Grande perfeição

Texto extraído do livro: “Tantric Practice in Nyingma”
de Khetsün Sangpo Rinpoche

Como a base da Grande Perfeição (Dzogchen) é identificada? Não é suficiente identificar a base meramente como a pureza essencial (tib. kadag / ka dag) ou apenas como a espontaneidade (tib. hlündrub / lhun grub), mas como uma união de ambas. A pureza essencial é apresentada do ponto de vista do modo-de-ser (tib. nelug / gnas lugs), a vacuidade; porém, ao contrário da vacuidade de aniquilação mantida pelos niilistas, todos os atributos auspiciosos estão espontaneamente estabelecidos, e deste ponto de vista, a espontaneidade é positiva. Todos os karmas virtuosos e não-virtuosos são plantados na base-de-tudo (sânsc. alaya). Quando realizada, ela causa o atingimento do estado búddhico; quando não, os seres sencientes vagam no samsara. Apesar de ser a base do erro, é o erro que deve ser abandonado, não a base. Quando uma batalha é travada, é o inimigo que deve ser derrotado, não a área da luta. Do mesmo modo, não há como esta base possa ser destruída. Até que seja vívidamente realizada, palavras são usadas como sinais que causam a realização, mas as palavras não são a realização.

No Nyingma, os dois aspectos da expansão vazia e da sabedoria estão tão completamente unidos que eles não se dissolvem numa união ou separação. Esta união não precisa ser novamente produzida, mas sempre foi vista; é imutável como vajra, que é um símbolo para o que não pode ser simbolizado – estável, duro, inobstrutível, imutável, indestrutível e inquebrável.

Há dois modos de prática: o súbito e o gradual. O modo súbito é para alguém que, por muitas vidas, acumulou as necessárias ações e predisposições e, então, quando recebe a iniciação e a identificação da realidade pelo lama, atinge alta realização. O modo gradual, por outro lado, não é aquele dos sistemas do sutra, nos quais se atinge a iluminação apenas após incontáveis éons de prática, mas sim aquele para alguém no Vajrayana que completa as qualidades auspiciosas, finalizando os estágios (sânsc. bhumi) e caminhos (sânsc. marga) gradualmente, até mesmo em uma única vida. Porém, quando ele identifica a realidade, é capaz de progredir ao longo destes caminhos simultaneamente, mas tem de prosseguir em etapas. Assim, mesmo o caminho gradual não é necessariamente longo.

Quando Milarepa recebeu pela primeira vez o ensinamento da Grande Perfeição, pensou que poderia atingir o estado búddhico sem meditação. Ele permaneceu relaxado, sem meditar, e assim não atingiu qualquer desenvolvimento mental. Então, quando seu lama testou-o e descobriu que Milarepa não tinha feito qualquer progresso, ele disse, “Cometi um erro. Apesar da Grande Perfeição ser inconcebível, você é muito negligente e não está preparado para esta doutrina fácil. Você terá de proceder com grande dificuldade sobre o caminho gradual. Portanto, você deve ir para o sul, consultar o tradutor Marpa e tomar o difícil caminho gradualista. Você falhou no caminho fácil para a iluminação”.Assim, o lama mandou-o embora e Milarepa sofreu dificuldades incontáveis, mas através do poder de seu esforço devotado, foi capaz de atingir o estado búddhico.

Milarepa disse ao seu supremo discípulo Gampopa, que recebeu todos os seus ensinamentos, que ao partir lhe concederia sua instrução final e quintessencial. Gampopa sabia que Milarepa tinha lhe transmitido tudo o que ensinava, como se tivesse despejado a água de um pote para outro, e ficou surpreso sobre o que poderia ser esta doutrina mais profunda. Depois, quando estava para partir, ele lembrou Milarepa sobre esta instrução final. Milarepa disse, “Ó, sim, é isto”, e puxou seu manto, revelando que suas nádegas estavam como as patas de um animal por ter ficado sentado durante muito tempo em um chão de pedras, sem uma almofada. Ele disse, “Meu atingimento da grande realização vem disto. Você precisa deste esforço, não de qualquer outra doutrina. Esta é a essência do meu ensinamento. Se você vai se tornar um buddha ou não, depende do esforço. Com ele, não há dúvidas quanto à sua liberação. Como um filho, faça o que o seu pai lhe diz.”

A atenção e a introspecção, impelidas pelo poder do esforço, são a base do caminho. A atenção nos impede de esquecer o que é adotado ou descartado, e a introspecção nos faz reconhecer os desvios do caminho. Já que este é o caso, quer estejamos comendo, deitados, trabalhando, passeando ou o que quer que seja, se a atenção e a introspecção não permanecerem firmemente na mente, então não há como mostrar a diferença entre uma pessoa comum e um praticante. A divisão não é feita pela roupa de praticante, mas pela mente; não é a roupa que atinge o estado búddhico, é a mente. A atenção e a introspecção devem ser mantidas firmes e continuamente; de outro modo, não importa se estudamos ou praticamos, não estaremos no caminho.

O que é modo súbito da prática? Aqui, não é necessário completar a visualização de si mesmo como uma divindade, com símbolos específicos e assim por diante; também não há a necessidade de trazer à realização, através do estágio de sabedora da realização, o conhecimento do modo-de-ser. Ao invés disso, as predisposições das ações anteriores do estudante são ativadas pelas palavras do lama, como essas: “Pela força do conhecimento e do não-conhecimento – se isto é conhecido, temos um Buddha; se não é conhecido, um ser senciente vaga no samsara”.

Se, através destas instruções quintessenciais, formos capazes de identificar a base da mente, então nesse instante nos tornaremos um Buddha sem nos engajarmos nas dificuldades do caminho gradual. Entre cem mil praticantes, há apenas uma ou duas pessoas assim, e apesar deles existirem, são muito raros.

O estudante deve ter acumulado ações e predisposições por muitas vidas, e o lama deve ter grande realização e atingimento. Quando os dois se sentam para identificar a Grande Perfeição, o estudante é um ser comum, mas ao identificar sua própria mente, ele fica livre, e ao se levantar ele é um superior (sânsc. arya). É assim porque a diferença entre um ser comum e um superior vem apenas do conhecer ou não conhecer o modo-de-ser da própria mente. Um indivíduo que é capaz de se libertar imediatamente ao receber a instrução quintessencial do lama é chamado de pessoa simultânea. Se isto não acontecer, entramos no caminho gradual, desenvolvendo a mente nas etapas durante muitos meses, procedendo sobre vários estágios e caminhos, enquanto aqueles cujo modo de progresso é súbito realizam desde o início que o modo-de-ser de suas mentes é livre.

Então, por que somos seres comuns? É devido à obstrução por máculas temporárias e adventícias. Por que não nos liberamos imediatamente? Porque, além de uma imagem geral, não podemos realizar este modo-de-ser diretamente. Por exemplo, ao ouvirmos falar de uma cidade distante que não conhecemos, podemos compreender algo sobre ela; mas como não podemos vê-la diretamente, é apenas uma compreensão. Aqueles que são capazes de tomar o caminho súbito, por outro lado, não apenas compreendem o modo-de-ser da mente; eles o percebem diretamente através da identificação do lama, sentindo, “É patético, cometi um erro tão pequeno mas tive de agüentar este erro gigantesco do samsara ilimitado, com tanto sofrimento!” Há apenas uma pequena diferença entre o conhecimento e o não-conhecimento, mas o erro resultante é gigantesco, já que o nascimento no samsara não tem início.

É dito na biografia de Atisha que todo dia ele via uma mulher que estava às vezes chorando, às vezes rindo. Finalmente Atisha perguntou a ela;

– “Por que, sem qualquer razão aparente, você às vezes chora e às vezes ri? Você está, de algum modo, com uma aflição mental?”

– “Não, não estou, mas vocês estão e por isso eu choro”.

– “Por quê?”

– “O Tathagatagarbha, a própria mente, tem sido um buddha deste um tempo sem início. Não sabendo disso, grandes complicações se sucedem a partir desta pequena base de erro para centenas de milhares de seres sencientes. Apesar de suas próprias mentes serem buddhas, eles estão em grande confusão. Não sendo capaz de suportar o sofrimento de tantos seres, eu choro. E então, eu rio porque quando esta pequena base de erro é conhecida – quando conhecemos a nossa própria mente – estamos livres. Deleitando-me no fato de que ao saber isto eles estão prontos para ser liberados.”

Ela estava identificando a base para Atisha. Tendo realizado esta base penetrantemente, a pessoa sobre o caminho súbito imediatamente se move para o estado búddhico sem precisar entrar no caminho gradual para realizar suas potências. Porém, se não tivermos sucesso no caminho súbito, é necessário mudar para o gradual. Aqui, treinamos externamente no modo da aparência da expansão da vacuidade e aperfeiçoamos internamente a consciência de sabedoria, aumentando os fatores necessários e realizando suas potências.

A expansão da vacuidade e da sabedoria é a base da liberação. A expansão externa é a do céu; a interna é a esfera vazia da mente; e a secreta é a mente de sabedoria, livre dos extremos quando tiver sido purificada. No Madhyamika, isto é chamado de liberdade de todas as elaborações conceituais, sem qualquer coisa a ser apontada e com a refutação dos oito extremos – da produção do eu, do outro, de ambos, de nenhuma, do vir, do ir, da igualdade e da diferença -, uma cessação completa de todas as elaborações. Esta vacuidade inconcebível, tento passado além de toda conceitualidade, é a visão Madhyamika, livre da elaboração, que no Vajrayana é identificada através de um processo que começa quando o lama aponta a nossa própria mente e a identificamos.

Logo após completar as práticas preparatórias, examinamos de onde a mente vem, então onde ela fica e finalmente em que ela cessa. Estes são chamados de surgimento, permanência e ida da mente. Primeiro pensamos unicamente sobre o que a mente é, de onde ela vem, sem qualquer outra instrução procurando o lugar de seu surgimento. Então, uma vez compreendido que a mente é algo que não pode se tornar inteiramente não-existente, pois ela fica feliz, triste, desejosa, raivosa e assim por diante – uma vez compreendido que ela é relativamente existente – examinamos as partes superior, média e inferior do corpo para identificar o seu lar, já que não é apropriado que a mente fique nos fenômenos externos. Após gastar um mês ou dois nesta busca com grande intensidade em retiro solitário, compreendemos parecer que ela esteja aqui ou lá. Então, como a mente do ano passado ou de ontem não existe hoje, examinamos para onde ela foi e desapareceu. Qual é a entidade do lugar de cessação desta mente, que cessa e é esquecida? Neste ponto, chegamos a algo que é vazio, e quando isto for compreendido em um certo grau, o ensinamento da ruptura é iniciado.

Uma vez que os oito extremos tenham sido parados, esta expansão vazia que é o modo-de-ser da mente é identificada não meramente como o espaço, mas como uma entidade de sabedoria, com todos os atributos auspiciosos do conhecimento, misericórdia e poder espontaneamente estabelecidos. Se tudo fosse considerado como sendo conceitualmente elaborado e fosse negado, concluindo que tudo é não-existente, então qual seria o objetivo da prática? A grande sabedoria que tem espontaneamente as qualidades búddhicas do conhecimento, da misericórdia e do poder é identificada pelo lama, após o qual devemos manter este caminho através da atenção e introspecção e assim avançar ao estado búddhico. A menos que procedamos deste modo, os re-arranjos externos – como mudanças nas roupas e assim por diante – não podem trazer o estado búddhico. Porém, isto não significa que as práticas artificiais não devam ser feitas. Até que a doutrina que o lama revela seja realizada, o esforço e o empenho na atenção e na introspecção são absolutamente essenciais. Sem eles, a essência verdadeira é perdida.

Confiando na atenção e na introspecção, as potências da sabedoria são partir de dentro, não de fora; o conhecimento então alvorece sem impedimento. Todos os fenômenos afirmados como convencionais ou últimos são liberados simultaneamente e, então, a realização da grande autoliberação é gerada. Nesse momento, sem esforço, atingimos o grande estado búddhico, a expansão da vacuidade e a sabedoria da autoliberação.
Não importa quantos ou que tipo de objetos externos surjam, pois como as aparências internas foram levadas à realização, não há mais apego. O apego a fonte do sentido de um sujeito (que apreende) e um objeto (que é apreendido) é terminada. Como uma sabedoria sem fim e o atingimento apareceram do interior, não há qualquer coisa a ser abandonada ou atingida; ficamos além dos sujeitos e objetos externos da adoção e do abandono.

Os atributos auspiciosos de um Buddha estão espontaneamente estabilizados em união com a expansão da profunda vacuidade e sabedoria. Assim como uma cobra que foi amarrada firmemente em muitos nós pode libertar a si mesma, do mesmo modo a mente desfaz seus próprios nós. Se os nós são enfeites em uma corda, é preciso que alguém os desembarace; porém, os nós das ações contaminadas, aflições e predisposições que foram amarradas por muitas vidas podem ser desfeitos como os nós de uma cobra. Quando isto é conhecido, somos um buddha, e quando não é conhecido, vagamos no samsara. Em si mesmo, está além do samsara e do nirvana. Chegamos ao alto lugar onde as elaborações destes dois são eliminadas. Como os atributos auspiciosos de um buddha foram aperfeiçoados a partir do interior, como alguém poderia renascer no samsara? Já que as potências da sabedoria de um buddha foram completadas, qual é a necessidade de seguir o caminho da liberação solitária? Este caminho que toma incontáveis éons no sistema do sutra pode ser realizado pela mente ao desfazer os seus nós. É decidido a partir do interior.

As ondas do pensamento conceitual acalmam-se naturalmente. Desobstruído e vazio, mas sem ser muito estendido, este estado de união é cheio de êxtase. A união é inerente, não é algo novo juntado a algo velho. A natureza auto-surgida dos fenômenos é compreendida como sendo livre das visões. A expansão da vacuidade e a da sabedoria não são muito vastas e, portanto não tem o estabelecimento espontâneo das qualidades de um Buddha. Não são estendidas ao ponto em que precisem ser juntadas e remendadas; nem são parciais, já que são a única esfera penetrante da sabedoria de um Buddha, a única grande entidade espontânea e penetrante. Esta união existiu desde o início, obscurecida pelas ações e pré-disposições que, quando descascadas, deixam apenas a visão imutável.

Apesar do modo-de-ser poder ser apontado com palavras, a realização dele não é um caso de pensar sobre o mecanismo das palavras. Ainda assim, em dependência destes símbolos verbais, o modo-de-ser da própria mente pode tornar-se manifesto.

Quando ganhamos a iniciação e a transmissão da instrução quintessencial, e então nos retiramos para um lugar solitário, podemos ter estas experiências. Os preceitos não entendidos quando lidos nos livros são compreendidos imediatamente para alguém que então esteja procedendo na base do conhecimento interno. Então, quando morrermos, será como um retorno à nossa mãe, sem a menor preocupação.


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