Os fundamentos do budismo


OS FUNDAMENTOS DO BUDISMO

Jamgon Kongtrul Rimpoche III

O objetivo principal de todas as tradições espirituais é o mesmo, isto é, levar compreensão e bem-estar à vida de todos. Mas, ainda que tenham os mesmos objetivos, cada tradição espiritual tem uma abordagem característica. Hoje, falarei sobre o que chamo de tradição budista.
Há quem pense que o budismo é uma religião oriental, um produto do Oriente, ou de um conjunto de culturas orientais. Quando se associa budismo com Tibet ou tibetanos, pensa-se que o budismo é tibetano. O budismo não é uma crença ou tradição numa cultura, ou seja, não é nem especificamente oriental nem especificamente tibetano. O budismo é mais do que crença associada a uma cultura. O fundamento do budismo é a compreensão da natureza básica das coisas e dos fenômenos. Assim, os ensinamentos budistas tratam da natureza das coisas e da premissa de que cada indivíduo, sem exceção, tem potencial para experienciar a sanidade total inerente a todos os seres. Assim, o budismo não é apenas uma crença levada a sério por certas pessoas ou grupos, mas um acúmulo de conhecimentos e experiências da natureza e do potencial dos seres.

Os ensinamentos budistas adaptam-se a todos os contextos culturais, por tratarem simplesmente da natureza fundamental da experiência, e assim, filosoficamente, o budismo está além de qualquer forma condicionada. Pode-se também dizer, a verdade absoluta ou suprema está além da forma condicionada.

Toda forma condicionada está sujeita a mudanças, e o que está sujeito a mudanças não contém verdade absoluta. Não pode haver duas verdades absolutas, ou, então, não são absolutas. Mas a visão filosófica precisa ser realizada para que se possa experienciar a verdade absoluta. Quando falamos de experienciar, não é especulação ou conjectura, mas sim uma postura intelectual em que se determina que “deve ser assim”. Contudo, a experiência fala por si. Quando procuramos integrar a perspectiva filosófica às práticas específicas do cotidiano, e com os nossos propósitos íntimos, no contexto da nossa realidade relativa, associa-se a forma. E, como na prática de toda forma, a tradição budista pode parecer uma religião ou uma crença.

Cada um de nós, no entanto, deseja ardentemente se libertar do sofrimento e da dor. Assim, ao nos dedicarmos a qualquer atividade queremos avançar, libertando-nos cada vez mais do sofrimento. E, enquanto continuamos na busca, é muito raro sermos bem sucedidos ou nos contentarmos com o que alcançamos. Às vezes nos sentimos bem, mas por trás da satisfação pessoal há uma sutil insatisfação. Quanto mais sucesso encontramos, maior a insatisfação, menor a moderação. Por causa de certos hábitos da nossa mente não somos capazes de estabelecer limites, e dessas insatisfações nos vem mais sofrimento. Isto não é uma força de expressão, mas vem da experiência e nossas vidas o comprovam.
Por que não alcançamos a felicidade que perseguimos sem cessar? Porque partimos de uma confusão muito grande sobre o que é o sofrimento. Tentamos nos livrar do sofrimento, da sensação de sofrimento, mas não sabemos nem compreendemos o que deve ser feito. Nunca nos damos a oportunidade, nunca encontramos o conhecimento que permite observar o que causa o sofrimento. Porque, se não nos libertarmos da causa do sofrimento, tentar fugir da sensação de sofrimento é como arranhar uma superfície, não chegamos ao problema fundamental. Em geral, tentamos evitar a sensação de sofrimento. Temos a idéia de que é errado sofrer, de que existe fora de nós algo real do qual não devemos nos aproximar. Mas por mais que se queira fugir da sensação de sofrimento, se não nos libertarmos da causa do sofrimento nunca nos libertaremos da sensação de sofrimento. Por isso, temos uma idéia muito errada de que devemos nos livrar do sofrimento e não da causa do sofrimento, de que o sofrimento é criado externamente. As circunstâncias exteriores podem influir, mas não são, de forma alguma, as causas do sofrimento. O grau de influência que as circunstâncias externas podem ter sobre nós depende do quanto vamos deixar que elas nos influenciem. A primeira das Quatro Nobres Verdades, conhecidas como o primeiro ensinamento do Buda Sakiamuni, é que precisamos conhecer e compreender o sofrimento. Compreender a verdade do sofrimento. Ele não disse “livrem-se do sofrimento”, mas “compreendam a verdade sobre o sofrimento”. E o que será que o Buda Sakiamuni quer dizer com “compreendam a verdade sobre o sofrimento?”

Se pudermos compreender a verdade sobre o sofrimento, temos a virtude de poder começar a compreender a causa do sofrimento. O sofrimento não acontece simplesmente, o sofrimento tem a sua causa, como todas as coisas. Devido à natureza interdependente de todas as coisas, não há conseqüência sem causa. Assim, na segunda Nobre Verdade, o Buda Sakiamuni disse que precisamos nos livrar das causas do sofrimento. As causas do sofrimento são padrões conflitantes de emoção e carma. Nossas várias tendências habituais são fruto da ignorância. Quando nos referimos à ignorância, queremos dizer a noção de um eu ou ego que tenha existência inerente. Devido à idéia da existência do si-mesmo, do eu ou do ego, automaticamente nos vem a fixação referencial da noção do outro, da permanência do sujeito e do objeto, ou, em outras palavras, a noção dualista de eternalismo e niilismo.

Nossa tendência normal é acreditar que as coisas, ou o que quer que seja, existem permanentemente. Daí crermos no eternalismo. Mas nada é permanente e quando vem a mudança, somos abalados por termos acreditado na permanência. Mas a realidade não confirma o que pensamos. Portanto, não é a mudança que nos traz o sofrimento, é o fato de crermos na permanência, no eternalismo. Não temos a compreensão de que os fenômenos existem interdependentemente. Tudo existe interdependentemente, e o que existe interdependentemente não tem permanência. Portanto, ou cremos na permanência de tudo ou vamos para o outro extremo, acreditando na não-existência de tudo, e caímos no niilismo.

Vivemos num conflito entre o eternalismo e o niilismo, dissociados da realidade fundamental, da natureza das coisas. Este conflito é causado por tendências habituais ou fixações dualistas.
Por crermos nesta fixação habitual da permanência do sujeito, na noção de permanência do objeto e na separação de ambos, temos toda espécie de atitude errônea, como raiva, agressão, desejo. Estas fixações nos levam a agir de forma confusa, nos envolvendo em todo tipo de ações nefastas do corpo, da palavra e da mente, que contribuem para o acúmulo de tendências habituais. Quanto mais hábitos confusos acumularmos, mais ações nefastas surgirão sem que se tenha qualquer controle.

Desta forma, um certo hábito ou círculo vicioso se inicia. Pensamos que, como seres humanos, somos medianamente espertos, temos algum controle sobre nossas vidas, tomamos nossas próprias decisões e decidimos e agimos livremente. Se o nosso desejo é experimentar mais dor, então nossas decisões se aplicam muito bem. Contudo, não tomamos decisões fundadas na liberdade e na sabedoria, mas as tomamos com base na confusão e somos levados pela confusão que nos engana. Somos permanentemente atraídos pelas nossas próprias confusões. Um exemplo patente sobre o que estamos falando é o caso da ira. Ninguém tem o desejo sincero de ficar zangado. Se pensarmos, “quero mesmo ficar zangado”, provavelmente não nos zangaremos. Mas, por causa da força das nossas tendências habituais, ficamos zangados e não temos qualquer controle sobre esta emoção. Ainda que pensemos que, como seres humanos, controlamos as atividades das nossas vidas, quando zangados dizemos coisas pouco inteligentes e confusas. Assim, já não sabemos o que estamos dizendo. Se ficarmos mais zangados nosso corpo começa a tremer, e nós, que valorizamos a compostura, temos de confessar que o tremor não é uma expressão de controle. É a experiência da ira.

Mas depois do trauma passa a distorção e refletimos sobre o que aconteceu. Se formos um pouco sábios pensamos, em voz alta ou não, “eu não fiz bem”. Fica claro que seria melhor não ter dito o que foi dito. Ficamos desolados com o que fizemos naquele estado. E nenhuma pessoa normal diria para alguém que acaba de sair de uma crise de fúria: “Que barato!” Pois a ação não foi praticada sob controle. Se assim fosse, teríamos feito algo bom. Por ser extremamente desagradável, dolorosa e perturbadora, nenhuma pessoa sensata lhe aconselharia a “curtir sua ira”.
Tanto para você como para os outros, a ira nunca é uma expressão de controle. Experimentamos a vida dominados por nossas tendências habituais. Nossa vida é a moldura dessas tendências. A sensação de sofrimento vem da vivência em nossas mentes de nossos hábitos confusos.

Segundo a tradição budista, se não formos capazes de lidar com as nossas tendências habituais, se não formos capazes de gradativamente nos livrar das muitas tendências habituais de nossas vidas, nunca experimentaremos a libertação do sofrimento ou a felicidade. Tentar modificar o que está fora não nos servirá de nada, porque a forma como vemos e reagimos às coisas é resultado de nossas projeções mentais. Para nos libertarmos das nossas tendências habituais, precisamos desenvolver a estabilidade de uma mente alerta, já que não temos controle sobre o que fazemos.

Para experimentar maior estabilidade da mente e libertação da confusão recomenda-se a prática da meditação. Meditação, na tradição budista, significa desenvolver hábitos mentais saudáveis e, gradualmente, através deles, uma visão mais profunda da natureza não-condicionada e sem distorções da nossa mente. E aqui está o problema: por acreditar o tempo todo que o problema é externo, você está projetando para o exterior o problema interior.

Na tradição da prática da meditação há várias etapas, segundo a necessidade e a capacidade de cada um. Em geral, procura-se desenvolver a estabilidade e a clareza da mente ou técnicas que possam acentuar tais aspectos, e com este tipo de trabalho de base compreender a importância de desenvolver a bondade. Primeiro, é muito importante que se reconheça que todo o sofrimento vem de nosso interior, dos hábitos de nossa mente, e que o potencial para nos libertarmos do sofrimento também vem de nosso interior. Muita gente pensa que isso está fora de seu controle, não age e sente-se insignificante, quando na verdade temos a capacidade de vir a ser totalmente despertos e iluminados. A essência dos ensinamentos de Buda Sakiamuni é, nas suas próprias palavras, “Não cometer um único ato nefasto”. Isto quer dizer agir de forma que nenhuma ação seja motivada por apego egoísta, e não prejudicar os outros. Em outras palavras, não deixar que a mente seja levada pelas emoções conflitantes ou tendências habituais. Devemos perseverar para agir com total desapego.

Quer dizer, precisamente aquilo que nos for mais precioso será igualmente precioso para os outros. Na mesma medida em que queremos ser felizes e nos libertar do sofrimento, precisamos reconhecer que os outros têm exatamente a mesma aspiração. Portanto, por amor, por compaixão, fazer tudo que estiver ao nosso alcance para ajudar os outros, abandonar tudo que for nefasto e dedicarmo-nos as ações virtuosas. Estaremos, assim, cultivando a experiência da mente totalmente apaziguada, que é a expressão da total não-agressividade e docilidade incondicional.

A doutrina é alcançar este estado da mente, disse o Buda. Não existe outra doutrina ou verdade. Seria excelente se vocês fossem capazes de trabalhar suas mentes na prática da meditação. É importante sentar um pouco sozinho e, em vez de procurar sempre conhecer os outros, começar a se conhecer um pouco mais. Já que temos de conviver conosco mesmos, é melhor nos conhecermos um pouco. Talvez ainda tenhamos uma surpresa agradável.

Temos mais recursos do que pensamos. Como dizem os ensinamentos, o estado búdico, a iluminação, é para nosso próprio proveito. Não é algo distante, que temos de esperar até alguém nos fazer o favor de trazer. A questão é saber se somos capazes de reconhecer todo o nosso potencial. O auto-conhecimento não é apenas uma grande responsabilidade para cada um de nós. A oportunidade, assim como o suporte e o acompanhamento, também estão aqui. E não apenas para que cada um se conheça melhor. Quanto mais verdadeiramente bem nos sentirmos, mais verdadeiramente bondosos seremos para com os outros.

Ao recomendar a prática da meditação, não estou dizendo a ninguém que se converta ao budismo. Qualquer um pode meditar, desde que tenha uma mente e conheça o método.

Perguntas e Respostas

P. Como o budismo explica o sentimento de culpa?
R. Depende do que você entende por culpa. Se tiver consciência de ter feito algo de mal trata-se de culpa e deve ser elaborado, para que este tipo de ação confusa não se repita. Quando é assim, o sentimento de culpa é positivo. Se você crê que fez algo de mal e sente-se culpado, mas não sabe de que, então é ignorância. Por outro lado, se sente-se culpado e continua com esta sensação de culpa, sem elaborar sobre ela, então você está apenas acumulando o hábito de sentir-se culpado.

P. O que é a felicidade? O senhor é feliz?
R. Segundo os ensinamentos do Buda, a verdadeira felicidade se encontra além do apego à felicidade ou da ausência de felicidade. Se você está apegado a felicidade, você já não é feliz. Porque, como já dissemos, tudo o que existe está inter-relacionado. Por causa do apego à felicidade encontramos a infelicidade. O que está no alto tem de baixar, o que está embaixo tem de subir, o que é curto fica comprido, o que é comprido fica curto. Portanto, se a felicidade consiste em chegar a qualquer parte, também quer dizer que tem voltar. Nesse contexto, a verdadeira felicidade está além da experiência da verdadeira felicidade. Além do reino dos conceitos. Isto responde sua pergunta?

P. Ele quer saber se o senhor é feliz.
R. Espero que sim. Em outras palavras, se a felicidade está para além dos conceitos, como posso saber se sou feliz? O que está para além dos conceitos não pode ser verbalizado.

P. Pode haver felicidade no casamento?
R. Depende do estado da sua mente. O relacionamento em si não tem nada de positivo nem de negativo. O significado que ele tem para você, o seu objetivo, tudo depende apenas da sua mente. Você faria também uma boa monja, sabe?


Jamgon Kongtrul Rimpoche III – Primeiro grande mestre vajraiana a visitar o Brasil, sustentador do movimento ecumênico budista Rime [não-sectário], e fundador do mosteiro da linhagem Karma Kagiu no Rio de Janeiro. Texto editado por Bodisatva a partir da palestra de 2 de dezembro de 1989, no Condomínio Mandala, Rio de Janeiro, traduzida por Nhandup Burkhar.


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