente a mente “aqui”, não busquemos “lá fora” os objetos. Permaneçamos sem artifícios exatamente sobre a mente daquele que observa e pensa. Não guardemos a mente “aqui”, nem busquemos “lá fora” o objeto de meditação. Permaneçamos sem artifícios exatamente sobre a mente que faz a meditação.

Se procurarmos, nossa mente é incontrolável. A natureza da mente [Sems-Nyid] é vacuidade desde o início. Procurar não é necessário porque aquele que procura é a mente em si mesma (talidade) [De-Nyid]. Permaneçamos sem vacilar sobre aquele que procura. Compreensão ou não-compreensão, verdadeiro ou não-verdadeiro, existente ou não-existente – pouco importa o que surja, permaneçamos unicamente sem artifícios sobre aquele que pensa. Bom ou mau, saboroso ou salgado, alegre ou triste, qualquer que seja o reconhecimento que apareça, sem aceitar ou rejeitar, permanecendo justamente sem artifícios sobre aquele que efetua esse reconhecimento. Desejável ou indesejável, qualquer que seja o que apareça, permaneçamos simplesmente sem artifícios sobre a emergência.

Ainda, no [sNyan-rGyud], é dito: “A Base sem artifício é o Grande Selo [Phyag-Pa Chen-Po]. A Via sem artifício é a grande Via do Meio [dBu-Ma Chen-Po]. O resultado sem artifício é a Grande Perfeição [rDzogs-Pa Chen-Po]”. Esta não artificialidade elimina os obstáculos da maneira a mais sutil. Quando a mente está perturbada e flutua entre ausência de pensamentos e muitos pensamentos, mantenha o corpo, a fala e a mente muito calmos e relaxados. Após este estado, permaneçamos sem vacilar na observação sem esforço de tudo o que surge. Quando pensamentos pouco perceptíveis surgem flutuando no limite da consciência, mantenhamos a consciência alerta e permaneçamos na claridade calma que está realmente desperta.

Quando a mente afunda, que está brumosa ou obscurecida, não desejemos experiências de alegria e de claridade mais guardai a mente em seu próprio lugar sem reagir. Quando a mente está alegre ou triste, permaneçamos sem vacilar sobre aquele que tem alegria ou tristeza.

Quando alegria, exaltação, sucesso, orgulho e honra aparecerem, lembremo-nos que é a grande aparência do poder do “demônio” da exaltação [dGa-Brod bDud]. Se não o abandonarmos, seremos logo desiludidos, também permaneçamos calmos de corpo e mente. Febre preocupações, perda, rapina, insultos, abusos, golpes, problemas, privação – quando tais coisas ocorrem, não fiquem abatidos, não contraiam o rosto e não chorem. Permaneçam otimistas, alegres e sorridentes.

ENSINAMENTOS SOBRE OS ERROS OCULTOS DA MENTE

Alguns grandes meditantes, homens e mulheres, pensam que não são capazes de reconhecer a natureza da mente, assim se tornam tristes e deixam correr numerosas lágrimas. A tristeza não é necessária. Não há fundamento no fato de não reconhecer. Permaneçamos simplesmente sobre aquele que pensa que não é capaz de reconhecer a natureza da mente.

Alguns grandes meditantes dizem que a natureza da mente é difícil de apreender. Não é tão difícil assim. O erro está em não compreender a meditação. Não há necessidade de buscar a meditação e não há necessidade de adquiri-la. Não há necessidade de faze-la e não há necessidade de trabalhar na meditação. É suficiente permanecer no estado que permite o livre surgimento de tudo o que pode aparecer na mente. Desde sempre, nossa mente está presente então não há necessidade de perder ou de encontrar, de ter ou de não ter, a mente está presente desde sempre; então quer pensemos em não pensar ou não, esta mente está justamente em si mesma. O que quer que surja na mente, é bastante permanecer sem artificialidade, calmamente e sem vacilar sobre tudo o que se produz. Alegria e felicidade virão sem esforço. Quando a prática do Dharma parece difícil, é simplesmente o sinal de nossos próprios erros e marcas (cármicas).

Alguns grandes meditantes não permanecem como seria necessário, sobre a mente em-si, mas buscam inutilmente a mente aqui ou ali. Olhando e buscando desse modo aqui e ali, a mente não pode ser compreendida. É o erro de não compreender o sentido real. Não temos necessidade de olhar e buscar aqui e ali. Permaneçamos simplesmente na mente que olha e que busca aqui ou ali.

Alguns grandes meditantes não deixam sua mente permanecer sobre os pensamentos se há pensamentos, e sobre ausência de pensamentos se não há pensamentos. Eles pensam que os pensamentos vêm de algum lugar distante, e vão então olhar e buscar aqui ou ali e, desse modo, eles não reconhecem a sua mente. Não é preciso olhar ou buscar aqui ou acolá, deixem simplesmente suas mentes permanecerem sobre os pensamentos se há pensamentos, e sobre a ausência de pensamento se não há nenhum.

Alguns grandes meditantes não crêem na sua mente, que a essência da mente é vacuidade. Eles pensam que ela é, depois que não é, e criam muitas dúvidas. É um erro não compreender a essência da mente. Não é preciso duvidar. Sua mente é vazia desde o início, assim permaneça simplesmente no estado de vacuidade. Se as dúvidas surgem, permaneça exatamente sobre as dúvidas.

Alguns grandes meditantes não permanecem sobre sua mente a fim de reconhece-la. Em lugar disso, eles perseguem os objetos enganosos do conhecimento, tais como a terra ou as pedras – muitos fazem isso. Fazendo isso, a visão pura não é realizada por aqueles que tem visão dualista. Olhem, permanecendo sobre aquele que reconhece.

Alguns grandes meditantes não repousam em seu próprio lugar, mas seguem não importa qual pensamento que vem, como um gato perseguindo um rato. Se os pensamentos surgem, permaneça sobre essa emergência e se algum pensamento não surge, permaneçam sobre esse não-surgimento.

Alguns grandes meditantes não sabem como permanecer sobre a mente-em-si, assim perseguem as lembranças. Essa não é a visão pura. É perseguir as memórias. Não persigam as memórias, mas permaneça sobre aquele que se lembra.

Alguns grandes meditantes não permanecem sobre a mente como ela é, como ela se apresenta. Eles amam a “boa” meditação, assim se esforçam ferozmente em controlar a mente. Essa não é visão pura. A mente não é artificial, assim não façam nada de artificial ou forçado. Deixem a mente permanecer em seu próprio lugar permitindo tudo o que possa surgir.

Alguns grandes meditantes controlam fortemente e dirigem todos os reconhecimentos que surgem, e assim paralisam suas mentes. Essa não é a visão pura. É obstruir a mente. Se a mente está estável, permaneçam sobre esta estabilidade. Se estiver mudando, então permaneçam sobre estas mudanças.

Alguns grandes meditantes deixam de maneira despreocupada sua mente vaga e não focalizada. Essa não é a visão pura. É a visão da mente vagante. Permaneçamos claros e decididos no estado de vacuidade.

Alguns grandes meditantes pensam que a mente em si mesma é vazia e meditam desse modo. Mas isso não é a visão pura. É meditar para fabricar a vacuidade permaneçamos sobre aquele que pensa que é vacuidade.

Alguns grandes meditantes, quando têm experiências de felicidade, de calma, de vacuidade, de grande claridade, etc., olham isso de maneira muito forte e intensa. E quando a vacuidade sem nenhum objeto aparece, eles cessam completamente de olhar. Não é a visão pura. É a discriminação. Sem nos engajar em alguma discriminação, permaneçamos sobre qualquer coisa que possa surgir.

Alguns grandes meditantes olham quando bons reconhecimentos aparecem e não olham quando surgem reconhecimentos maus ou comuns. Não é a via pura. Isso é olhar o bom e evitar o mau. Sem olhar só o que é bom e evitar o que é mau, permaneçamos impertubavelmente sobre todo reconhecimento, bom ou mau, que possa surgir.

Alguns grandes meditantes gostam quando a sua mente está alegre e ficam com raiva de sua mente quando pensamentos selvagens e perturbadores irrompem. Essa não é a visão pura. É um erro não saber como ficar com a verdadeira natureza de tudo o que pode aparecer. Quando pensamentos selvagens aparecem, observem a mente e permaneçam sobre a característica selvagem em si.

Alguns grandes meditantes não reforçam nem relaxam sua atenção em função da necessidade do momento, essa não é a visão pura. É permitir se tornar um pouco artificial e é errado não saber como permanecer na mente. Reforçando ou relaxando quando necessário, e não o fazendo quando não é, permanecemos claros e alertas na corrente natural da mente [Rang-Babs].

Alguns grandes meditantes, quando se lembram do gosto agradável dos alimentos e de bebidas saborosas não são capazes de permanecer em meditação. Eles se levantam e procuram boas comidas e bebidas e quando as encontram, comem novamente. Agindo assim, a manutenção da contemplação é perdida e a verdadeira meditação não é realizada. Por causa dos prazeres devidos ao paladar delicioso, os grandes meditantes se tornam ineficazes e atormentados. Assim, sem atender com saudade o doce sabor da comida e da bebida, focalizemo-nos sobre nossa necessidade manter a estabilidade da contemplação.

Alguns grandes meditantes quando alegria, prestígio, prazer, louvor, etc., surgem, não podem permanecer em meditação, mas se tornam verdadeiramente alegres, felizes e excitados. E quando a tristeza, problemas, doenças, abusos, perseguição, etc., surgem, eles não podem mais meditar. Seus rostos tornam-se lúgubres como uma nuvem negra, dizem que tudo é muito difícil e eles vertem lágrimas. Ao agir assim, o bom Dharma que consiste em ser capaz de experimentar a igualdade na alegria e na tristeza não é realizado. Estando sob o poder da alegria, da tristeza e das oito outras atitudes mundanas2, eles não obtém o Dharma. Eles se tornam pessoas comuns acostumadas aos maus hábitos. Também devemos praticar a manutenção de uma atitude equânime com relação à tudo o que pode aparecer, quer seja alegre ou triste.

2. Ganho, perda, fama, notoriedade, louvor, reprovação, alegria, tristeza.

UMA EXPLICAÇÃO SOBRE A ATIVIDADE MENTE

Desde o início, a essência da mente é despida de substância. Quando a buscamos, não vemos nada, pois ela é vazia. Todavia, ela não é o nada porque ela é consciência radiante. A inseparabilidade da consciência e da vacuidade é penetrante como o céu. Mesmo que tentemos manter a mente estável, ela não pode ser fixada e vai para qualquer lugar diretamente. Mesmo que tentemos mante-la ela retorna ao seu próprio lugar. Ainda que não tenha nem mãos nem pés, ela é sempre móvel. Mesmo que a despachemos, ela não se vai, mas retorna ao seu próprio lugar. Ela não tem olhos, mas está consciente de tudo. As aparências da consciência se tornam vazias. Dizemos que a natureza da mente é de não ser nada – entretanto, ainda que seja um nada, as percepções e as experiências surgem. Ela não é existente, pois é vazia. Ela não é não-existente porque as percepções e as experiências se manifestam. A claridade da união da aparência e da vacuidade brilha. O modo natural claro e vazio tem uma expressão própria radiante, com as cincos cognições3 que se desdobram totalmente. A condição natural primordialmente pura aparece sem esforço e os modos integrados [sKu] e os reinos [Zhing-Khams] emergem sem fim. A claridade mãe (inata) e a claridade filha (desenvolvida pela prática) se fundem e se tornam uma. A condição natural da mente é assim. Realizemos isso, oh! Seres realizados. Conheçamos isso, oh! Vocês que tem o conhecimento. Yoguis é isso que devemos praticar.

3. As cognições primordiais do espaço onipenetrante, da percepção exprime com precisão, a claridade semelhante ao espelho, da igualdade perfeita e da realização total.

INSTRUÇÃO SOBRE A CONFUSÃO SE LIBERANDO ESPONTANEAMENTE.

Tal como o veneno que pode se tornar semelhante a um remédio, a vacuidade está livre da avareza. A avareza se torna a causa do poder da confusão. Sem confusão, observem aquele que dá nascimento a avareza. Pratiquem esta observação sem vacilar, e a avareza será pacificada e se tornará vacuidade. Permaneçamos sem vacilar no estado de vacuidade. É a purificação da avareza, não há generosidade superior a isso. Yoguis, realizar isto é maravilhoso!

A vacuidade é livre do desejo. O desejo se torna a causa do poder da confusão. Sem confusão, observem quem dá nascimento ao desejo. Pratiquem esta observação sem vacilar, e o desejo será purificado e se tornará vacuidade. Permaneçamos sem vacilar no estado de vacuidade. É a purificação do desejo. Não há moralidade superior a isso. Yoguis, realizar isto é maravilhoso!

A vacuidade é livre do ódio. O ódio surge por causa do poder da confusão. Sem confusão, observem quem dá nascimento ao ódio. Pratiquem esta observação sem vacilar, e o ódio será purificado e se tornará vacuidade. Permaneçamos sem vacilar no estado de vacuidade. É a purificação do ódio. Não há prática superior a essa. Yoguis, realizar isto é maravilhoso!

A vacuidade é livre da preguiça. A preguiça surge por causa do poder da confusão. Sem confusão, observem quem dá nascimento à preguiça. Pratiquem esta observação sem vacilar, e a preguiça será purificada e se tornará vacuidade. Permaneçamos sem vacilar no estado de vacuidade. É a purificação da preguiça. Não há diligência superior a essa. Yoguis, realizar isto é maravilhoso!

A vacuidade é livre da distração. A distração surge por causa do poder da confusão. Sem confusão, observem quem dá nascimento à distração. Pratiquem esta observação sem vacilar, e a distração será purificada e se tornará vacuidade. Permaneçamos sem vacilar no estado de vacuidade. É a purificação da distração. Não há concentração superior a essa. Yoguis, realizar isto é maravilhoso!

A vacuidade é livre da ignorância. A ignorância surge por causa do poder da confusão. Sem confusão, observem quem dá nascimento à ignorância. Pratiquem esta observação sem vacilar, e a ignorância será purificada e se tornará vacuidade. Permaneçamos sem vacilar no estado de vacuidade. É a purificação da ignorância. Não há sabedoria superior a essa. Yoguis, realizar isto é maravilhoso!

A vacuidade é livre da necessidade. A necessidade surge por causa do poder da confusão. Sem confusão, observem quem dá nascimento à necessidade. Pratiquem esta observação sem vacilar, e a necessidade será purificada e se tornará vacuidade. Permaneçamos sem vacilar no estado de vacuidade. É a purificação da necessidade. Não há satisfação superior a essa. Yoguis, realizar isto é maravilhoso!

UMA EXPLICAÇÃO SOBRE A LIBERAÇÃO ESPONTÂNEA DAS EMOÇÕES PERTURBADORAS.

No que concerne a transformação das emoções perturbadoras em sabedoria primordial, no estado de não distração, não há sofrimento. O sofrimento aparece por causa do poder da confusão. Sem distração, observem a natureza do sofrimento. O sofrimento se esvaece e se torna vacuidade. Permaneçamos sem vacilar no estado de claridade vazia. É a purificação do sofrimento. A chamamos modo natural da grande felicidade.

O estado de não-distração é sem emoção perturbadora. A emoção perturbadora surge por causa do erro da distração. Observem a natureza da emoção perturbadora sem distração. Pratiquem esta meditação de observação sem vacilar, e a emoção perturbadora se torna vacuidade. É a purificação da emoção perturbadora. A chamamos modo natural inato.

O estado de não-distração é sem aversão. A aversão surge por causa do erro da distração. Observem a natureza da aversão sem distração. Pratiquem esta meditação de observação sem vacilar, e a aversão se esvaece e se torna vacuidade. É a purificação da aversão. A chamamos cognição primordial semelhante ao espelho.

O estado de não-distração é sem orgulho. O orgulho surge por causa do erro da distração. Observem a natureza do orgulho sem distração. Pratiquem esta meditação de observação sem vacilar, e o orgulho se esvaece e se torna claridade vazia. É a purificação do orgulho. A chamamos cognição primordial da igualdade perfeita.

O estado de não-distração é sem apego. O apego surge por causa do erro da distração. Observem a natureza do apego sem distração. Pratiquem esta meditação de observação sem vacilar, e o apego se esvaece e se torna claridade vazia. É a purificação do apego. A chamamos cognição primordial da percepção precisa.

O estado de não-distração é sem inveja. A inveja surge por causa do erro da distração. Observem a natureza da inveja sem distração. Pratiquem esta meditação de observação sem vacilar, e a inveja se esvaece e se torna claridade vazia. É a purificação da inveja. A chamamos cognição primordial da realização total.

O estado de não-distração é livre da ignorância. A ignorância surge por causa do erro da distração. Observem a natureza da ignorância sem distração. Pratiquem esta meditação de observação sem vacilar, e a ignorância se esvaece e se torna claridade vazia. É a purificação da ignorância. A chamamos cognição primordial do espaço englobando tudo.

O estado de não-distração é livre do afundamento e da confusão. Atolamento e confusão obscurecem pelo erro da distração. Observem a natureza do atolamento e confusão sem distração. Pratiquem esta meditação de observação sem vacilar, e o atolamento e confusão se esvaecem e se tornam claridade vazia. É a purificação do atolamento e da confusão. A chamamos cognição primordial da vacuidade e claridade.

O estado de não-distração é sem dispersão enlouquecida. A dispersão enlouquecida surge por causa do erro da distração. Observem a natureza da dispersão enlouquecida sem distração. Pratiquem esta meditação de observação sem vacilar, e a dispersão enlouquecida se esvaece e se torna claridade vazia. É a purificação da ignorância. A chamamos cognição primordial imutável.

O estado de não-distração é livre dos três venenos. Os três venenos surgem por causa do erro da distração. Observem a natureza dos três venenos sem distração. Pratiquem esta meditação de observação sem vacilar, e os três venenos se esvaecem e se tornam claridade vazia. É a purificação dos três venenos. A chamamos cognição primordial dos três modos.

A FIM DE DESENVOLVER A CERTEZA, EIS COMO A MENTE SE REVELA A SI MESMA.

Às vezes, nenhuma idéia vem à mente dos grandes meditantes. Nossa mente está desocupada e vazia. Quando isso surge, alertemos nossa consciência e permaneçamos exatamente assim.

Às vezes, a mente está triste, quando isso acontece, reanimemo-nos, detenhamo-nos e fiquemos sentados alegres e em paz.

Às vezes, a mente não fica em paz em nenhum instante porque pensamentos sutis vão e vem. Quando isso acontece, conduzamos a mente para uma atenção relaxada e permaneçamos assim.

Às vezes, a consciência oscila fracamente entre um estado focalizado e um não focalizado. Quando isso acontece, puxe docemente a mente para a claridade, do mesmo modo que retiramos um cabelo de uma broa de manteiga. Depois permaneçamos sem vacilar neste estado.

Às vezes, numerosas idéias difíceis, transbordam por todo lado e não podemos permanecer calmos nem por um instante. Quando isso acontece, detenhamos o corpo, e a mente e nesse estado, controlemos docemente nossa distração dando sempre à mente espaço para se mexer.

Às vezes, não estamos com vontade de meditar, não estamos felizes e não podemos simplesmente ficar assim. Quando isso acontece, peçamos fortemente ao nosso mestre, e protejamos nossas idéias, leves, alegres, calmos e satisfeitos.

Às vezes, a mente é tão clara, feliz e alegre que temos vontade de dançar. Quando isso acontecer, permaneçamos sem conter nossa mente muito energicamente.

Todas essas maneiras que tem a mente de se velar aparecem para os iniciantes que não compreenderam claramente sua própria condição natural. Aqueles que tem uma clara compreensão não sustentam uma base sobre a qual tais coisas possam acontecer. E mais, para dar ainda uma pequena explicação, quando a condição natural é claramente compreendida, a visão não é necessária porque a claridade se apresenta naturalmente. A meditação não é necessária porque a mente em si é verdadeiramente conhecida em seu próprio lugar. A distração não é mais possível porque a mente em si está sempre completa. O movimento não é necessário porque a consciência se espalha como o céu. A artificialidade não é mais necessária porque a mente repousa no estado de claridade.

Quando nossa mente se fundiu inseparavelmente no estado de claridade, seu próprio lugar, está realizado sem distração. Então, quando o estado de vacuidade, a claridade espontânea surge enquanto modo natural, nossa própria mente é inseparável de Budha. Os modos [sKu] de nossa consciência desperta são inseparáveis de seu reino natural [Zhing-Kham]. Livre de toda esperança e dúvida, egoísmo, alegria e tristeza, livre de todas as miríades de dúvidas do pensamento discriminante – é assim que seremos quando realizarmos verdadeiramente nossa mente.

COMO PRATICAR OS QUATRO ASPECTOS DA AÇÃO.

Quando vocês, grandes meditantes, caminham exteriormente, não saltem, não corram por todos os lugares como loucos. Detenham seus corpos e suas mentes e, nesse estado, mexam-se no agora com a mente na não-distração.

Quando vocês, grandes meditantes, estando sentados, não abandonem seu mala mas utilize-o para estabilizar seus pensamentos Sentem-se corretamente na posição conveniente, e conservem a mente fresca e clara.

Quando vocês, grandes meditantes, adormecem, não adormeçam no torpor mental, parecidos à cadáveres. Devem fundir o sono com o estado de claridade imutável.

Quando vocês, grandes meditantes, comem e bebem, percebam o alimento e a bebida como um néctar benigno e seus corpos como as cem divindades pacíficas e iradas no estado imutável da mente em si.

Quando partirem, ou ficarem em algum lugar ou dormirem, ajam sempre a partir do estado de inseparabilidade da vacuidade; então, suas próprias mentes serão inseparáveis dos Budhas.

Se desejarem não retornar no momento de sua morte, vocês devem praticar como segue:

– Devemos servir um mestre com boas qualidades.
– Devemos abandonar toda atividade mundana e toda elaboração conceitual.
– Não devemos permitir que nossa diligência se enfraqueça em nenhum instante.
– Devemos ser capazes de assumir pacientemente a vida numa ermida solitária.
– Devemos ultrapassar nosso interesse pelo alimento e a bebida.
– Temos necessidade da visão que é pura de toda dualidade qualquer que seja.
– Temos necessidade da meditação que é constantemente e impertubavelmente clara.
– Temos necessidade da ação que é livre de esforço e de discriminação.
– Temos necessidade do resultado da inseparabilidade de nossa mente com o Budha.
– Temos a necessidade de votos que sejam isentos de desejos ocultos.
– Temos a necessidade de sermos totalmente livres do desejo e da avareza.
– Asseguremo-nos de praticar essas coisas necessárias, nós, afortunados praticantes do Dharma.



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