Shobogenzo Zuimonki-Capítulo 1


Shobogenzo Zuimonki
Capítulo 1

de Eihei Dogen Zenji
Adaptado da tradução do monge Ryokyu Marcos Beltrão

[1] Um dia meu Mestre, Dogen Zenji, disse:

“No livro de Suh-Kao-San-Chuen1 conta-se a seguinte história: ‘Dentre os discípulos de um mestre Zen2, havia um monge que, em seu zelo extremo por uma imagem dourada e pelas cinzas sagradas do Buddha Shakyamuni3, venerava-as, e ante elas queimava incenso, mesmo entre seus amigos, no salão dos monges4. Um dia seu mestre lhe chamou a atenção: ‘Esta estátua e relíquias do Buddha Shakyamuni serão daninhas para você, apesar de sua sinceridade notável.’ Mas o monge não deu tento a este conselho bondoso. Vendo isto, seu mestre falou: ‘Isto é uma coisa diabólica5. Pare agora mesmo com isto.’ Seu mestre, vendo-o partir num repente de ódio, chamou-o de volta: ‘Abra a caixa e verifique o que tem dentro.’ Quando o monge, furioso, abriu a caixa, ali viu uma cobra venenosa enrodilhada.

“Desta história deduzimos que, se bem que tenhamos que respeitar a estátua e as relíquias do Buddha Shakyamuni, se o fizermos tentando obter a iluminação, nada poderia estar mais equivocado. Assim age um demônio celeste e uma cobra venenosa. Contudo, está escrito nos sutras que a reverência é um ato meritório, que trará infalivelmente felicidade a quem o fizer sinceramente, assim como reverenciar o Buddha Shakyamuni em pessoa o faria. De qualquer maneira, o culto dos Três Tesouros6 extingue as faltas cometidas e acumula mérito, ou melhor, livra-nos da sina de tombarmos nos três mundos maus,7 e de quebra nos garante o renascimento feliz nos mundos humano e celeste. Mas é um grande erro acharmos que podemos ganhar a iluminação através deste tipo de coisa.

“Somos chamados de discípulos de Buddha porque tentamos alcançar imediatamente o estado de Buddha seguindo seus ensinamentos. Devemos pois praticar o Caminho seguindo apenas o ensinamento de Buddha. A verdadeira prática buddhista é a prática incessante de zazen. Este é o primeiro princípio de um monastério Zen. Devemos pensar nisto.”

[2] Novamente meu Mestre disse:

“Devemos observar os preceitos de Buddha e manter nossa mente pura, mas estejamos de sobreaviso que isto seja fundamental e o único Caminho para a iluminação8. São seguidos apenas por serem costumeiros a monges Zen e discípulos de Buddha. Mas não se deve acreditar que sejam fundamentais porque seja bom segui-los. Com isto não quero dizer que podemos ser auto-indulgentes e transgredir contra o Buddha Shakyamuni. Se estivermos achando isto, será já um equívoco. Observamos os preceitos e mantemos nossa mente pura por que isto é costumeiro num monastério Zen, e é o Caminho de monges. Enquanto eu vivia e praticava nos monastérios Zen da China9, nunca vi monges que achassem que isto fosse muito importante.

“O zazen com todas as nossas forças é o verdadeiro Caminho a ser seguido para ganharmos a iluminação. Este zazen nada mais é do que o Caminho transmitido de Buddha para Buddha10. Por isto meu amigo Gogenbo, discípulo do falecido mestre Eisai11, foi dissuadido de ficar lendo o ‘Sutra dos Preceitos do Bodhisattva’12 o dia inteiro, para tentar manter sua mente estritamente pura no monastério T’ang.”

[3] Eu, Ejo13, perguntei:

“No monastério Zen, a prática deve ser regida pelos preceitos de Pai-Chang14. Ele nos aconselha a, em primeiro lugar, aceitar e guardar os preceitos de Buddha. E são estes preceitos fundamentais15 que os monges novatos ordenados recebem. Mesmo na transmissão informal de mestre para discípulo, os preceitos de Bodhidharma16 são transmitidos aos monges. São estes os preceitos do bodhisattva, com os quais estamos bem familiarizados. E o ‘Sutra dos Preceitos do Bodhisattva’ diz literalmente: ‘Cantemos este Sutra dia e noite sem parar.’ Porque dissuadiram Gogenbo, discípulo de Mestre Eisai, de fazê-lo?”

Meu mestre disse:

“Estás coberto de razão. Os praticantes Zen devem observar estritamente os preceitos de Pai-chang. Mas estes mandamentos nos instam, resumindo-os em essência, a somente praticarmos zazen. Cantar o ‘Sutra dos Preceitos do Bodhisattva’ o dia todo, e manter os preceitos é, em outras palavras, fazer o zazen com todas as tuas energias, como faziam os velhos mestres. A prática de zazen inclui toda a sorte de preceitos e méritos17. Todas as práticas dos velhos mestres Zen tinham um significado profundo. Portanto, devemos praticar o Caminho seguindo seus exemplos excelentes, não com nossas opiniões particulares ou desejos, mas junto com outros monges.”

[4] Um dia meu Mestre disse:

“Dentre os discípulos do mestre Zen Fu-chao18, um deles caiu de certa feita doente, e teve então o desejo de comer carne. Seu mestre permitiu que o fizesse. Uma noite, quando seu mestre foi lhe visitar no ambulatório, vislumbrou seu discípulo comendo carne debaixo de uma lamparina, mas quem comia a carne era um demônio sentado em sua cabeça. A carne era comida pelo demônio, mas o monge achava que era ele quem a comia! Daí em diante o mestre passou a permitir a monges doentes comerem carne, achando que a razão por que tinham necessidade disto, era que estavam possuídos por um demônio.

“Portanto deve haver a necessária flexibilidade, ao permitimos ou não a monges doentes comerem carne. Dizem que um discípulo do Mestre Zen Fa-yen19 também consumia carne. Todos os velhos mestres Zen eram profundamente discretos a este respeito.”

[5] Um dia meu Mestre disse:

“Quando nascemos em uma família de determinada classe social e seguimos a profissão praticada naquela família, crucial é que o façamos bem diante de todos. Contudo, devemos evitar fazer coisas indignas de nós. Agora que nos tornamos monges e nos juntamos à Sangha como monges de Buddha, devemos nos comportar como tal. Observar os preceitos de monges é abandonar o apego a nós mesmos, e seguir os ensinamentos dos mestres Zen. Fundamental é nos livrarmos de ambicionar coisas. Desapegarmo-nos de nós mesmos é um ponto chave para perceber que tudo é impermanente.

“Todos querem que outros falem bem de nós. Mas tais esperanças no mais das vezes vão por água abaixo. Logo, devemos abandonar o quanto antes este apego a nós mesmos e seguir com todas as forças as diretivas de nosso mestre, e praticaremos o Caminho como ele deve ser praticado. Mas diremos: ‘O que este mestre diz tem um fundo de verdade, mas de tal e tal eu não desisto de forma nenhuma!’ E se estivermos apegados a nossa forma de fazer as coisas, tanto mais nos veremos atolados no oceano da ilusão. A melhor maneira de melhorar monges Zen é fazê-los praticar zazen de todo o coração. A prática incessante de zazen os melhorará a todos, não importa qual seja sua habilidade.”

[6] Meu Mestre disse:

“Não devemos ler variedades para de tudo estarmos informados. Desistamos de tal expeditamente. Devemos nos concentrar em uma só prática e analisar as ações excelentes dos velhos mestres Zen. Devemos evitar nos comportar como líderes ou mestres iluminados.”

[7] Uma vez eu perguntei: “O que vem a ser a causalidade buddhista?” Meu Mestre disse:

“Ela é inflexível.”

“Como podemos atenuar os seus efeitos?”

“A causalidade é transparente. Não há diferença entre causa e efeito.”

“Neste caso, o que vem primeiro, a causa ou o efeito?”

“Para responder a isto, lembra-te do kôan de Nan-Ch’uan20, quando ele cortou o gato ao meio. Nan Ch’uan, vendo seus monges incapazes de responder à pergunta sobre a natureza de Buddha do gato, finalmente cortou o gato ao meio com uma faca. Mais tarde Chao-Chou21 chegou e, inteirando-se do ocorrido, não consolou seu mestre, mas, colocando suas sandálias na cabeça, retirou-se do quarto. Chao-chou expressou sua compreensão do buddhismo através desta ação.”

Meu Mestre prosseguiu:

“Tivera eu sido Nan Ch’uan, teria dito: ‘Matarei o gato, quer vocês me respondam ou não. Quem é aquele que briga pela posse do gato? Quem é aquele que deseja salvá-lo?’ Se eu estivesse no lugar dos monges, teria replicado: ‘Todos nós aqui presentes estamos iluminados22, logo não podemos te responder. Por favor, Mestre, mate o gato.’ Ou: ‘Quiçá saibas cortar o gato ao meio com um golpe de tua faca, mas sabe-lo-ás cortar em um?'”

Eu perguntei: “Que significa tudo isto?”

“Quer dizer que deixamos o gato ir embora. Tivera eu sido Nan Ch’uan, e visto os monges embasbacados e estupefatos, teria largado o gato de pronto, e dito: ‘Monges, vocês não me podem responder, eu sei, porque todos vocês trilham o Caminho inefável.’ Um velho mestre Zen disse: ‘Quando aparece a função dinâmica do Caminho, estamos livres de todas as regras e mandamentos.'” 

Meu Mestre prosseguiu:

“Matando o gato com a faca, Nan-Ch’uan mostrou a grande função do Caminho, e as palavras ‘matar o gato’ nos mostram a iluminação, como se fossem uma virada23. De outra forma não poderíamos dizer que as montanhas, os rios e a grande terra fossem a manifestação da Mente Suprema e Pura de Buddha, nem que nossa mente seja, tal qual está, o Buddha. Ouvindo esta frase de virada, devemos perceber que o gato é, como ele é, o Buddha mesmo. E os praticantes Zen devem procurar compreender o significado profundo desta palavra.”

Concluindo, meu Mestre afirmou:

“Esta ação de matar o gato é uma ação de Buddha24.”

“Qual o peso de uma tal ação?”

“Digamos que seja o assassinato de um gato.”

“Isto é, ou não é, um pecado?”

“Às vezes a ação de Buddha é uma coisa, e um pecado outra diferente. E às vezes são idênticas.”

“Foi isto que ocorreu com Pratimokhsa?25

“Exatamente.”

Meu Mestre acrescentou:

“Embora esteja correta esta idéia de mostrar o cerne do Caminho aos praticantes matando um gato, é melhor desistirmos disto, porque logo surgirão abusos.”

[8] Eu perguntei: “As palavras quebra dos preceitos de Buddha se aplicam aos monges antes de sua ordenação buddhista, ou depois desta?”

“Depois da ordenação buddhista.”

Meu Mestre prosseguiu:

“Nenhuma violação antes da ordenação buddhista infringe os preceitos buddhistas. É somente um aspecto e um ato pecaminoso.”

Eu indaguei: “O Sutra dos quarenta e oito preceitos menores diz: ‘Se a pessoa quebra os preceitos antes da ordenação buddhista, está violando os preceitos de Buddha.’ Isto não está em contradição com o que acabas de dizer?”

Meu Mestre disse:

“Não é assim que isso deve ser interpretado. Isto significa que na ordenação buddhista o iniciado se arrepende de violações passadas, tais como violações dos Dez Preceitos Proibidos26 ou dos Quarenta e Oito Preceitos Menores. Nenhuma violação anterior à ordenação buddhista é uma violação dos preceitos.”

Eu perguntei: “Na ordenação buddhista a pessoa é solicitada a recitar os Dez Preceitos Proibidos ou os Quarenta e Oito Preceitos Menores, para que possa se arrepender de ignorâncias e transgressões passadas, como está escrito no Sutra dos Preceitos do Bodhisattva. Mas na passagem seguinte nos deparamos com a seguinte afirmação: ‘Não mostrem o Sutra dos Preceitos do Bodhisattva para qualquer desconhecido.’ Como você explica a diferença entre estas duas passagens?”

Meu Mestre disse:

“Receber os preceitos é uma coisa. Recitá-los é outra. Ler o Sutra dos Preceitos do Bodhisattva como arrependimento de transgressões passadas nada mais é do que recordarmos o Sutra. Qualquer um pode recitá-lo. Neste caso não há nada de mal ensinar-lhe o Sutra. Esta outra passagem — ‘Não mostrem o Sutra dos Preceitos do Bodhisattva para qualquer desconhecido’ é uma tentativa de preservar os ensinamentos da mente cobiçosa, tão característica do comum da humanidade. É muito importante expor os preceitos para que todos os que quiserem possam se arrepender de transgressões que tenham cometido.”

Eu perguntei: “Um monge que tenha cometido nem que seja uma só das Sete Transgressões Traiçoeiras não está mais qualificado a receber os preceitos. Mas o Sutra dos Preceitos do Bodhisattva diz que os que quebraram quaisquer das Sete Transgressões Traiçoeiras devem se arrepender delas. Qual curso de ação achas mais apropriado?”

Meu Mestre disse:

“O arrependimento da ignorância é tudo que é necessário. A primeira citação nada mais é do que um aviso contra estas transgressões. Quer dizer que quem violar algum dos preceitos poderá se recuperar ou os receber de novo. Este arrependimento os absolverá de possíveis transgressões. O que não se passa com pessoas de fora.”

Eu perguntei: “Quando se permite a monges se arrependerem das Sete Transgressões Traiçoeiras27 que acaso tenham cometido, podem esses receber os preceitos novamente?”

Meu Mestre respondeu:

“Naturalmente que sim. Sobre este assunto, meu falecido mestre Eisai mesmo falou. Uma vez que a pessoa esteja arrependida, deve receber novamente os preceitos de Buddha. O mestre deve então conferi-los a ele novamente, mesmo que ele tenha cometido as possíveis transgressões traiçoeiras. Mais ainda, devem bodhisattvas permitirem a outros que de novo tomem os preceitos se os tiverem infringido.”

[9] Numa palestra à noite, meu Mestre disse:

“Nunca ralhe ou rispidamente repreenda outros monges. Nenhum monge confuso deve ser repreendido ou mal falado, sem uma base sólida de motivos justos. Quando mais de quatro monges se juntam, formam já a Sangha28 — o tesouro mais valioso de um país, e objeto de respeito e veneração. Quer seja um mestre ou um veterano encarregado, deve conduzir seus praticantes, se por acaso cometerem erros, com compaixão e bondade. Neste caso é possível repreender e chamar atenção, se indispensável, mas a crítica voluntariosa é imperdoável.

“Quando meu falecido mestre Jü-tsung29 era superior do monastério de T’ien-T’ung, ele costumava sacudir e bater nos monges dorminhocos durante a meditação30. Mas todos apreciavam e admiravam este tratamento que não os poupava. De certa feita ele deu uma palestra de improviso: ‘Eu agora já estou ficando velho, e já tenho bastante idade para me aposentar e me retirar daqui. Mas para ajudar monges iludidos e incutir-lhes o Caminho, permaneço ainda neste monastério, como mestre daqui. Para conseguir este objetivo tenho repreendido e batido em vocês31, mas isto me tem me doído muito. Mas o faço para que vocês alcancem o estado de Buddha. Amigos! Tenham dó de mim!’ Ouvindo suas palavras, todos os presentes choraram.

“Ninguém, exceto um tal mestre, pode ter a responsabilidade de conduzir monges iludidos. É um crasso erro, meramente por que a pessoa está numa posição de autoridade, ficar mandando em monges que lhe são inferiores hierárquicos, e os repreendendo voluntariosamente como se fossem seus discípulos — e o pior de tudo é falar mal e criticar outros quando não se está em posição para tal. Tenhamos bastante cautela com isto.

“Se formos compassivos com os outros em grau suficiente, devemos lhes dar sugestões veladas sobre seus possíveis deslizes, a menos que se irritem.”

[10] Uma vez meu Mestre me contou a seguinte história:

“Minamoto Yoritomo32, o falecido General em Chefe, era um mero funcionário público que atendia pelo nome de Hyoenosake33. Um dia, estando ele presente numa reunião formal da corte, uma certa pessoa começou um bate-boca.

“O então Conselheiro Chefe do Estado ordenou que Yoritomo dominasse e prendesse o causador do tumulto.

“Yoritomo disse: ‘Gostaria, por favor, que tal incumbência recaísse sobre Taira-no-Kiyomori o Comandante Supremo do clã Keike.’

“O Conselheiro insistiu: ‘Mas você é meu segundo em comando.’

“‘Não estou qualificado para este tipo de coisa’, encerrou Yoritomo.

“Esta resposta é perfeitamente equânime.

“Mais tarde, com este senso de Justiça, Yoritomo reinou sobre todo o país. O mesmo deve se passar com os praticantes de hoje em dia. Não devemos condenar outros por seus deslizes quando não estamos em posição para tal.”

[11] Numa conversa à noite, meu Mestre disse:

“O General Lu-chung-lien34 vivia no país de Chai. Era conhecido por seus feitos militares, a serviço do então Imperador Ping-yuan-chun35. Ping-yuan-chun ia lhe cobrir de ricas recompensas por seus heróicos atos de bravura, mas dizem que ele declinou recompensas, dizendo: ‘Derrotei o inimigo porque sou um general, não porque quisesse ganhar bens ou vantagens com isto.’ Esta notável história é bem conhecida como exemplo da integridade de Lu-chung-lien.

“Os sábios, mesmo no caso de leigos, farão seu dever sem cobiçar lucros. Tal deve ser o caso com os praticantes Zen. Ao nos tornarmos monges, não devemos procurar recompensas por nossa prática e austeridade. Liberdade de ganho é o ensinamento universal que achamos no buddhismo e fora dele.

[12] Numa palestra que versava sobre o buddhismo, meu Mestre disse:

“É um equívoco travarmos batalhas de lógica para refutarmos e derrotarmos outros, mesmo que estejamos certos e os outros não. Ao mesmo tempo, não devemos ser precipitados, batendo em retirada no caso de estarmos com a razão, dizendo, ‘Estamos errados’. O melhor é deixar a questão como está, nem refutando os outros, nem admitindo nossos erros. Façamos ouvidos moucos aos argumentos dos outros e esqueçamo-los, e os outros esquecerão os nossos, e não ficarão zangado. Tudo isto é um pré-requisito ao debate de idéias.”

[13] Meu Mestre disse:

“Hoje aqui, amanhã desaparecidos! A questão da vida e da morte é o mais importante para nós! Se quisermos aprender ou praticar o que seja nesta vida que se esvai a cada momento, devemos praticar o Caminho. A prosa e a poesia são de uma inutilidade absoluta, para nós praticantes Zen. É melhor desistirmos dessas coisas o quanto antes! Estudando o buddhismo, não devemos nos enfronhar em muitos assuntos, menos ainda em quaisquer ensinamentos, esotéricos ou exotéricos36. Isto também vale para as palavras dos buddhas e ancestrais37.

“Um camarada inatamente incapaz não consegue nem ao menos se dedicar a uma só coisa, que dirá a muitas, para tentar controlar uma mente perdida e confusa.”

[14] “É universalmente admirada a história do mestre Zen Chieh-chueh38, que se iluminou e se tornou monge. Era a princípio um funcionário do governo, honesto e sábio. Quando ocupou o cargo de governador da província, roubava dinheiro do governo e dava aos pobres. Um de seus colegas delatou isto ao imperador. Qual não foi o espanto do imperador e sua corte ao se inteirarem deste fato. Finalmente ficou decidido que Chieh-Chueh seria condenado à pena capital por seus desvios de verbas.

“Neste momento, após prudente consulta com seus conselheiros, o imperador decretou: ‘Este funcionário cometeu este crime a despeito de sua inteligência e sabedoria. Desconfio que tenha perpetrado tal ato com alguma intenção boa. Que seja decapitado somente se parecer triste quando prestes à execução. Do contrário, talvez tenha cometido esta falta por alguma boa razão. Neste caso não deve ser executado.’

“O enviado imperial prendeu o funcionário e preparou-se para a execução. Nada havia de pesaroso no réu, contudo, apenas algo de jubiloso. O funcionário pensava: ‘Darei esta minha vida para todos os seres.’

“Muito surpreso, o carrasco regressou ao imperador e relatou os fatos. ‘Bem,’ disse o imperador, ‘ele deve ter cometido tal ação por seu senso de justiça, como eu já suspeitava.’ Então o imperador perguntou ao funcionário porque havia cometido uma ação tão condenável.

“O funcionário replicou: ‘Gostaria de deixar o serviço governamental e ajudar a todas as criaturas, para assim ficar estreitamente unido a elas. Na minha próxima existência pretendo estudar o Caminho extremamente, como monge buddhista.’

“Profundamente tocado com este heroísmo, o imperador comutou a pena do funcionário e lhe permitiu que ingressasse num monastério. Ele o fez, e foi-lhe dado o nome ‘Yen-Shou’, que significa ‘aquele que foi absolvido da pena capital’.

“Esta nobreza de atitude nós monges devemos ter ao menos uma vez em nossas vidas. Indo além de nós mesmos e com grande compaixão para com todos os seres, devemos nos dedicar ao buddhismo. Se já experimentamos isto alguma vez, devemos procurar mantê-lo. A menos que sejamos assim ao menos uma vez em nossas vidas, não seremos capazes de nos iluminar.”

[15] Numa palestra durante a noite, meu Mestre disse:

“No buddhismo, o método de compreender o ensinamento do mestre é ir mudando nosso primeiro conhecimento aos poucos, sob a tutela do mestre Zen. De fato, os conceitos de Buddha que acalentamos até o momento podem ser:

“O Buddha quer dizer Shakyamuni Buddha, ou o Buddha Amitabha39, que são dotados de variados poderes e brilhos, ou que fazem sermões caridosos para todos os seres. Mas se nossos mestres nos disserem: ‘Buddha é um sapo, ou uma minhoca’, devemos trocar nossa consciência, que proveio de nosso primeiro conhecimento, e piamente crer nisto. Se, por outro lado, começarmos a crer que a minhoca ou o sapo estejam dotados de vários brilhos, méritos ou forças de Buddha, isto significa que nossa apreensão da verdade ainda não foi completa. O que vemos agora diante de nós é o Buddha. Se procurarmos abandonar nossa maneira preconceituosa de discriminação, e nossos habituais apegos, como nossos mestres bondosamente nos aconselham, nos identificaremos aos poucos com o Caminho.

“Contudo, o que constatamos hoje em dia é que praticantes Zen se apegam às suas opiniões egoístas e auto centradas, oriundas apenas de idéias das quais eles nem conhecem a origem, e voluntariosamente ficam imaginando o Buddha de uma maneira literal; e quando se deparam com conceitos diferentes dos seus, acham que estes últimos são ilusões, mas que eles próprios são os donos da verdade. Procurando em seguida companheiros com as mesmas opiniões suas, negligenciam a parte mais importante e vital da prática e disciplina do Caminho.

“Se seus mestres lhes dizem, ‘Dêem um passo além de um mastro de 100 metros’, nunca seguirão este conselho excelente, dizendo: ‘Se morrermos dando este passo além do mastro de 100 metros, não haverá mais prática do Caminho para nós.’ Devemos estudar este ponto.”

[16] Numa palestra à noite, meu Mestre disse:

“Em vez de estudarmos em vão muitas coisas, devemos, mesmo que sejamos leigos, dedicar-nos a uma só coisa, e fazê-la bem diante dos demais. O buddhismo, então, que vai além do mundo, é muito mais difícil ainda de praticar, e sempre foi, e mesmo agora está consideravelmente longe de nós. Além disto, somos por natureza limitados na prática buddhista. O buddhismo é tão elevado e insondável que, mesmo que quiséssemos, não poderíamos dominar uma só de suas doutrinas, que dirá muitas. Para uma pessoa de pouca capacidade é muito difícil se dedicar a um só assunto em sua vida, mais difícil ainda dominar este assunto. Praticantes Zen devem se dedicar a uma só coisa.”

Eu disse: “O que é isto a que deveríamos nos dedicar no buddhismo?”

Meu Mestre disse:

“Ao que deveríamos nos dedicar depende de nossa habilidade e capacidade. É ao zazen que os seguidores de Bodhidharma têm se dedicado intensamente como o Caminho único transmitido de Buddha para Buddha. A prática de zazen está aberta para todos nós, sejamos de capacidade alta, média ou pouca.

“Quando praticava com meu falecido mestre Jü-tsung na China, interei-me desta prática, e daí em diante era tudo o que eu fazia, zazen dia e noite, sem parar. Durante a época de calor ou frio extremos, muitos monges detinham suas práticas por certo tempo, para não ficarem doentes. Aí eu pensava: ‘Mesmo que eu venha a falecer, praticarei o zazen com todas as minhas forças. Que adianta negligenciar o zazen e cuidar do corpo, quando não estamos sequer doentes.’ Era meu propósito ficar doente e morrer depois de praticar o zazen. ‘Caso eu morra buscando o zazen, este meu excelente mestre Zen aqui na China,40 me fará uma cerimônia fúnebre, e com isto eu estarei intimamente conectado com o buddhismo. Se eu morresse no Japão, onde encontraria lá um tal mestre Zen, que soubesse fazer esta cerimônia? Se eu mantiver minha prática de zazen e vier a morrer antes de me iluminar, eu renascerei como monge graças a isto. Que adianta viver muito, sem o zazen? Mais ainda, seria um desperdício morrer de repente ou naufragar no oceano tentando preservar inutilmente nossa saúde.’ Depois destas considerações eu fiz zazen com todas as forças, dia e noite, mas me vi completamente saudável e livre de doenças.

“‘Agora vocês se animem para praticar zazen com toda a determinação, e todos se iluminarão.’ Assim falava meu falecido mestre Jü-tsung.”

[17] Meu Mestre disse:

“Sacrificar sua vida por algo é tanto mais fácil porque requer grande ostentação. Com freqüência encontro pessoas que assim fazem por causa de seu desejo de enriquecer ou obter reputação, ou porque estejam profundamente apegadas a algo. Mas o difícil na realidade é controlar nossa mente de acordo com as circunstâncias, quando algo de inesperado ocorre. Praticantes buddhistas devem em primeiro lugar ter a firme intenção de dar suas vidas pelo Caminho; em seguido pesar se suas palavras e ações são razoáveis. Se são razoáveis, praticantes devem dizer e praticar isto.”

[18] Meu Mestre disse:

“Praticantes Zen não devem se inquietar numa busca incessante de comida e roupa, mas apenas se dedicar ao treinamento buddhista. O Buddha disse: ‘A roupa de um monge é um funzoe41 e sua comida é obtida através da mendigação diária.’ Estas duas práticas estarão conosco sempre, em quaisquer mundos que estejamos. Não devemos buscar em vão coisas externas, nem assuntos mundanos, lembrando-nos do dito: ‘Hoje estamos aqui, amanhã desaparecidos.’ Enquanto estivermos vivos, não importa quão impermanentemente, devemos nos aplicar ao Caminho.”

[19] “Um certo monge disse: ‘Tanto a reputação pública quanto a influência do dinheiro têm o seu atrativo, mas se constituem em obstáculos à prática do caminho. Então não posso me desligar disto. Mas a comida e a roupa ao menos são absolutamente vitais aos monges Zen, apesar de menores em valor do que a reputação e a influência. Um funzoe e a mendigação são ambas práticas de todos os mestres, e são também características da prática do buddhismo primitivo na Índia. Os monastérios Zen na China possuem uma infra-estrutura, o que livra praticantes e monges de terem que se preocupar para comer e vestir. Nossos monastérios Zen, contudo, não possuem tais recursos, e ninguém mais quer fazer mendigação. Minha capacidade é, reconheço, bastante limitada. Que hei de fazer? Se me derem doações, ficarei aflito de ter me julgado digno de receber. Mas trabalhar, como as pessoas das diversas classes sociais, não é o meio ideal de vida para monges Zen. Se deixarmos nossa sorte ao léu, seremos miseráveis no final das contas. Quando a fome e o frio apertarem, ficaremos tão aflitos que até esqueceremos de praticar o Caminho. Alguém me aconselhou: ‘Não sejas tão duro contigo mesmo. Pareces estar em desarmonia contigo mesmo, e hoje em dia ninguém mais faz estas coisas. Somos só gente comum. Estamos na época do buddhismo decadente42. Do jeito que estás indo, nunca chegarás a parte alguma. Deves te cuidar e achar um doador piedoso que te sustente, para poderes praticar o Caminho, livre de preocupações com a sobrevivência. Isto não significa necessariamente que procures reputação e influência, mas que podes te dedicar mais ao Caminho, depois de solucionares tua base de sustentação.’ Ainda estou em dúvida sobre este seu conselho. Qual a melhor forma de resolver este enigma?”

Em resposta a tal, meu Mestre disse:

“Monges Zen devem trilhar o Caminho dos buddhas e ancestrais. Seus caminhos variam, da Índia para a China e para o Japão, mas onde quer que seja, os verdadeiros praticantes nunca planejam obter quaisquer bases de sustentação e sobrevivência. Apenas estejamos livres de assuntos mundanos e estudemos o Caminho com muita aplicação.

“O Buddha disse: ‘Nada devemos possuir exceto três mantos quadrados e uma tigela de mendigação, mas entregar àqueles que estão com fome o resto dos nossos donativos.’ Mesmo que ganhemos muitos donativos, nada devemos guardar do que sobrar, e muito menos devemos procurar o que comer.

“Um livro não-buddhista — os Compêndios de Confúcio— nos diz que, se ouvirmos a verdade de manhã, podemos morrer tranqüilamente à tarde. Mesmo que tombemos na próxima esquina de frio e fome, devemos praticar, que seja só por um dia, ou um momento. Deve-se inteiramente à nossa cegueira, proveniente do apego ao mundo, repetirmos o ciclo de nascimentos e mortes, com nossas idéias preconcebidas, em períodos infindáveis de tempo. Seria a alegria eterna, se viéssemos a perecer nesta vida seguindo o Caminho de Buddha. Acrescente-se a isto que, em todo o tesouro das escrituras buddhistas, nunca houve um caso registrado na Índia, na China ou no Japão, de alguém que tivesse morrido de fome e frio enquanto estivesse praticando o buddhismo. Comida e roupa, as necessidades básicas, são já direitos nossos de nascimento, nós já viemos ao mundo com esses. Não depende do afinco com que os busquemos, que os tenhamos ou não. Abandonemo-los ao destino! Não nos preocupemos nem um instante que seja com isto. Se não despertarmos para a mente que busca o Caminho nesta vida, sob o pretexto de que estamos agora na época do buddhismo decadente, quando, em que existência o faremos? Devemos nos aplicar ao Caminho, apesar de não sermos os iguais a tais figuras como Subhuti43 ou Mahakashyapa44.

“Um livro não-buddhista afirma: ‘Um homem apaixonado ama uma mulher, mesmo que ela não seja tão bonita quanto Si-shih45 ou Mao-ch’ang. Quem tem um cavalo gosta dele, mesmo que não seja tão rápido quanto Fei-tu46 ou Lu-erh. Um epicurista ama um manjar, ainda que possa não ser tão delicioso quanto o fígado de um dragão, ou a medula de um fênix. Todo homem apenas aproveita ao máximo aquilo de que é dotado. Isto se passa com leigos, mais ainda deve ocorrer com monges.

“Acrescente-se a isto o fato de que o Buddha Shakyamuni tirou vinte anos de sua longevidade de cem anos e deu o tempo às gerações que se seguiram, como uma oferenda, prevendo a época do buddhismo decadente. Graças a essa sua dádiva, o monastério Zen recebe doações de seres humanos e celestes o bastante para sobreviver. O Tathagata, embora dotado com poderes sobrenaturais suficientes para conseguir boa fortuna quanto quisesse neste mundo, comeu ração de cavalos e se submeteu ao período de treinamento regulamentar de noventa dias. Nesta época de buddhismo decadente, nós monges não devemos nunca deixar de seguir o seu caminho.”

[20] Eu indaguei: “Alguns monges pecam mais do que leigos, embora recebam doações de todos no mundo, e de seres celestes; e agregue-se a isto, que não têm uma mente que busca o Caminho: em suma, desperdiçam todos os favores deixados pelo Buddha. Eu acho que deveriam voltar a ser leigos e gozar de longa vida para poder chegar ao Caminho. Que pensas a respeito?”

Meu Mestre retorquiu:

“Quem nos disse para sermos pecadores e deixarmos de despertar para a mente que busca o Caminho? Devemos decididamente despertar para a iluminação e praticar o Caminho. Mais ainda nos garantem os mestres, que os favores do Tathagata47 são dados igualmente a todos, quer sejam pecadores ou não, quer sejam principiantes ou veteranos na prática. Contudo, não está escrito em nenhum Sutra que devemos voltar a ser leigos se pecadores, nem que não devamos praticar o Caminho, se nunca despertamos para a mente que busca o Caminho. Quem acaso poderia despertar para a mente do Caminho desde o começo? Se apenas despertarmos para a mente que busca o Caminho e praticarmos o buddhismo, conquanto árduo possa ser, faremos progresso constante em direção à iluminação. Todos temos a natureza do Buddha. Logo, não devemos nos humilhar.

“O Wen-hsuan48 relata: ‘A prosperidade de um país depende de um sábio, mas as boas ações que o sábio realizou durante sua vida podem vir a ser arruinadas por um idiota no futuro.’ Isto demonstra que um país prosperará se vier um sábio, mas tudo pode vir a ser arruinado no futuro por um tolo. Avaliemos este ponto com cuidado.”

[21] Numa palestra, meu Mestre disse:

“No mundo, a maior parte das pessoas adora contar histórias maliciosas, achando-as muito picantes e divertidas. É verdade, tais histórias podem ajudar a passar o tempo, ou ajudam a debelar o tédio de nossas vidas. Mas monges Zen estão estritamente proibidos de aderir a este tipo de coisa. Não durante uma conversa séria e cordial, com um leigo sincero e respeitoso, mas durante a beberagem e a displicência aparecem estas histórias. Claro que monges Zen devem pensar apenas no Caminho. Historinhas maliciosas são contadas apenas por alguns monges excêntricos.

“Este tipo de conversa não era tolerada ou encontrada nos monastérios Zen na China Sung. Também em nosso país, enquanto o Mestre Eisai era vivo, até recentemente, este tipo de história não vinha à tona, nem mesmo depois de sua morte, enquanto alguns de seus discípulos controlavam o lugar. Mas nos últimos sete ou oito anos, tenho ouvido monges novatos falando estas besteiras. Que lastimável!

“O Buddha disse: ‘Palavras ásperas e ferinas às vezes nos levam à iluminação, enquanto que uma conversa inútil pode se tornar em um grande obstáculo ao Caminho.’ Assim, mesmo uma só exclamação ou uma só palavra inútil, é uma topada para praticantes. Mais ainda, uma história maliciosa nos induz a uma cabeça licenciosa. Isto requer a nossa atenção mais detida. Uma vez que percebamos o erro dos nossos caminhos, devemos tentar controlar este mau hábito aos poucos, mas discretamente, não precisamos divulgar o fato aos outros.”

[22] Numa conversa à noite, meu Mestre disse:

“Ao fazer o bem, todos querem divulgar o fato aos quatro ventos; ao fazer o mal, todos procuram esconder suas ações. Logo, esta ação egoísta não encontra ecos nas entidades protetoras invisíveis da pessoa, que tudo vêem. Logo, ao fazerem o bem, as pessoas não recebem benefícios ligados ao bem que fizeram, e ao fazerem o mal são castigadas pelo mal que cometeram. Não compreendendo isto, lamentam-se futilmente: ‘As boas ações não são acompanhadas de bons efeitos. O mérito do buddhismo também é nulo.’ Esta mentalidade errônea há que se endireitar.

“Devemos fazer o bem sem sermos notados, e do mal que por acaso tivermos feito por engano devemos nos arrepender diante do Buddha; e nossas ações secretas nunca deixarão de encontrar eco nas divindades protetoras invisíveis, e nossos erros, que os mostramos desta forma, em vez de ocultá-los, serão saneados completamente. Assim, naturalmente seremos abençoados com bons frutos na existência seguinte, bem como na presente.”

[23] Veio um leigo então, e perguntou: “Nós leigos recentemente demos mundos e fundos aos monges, e nos dedicamos ao buddhismo, mas vimos coisas estranhas entre os monges. Com isto não queremos mais nos dedicar aos Três Tesouros — Buddha, Dharma e Sangha. Que achas a respeito?”

Meu Mestre disse:

“A culpa disto não se deve aos monges, mas a vocês leigos mesmos. Porque vocês discriminam entre aqueles monges que aparentemente levam vida pura e observam os preceitos de Buddha, e aqueles licenciosos, que bebem vinho e comem carne, achando que eles são impuros e não têm mérito para receberem suas doações. Esta discriminação — respeito e desprezo — é contra a vontade de Buddha. Por isto estes mundos e fundos que vocês doaram não lhes trazem qualquer benefício espiritual. No ‘Sutra dos Quarenta e Oito Pequenos Preceitos’ encontramos vários trechos que condenam tal discriminação. Devemos doar a todos os monges, quer sejam virtuosos ou não, e especialmente devemos estar avisados de não julgarmos sua virtude apenas pela sua aparência.

“Monges, nesta época do buddhismo decadente, embora pareçam bons, são homens maus. Logo, se nos dedicarmos e doarmos aos monges, não fazendo diferenciação entre estes e os discípulos de Buddha, nem entre bons e maus monges, estaremos seguros de receber um retorno para nossa doação.

“Além disto, lembremo-nos dos quatro tipos de integração entre todos os seres, e os buddhas, ou bodhisattvas:

  1. “uma boa ação feita no passado nos é retribuída desapercebidamente;
  2. “uma boa ação feita no passado nos é retribuída, e nos apercebemos disto;
  3. “uma boa ação feita no presente nos é retribuída, e isto nós percebemos;
  4. “uma boa ação feita no presente nos é retribuída desapercebidamente.

“Também existem os três períodos de tempo, quando boas e más ações nos são devolvidas: boas 
ações feitas no presente nos são devolvidas nesta, na próxima ou na terceira existência. Isto devemos compreender cuidadosamente.”

[24] Numa conversa à noite, meu Mestre disse:

“Se alguém te procurar para ajudar a escrever um pedido para a corte, ou algo do gênero, poderias quiçás declinar o pedido, dizendo: ‘Eu sou monge. Saí do mundo e moro num monastério. Não me misturo com assuntos mundanos.’ De fato esta resposta parece maravilhosa, falando como um monge mesmo; mas ao sondar bem a resposta, vemos ainda aqui o apego a si mesmo a aquela consciência da reputação pública, coisas tão características das pessoas mundanas. Recusaste o pedido porque julgaste indigno para um monge se envolver com coisas mundanas. Mas após exame da situação, deves fazer o bem, mesmo que pequeno, a um ser humano diante de ti, sem te importares com o que pensa aquele que receber a carta. E se o recebedor da carta te odiar e cortar relações contigo por uma tal ação indigna de monge? Melhor assim, não vale a pena ter relações com uma pessoa tão mesquinha. Resumindo, pode parecer indigno de ti, mas o mais importante é abandonar o apego a ti mesmo e não ligar para a reputação mundana.

“Os buddhas e bodhisattvas quando solicitados são bondosos o bastante, para até cortarem partes de si mesmos, para darem a outros. Se te pediram apenas que escrevas uma mera cartinha, estarás profundamente apegado a ti mesmo se recusares, considerando tua reputação acima de tudo. O recebedor da carta pode te desprezar dizendo: ‘Existem tão poucos sábios. Esta conduta não é digna de um monge.’ Mas tua parte consiste apenas em fazer o bem ao teu próximo, teu amigo, sem ligar para o que venham a pensar de ti. Assim, tua ação será verdadeira e autêntica. Antigamente parece que eles pensavam assim também. Eu, crendo estar certo, faço um favor a amigos ou doadores, se me pedirem, conquanto inadequado eu possa ser. Para mim isto é muito simples.”

Eu perguntei: “Pode ser verdade, contanto que digamos a nossos amigos algo de bom ou útil. Mas, e se o nosso amigo quiser privar outrem de sua propriedade, ou prejudicar os demais? O que achas disto?”

Meu Mestre disse:

“Para mim tanto faz. Neste caso, toma providências para avisares ao receptor da carta sobre o conteúdo dela, e que somente a escreveste instado pelo remetente da mesma. Depende, contudo, da discrição do receptor, se a missiva é aceitável, ou não. Ele é quem tem que decidir. Também estaria errado escrever algo absurdo além das medidas. Além disto, pode haver o caso que te peçam para escrever algo a alguém que te respeite o bastante para aceder ao pedido da carta, em deferência a ti, seja o conteúdo da carta bom ou ruim. Neste caso, notifica o receptor: ‘Só escrevi esta carta porque insistiram que o fizesse.’ Assim fazendo, será bom para todos. Nenhum dos dois pode te desejar mal. Deves pesar estas coisas com cuidado, dependendo das circunstâncias ou pessoas. Mas deves ficar livre de preocupações com tua reputação pública e te livrar imediatamente do apego a ti mesmo.”

[25] Numa palestra à noite, meu Mestre disse:

“Hoje em dia a maioria das pessoas, leigos e monges, querem ficar famosos por suas boas ações, e com isto acobertam as suas ações mais vergonhosas e erradas. Assim, há um abismo entre a realidade, e o que aparece. Devem, contudo, fazer todos os esforços diligentemente para obliterarem este abismo, arrependendo-se dos seus erros e ocultando suas boas ações, atribuindo as boas ações aos demais e as erradas a si mesmos.”

Uma pessoa perguntou a meu Mestre: “Muito bem, escondemos nossa virtude e não a demonstramos à público. Mas buddhas e ancestrais crêem que o primordial é salvar todas as criaturas com grande compaixão. Se monges ou leigos falarem mal de alguns monges por sua aparência miserável, terão que pagar caro por isto, por caluniarem monges, um dos Três Tesouros. Não será bom, por acaso, respeitarmos outros por suas aparências externas, apesar de não estarmos cientes de seus estados espirituais verdadeiros? Será que a aparência não conta um pouco? Que achas disto?”

Meu Mestre disse:

“De que adianta ser indulgente? Isto está ainda longe da verdade. É uma grosseira violação dos mandamentos fazeres o mal diante dos leigos, para ocultar tua verdadeira virtude, ou estares alucinado para demonstrares a outros como és um dos buddhistas mais raros e elevados que já existiram, enquanto tentas ocultar os teus erros dos outros, não percebendo que as entidades celestes protetoras,49 ou os Três Tesouros logo desmascaram o grande teatro que queres montar. Portanto, eu te advirto a teres vergonha de tais ações, e a não quereres obter o apoio e doações de leigos. Deves tomar medidas variadas para adiantares tua prática e para ajudares aos demais. Dizem que devemos agir apenas após exame cuidadoso da situação, não precipitadamente. A verdade deve sempre a primeira coisa em nossos objetivos.

“Não se torna necessário demonstrar que o tempo nunca para — ‘Hoje aqui, amanhã desaparecidos.’ Para a compreensão deste fato não necessitamos de mestres ou sutras. É auto-evidente. ‘Agora’ é tudo para nós. Nunca esperes pelo amanhã. O amanhã é incerto demais e até lá tudo já mudou, então devemos procurar ganhar o Caminho neste momento vivente — de praticar vários meios intensamente, de avançar o buddhismo e ajudar os demais seres.”

Eu perguntei: “É obrigatório praticar a mendicância e coisas deste tipo, como nos insta o buddhismo?”

Meu Mestre respondeu:

“Sim, mas deves fazê-lo de acordo com os costumes locais. Porque afinal o objetivo é ajudares as pessoas e levares a cabo tua própria prática. Se formos mendigando por aí, com nossos hábitos compridos de monges, nossas roupas ficarão enlameadas e imundas. E se as pessoas no local forem pobres, não vamos ficar batendo de porta em porta, pedindo doações. Se ousarmos fazê-lo, nossa prática terá um efeito retroativo, e prejudicaremos outros, em vez de os ajudarmos. Temos que praticar o Caminho razoavelmente, de acordo com os costumes e condições locais, e as pessoas ricas e pobres nos oferecerão coisas de livre e espontânea vontade. Assim, realizaremos tanto nossa prática quanto boas ações.

“Estas coisas têm que ser avaliadas de acordo com a situação, sem ligarmos para o nosso proveito e a reputação pública, vendo que tudo afinal contribua para a prática e ajude um pouco aos demais.”

[26] Meu Mestre disse:

“Praticantes Zen devem renunciar a sentimentos mundanos. Sobre isto, há algo que devemos ponderar: Devemos deixar o mundo, lar, corpo e mente:

“Alguns monges, renunciando ao mundo e habitando fundo nas montanhas, pensam na manutenção de suas casas ancestrais, ou no bem estar de suas famílias e parentes.

“Outros, escapando longe de tudo, já deixaram parentes e famílias, mas inquietos por suas saúdes, querem sofrer tão pouco quanto possível, não praticando sequer o Caminho para não ficarem doentes. Não abandonaram seus corpos ainda.

“Alguns outros, absorvidos em austeridades ao custo de suas saúdes, não chegam a dedicar suas mentes ao Caminho, e nada fazem contra suas vontades, ainda que estando indicado na prática buddhista. Ainda não abandonaram suas mentes.”

Notas

1.”Biografia dos Grandes Mestres”, continuação, 30 volumes: compilado por Tao-Hsuan (597-667) da China Tang, na qual se incluem as biografias de 331 Grandes Mestres, cobrindo 144 anos, desde o Imperador Wu de Liang.
2. Mestre Zen — um monge perito em meditação.
3. Buddha Shakyamuni — o príncipe herdeiro do rei Shuddhodana. Dizem que deixou seu lar aos 29 anos, iluminou-se aos 35 anos, pregou durante 46 anos, e faleceu aos 80 anos.
4. Salão de monges — Um salão onde praticantes lêem sutras. No meio há uma estátua de Avalokiteshvara.
5. Diabo celeste — um dos quatro diabos, a saber: da ilusão, do corpo e mente, da morte e dos céus.
6. Os Três Tesouros: Buddha, Dharma e Sangha.
7. Os Três Mundos Maus: Inferno, Mundo dos demônios famintos, e Mundo das criaturas bestiais.
8. O melhor caminho para a iluminação: o zazen.
9. Mestre Dogen foi à China aos 24 anos de idade, iluminou-se sob o Mestre Jü-tsung aos 26 anos, e voltou para o Japão aos 28 anos.
10. Buddha e ancestrais. buddhas são ditos serem 3.000 em número, inclusive o Buddha Shakyamuni. Os ancestrais são, o Venerável Mahakashyapa, discípulos de Buddha e os muitos outros sucessores.
11. Mestre Eisai (1141-1215) — Fundador da escola Rinzai no Japão. Foi duas vezes à China, voltou aos 54 anos de idade, e mais tarde fundou o templo de Kennin-ji em Kyoto.
12. O Sutra dos Preceitos do Bodhisattva (Bommokyo), 2 volumes, traduzido por Kumarajiva, e considerado o mais importante Sutra Vinaya para bodhisattvas. 
13. Mestre Ejo (1198-1280) — discípulo do Mestre Dogen, e autor deste livro presente, o Shobogenzo Zuimonki. Autor também do Komyozo Zammai.
14. Pai — Chang Huai-Tai (726-814), sucessor de Dharma de Ma-Tsu Tao-i (…-788), o primeiro organizador de regulamentos na vida monástica na China.
15. Os Preceitos Fundamentais — são 15:

  1. dedicar-se ao Buddha;
  2. dedicar-se ao Dharma;
  3. dedicar-se à Sangha;
  4. observar os preceitos;
  5. fazer boas ações;
  6. ajudar a todos os seres;
  7. não tirar a vida;
  8. não tirar o que não foi oferecido;
  9. não cometer adultério;
  10. não mentir;
  11. não vender o licor das ilusões;
  12. não criticar outros;
  13. não ser orgulhoso demais para elogiar outros;
  14. não deixar de divulgar os ensinamentos;
  15. não caluniar os Três Tesouros.

16. Bodhidharma (?-528) — o vigésimo oitavo ancestral da Índia que veio à China, tendo ali chegado no dia 21 de Setembro de 519.
17. De acordo com Mestre Dogen, não existem diferenças entre os preceitos e o zazen.
18. Fu-Chao (?- 1203) — um herdeiro de Dharma de Ta-hui.
19. Fa-Yen (?- 1104) — um herdeiro de Dharma de Pai-Yung.
20. Nan-Ch’uan Fu-Yuan (748-834) — um herdeiro de Dharma de Ma-Tsu Tao-i (?- 788).
21. Chao-Chou Ts’ung-Shen (778-897) — um herdeiro de Dharma de Fu-Yuan, ordenou-se aos 60 anos e faleceu aos 120.
22. A apreensão total do Caminho está além de nossa compreensão.
23. Frase de virada. Um kôan, técnica usada pelos mestres Zen para irmos além de nossa mente discriminatória.
24. O gato tem ou não tem a natureza de Buddha é um kôan de Mestre Nansen.
25. Pratimoksha— preceitos observados pelos monges para se livrarem do mau karma no comportamento, discurso e mente.
26.Sutra dos Preceitos do Bodhisattva, conforme nota 12.
27. Sete Pecados Traiçoeiros:

  1. causar sangramento no corpo do Buddha;
  2. matar nosso pai;
  3. matar nossa mãe;
  4. matar o mestre de preceitos;
  5. matar mestres principais;
  6. destruir a harmonia entre os monges;
  7. matar pessoas veneráveis.

28. Sangha — comunidade de praticantes.
29. Jü-tsung (1163-1228) — um herdeiro buddhista de Hsueh-Tu, que dirigia o monastério de T’ien T’ung.
30. Salão de Meditação — onde se faz o zazen, come-se e dorme-se. No meio do Sangha — comunidade de praticantes.
29. Jü-tsung (1163-1228) — um herdeiro buddhista de Hsueh-Tu, que dirigia o monastério de T’ien T’ung.
30. Salão de Meditação — onde se faz o zazen, come-se e dorme-se. No meio do salão há uma estátua de Manjushri.
31. Chippei — bastão de bambu, em forma de arco, com o qual se encoraja praticantes durante o zazen.
32. Minamoto Yoritomo (1147-1199) — o primeiro Shogun do Governo de Kamakura e fundador do sistema de governo da classe militar no Japão.
33. Hyoenosuke — um secretário assistente do departamento militar na Corte Imperial.
34. Lu-Chiang-Lien — conhecido por sua integridade durante a ‘Era Turbulenta’ da China antiga.
35. Ping-Yuan-Chun — nobre que ajudava pessoas carentes durante a ‘era turbulenta’ na China.
36. Esotérico (Que tem um sentido transcendente) em contraposição a Exotérico (Que não tem tal sentido).
37. Buddhas e ancestrais, conforme nota 10.
38. Chih-Chueh (904-975) — Terceiro ancestral da escola Hogen na China.
39. Buddha Amitabha — Tornou-se Buddha da Terra Pura após fazer 48 promessas e praticar o Caminho.
40. Isto se refere ao mestre Jü-tsung.
41. Funzoe — mantos do monge, feitos com materiais descartados e jogados fora.
42. Época do buddhismo decadente — 1.000 anos em seguida à morte do Buddha Shakyamuni, seria a época do buddhismo correto (há ensinamentos, prática e iluminação); os 100 anos seguintes seriam a época da buddhismo formal (há prática e ensinamentos); os últimos 10.000 anos seriam a época do buddhismo decadente (há somente ensinamentos).
43. Subhuti — Um dos dez discípulo excelentes do Buddha.
44. Mahakashyapa — conforme nota 10.
45. Si-Shih e Mao-Ch’ang — ditas serem mulheres belíssimas na China antiga.
46. Pai tu, Ju-Erh — ditos serem cavalos capazes de correr muito rápido, na China antiga.
47. Tathagata — um nome do Buddha: quer dizer ‘Aquele que vem como vem’.
48.”Wen-hsuan”, 30 ou 60 volumes — Uma coleção de poesias das dinastias Chou-chin a Liang.
49. Divindades celestes — Sakra Devanam, Indra, BrahmaDeva ou Yama raja etc.

Extraído do site www.dharmanet.com.br


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