Desenvolver uma visão inequívoca da realidade

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EXISTÊNCIA INTRÍNSECA DE FORMA CORRETA

 Toda a discussão filosófica anterior sugere o seguinte ponto básico: o modo como tendemos a perceber as coisas não está de acordo com o que elas são. Porém, isso não nega de forma niilista o fato de nossa experiência. A existência das coisas e dos eventos não é questionada; é de que maneira elas existem que deve ser esclarecida. Esse é o objetivo de se passar por essa análise complexa.

É essencial para qualquer aspirante espiritual cultivar uma perspectiva que se oponha de forma direta à crença errônea que se agarra à existência concreta das coisas e eventos. Somente pelo cultivo de uma visão assim podemos começar a diminuir o poder das aflições que nos dominam. Quaisquer práticas diárias em que nos empenhemos – recitação de mantra, visualizações e outras – por si só serão incapazes de se opor à ignorância fundamental. Simplesmente idealizar a aspiração “Possa esse apego enganoso à existência empírica desaparecer”, não é suficiente; devemos esclarecer inteiramente nosso entendimento da natureza da vacuidade. Esse é o único jeito de se ficar livre do sofrimento. Além disso, sem esse entendimento claro, é de se imaginar que, em vez de nos ajudar contra nosso apego à realidade concreta, a visualização de deidades e a recitação de mantras possa até reforçar nosso apego enganoso à realidade objetiva do mundo e do eu.

Muitas práticas budistas funcionam a aplicação de um antídoto. Por exemplo, cultivamos a aspiração de beneficiar os outros como um antídoto para o interesse pessoal, e cultivamos nosso entendimento da natureza impermanente da realidade como antídoto para ver as coisas e eventos como fixos. Da mesma maneira, cultivando o insight correto sobre a natureza da realidade – a vacuidade das coisas e eventos – somos capazes de nos liberar gradativamente do apego à existência intrínseca e por fim eliminá-lo.

ENTENDER AS DUAS VERDADES

No Sutra do Coração lê-se:

Deve-se perceber perfeitamente que até os cinco agregados são vazios de existência intrínseca. Forma é vacuidade, vacuidade é forma; vacuidade não é outra coisa senão forma; forma também não é outra coisa senão vacuidade.

 Essa passage

m apresenta o resumo da resposta de Avalokiteshvara para a pergunta de Shariputra sobre como praticar a perfeição da sabedoria. A expressão “vazios de existência intrínseca” é a referência de Avalokiteshvara ao entendimento mais sutil da vacuidade, da ausência de existência intrínseca. Avalokiteshvara detalha sua resposta que começa com as seguintes frases: “Forma é vacuidade, vacuidade é forma; vacuidade não é outra coisa senão forma; forma também não é outra coisa senão vacuidade”.

 Para nós é importante evitar a apreensão errônea de que a vacuidade é uma realidade absoluta ou uma verdade independente. A vacuidade deve ser entendida como verdadeira natureza das coisas e eventos. Por isso lê-se: “Forma é vacuidade, vacuidade é forma; vacuidade não é outra coisa senão forma; forma também não é outra coisa senão vacuidade”. Não se refere a alguma espécie de Grande Vacuidade em algum lugar lá fora, mas sim à vacuidade de um fenômeno específico, no caso, da forma ou matéria.

A afirmação de que, “à parte da forma não existe vacuidade” sugere que a vacuidade da forma não é outra coisa senão a natureza última da forma. A forma carece de existência intrínseca ou independente; por isso sua natureza é vacuidade. Essa natureza – a vacuidade – não é independente da forma, mas sim uma característica da forma; a vacuidade é o modo de ser da forma. Deve-se entender a forma e sua vacuidade em unidade; não são duas realidades independentes.

Vamos olhar as duas declarações de Avalokiteshvara mais detidamente: que forma é vacuidade e vacuidade é forma. A primeira afirmação, “forma é vacuidade”, indica que o que reconhecemos com

o forma vem a existir como resultado da agregação de muitas causas e condições, e não por meios próprios independentes. Forma é um fenômeno composto constituído por muitas partes. Porque vem a existir, e continua a existir baseado em outras causas e condições, é um fenômeno dependente. Essa dependência significa que a forma é conseqüentemente vazia de qualquer realidade intrínseca e auto-existente e, portanto, diz-se que forma é vacuidade.

Vamos nos deter agora na declaração seguinte, de que vacuidade é forma. Entendido que a forma carece de existência independente, jamais pode ser isolada de outros fenômenos. Conseqüentemente, a dependência sugere um tipo de abertura e maleabilidade em relação a outras coisas. Devido a essa abertura fundamental, a forma não é fixa, mas sim sujeita a mudança e causalidade. Em outras palavras, uma vez que as formas surgem a partir da interação de causas e condições e não possuem realidade independente e fixa, prestam-se à possibilidade de interação com outras formas e, portanto,  com outras causas e condições. Tudo isso faz parte de uma realidade complexa e interconectada. Como as formas não possuem identidade fixa e isolada, podemos dizer que a vacuidade é a base para a existência da forma. De fato, em certo sentido, é possível dizer até que a vacuidade cria a forma. Pode-se entender a afirmação de que “vacuidade é forma” no sentido de a forma ser uma manifestação ou expressão da vacuidade, algo que advém da vacuidade.

Esse relacionamento aparentemente abstrato de forma e vacuidade é de algum modo análogo ao relacionamento de objetos materiais e espaço. Sem espaço vazio, os objetos materiais não podem existir; o espaço é o meio para o mundo físico. Contudo, essa analogia sucumbe na medida em que se pode dizer que os objetos materiais, em certo sentido, são separados do espaço que ocupam, ao passo que não é possível dizer isso da forma e da vacuidade.

No Lankavatara Sutra, encontramos descrições de sete diferentes maneiras em que uma coisa pode ser considerada vazia. Aqui, seguindo nossos propósitos, vamos examinar duas maneiras de ser vazio. A primeira é conhecida como “vacuidade do outro” – no sentido de que um templo pode estar vazio de monges. Nesse exemplo, a vacuidade (do templo) é separada do que está sendo negado (a presença de monges).

Em contraste, quando dizemos que “forma é vacuidade”, estamos negando uma essência intrínseca da forma. Essa maneira de ser é chamada de vacuidade da existência intrínseca (em tibetano, significa literalmente “vacuidade do eu”). Contudo, não devemos entender a vacuidade do eu ou vacuidade da natureza do eu como significando que a forma é vazia de si mesma; isso seria equivalente a negar a realidade da forma, o que, conforme tenho repetido enfaticamente, esses ensinamentos não fazem. Forma é forma: a realidade da forma sendo forma não é rejeitada, apenas a realidade independente e, portanto,  a essência intrínseca dessa realidade. Portanto, o fato de forma ser forma não contradiz de modo algum o fato de forma ser vacuidade.

Esse é um ponto crucial, e vale a pena reiterá-lo. Vacuidade não implica não-existência; vacuidade implica vacuidade de existência intrínseca, o que implica necessariamente originação dependente. Dependência e interdependência estão na natureza de todas as coisas; coisas e eventos vêm a existir apenas como resultado de causas e condições. A vacuidade possibilita a lei de causa e efeito.

Podemos expressar o que foi dito ainda de outra maneira, conforme o seguinte raciocínio. Todas as coisas se originam de modo dependente, dessa maneira, dessa maneira pode-se observar a causa e o efeito. Causa e efeito só são possíveis em um mundo desprovido de existência intrínseca, ou seja, em um mundo que é vazio. Assim, podemos dizer que vacuidade é forma, outra maneira de dizer que a forma surge a partir da vacuidade, e que

a vacuidade é a base que permite a originação dependente da forma. Portanto, o mundo da forma é uma manifestação da vacuidade. (formas da vacuidade)

É importante esclarecer que não estamos falando da vacuidade como sendo algum tipo de estrato absoluto da

realidade, aparentado, por assim  dizer, com o antigo conceito indiano de Brahman, concebido como uma realidade absoluta subjacente, a partir da qual emerge o mundo ilusório da multiplicidade. A vacuidade não é uma realidade essencial, que reside de algum modo no coração do universo, da qual surge a diversidade de fenômenos. A vacuidade só pode ser concebida em relação a coisas e eventos individuais. Por exemplo, quando falamos de vacuidade de uma forma, estamos falando sobre a realidade absoluta daquela forma,o fato dela ser desprovida de existência intrínseca. Aquela vacuidade é a natureza absoluta daquela forma. A vacuidade existe como uma qualidade de um fenômeno específico; e não separada e independentemente de um fenômeno específico.

Alem disso, uma vez que a vacuidade só pode ser entendida como realidade absoluta em relação a um fenômeno individual, coisas e eventos individuais, quando um fenômeno individual termina, a vacuidade daquele fenômeno também cessa. Assim, embora a vacuidade não seja ela própria o produto de causas e condições, quando uma base para a identificação da vacuidade não mais existe, a vacuidade não mais existe, a vacuidade daquela coisa também cessa*.

A linha “Vacuidade não é outra coisa senão forma; forma também não é outra coisa senão vacuidade” indica a necessidade de se entender o ensinamento do Budha sobre as duas verdades. A primeira é a verdade da convenção diária, ao passo que a segunda, a verdade absoluta, é a verdade a que se chega por meio da análise sobre o modo de ser absoluto das coisas.

Nagarjuna faz referência a isso nos Fundamentos do Caminho do Meio:

 “Os ensinamentos revelados pelos budhas

Assim o são em termos de duas verdades –

a verdade convencional do mundo

e a verdade última”.

 Percebemos a verdade convencional, ou seja, o mundo relativo em toda a sua diversidade, por meio do uso cotidiano da mente e de nossas faculdades sensoriais. Contudo, somente por meio da análise penetrante somos capazes de perceber a verdade absoluta, a verdadeira natureza das coisas e eventos. Perceber isso é perceber a talidade dos fenômenos, seu modo absoluto de ser, que é a verdade absoluta sobre a natureza da realidade.

Embora muitas tradições indianas de pensamento – tanto budistas quanto não-budistas – entendam a natureza da realidade em termos de duas verdades, o entendimento mais sutil acarreta a realização das duas verdades não como duas realidades separadas e independentes, mas sim como dois aspectos de uma única realidade. É essencial que captemos essa distinção com clareza. […]

* Na prática de meditação Vajrayana, é enfatizado que, quando se medita sobre a vacuidade no contexto do yoga da deidade, é importante escolher uma base para a meditação. Essa base pode ser o aspecto da mente que manterá sua continuidade ao longo das vidas de um individuo até que alcance a iluminação. O fato de que a mente prosseguirá no estágio da iluminação é um dos principais motivos para a mente ser freqüentemente enfatizada como foco da meditação sobre a vacuidade. Também é assim em outras práticas, tais como Mahamudra e Dzogchen, onde o foco principal da meditação sobre a vacuidade é a mente do indivíduo.

Do livro: A Essência Do Sutra Do Coração – Dalai Lama – 10º. Capítulo – págs. 103-108

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