Como saberei se amar a vida não é ilusão?

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“Como saberei se amar a vida não é ilusão? Como saberei se, ao odiar a morte, não sou como aquele homem que, tendo deixado a casa em sua mocidade, olvidou o caminho de volta?”

“A Senhora Li era filha de um guarda-fronteira de Ai 1, Logo após ter sido aprisionada e levada ao Estado de Chin, chorava até que as lágrimas empaparam a gola da sua túnica. Mais tarde, porém, ao ser levada ao palácio do governante para lá morar e partilhar de seu leito, alimentando-se com as delicio­sas iguarias de sua mesa, já nem se lembrava por que chorara. Como saberei se os mortos não se admiram de haver um dia ansiado pela vida?

“Quem sonha que está bebendo vinho talvez chore à chega­da da manhã; quem sonha com choro talvez saia à caça pela ma­nhã. Enquanto ele sonha, não sabe que é sonho e, em sonho, po­de até tentar interpretar um sonho. Só depois de despertar sa­berá que era sonho. E algum dia haverá um grande despertar e saberemos que isto tudo é um grande sonho. Embora os tolos acreditem que estão despertos, atarefados e admitindo vivamente que compreendem as coisas, chamando a este homem de gover­nante e àquele de pastor – como são obtusos! Tu e Confúcio, ambos estais a sonhar! E quando digo que estais sonhando, eu também estou sonhando. Palavras iguais a estas serão rotuladas como a Suprema Trapaça. Contudo, após dez mil gerações, um grande sábio pode surgir que Ihes saiba o significado e ainda será como se tivesse aparecido com espantosa celeridade.

“Suponhamos que nós dois tenhamos discutido. Se ganha­res de mim, e não eu de ti, estarás necessariamente certo e eu necessariamente errado? Estará um de nós certo e o outro erra­do? Estaremos ambos certos ou ambos errados? Se tu e eu não sabemos as respostas, os demais, então, estarão em trevas ainda maiores. A quem chamaremos para decidir o que é certo? Cha­maremos alguém que concorde contigo, para decidir? Mas se já concorda contigo, como poderá decidir imparcialmente? Chamaremos alguém que concorde comigo? Mas se já concorda comigo, como poderá decidir? Chamaremos alguém que discor­de de nós dois? Mas, se já discorda de nós dois, como poderá deci­dir? Chamaremos alguém que concorde com nós dois? Mas, se já concorda com nós dois, como há de decidir? Obviamente, pois, nem tu nem eu nem ninguém mais pode saber a resposta. Devemos esperar ainda por uma outra pessoa?”

“Mas, esperar por uma voz cambiante [que julgue] outra é o mesmo que não esperar por nenhuma delas 2. Harmonizem-se todos com a Igualdade Celestial, deixem-nos às suas mudanças infinitas e assim vivam até o fim de seus dias. Que quero dizer por harmoniar a todos com a Igualdade Celestial? O certo não é certo; o assim não é assim. Se o certo fosse realmente certo, ha­veria de diferenciar-se do não-certo tão claramente que não ha­veria necessidade de arguir. Se fosse realmente assim, haveria de diferir tão claramente do não, assim que não haveria necessidade de arguir. Esquece os dias, esquece as distinções. Salta para o Ili­mitado e dele faz o teu lar!”

1. Ela fora feita prisioneira pelo Duque Hsien de Chin, em 671 a.C., tendo-se tornado mais tarde sua consorte.

2. Sigo a recomposição do texto sugerida por Lü Hui-ch’ing. Mas o texto do pará­grafo todo deixa muito a desejar e a tradução é conjetura!

Do livro: CHUANG TZU – Escritos Básicos – Ed. Cultrix  

 

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