A prioridade da mente

A prioridade da mente

por Tenzin Gyatso, o XIV Dalai Lama
Extrato do "Dzogchen l’essence du coeur de la grand perfection",
publicado no livro: "DHARMA la voie du Boudha – Manhamudra-Dzogchen".
Tradução para o português: Karma Tenpa Dhargye

Embora formado inicialmente no seio da linhagem Gelupa, Kundun, o atual Dalai Lama, recebeu transmissões em todas as escolas tibetanas e deu memoráveis ensinamentos sobre o Dzogchen diversas vezes no Ocidente. Neste curto extrato, ele põe em evidência a unidade que existe entre a realização de Rigpa, estado último nos ensinamentos Dzogchen da antiga tradição Nyingma, e a realização da Clara Luz, supremo despertar nos ensinamentos da nova tradição ("Sarma" da qual a escola Kagiu faz parte). 1

1 - NT: Os ensinamentos Dzogchen também fazem parte da religião tibetana Bön.

Após a aproximação de Jamyang Khyentse Chokyi Lodro, transmitida por Dilgo Khyentse Rinpoche, o leque inteiro da filosofia e da prática budistas pode ser explicada indiretamente desta citação célebre de Budha:

"A mente é desprovida de mente,

porque a natureza da mente é clara luz".

A primeira palavra da citação "A mente" engloba o significado inteiro dos ensinamentos sobre as Quatro Nobres Verdades, a primeira Volta do Dharma. O restante da primeira linha "… é desprovida de mente" compreende o significado de todos os sutras da sabedoria, a segunda Volta do Dharma.

O significado da segunda linha da citação "porque a natureza da mente é clara luz" abarca o conteúdo da terceira Volta do Dharma. Isso se refere não aos sutras que os ensinamentos Chitamatra, quer dizer a escola Yogachara, utilizam como fontes escriturais, mas aos sutras como O Sutra da essência da budeidade que é o sutra fonte dos tratados como O Continuum sublime do Grande Veículo de Maitreya, onde é ensinado o significado da natureza primordial da Clara Luz da mente.

Este verso "porque a natureza da mente é clara luz" exprime a intenção última dos ensinamentos do Yogatantra Superior, onde toda a prática coloca o acento sobre a realização da mente fundamental inata da Clara Luz. Porém, no Dzogchen, é a clara luz e somente ela, que é praticada e revelada em toda sua nudez, o Dzogchen, de fato, é unicamente a prática da clara luz ou de rigpa nu, e somente isso.

Esta identidade última da significação da mente fundamental inata da clara luz, nas escolas da nova tradição e o Yogatantra, e a consciência clara imaculada de rigpa nos ensinamentos Dzogchen pode ser vista nos escritos de Longchen Rabjam e no comentário que Jigme Lingpa fez de seu texto O tesouro das qualidades do despertar. Esse mesmo ponto se encontra também nos escritos do quinto Dalai Lama e particularmente nos escritos posteriores de Dodruchen Jigme Tenpé Nyima, o terceiro Dodruchen que era não somente um grande erudito, mas também um grande meditante e um grande discípulo. Ele possuía um conhecimento extenso dos sutras e dos tantras, das escolas da nova tradução como da escola da antiga tradução com, ainda mais, uma compreensão extremamente profunda da filosofia do Madhyamika e da epistemologia ou lógica Sautrantika.

Em sua obra, encontramos referências explícitas de modo que a significação última da mente fundamental inata da clara luz das escolas da nova tradução e o rigpa da terminologia do Dzogchen são uma só e mesma coisa. Encontramos assim uma menção específica nos escritos de Khenpo Ngakchoung, especialmente quando ele faz distinção entre a base e as aparências da base, rigpa sendo sua referência enquanto base. Tais são minhas fontes para declarar que ao nível último, a mente fundamental inata de clara luz das escolas da nova tradução, e a consciência clara imaculada de rigpa do Dzogchen vem a ser a mesma coisa.

Eu não posso pretender ter uma realização autêntica e avançada de rigpa ou da mente fundamental-inata da clara luz. Entretanto, quando leio e comparo os escritos de diversos mestres de diferentes tradições, particularmente uma análise desta questão em relação com outros escritos de diferentes escolas da filosofia budista, quer seja do sistema dos sutras ou as quatro classes de tantra, tanto nas escolas da antiga como da nova tradução, constato que sou inclinado a compartilhar esta opinião. Acho que esta idéia ajuda verdadeiramente a compreender a unidade fundamental de todas as diferentes tradições do budismo tibetano. Não somente ela sublinha e clarifica os pontos profundos dos diversos sistemas, mas ela permite também desenvolver um respeito autêntico pelas múltiplas aproximações no meio da tradição budista do Tibet.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.