A experiância, a realização e os quatro Yogas

Lama Denys
Extrato do livro: “DHARMA – La Voie du Bouddha – Mahamudra-Dzogchen”
Tradução p/ português: Flávio Capllonch Cardoso


Aqui são apresentadas as maneiras justas de abordar, de compreender e de viver as experiências espirituais assim como os desvios que elas possam induzir. É preciso também distinguir entre uma experiência temporária e uma realização estável, esta é a entrada nos quatro yogas do Mahamudra, quatro etapas que percorre o yogui autêntico até o pleno e perfeito despertar.

A prática ao evoluir, é balizada por certo número de experiências. Podemos distinguir três ou quatro tipos principais: as experiências de agitação, de felicidade, de claridade e de vacuidade.

Uma frase célebre de Naropa diz: “Quando a água não é agitada, ela é límpida; quando a mente é deixada sem opressão, ela é feliz”. Todas as espécies de experiências de felicidade podem aparecer e é dito que a intensidade da felicidade de um orgasmo sexual é muito pouco em comparação a esse tipo de felicidade. Um orgasmo cósmico!

Há também todo um registro de experiências ditas de claridade, de luminosidade… Diferentes tipos de experiências luminosas que são também sinais de uma certa proximidade do estado natural, do corpo absoluto ou da experiência primordial…

O último tipo de experiência é a ausência de concepção, das experiências ditas também de vacuidade, de abertura, de não-suporte…

As experiências de agitação surgem no reencontro de certos aspectos ocultos de nós-mesmos. Na prática, nossos processos habituais de defesa, de recalque, de inibição, são abandonados e todas as espécies de elementos podem emergir e dar lugar a experiências ditas agitadas.

É importante aqui distinguir as experiências induzidas e as livres de constrangimentos, essas últimas são as únicas que têm um interesse na vida espiritual. Sob formas grosseiras ou sutis de auto-sugestão, de indução é possível conduzir, mesmo à revelia, não importa que tipo de experiências. Vós sabeis que sereis um bom meditante quando obtiveres este ou aquele sinal e, ao cabo de alguns meses ou anos, os sinais e as experiências aparecerem!

As únicas experiências que tem valor são aquelas que não são buscadas e, mesmo se as experiências autênticas se manifestarem, convém não lhes atribuir uma importância particular. O apego e o medo são as primeiras reações e os principais obstáculos. Quando uma experiência chega, há bastante fascinação, mas diante do desconhecido radical que ela representa, há freqüentemente um momento de pânico: voltamos a nos agarrar. Face as experiências, é importante ter uma confiança absoluta, “sem igual”, que nos permita nos abandonar, sem esperança e sem temor – sem esperança de se tornar desperto e sem temor de ficar louco, sem temor que a experiência pare e sem esperança que ela continue. Se há apego, neste momento, a abertura desaparece, o estado natural que havia permitido esta expressão da mente pura revelar-se desaparece. Do mesmo modo se, após ter conhecido algum instante de experiência intensa, guardamos nostalgia e tentamos reproduzi-la, esta tentativa é o próprio obstáculo que impede o retorno.

É dito que o apego a essas experiências de bem estar ou de felicidade é a causa de um renascimento em estados divinos, certamente, mas do mundo do desejo.

Se experimentarmos uma grande claridade e nos apegarmos a ela, isso nos condiciona para renascer no mundo da forma pura.

Igualmente, o apego às experiências de não-pensamento – “o espaço infinito”, “a consciência infinita”, “a experiência além de tudo” e mesmo a experiência “de ausência de percepção e de não-percepção” – tomá-las como pontos de apoio, referências, são ainda as causas de renascimentos nos estados samsáricos chamados “os quatro domínios do sem forma”: “o espaço infinito”, “a consciência infinita”, “o domínio onde não há nada” e “o domínio sem concepção nem não-concepção”.

Isso simplesmente pode sugerir que a prática certa é muito sutil e necessita um engajamento completo.

Dizemos às vezes que é muito fácil receber os ensinamentos do Mahamudra, mas bastante difícil é ser um discípulo do Mahamudra. Se conduzirmos a prática a uma compreensão e dissermos: “É isso, já compreendi”, estamos em uma situação muito perigosa. Ultrapassar esta forma de arrogância é muito importante. Um outro perigo também é compreender muitos ensinamentos e se tornar alguém insensível. O Dharma é às vezes comparado a um óleo que tem a propriedade de amaciar, de tornar flexíveis todas as peles… – é uma imagem tibetana – mas a pele que conteve muito tempo o óleo, é rígida como madeira.

Na progressão, as experiências são esclarecimentos, instantes fugitivos durante os quais a claridade se filtra através das nuvens. Isso é diferente da realização. Na imagem do céu e das nuvens, a realização é o momento onde todos os véus, todos os estratos nebulosos se dissipam e onde o espaço e a claridade, a clara luz da mente são tornados uma experiência estável e permanente.

Esta progressão é apresentada tradicionalmente nos “Quatro Yogas do Mahamudra”, os quatro níveis da união ou da integração da experiência Mahamudra, a saber: “tse chik”, “a unicidade”; “tre drel”, além dos conceitos; “ro chik”, o único sabor; “gom me”, a não-meditação.

O primeiro dos quatro yogas começa quando, sobre a base do duplo desenvolvimento, somos introduzidos à “natureza da mente” por uma apresentação, um “ngo tro”: reconhecemos a experiência imediata. O encaminhamento nesse yoga da unificação depende de nossa estabilidade. A mente do imediato é alguma coisa que podemos intuir, ou alguma coisa que podemos muito rapidamente, sub-repticiamente, entrever. Não é alguma coisa que pode ser praticada, que podemos manter. A própria tentativa de apreendê-la ou de mantê-la é isso que a faz desaparecer.

A mente do imediato, esta mente “comum” pode ser cultivada por uma capacidade de voltar freqüentemente à abertura luminosa, a este estado de liberdade, de não-fixação que é sua natureza. No nível da prática de Mahamudra, o apelo é de se re-imergir, se assim podemos dizer, de mergulhar novamente nas experiências da mente ilimitada.
Breves instantes, freqüentemente repetidos, progressivamente, estabelecem na prática certa continuidade e certa regularidade. Quando a freqüência dos pontilhados se torna suficientemente elevada, se estabelece uma espécie de linha continua, uma certa continuidade.

De fato os quatro yogas comportam cada um três níveis: inferior, intermediário, e superior. É nesse sentido que é perfeita a menção de doze etapas. Aqui é a estabilidade da experiência que nos conduz através dos níveis inferior, intermediário, e superior desse yoga da unificação. O nível superior é o momento em que a experiência do imediato, do momento presente, integra tanto a meditação sentada como a meditação em ação e, no limite, o sonho e o sono.

O segundo yoga, “não-conceituação” ou “simplicidade” entendido como a experiência liberada do mental, dos conceitos e das representações, é a realização verdadeira da vacuidade. É a primeira realização autêntica desta, que é ao mesmo tempo o momento da liberação inicial. A ilusão foi vista e a visão direta desta nos libera de seu poder alienante. Há uma rachadura, uma fenda no mecanismo auto-sustentador da ilusão: restam-nos ainda algumas ilusões e algumas marcas, mas que podem ir se dissolvendo pouco a pouco. Uma imagem compara a mente a uma caixa contendo uma substância malcheirosa. Ao chegar a esta experiência de simplicidade, a caixa é aberta e o que havia de poluente, de nauseabundo foi embora, mas resta ainda certa impregnação. Do mesmo modo, desaparecendo a fonte das ilusões, as suas impregnações vão se dissipar progressivamente, antes de desaparecer completamente. O que corresponde às duas etapas seguintes. A realização deste estado de simplicidade corresponde, no mahayana, à “primeira terra do bodhisattva”. É a experiência liberadora do samsara: a partir desse nível, só há saída para o alto.

O terceiro yoga, “único sabor”, é a integração de Mahamudra no qual há uma fusão não-dual, íntima, entre as aparências e a mente. Não há mais, de um lado, um mundo aparente e, do outro, a mente. Aparência e mente não são mais duas. O “único sabor” ao qual aludimos é o sabor da vacuidade de toda aparência, ou ainda o sabor de Mahasukha, da felicidade que impregna, que é onipresente em toda experiência. O sabor torna-se a não-dualidade.

O quarto yoga, “não-meditação” é o ultrapassar último de toda noção de meditador ou do meditado, do ator, do agir e da ação. Aí também, existem três níveis, o nível superior correspondendo ao estado de Budha, a realização de Budha, a “décima terra” na classificação mahayana, ou é o que chamamos na tradição Dzogchen, “a grande perfeição”, o esgotamento do Dharmata.

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