As Nove Consciências

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O budismo identifica nove funções espirituais de percepção, as Nove Consciências.

As cinco primeiras são as percepções sensoriais obtidas por meio dos cinco órgãos dos sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Somando-se aos cinco sentidos, há mais quatro tipos de consciência relacionadas com a mente. São as seguintes:

Sexta consciência, a mais superficial delas: tem o poder de integrar os cinco sentidos e julgar de forma decisiva. É a consciência comum, presente em todos  os seres vivos dotados de um sistema nervoso central.

Sétima consciência ou consciência manas (em sânscrito): ocupa-se das atividades mentais, independentemente das informações sensoriais externas. Ela se manifesta somente nos seres humanos, os únicos dotados de razão.

Oitava consciência ou consciência alaya-vijnana: é o repositório onde estão guardadas todas as memórias de vidas passadas. No alaya estão todas as sementes, hábitos, experiências, condicionamentos ou marcas cármicas, que determinam as características mentais e espirituais de muitas vidas.

Nona consciência ou consciência amala: é o nível fundamental, onde é encontrada a realidade universal verdadeira, ou a vida em sua forma universal. A nona consciência é que possibilita a todos se tornarem felizes.  É o Estado de Buda, que podemos realizar por meio do Budismo.

 Fontes de consulta: “Diálogos sobre a vida”, Daisaku Ikeda, Editora Brasil Seikyo, 1a edição, 1980; Revista “Terceira Civilização” de abril de 1999 (encarte); Revista “Terceira Civilização”, meses de agosto e setembro de 2003, artigo “Diálogos sobre a filosofia budista – Nove Consciências”.

A BASE DA MENTE ORDINÁRIA – ALAYAVIJNANA

Todas essas tendências habituais — resultado do nosso carma negativo — que nasceram da escuridão da ignorância, ficam acumula­das na base da mente ordinária. Sempre me pergunto qual seria um bom exemplo para ajudar a descrever essa base da mente ordinária. Pode-se compará-la a uma bolha de vidro transparente, uma fina película elástica, uma barreira quase invisível ou um véu que obs­curece o todo da nossa mente; mas a imagem mais útil que me ocor­re talvez seja a de uma porta de vidro. Imagine-se sentado em frente a uma porta de vidro que dá para o seu jardim, olhando através dela, fitando o espaço. Na aparência, não há nada entre você e o céu, pois você não vê a porta. Pode até dar com o nariz nela se se levantar e tentar atravessá-la pensando não haver nada. Mas se tocar o vidro verá imediatamente que há algo em que ficam suas impressões digitais, alguma coisa que se põe entre você e o espaço lá fora.

Do mesmo modo, a base da mente ordinária impede-nos de abrir caminho até a natureza da nossa mente — que tem qualidades similares às do céu — ainda que possamos vislumbrá-la. Como eu disse, os mestres explicam que há um perigo de os praticantes de meditação se equivocarem tomando a experiência da base da mente ordi­nária pela verdadeira natureza da mente. Quando descansam em estado de grande calma e quietude, podem estar descansando ape­nas na base da mente ordinária. É a diferença entre olhar para o céu de dentro de um domo de vidro e olhar para esse mesmo céu do lado de fora, ao ar livre. Precisamos deixar a base da mente comum para descobrir o ar fresco e puro de Rigpa, e deixá-lo entrar.

Assim, purificar essa barreira sutil, enfraquecê-la e rompê-la é o alvo ou propósito de toda a nossa prática espiritual, e também a real preparação para o momento da morte. Quando essa barreira desmoronou por completo, nada se interpõe entre você e o estado de onisciência.

A introdução à natureza da mente dada pelo mestre atravessa a base da mente ordinária, já que é através dessa dissolução da mente conceitual que a mente iluminada se revela explicitamente. Então, cada vez que repousamos na natureza da mente, a base da mente ordinária se torna mais fraca. Mas perceberemos que o tempo que podemos ficar no estado da natureza da mente depende por comple­to da estabilidade da nossa prática. Infelizmente, “os velhos hábitos custam a morrer”, e a base da mente ordinária retorna. Nossa mente é como o alcoólatra que pode abandonar o vício por algum tempo, mas que recai nele quando é tentado ou está deprimido.

Tal como a porta de vidro retém toda a sujeira da sua mão e dos seus dedos, também a base da mente comum reúne e armazena todo seu carma e seus hábitos. E assim como temos sempre que lim­par o vidro, temos também que ficar purificando a base da mente ordinária. É como se o vidro fosse ficando mais fino à medida que o limpamos, como se surgissem buracos nele e por fim se dissolvesse no ar.

Pela nossa prática vamos estabilizando a natureza da mente mais e mais, até que ela deixa de ser simplesmente a nossa natureza abso­luta e torna-se a nossa realidade de todo dia. Com o desenvolvimen­to desse processo, nossos hábitos se dissolvem e a diferença entre meditação e vida cotidiana diminui. Aos poucos você se torna alguém que pode caminhar diretamente para o jardim através da porta de vidro, sem obstrução. E o sinal de que a base da mente ordinária está enfraquecendo é que aumenta a nossa possibilidade de repousar, com cada vez menos esforço, na natureza da mente.

Quando surge a Luminosidade Base, o ponto crucial será o quanto fomos capazes de repousar na natureza da mente, de unir a nossa natureza absoluta da mente com a nossa vida cotidiana, e de purificar nossa condição ordinária no estado de pureza primordial.

 O LIVRO TIBETANO DO VIVER E DO MORRER  –  Sogyal Rinpoche 

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