O Sutra do Diamante

Vajracchedika Sutra

 O Sutra do Diamante

Lapidador da Sabedoria Transcendental

 EL SUTRA DEL DIAMANTE – Tradução de Ramiro A. Calle e Simon Mundy

Versão:  Flávio Capllonch Cardoso

 

 Seção I.

A Convocação da Assembleia.

Assim eu ouvi:

Certa vez permaneceu Buda no parque de Anathapindika próximo a Shravasti em companhia de muitos discípulos – até mil duzentos e cinquenta.

Um dia, na hora do desjejum, o Honrado-Pelo-Mundo colocou seu manto, e levando sua tigela caminhou pela grande cidade de Shravasti, para mendigar sua comida. No centro da cidade pediu de porta em porta, segundo a regra. Feito isso, voltou ao seu retiro e alimentou-se. Quando terminou, guardou seu manto e tigela de mendigar, lavou os pés, arrumou seu assento, e sentou-se.

 Seção II.

Subhuti Faz um Pedido.

 Entretanto, na assembléia encontrava-se o Venerável Subhuti. Em seguida levantou-se, descobriu o ombro direito, ajoelhou-se sobre o joelho direito e, respeitosamente elevando as mãos com as palmas unidas, dirigiu-se ao Buda dessa maneira:

– “Honrado-pelo-Mundo: É muito valioso até que ponto o Tathagata cuida de todos os bodhisatvas, instruindo e protegendo-os tão bem!

Honrado-pelo-Mundo: Se bons homens e boas mulheres buscam a Realização da Iluminação Incomparável, como devem ser e como devem controlar seus pensamentos?”

Buda disse:

– “Muito bem, Subhuti! Tal como dizes, o Tathagata está sempre atento e cuidadoso para com todos os bodhisattvas, instruindo e protegendo-os bem. Agora escuta e leva minhas palavras ao teu coração: Eu te direi como devem ser os bons homens e boas mulheres, buscadores da Realização da Iluminação Incomparável, como devem agir, e de que forma devem controlar seus pensamentos”.

Disse Subhuti:

–“Rogo que o faças, Honrado-Pelo-Mundo. Com alegria antecipada desejamos escutar”.

 Seção III.

O Verdadeiro Ensinamento do Grande Caminho.

  Buda disse:

– “Subhuti, todos bodhisatvas heróis devem disciplinar seus pensamentos da seguinte forma:

“Todos os seres viventes de qualquer espécie, nascidos de ovos, de úteros, da umidade, ou da transformação, com forma ou sem forma, num estado de pensamentos ou isentos da necessidade de pensar, ou além de todas as esferas mentais: todos eles, devido a minha meditação, alcançam o Nirvana, a Liberação Total. Não obstante, após imensas, incontáveis imensuráveis quantidades de seres, terem sido liberados, em verdade nenhum ser foi liberado. Por que é assim, Subhuti? A razão é que nenhum bodhisattva que seja um verdadeiro bodhisattva alimenta a idéia de um si mesmo, uma personalidade, um ser, uma individualidade separada”.

 Seção IV.

Inclusive as práticas mais altruístas são relativas.

– Além disso, Subhuti, na prática da compaixão um bodhisattva deve ser desapegado. Ou seja, deve praticar compaixão sem olhar as aparências: sem dar importância aos sons, odores, tatos, sabores ou qualquer qualidade. Subhuti, assim deve o bodhisattva, sem apego, praticar compaixão. Por que motivo? Porque em tal caso o seu mérito é incalculável.

Subhuti, o que pensas? Podes medir todo o espaço até o leste?

– Não, Honrado-Pelo-Mundo, não posso.

– Então, Subhuti, podes medir todo o espaço para o sul, o oeste, o norte, ou em qualquer outra direção, inclusive o nadir e o zênite?

– Não, Honrado-Pelo-Mundo, não posso.

– Bem, Subhuti, igualmente incalculável é o mérito do bodhisattva que pratica a compaixão sem nenhum apego às aparências. Subhuti, os bodhisattvas deveriam perseverar sem desvios nesta instrução”.

 Seção V.

Compreendendo o último Princípio da Realidade.

  – Subhuti, o que pensais? Pode-se reconhecer o Tathagata por meio de alguma característica material?

– Não, Honrado-Pelo-Mundo, o Tathagata não pode ser reconhecido por nenhuma característica material. Por quê? Porque o Tathagata disse que as características materiais de fato não são características materiais.

– Buda disse:

– Subhuti, em qualquer lugar onde existam características materiais, existe ilusão; porém aquele que percebe que todas as características são de fato não características, percebe o Tathagata.

 Seção VI.

Rara é a compreensão da Verdade.

Subhuti disse a Buda:

– Honrado-Pelo-Mundo, sempre existirão homens que verdadeiramente compreenderão estes ensinamentos ao buscar ouvi-los?

Buda respondeu:

– Subhuti, não fale dessa forma! Dois mil e quinhentos anos depois do parinirvana do Tathagata1 existirão homens auto-equilibrados, enraizados em méritos, que virão ouvir estes ensinamentos, os quais serão inspirados por sua confiança. Mas deves saber que tais homens não só fortaleceram sua raiz de méritos sob um Buda, dois Budas, ou três, quatro, cinco Budas, mas sob incontáveis Budas; e seus méritos são de todos os tipos. Tais homens, buscando ouvir estes ensinamentos, experimentarão um surgimento imediato de pura confiança, Subhuti; e o Tathagata os reconhecerá. Efetivamente, Ele perceberá claramente a todos aqueles de coração puro, e verá a magnitude das suas excelências morais. E qual a causa? Porque tais homens não recairão no erro de alimentar a idéia de um si mesmo, uma personalidade, um ser, ou uma individualidade separada. Eles não recairão no erro de considerar a idéia de que as coisas possuem qualidades intrínsecas, nem sequer de que as coisas são desprovidas de qualidades intrínsecas.

Por que razão? Porque se estes homens permitissem a suas mentes agarrar e fixar-se em qualquer coisa, isto significaria que eles estariam considerando a idéia de um si mesmo, uma personalidade, um ser ou uma individualidade separada.  Igualmente no caso de agarrar e manter-se na idéia de que as coisas são vazias de qualidades intrínsecas, estariam alimentando a idéia de um si mesmo, uma personalidade, um ser ou uma individualidade separada. Assim, não deves apegar-te às coisas como possuidoras, ou destituídas de qualidades intrínsecas.

Esta é a razão pela qual o Tathagata sempre ensina este refrão: “Meu ensinamento do Dharma pode ser comparado com um barco para cruzar um rio. Inclusive o ensinamento do Buda deverá ser abandonado. Quanto mais os ensinamentos equivocados!”.

(Um homem que já cruzou o rio em um barco continua a jornada na outra margem carregando o barco sobre sua cabeça?)

 Seção VII.

Os grandes perfeitos, além dos Ensinamentos, não pronunciam nenhuma palavra de ensino.

 – Subhuti, o que pensas? O Tathagata atingiu a Realização da Iluminação Incomparável? Tem o Tathagata um ensinamento para enunciar?

Subhuti respondeu:

– Segundo entendo as palavras do Buda, não existe nenhuma fórmula para expressar a verdade chamada a Realização da Iluminação Incomparável. Além disso, o Tathagata não tem nenhum ensinamento elaborado para enunciar. Por quê? Porque o Tathagata disse que a Verdade é inapreensível, inexprimível e está além da compreensão.

Nem é, nem não é.

Portanto, este Princípio não formulado é o fundamento de todos os diferentes sistemas de todos os sábios.

 Seção VIII.

Os frutos da ação meritória.

 – Subhuti, o que pensas? Se alguém enchesse três mil galáxias de mundos com os sete tesouros (ouro, prata, lápis-lazúli, cristal, coral, ágata e madrepérola) e os desse como oferta de caridade, obteria tal pessoa grande mérito?”

Subhuti disse:

– Muito mérito na verdade, Honrado-Pelo-Mundo! Como? Devido a que o mérito forma parte do caráter do não-mérito: por esta razão o Tathagata assinalou o mérito como grande.

Então Buda disse:

– Por outro lado, se alguém receber e retiver somente quatro linhas deste Dharma e o ensinasse e explicasse aos outros, seu mérito seria superior. Por quê?”

A razão é, Subhuti, que deste Dharma emanam todos os Budas e os Ensinamentos  da Realização da Iluminação Incomparável de todos os Budas.

Subhuti, o que se chama “a religião de Buda, de fato, não é a religião de Buda”.

   Seção IX.

A verdadeira realização é realização nenhuma.

 “Subhuti, o que pensais? Um discípulo que entrou na “Correnteza da Vida Santa” pode dizer a si mesmo: “Eu obtive o fruto daquele que entrou na Correnteza?”.

Subhuti disse:

– Não, Honrado-Pelo-Mundo”. “Por quê?” – Porque “alguém que entra na correnteza da Vida Santa” é somente um nome. Não há entrada na correnteza. O discípulo que não se fixa nas formas, cores, sons, odores, paladares, tatos, nem qualquer outra qualidade, chama-se “aquele que entra na Correnteza”.

– Subhuti, o que pensas? Um adepto que está sujeito a apenas mais um renascimento diz a si mesmo: “Eu obtive o fruto de alguém que renasce-mais-uma-vez?”.

Subhuti disse:

– Não, Honrado-Pelo-Mundo. Por que não? Porque “aquele-que-renasce-mais-uma-vez” é somente um nome. Não se sai nem se entra na existência. Precisamente quem percebe isto é chamado “aquele-que-renasce-mais-uma-vez”.

– Subhuti, o que pensas? Um Venerável que nunca mais renascerá como um ser humano diz a si mesmo: “Eu obtive o fruto Daquele-Que-Não-Retorna?”

Subhuti disse:

– Não, Honrado-Pelo-Mundo. Por que não? Porque “aquele-que-não-retorna” é somente um nome. Não existe não-retorno e, portanto tampouco a designação “aquele-que-não-retorna”.

Subhuti, o que pensas? Um Arahat pode dizer para si mesmo: “Eu obtive o fruto da Iluminação Perfeita?”

Subhuti disse:

– Não, Honrado-Pelo-Mundo. “Por que não?” – “Porque não há condição como a chamada Iluminação Perfeita. Honrado-Pelo-Mundo, se um Arahat perfeitamente iluminado disser a si mesmo: “Este sou eu” significaria necessariamente que ainda participa da idéia de um si mesmo, uma personalidade, um ser, ou uma individualidade separada. Honrado-Pelo-Mundo, embora Buda declare que eu sobressaio entre os homens santos no Yoga da Perfeita Quietude, em permanecer retirado e livre das paixões, eu não digo para mim mesmo: “Eu sou um santo perfeitamente iluminado, liberado das paixões”. Honrado-Pelo-Mundo, se eu dissesse a mim mesmo: “Esse sou eu”; vós não dirias: “Subhuti encontrou a felicidade morando em paz, entre as árvores, na solidão”. Assim é, porque Subhuti não mora em nenhum lugar: por isso se chama, “Subhuti, feliz-morador-em-paz, residente-na-solidão-do-bosque!”.

 Seção X.

Expondo as Terras Puras.

 Buda disse: “Subhuti, o que pensais? No remoto passado, quando o Tathagata estava com Dipankara Buda, obteve algum grau de êxito no Dharma?

– Não, Honrado-Pelo-Mundo. Quando o Tathagata esteve com Dipankara Buda não obteve nenhum grau êxito na Boa Lei.

– Subhuti, o que pensas? Expõe um bodhisattva alguma majestosa Terra Búdica?

– Não, Honrado-Pelo-Mundo. Por quê? – Porque a exposição de uma majestosa Terra Búdica não é uma majestosa exposição; isto é simplesmente um nome.

(Então continuou Buda:)

– Portanto, Subhuti, todos os bodhisattvas, grandes ou menores, deveriam desenvolver uma mente pura e lúcida, e não depender do som, sabor, tato, odor, nem nenhuma outra qualidade. Um bodhisattva deve desenvolver uma mente que não se apegue absolutamente a nada; e dessa maneira deve treiná-la.

Subhuti, isto poderia se comparar a um corpo humano grande como o poderoso Monte Sumeru. O que pensas? Seria tal corpo grande?

Subhuti respondeu:

– Verdadeiramente grande, Honrado-Pelo-Mundo. Foi por isso que o Buda explicou que nenhum corpo é chamado um grande corpo.

 Seção XI.

A superioridade da Verdade não formulada.

 – Subhuti, se houvessem tantos rios Ganges quanto os grãos de areia existentes no Ganges, seriam muitos os grãos de areia de todos eles?

Subhuti disse:

– Verdadeiramente numerosos, Honrado-Pelo-Mundo! Os rios Ganges também seriam inumeráveis; quanto mais seus grãos de areia!

– Subhuti, vou te declarar uma verdade. Se um bom homem ou uma boa mulher enchessem três mil galáxias de mundos com os sete tesouros (ouro, prata, lápis-lazúli, cristal, ágata, pérolas vermelhas, cornalina) para cada grão de areia em todos esses rios Ganges, e dessem tudo como oferendas caridosas, acumulariam eles grandes méritos?

Subhuti respondeu:

– Grandes realmente, Honrado-Pelo-Mundo!

Então Buda declarou:

– Não obstante, Subhuti, se um homem bom ou uma boa mulher estudar este Dharma até poder receber e guardar somente quatro estrofes e ensiná-las e explicá-las aos demais, os méritos conseqüentes seriam muito superiores.

 Seção XII.

A veneração à verdadeira Doutrina.

 – Além disso, Subhuti, devereis saber que aonde quer que este Dharma seja proclamado, mesmo que somente quatro estrofes, este lugar deveria ser venerado por todas as hierarquias dos deuses, homens e asuras, como se fosse um relicário de Buda. Quanto mais será isto verdadeiro no caso daquele que pode recebê-lo e retê-lo completamente, lê-lo e recitá-lo por completo!

Subhuti, saiba que tal pessoa alcançará a mais alta e admirável verdade. Aonde quer que este Ensinamento sagrado se encontre, deves se comportar como se estivesses na presença do Buda e de discípulos dignos de respeito.

 Seção XIII.

Como este Ensinamento deve ser recebido e guardado.

Naquele momento Subhuti dirigiu-se ao Buda dizendo:

– Honrado-Pelo-Mundo, com que nome deveria se conhecer este Ensinamento, e como deveríamos recebê-lo e retê-lo?

Buda respondeu:

– Subhuti, este Ensinamento deveria ser conhecido como O Diamante da Perfeição da Sabedoria Transcendental [Prajñaparamita Vajracchedika] – assim deveis recebê-lo e retê-lo.

– Subhuti, qual é a razão disto? Segundo o ensinamento do Buda, a “Perfeição da Sabedoria Transcendental” não é realmente assim. A “Perfeição da Sabedoria Transcendental” é simplesmente o nome que lhe outorgamos. Subhuti, que pensas? Tem o Tathagata um ensinamento para enunciar?”

Subhuti respondeu ao Buda:

– Honrado-Pelo-Mundo, o Tathagata não tem nada a ensinar”.

– Subhuti, qual a sua estimativa? Seriam muitas as partículas em três mil galáxias?

Subhuti disse:

– Verdadeiramente muitas, Honrado-Pelo-Mundo!

– Subhuti, o Tathagata declara que todas estas partículas de fato não são reais; elas são apenas chamadas “partículas”. (Além disso) o Tathagata declara que um mundo não é realmente um mundo; é apenas chamado “mundo”. Subhuti, o que crês? Pode-se perceber o Tathagata através das trinta e duas marcas físicas (de um sábio excelente)?

– Não, Honrado-Pelo-Mundo, não se pode perceber o Tathagata através destes trinta e dois sinais. Por quê? Porque o Tathagata explicou que os trinta e dois sinais não são realmente sinais; somente se chamam “as trinta e duas marcas”.

– Subhuti, se por um lado um bom homem ou uma boa mulher sacrifica tantas vidas como os grãos de areia que existem no Ganges, e por outro lado alguém recebe e retém apenas quatro linhas deste Dharma, e as ensina e explica aos outros, o mérito deste último será superior.

 Seção XIV.

A paz perfeita consiste em liberar-se de fazer distinções sobre características.

Ao escutar este Ensinamento, Subhuti teve uma profunda realização interior de seu significado e comoveu-se até chorar.  Então, se dirigiu ao Buda desta maneira:

– É uma coisa muito preciosa, Honrado-Pelo-Mundo, que vós pronuncieis este Dharma de suprema profundidade. Jamais ouvi uma exposição semelhante desde que no passado abriu-se meu olho de sabedoria. Honrado-Pelo-Mundo, se alguém com confiança escutar este Dharma com uma mente pura e lúcida, então conceberá uma idéia da Realidade Fundamental. Temos que saber que tal pessoa engendra a virtude mais extraordinária. Honrado-Pelo-Mundo, tal idéia sobre a Realidade Fundamental não é, de fato, uma idéia discriminadora; por esta razão o Tathagata ensina que a idéia da Realidade Fundamental é meramente um nome.

Honrado-Pelo-Mundo, ao ter escutado este Dharma, o recebo e o retenho com confiança e entendimento. Isto não é difícil para mim, mas em épocas vindouras – durante os próximos quinhentos anos –, se existirem homens que venham ouvir este Dharma e o receberem e o retiverem com confiança e entendimento, seriam pessoas de um notável alcance. Por quê? Porque seriam livres da idéia de uma ego-entidade, livres da idéia de personalidade, livres da idéia de um ser, e livres da idéia de uma individualidade separada. E por quê? – Porque a distinção de uma ego-entidade é errônea. Igualmente distinguir uma personalidade ou um ser ou uma individualidade separada é errôneo. Por conseguinte, aqueles que deixaram para trás quaisquer distinções fenomênicas são todos Budas.

Buda disse a Subhuti:

– Exatamente como dizes! Se alguém ouve este Dharma e não fica alarmado nem cheio de terror nem de espanto, saiba que tal pessoa é de um notável entendimento. Por quê? – A razão é Shubuti, que o Tathagata ensina que o Primeiro Paramita não é, de fato, o Primeiro Paramita: isto é meramente um nome.

Subhuti, do mesmo modo, o Tathagata ensina que o Paramita da Paciência não é o Paramita da Paciência: isto é meramente um nome. Por que é assim? Demonstra-se da seguinte forma, Subhuti: Quando o Rajá de Kalinga mutilou meu corpo, eu estava naquele momento liberado da idéia de uma ego-entidade, uma personalidade, um ser, e uma individualidade separada. Por que razão? Porque naquele momento, quando meus membros foram amputados, pedaço por pedaço, se eu estivesse sujeito a tais distinções, em mim surgiriam sentimentos de raiva e ódio. Subhuti, eu recordo que há muito tempo, durante uma das minhas últimas quinhentas vidas humanas, eu fui um asceta praticante da paciência; mesmo então eu estava livre daquelas distinções de um ego separado. Portanto, Subhuti, os bodhisattvas deveriam deixar para trás todas as distinções fenomênicas e deveriam despertar o pensamento da Realização da Iluminação Incomparável, não permitindo à mente fixar-se em idéias evocadas pelo mundo sensorial – não permitindo à mente fixar-se em idéias evocadas pelos sons, odores, sabores, contatos, ou quaisquer outras qualidades. A consciência deve manter-se independente de quaisquer pensamentos que surjam dentro dela. Se a consciência depender de algo, não terá nenhum refúgio seguro. Por isso Buda ensina que a mente de um bodhisattva não deve levar em conta as aparências das coisas quando exerce a compaixão. Subhuti, quando os bodhisattvas praticam a compaixão pelo bem-estar de todos os seres viventes, eles devem agir dessa maneira. Do mesmo modo que o Tathagata declara que as características não são características, assim ele também declara que todos os seres viventes não são de fato seres viventes.

Subhuti, o Tathagata é Aquele que declara o que é verdade; Ele declara o que é fundamental; Ele declara o que é definitivo. Ele não declara algo falso nem enganoso. Subhuti, a Verdade realizada pelo Tathagata não é real nem irreal.

Subhuti, se um bodhisattva pratica a compaixão com a mente apegada às idéias mundanas, é como um homem cego, andando às apalpadelas nas trevas; porém um bodhisattva que pratica a compaixão com mente desapegada de qualquer idéia mundana é como um homem com os olhos abertos na radiante luz da manhã, para ele todos os tipos de objetos são claramente visíveis. Subhuti, se existirem bons homens e boas mulheres em épocas futuras capazes de receber, ler e recitar este Dharma em sua totalidade, o Tathagata perceberá e os reconhecerá através do seu conhecimento Búdico; e cada um deles produzirá no futuro méritos incomensuráveis e incalculáveis.

 Seção XV.

O valor incomparável deste ensinamento.

 – Subhuti, se por um lado, um bom homem ou uma boa mulher efetua pela manhã tantos atos de abnegada compaixão como os grãos de areia do Ganges, e efetua a mesma quantidade novamente ao meio-dia e a mesma outra vez ao entardecer, e continua assim durante inumeráveis épocas, e por outro lado, alguém escuta este Dharma com o coração cheio de confiança e sem disputa, este último seria o mais feliz. Porém como se poderia comparar com aquele que o escreve, o guarda, e o explica aos outros? Subhuti, podemos resumir a questão dizendo que o valor completo deste Ensinamento não pode ser nem concebido, nem estimado, e nem se pode dar algum limite ele. O Tathagata declarou este Ensinamento para o benefício dos Iniciados no Grande Caminho (Mahayana); Ele o pregou para o benefício dos iniciados no Supremo Caminho. Todos aqueles que possam receber e reter este Ensinamento estudá-lo, recitá-lo e propagá-lo, serão claramente percebidos e reconhecidos pelo Tathagata, e alcançarão uma perfeição de méritos incomensurável e incalculável, uma perfeição de méritos ilimitados e inconcebíveis. Em cada caso, eles demonstrarão ao Tathagata o Cume da Iluminação Incomparável.  Por qual motivo? Por que, Subhuti? Os que encontram consolo em doutrinas limitadas, tratando conceitos como uma ego-entidade, uma personalidade, um ser, ou uma individualidade separada, não são capazes de aceitar, receber, estudar, recitar e explicar abertamente este Dharma. Subhuti, em cada lugar onde se encontre este Ensinamento, os reinos inteiros de Deuses, Homens e Asuras deveriam oferecer seu respeito; pois deves saber que tal lugar é sagrado como um relicário e deveria ser apropriadamente venerado por todos com reverências cerimoniais e circulando da esquerda para a direita, e com oferendas de flores e incenso.

 Seção XVI.

A purificação através do sofrimento, através dos efeitos das transgressões cometidas no passado.

 – Além disso, Subhuti, se ocorrer que os bons homens e boas mulheres que recebem e recitam este Ensinamento são maltratados, seu destino miserável é o resultado inevitável de faltas cometidas em vidas anteriores. Em virtude de suas atuais desgraças, os efeitos e reações de seu passado serão dissolvidos por meio daquelas, e estarão na situação de poder alcançar o Cume da Iluminação Incomparável.

“Subhuti, lembro-me do passado infinitamente remoto antes de Dipankara Buda. Haviam 84,000 miríades de milhões de Budas e a todos estes Eu fiz oferendas; sim, a todos estes Eu servi sem o menor sinal de falta. Não obstante, se qualquer um for capaz de receber, manter, estudar e recitar este Ensinamento ao término do último período [de 500 anos]2, esta pessoa ganhará tantos méritos, que os méritos que obtive no serviço de todos aqueles Budas não poderão representar uma centésima parte disto, ou nem mesmo uma quadrilionésima parte disto – na verdade, não há nenhuma possibilidade de comparação”.

“Subhuti, se Eu detalhadamente explicasse os méritos ganhos pelos bons homens e boas mulheres que receberem, mantiverem, estudarem e recitarem este Ensinamento no último período, meus ouvintes ficariam cheios de dúvidas e poderiam ter a mente completamente desordenada com suspeitas e descrenças. Vós deveríeis saber, Subhuti, que o significado deste Ensinamento está além da concepção; igualmente os frutos que este Dharma oferece estão além de concepção”.

 Seção XVII.

Ninguém alcança a Verdade Suprema.

Naquele momento Subhuti dirigiu-se ao Buda e disse: – Honrado-Pelo-Mundo, se bons homens e boas mulheres buscam a Realização da Iluminação Incomparável, por quais critérios deveriam ater-se e como deveriam controlar seus pensamentos?

Buddha respondeu a Subhuti:

– Os bons homens e boas mulheres buscando a Realização da Iluminação Incomparável, devem fomentar essa atitude decidida da mente: Meu dever é liberar todos os seres viventes; entretanto, quando todos tenham sido liberados, de fato ninguém foi liberado. Por quê? Se um bodhisattva prende-se à idéia de uma ego-entidade, uma personalidade, um ser, ou uma individualidade separada, ele conseqüentemente não é um bodhisattva. Subhuti, a razão disto é que na realidade não existe uma fórmula que cause a Realização da Iluminação Incomparável.

Subhuti, o que pensas? Quando o Tathagata estava com Dipankara Buda, existia naquela ocasião qualquer fórmula para a obtenção da Realização do Incomparável Esclarecimento?”

– Não, Honrado-Pelo-Mundo, conforme entendo o significado de Buda, não existia uma fórmula pela qual o Tathagata logrou a Realização da Iluminação Incomparável.

Buda disse:

– Estás certo, Subhuti! Na verdade não houve uma fórmula através da qual o Tathagata atingiu a Realização da Iluminação Incomparável! Subhuti, se houvesse existido uma tal fórmula, Dipankara Buda não teria dito para mim: “Em épocas futuras chegarás a ser um Buda chamado o Shakyamuni”; mas Dipankara Buda fez tal predição sobre mim, porque de fato não há nenhuma fórmula para alcançar a Realização da Iluminação Incomparável. A razão é que o Tathagata é um símbolo abrangendo todos os métodos; Tathagata é um outro nome para a Verdade Suprema; Tathagata é um outro nome da não-cessação de existir; Tathagata é um outro nome para o não-nascer. Isso porque, Subhuti, o fato de não haver nascimento é a Verdade Suprema.

Se por acaso alguém afirmar que o Tathagata atingiu a Realização da Iluminação Incomparável, eu te digo honestamente, Subhuti, que não há nenhum método pelo qual o Buda a logrou. Subhuti, a base da obtenção do Tathagata da Realização da Iluminação Incomparável encontra-se totalmente além; nem é real nem irreal. Por isso digo que todas as esferas de formulações não são de fato tais, por isso são apenas chamadas: as esferas das formulações.

Subhuti, poderíamos fazer uma comparação com um corpo humano gigante.

Então disse Subhuti:

– O Honrado-pelo-Mundo declarou que tal não é um corpo grande; um corpo grande é apenas um nome dado.

– Subhuti, igualmente com relação ao bodhisattva. Se um bodhisattva proclama: “Eu liberarei todos os seres viventes”, ele não é corretamente chamado de bodhisattva. Por quê? Porque, Subhuti, de fato não há nenhuma condição como a do bodhisattva, uma vez que o Buda ensina que todas as coisas carecem de substância própria, carecem de personalidade própria, e carecem de uma individualidade separada. Subhuti, se um bodhisattva anunciar: “Eu exporei terras búdicas majestosas”, não pode ser chamado de bodhisattva, porque o Tathagata declarou que a exposição de tais terras búdicas majestosas não existe: “uma exposição de terras búdicas majestosas” é apenas um nome que se dá.

Subhuti, os bodhisattvas que carecem totalmente de idéias sobre um si mesmo separado são acertadamente chamados bodhisattvas.

 Seção XVIII.

Todas as formações mentais são na verdade só a mente.

– Subhuti, o que pensas? O Tathagata possui o olho humano?

– Sim, Honrado-Pelo-Mundo, Ele o possui.

– E acreditas que o Tathagata possui o olho do Dharma?

– Sim, Honrado-Pelo-Mundo, Ele o possui.

– E acreditas que o Tathagata possui o olho da Sabedoria Primordial?

– Sim, Honrado-Pelo-Mundo, Ele o possui.

– Subhuti, o que pensas? Com respeito aos grãos de areia do Ganges, o Buda deu ensinamento sobre eles?

– Sim, Honrado-Pelo-Mundo, o Tathagata ensinou sobre estes grãos.

Muito bem, Subhuti, se houvesse tantos rios Ganges quanto os grãos de areia do Ganges e se houvesse uma Terra Búdica para cada grão de areia de todos esses rios Ganges, seriam muitas Terras Búddhicas?

– Verdadeiramente muitas, Honrado-Pelo-Mundo!

Então disse Buda:

– Subhuti, por muitos que sejam os seres viventes que existam em todas essas terras búdicas, apesar de possuírem muitas e variadas formações mentais, o Tathagata compreende todas. Por quê? Porque o Tathagata ensina que todas essas formações não são a Mente; simplesmente as chamamos “mentais”. Subhuti, é impossível reter estados mentais passados, é impossível sustentar estados mentais presentes, e impossível apreender estados mentais futuros.

 Seção XIX.

A Realidade absoluta é a única Base.

– Subhuti, o que pensas? Se alguém enchesse três mil galáxias de mundos com os sete tesouros e os presenteasse como oferendas caritativas, ganharia grande mérito?

– Sim, Honrado-Pelo-Mundo, verdadeiramente obteria grande mérito!

– Subhuti, se tal mérito fosse real, o Tathagata não poderia declará-lo grande; porém como carece de Base, o Tathagata o designou como “grande mérito”.

 Seção XX.

A ilusão das distinções fenomênicas.

– Subhuti, o que pensas? Pode-se perceber o Buda por um corpo perfeitamente formado?

– Não, Honrado-Pelo-Mundo; o Tathagata não pode ser percebido por seu corpo perfeitamente formado, uma vez que o Tathagata ensina que um corpo perfeitamente formado não é realmente formado; simplesmente é chamado “um corpo perfeitamente formado”.

– Subhuti, o que crês? Pode-se perceber o Tathagata por meio de alguma característica fenomênica?

– Não, Honrado-Pelo-Mundo, o Tathagata não pode ser percebido por meio de nenhuma característica fenomênica, porque o Tathagata ensina que características fenomênicas não são realmente características fenomênicas; elas somente são chamadas “características fenomênicas”.

 Seção XXI.

Palavras não podem expressar a Verdade.

O que as palavras expressam não é a Verdade.

– Subhuti, não digas que o Tathagata concebe o pensamento: “Eu devo expor um Ensinamento”. Porque se alguém disser que o Tathagata expôs um Ensinamento, de fato está caluniando o Buda, e é incapaz de explicar o que ensino. Com relação a qualquer sistema [que pretenda declarar] a Verdade, diremos que a Verdade não é declarável; portanto, uma expressão da Verdade é só um nome dado”.

Ouvindo isto, Subhuti falou as seguintes palavras ao Buda:

– Honrado-Pelo-Mundo, em futuras épocas existirão homens que, procurem ouvir uma exposição deste Ensinamento, e ficarão inspirados com convicção?

E o Buda respondeu:

– Subhuti, aqueles a quem te referes nem são seres viventes nem não são seres viventes. Por quê? Porque, Subhuti, estes “seres viventes” não são realmente “seres viventes”; somente são chamados assim.

 Seção XXII.

Não se pode dizer que algo seja alcançável.

Então Subhuti perguntou ao Buda:

– Honrado-Pelo-Mundo, ao alcançar a Realização da Incomparável Iluminação, o Buda nada obteve?

Buda respondeu:

– Exatamente, Subhuti. Pela Realização da Incomparável Iluminação não adquiri nem a mínima coisa. Por esta razão é chamada “a Realização da Incomparável Iluminação”.

 Seção XXIII.

A prática das boas ações.

– Além disso, Subhuti, “Isto” está completamente em todos lugares, sem diferenciação nem graduação; por isso é chamada “Realização da Incomparável Iluminação”.

É atingida diretamente por meio da liberação das idéias sobre um si mesmo pessoal separado e do cultivo de todas as espécies de virtudes (paramitas).

Subhuti, embora falemos de “virtude”, o Tathagata declara que não existe nenhuma “virtude”; ela é apenas uma palavra.

 Seção XXIV.

O mérito incomparável deste ensinamento.

– Subhuti, se houver uma pessoa que oferecesse como caridade uma quantidade dos sete tesouros semelhante em volume a tantos Montes Sumerus como haveria em três mil galáxias de mundos, e se houver outra pessoa que selecionasse apenas quatro linhas deste Discurso sobre a Perfeição da Sabedoria Transcendental, recebendo-as e as retendo, e diariamente as explicasse aos outros, o mérito desta última seria tão superior ao primeiro que nenhuma comparação possível pode ser feita entre eles.

 Seção XXV.

A ilusão do ego.

– Subhuti, o que pensas? Que ninguém diga que o Tathagata incentiva a idéia “Devo liberar todos os seres viventes”. Não permitas tal pensamento, Subhuti. Por quê? Porque na realidade não existem seres viventes a serem liberados pelo Tathagata. Se existissem seres viventes para que o Tathagata os liberasse, ele participaria da idéia de um si mesmo, personalidade, ego-entidade, de, e uma individualidade separada.

Subhuti, embora as pessoas comuns tomem o ego como real, o Tathagata declara que o ego não é diferente do não-ego. Subhuti, aqueles aos que o Tathagata se refere com as palavras “pessoas comuns” não são realmente “pessoas comuns”; são apenas palavras.

   Seção XXVI.

O corpo da verdade não tem marcas.

 – Subhuti, o que pensas? O Tathagata pode ser reconhecido por meio de suas trinta e duas marcas?

Subhuti respondeu:

– Sim, certamente o Tathagata pode ser reconhecido por meio delas.

Então Buda disse:

– Subhuti, se o Tathagata pudesse ser reconhecido por meio de tais marcas, qualquer grande imperador seria igual ao Tathagata.

– Subhuti disse ao Buda em continuação:

– Honrado-Pelo-Mundo, segundo entendo o significado das palavras do Buda, o Tathagata não pode ser reconhecido por meio das trinta e duas marcas.

Com isso o Honrado-pelo-Mundo recitou este verso:

 “Aquele que vê minha forma,

Aquele que me busca no som,

Equivocados estão seus passos no Caminho,

Pois esses não podem encontrar o Tathagata”.

 

Seção XXVII.

É um erro afirmar que todas as coisas extinguem-se para sempre.

– Subhuti, se concebeis a idéia de que o Tathagata alcançou a Realização da Incomparável Iluminação Perfeita por causa de sua forma perfeita, não abrigues tais pensamentos. A realização do Tathagata não foi devido à sua forma perfeita. Subhuti, se concebes a idéia que alguém, no qual surge a Realização da Incomparável Iluminação Perfeita, declara que todas as leis manifestas estão terminadas e extintas, não sustentes tais pensamentos. Por quê? Porque o homem no qual surge a Realização da Incomparável Iluminação Perfeita não faz afirmações com respeito a nenhuma fórmula que esteja por fim extinta.

 Seção XXVIII.

O apego às recompensas pelos méritos.

– Subhuti, se um bodhisattva oferece caritativamente tanto volume dos sete tesouros como tantos mundos existem por cada um dos grãos de areia do rio Ganges, e outro, dando-se conta da insubstancialidade de todas as coisas, alcança a perfeição através da paciência compassiva, os méritos deste último serão superiores ao do primeiro. Por que é assim, Subhuti? É porque nenhum bodhisattva dá atenção as recompensas dos méritos.

Depois Subhuti perguntou ao Buda:

– A que se refere esta sentença, Honrado-Pelo-Mundo, de que os bodhisattvas são insensíveis às recompensas dos méritos?

E o Buda respondeu:

– Subhuti, os bodhisattvas que alcançam méritos não se apegam ao desejo de recompensas. Por isso se diz que as recompensas pelos méritos não são recebidas.

    Seção XXIX.

A perfeita tranquilidade.

–      Subhuti, se alguém dissesse que o Tathagata vem ou vai, senta-se ou reclina-se, ele não entendeu meu ensinamento. Por quê? Porque para o Tathagata não há “aonde” nem “desde onde”, por isso se chama Tathagata.

Seção XXX.

O princípio integrativo.

– Subhuti, se um bom homem ou uma boa mulher medissem em pó um número infinito de galáxias de mundos, seriam muitas as minúsculas partículas resultantes?”

Subhuti respondeu:

– Verdadeiramente muitas, Honrado-Pelo-Mundo! Por quê? Porque se elas realmente fossem minúsculas partículas, o Buda não teria se referido a elas como minúsculas partículas. Quanto a isso o Buda declarou que na realidade não são assim. “Minúsculas partículas” não é mais que um nome dado a elas. Alem disso, Honrado-Pelo-Mundo, quando o Tathagata fala de galáxias de mundos, seria um cosmos com existência própria, e o Tathagata ensina que na realidade não existe tal coisa. “Cosmos” é simplesmente uma forma de falar.

Então disse Buda:

– Subhuti, palavras não podem explicar a verdadeira natureza do cosmos. Somente as pessoas comuns, presas ao desejo, fazem uso deste juízo arbitrário.

Seção XXXI.

A verdade convencional deve ser evitada.

 – Subhuti, se alguém dissesse que Buda expõe um si mesmo qualquer que seja, considerarias que ele teria uma correta compreensão de meus ensinamentos?

– Não, Honrado-Pelo-Mundo, tal homem não teria uma compreensão real do ensinamento do Tathagata, pois o Honrado-Pelo-Mundo declara que as idéias de si mesmo, personalidade, entidade e individualidade separada, como realmente existentes são equivocadas: estes termos são meramente formas de falar.

Depois o Buda disse:

–      Subhuti, aqueles que aspiram à Realização da Incomparável Iluminação devem enfocar e compreender todos os fenômenos da mesma maneira, e impedir que surjam idéias parciais. Subhuti, e quanto às idéias, o Tathagata declara que na realidade elas não são assim. São apenas chamadas “idéias”.

Seção XXXII.

A ilusão das aparências.

 – Subhuti, alguém poderia encher mundos inumeráveis com os sete tesouros e dá-los como caridade, mas se qualquer bom homem ou qualquer boa mulher desperta o pensamento da Iluminação e toma somente quatro linhas deste Dharma, recitando-as, usando-as, recebendo-as, retendo-as e estendendo-as e explicando-as para o benefício dos demais, seria muito mais proveitoso.

Pois bem, de que maneira se poderia explicá-las aos outros? Através do desapego às aparências permanecendo na Verdade Real.

Assim, devem considerar tudo deste mundo efêmero:

 Uma estrela ao amanhecer, uma borbulha em um riacho;

Um relâmpago em uma nuvem de verão,

Uma chama vacilante, uma sombra, e um sonho.

 Nota:

(1)       Segundo a tradição popular, nos primeiros quinhentos anos após a morte de Buda, o Dharma por ele pregado seria firmemente ensinado e compreendido por muitos; esse primeiro período é chamado “Período da Verdadeira Lei”. No segundo período – os últimos quinhentos anos – uma decadência da compreensão do Dharma ocorreria, impedindo a Iluminação; esse último período é chamado “Período da Imagem da Lei”. Seguir-se-ia depois um período de total impedimento da compreensão do Dharma, chamado “Período do Fim da Lei”.

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