As experiências, a realização e os quatro yogas


por Lama Denys
Extrato do livro: "DHARMA – la voie du Bouddha – Mahamudra-Dzogchen"
Tradução p/ português: Karma Tenpa Dhargye

Aqui são apresentadas as maneiras justas de abordar, de compreender e de viver as experiências espirituais assim como os desvios que elas possam induzir. É também precisar a distinção entre uma experiência temporária e uma realização estável, esta é a entrada nos quatro yogas de Mahamudra, quatro etapas que percorre o yogui autêntico até o pleno e perfeito despertar.

A prática ao evoluir, um certo número de experiências a balizam. Podemos distinguir três ou quatro tipos principais: as experiências de agitação, de felicidade, de claridade e de vacuidade.

Uma frase célebre de Naropa diz: "Quando a água não é agitada, ela é límpida; quando a mente é deixada sem opressão, ela é feliz". Todas as espécies de experiência de felicidade podem aparecer e é dito que a intensidade da felicidade d’um orgasmo sexual é muito pouco em comparação a esse tipo de felicidade. Um orgasmo cósmico!

Há também todo um registro de experiências ditas de claridade, de luminosidade…Diferentes tipos de experiências luminosas que são também sinais de uma certa proximidade do estado natural, do corpo absoluto ou da experiência primordial…

A último tipo de experiência é a ausência de concepção, das experiências ditas também de vacuidade, de abertura, de não-suporte…

As experiências de agitação surgem no reencontro de certos aspectos ocultos de nós-mesmos. Na prática, nossos processos habituais de defesa, de recalque de inibição são abandonados e todas as espécies de elementos podem voltar a subir e dar lugar a experiências ditas agitadas.

É importante aqui distinguir as experiências induzidas e aquelas livres de constrangimentos [obstáculos], essas últimas são as únicas que tem um interesse em uma vida espiritual. Sob formas grosseiras ou sutis de autosugestão, de indução é possível conduzir, mesmo à sua revelia, não importa que tipo de experiências. "Vós sabeis que sereis um bom meditante quando tenhais obtido tal ou tal sinal e, ao fim de alguns meses ou anos, os sinais e as experiências aparecem!".

As únicas experiências que tem um valor são aquelas que não são buscadas e, mesmo se as experiências autênticas se manifestem, convém não lhes atribuir uma importância particular. O apego e o medo são as primeiras reações e os principais obstáculos. Quando uma experiência chega, há bastante fascinação, mas diante do desconhecido radical que ela representa, há freqüentemente um momento de pânico: voltamos a nos agarrar. Face as experiências, é importante ter uma confiança absoluta, "sem igual", que nos permita nos abandonar, sem esperança e sem temor – sem esperança de se tornar desperto e sem temor de ficar louco, sem temor que a experiência acabe e sem esperança que ela continue. Se há apego, neste momento, a abertura desaparece, o estado natural que havia permitido a esta expressão da mente pura de se revelar desaparece. Do mesmo modo se, após ter conhecido algum instante de experiência intensa, guardamos nostalgia e tentamos a reproduzir, esta tentativa é o obstáculo mesmo que impede o retorno.

É dito que o apego a essas experiências de bem estar ou de felicidade é a causa d’um renascimento no mundo dos desejos em estados divinos, certamente, mas do mundo do desejo.

Se experimentarmos uma grande claridade e nos apegarmos a ela, isso nos condiciona para o renascimento no mundo da forma pura.

Igualmente, o apego às experiências de não-pensamento – "o espaço infinito", "a consciência infinita", "a experiência além de tudo" e mesmo a experiência "de ausência de percepção e de não-percepção" – as tomar como pontos de apoio, referências, são ainda a causa de renascimentos nos estados samsáricos chamados "os quatro domínios do sem forma": "o espaço infinito", "a consciência infinita ", "o domínio onde não há nada" e "o domínio sem concepção nem não-concepção".

Isso simplesmente pode sugerir que a prática justa é muito sutil e necessita um engajamento completo.

Dizemos as vezes que é muito fácil receber os ensinamentos de Mahamudra, mas bastante difícil é ser um discípulo do Mahamudra. Se conduzirmos a prática à uma compreensão e que dizemos: "é isso, já compreendi", estamos n’uma situação muito perigosa. Ultrapassar esta forma de arrogância é muito importante. Um outro perigo também é de compreender muitos ensinamentos e de se tornar alguém insensível. O Dharma é as vezes comparado a um óleo que tem a propriedade de amaciar, de tornar flexíveis todas as peles… – é uma imagem tibetana – mas a pele que se absteve muito tempo do óleo, a pele desse outro é rígida como madeira.

Na progressão, as experiências são esclarecimentos, instantes fugitivos durante os quais a claridade filtra através das nuvens. Isso é diferente da realização. Na imagem do céu e das nuvens, a realização é o momento onde todos os véus, todos os estratos nebulosos se dissipam e onde o espaço e a claridade, a clara luz da mente são tornados uma experiência estável e permanente.

Esta progressão é apresentada tradicionalmente nos quatro "quatro yogas do Mahamudra", os quatro níveis de união ou de integração da experiência Mahamudra, a saber: "tse chik", "a unicidade"; "tre drel", além dos conceitos; "ro chik", o sabor único; "gom me", a não-meditação.

O primeiro dos quatro yogas começa quando, sobre a base do duplo desenvolvimento, somos introduzidos à natureza da mente por uma apresentação, um "ngo tro": reconhecemos a experiência imediata. O encaminhamento nesse yoga da unificação depende de nossa estabilidade. A mente de imediaticidade é alguma coisa da qual podemos ter a intuição, ou alguma coisa que podemos muito rapidamente, sub-repticiamente, entrever. Não é alguma coisa que possa ser praticada, que a possamos manter. A tentativa mesma de a apreender ou de a manter é isso que a faz desaparecer.

A mente da imediaticidade, esta mente "comum" pode ser cultivada por uma capacidade em voltar freqüentemente à abertura luminosa, este estado de liberdade, de não-fixação que é sua natureza. No nível da prática de Mahamudra, a chamada é de se re-imergir, se podemos dizer, de mergulhar novamente nas experiências da mente ilimitada.

De breves instantes, freqüentemente repetidos que, progressivamente, estabelecem na prática uma certa continuidade e uma certa regularidade. Quando a freqüência dos pontilhados se tornam suficientemente elevados, se estabelece uma espécie de linha continua, uma certa continuidade.

De fato os quatro yogas comportam cada um três níveis: inferiores, intermediários, e superiores. É nesse sentido que é perfeita a menção de doze etapas. Aqui é a estabilidade da experiência que nos faz passar através dos níveis inferior, intermediário, superior desse yoga de unificação. O nível superior é o momento onde a experiência de imediaticidade integra tanto a meditação sentada como a meditação em ação e, no limite, o sonho e o sono.

O segundo yoga, "não-concepção" ou "simplicidade" entendida como a experiência liberada do mental, dos conceitos e das representações, é a realização verdadeira da vacuidade. É a primeira realização autêntica desta, que é ao mesmo tempo o momento da liberação inicial. A ilusão foi vista e a visão direta desta nos libera de seu poder alienante. Há uma rachadura, uma fenda no mecanismo auto-sustentador da ilusão. Resta-nos ainda algumas ilusões e algumas marcas, mas que não podem senão ir se dissolvendo pouco a pouco. Uma imagem compara a mente a uma caixa contendo uma substância malcheirosa. Ao chegar a esta experiência de simplicidade, a caixa é aberta e o que havia de poluente, de nauseabundo foi embora, mas resta ainda uma certa impregnação. Do mesmo modo, a fonte das ilusões tendo desaparecido, as impregnações delas vão se dissipar progressivamente, antes de desaparecer completamente. O que corresponde às duas etapas seguintes. A realização desta estado de simplicidade corresponde, no mahayana, à "primeira terra do bodhisattva". É a experiência liberadora do samsara: a partir desse nível, não há mais que uma saída para o alto.

O terceiro yoga, "único sabor", é a integração de Mahamudra no qual há uma fusão não-dual, intima, entre as aparências e a mente. Aparência e mente não são mais duas. O "único sabor" a que aludimos é o sabor da vacuidade de toda aparência, ou ainda o sabor de Mahasukha, da feleicidade que impregna, que é onipresente em toda experiência. O sabor se torna a não-dualidade. [vacuidade-luminosidade]

O quarto yoga, "não-meditação" é o ultrapassar último de toda noção de meditante ou de meditado, de ator, de agir e de ação. Aí também, existem três níveis, o nível superior correspondendo ao estado de Budha, a realização de Budha, a "décima terra" na classificação mahayana, ou o que chamamos na tradição Dzogchen, "a grande perfeição", o esgotamento de Dharmata.


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