A Ciência e a Mente

A Ciência e a Mente

Conferência de S.S. o XlV Dalai Lama
Abertura do Simpósio sobre a Ciência e a Mente
Universidade de Lisboa – 28 de novembro de 2001

(Introdução)
A mente é brilhante e esta capacidade de brilho pode criar a destruição ou a liberdade.
A mente conduzida por emoções perturbadoras nos leva a sofrimento e destruição como o que ocorreu no evento com as torres gêmeas em Nova Iorque. Assim, temos por prioridade criar boas emoções – compaixão e amor – e ampliá-las. Paralelamente a prioridade é reduzir as emoções negativas, o ódio e as outras emoções perturbadoras.

Como são as estruturas de causa e efeito que produzem estas emoções perturbadoras?

A mente é uma entidade individual, separada?

Ela é misteriosa e precisa ser estudada. A mente, ainda que sempre presente, segue misteriosa. É necessário saber mais sobre ela. As emoções negativas parecem perfeitamente naturais, portanto precisamos cultivar as emoções positivas! Por serem frágeis, as emoções positivas têm que ser cultivadas.

No que diz respeito à compreensão da mente não posso falar a não ser sobre a minha própria tradição e assim eu vou descrever a forma budista de entender o processo da mente.

(Ensinamentos Budistas – Sua Santidade começa a falar em tibetano)

A primeira nobre verdade do Buda é a experiência de sofrimento. A segunda é que a experiência de sofrimento surge das emoções perturbadoras. Há causas físicas e causas mentais, mas a causa maior está nas emoções perturbadoras. A terceira nobre verdade é que a experiência de sofrimento pode cessar na mente. A quarta nobre verdade é que há um caminho para a cessação do sofrimento e este caminho é reconhecer a realidade como ela é.

Os objetos físicos surgem sob o domínio de causas e condições, as partículas de espaço são seu aspecto mais sutil. A motivação e a mente criam a luminosidade que é a forma verdadeira dos objetos. Motivação e ação mental produzem o ser e o deixar de ser. Tudo se origina permanece e cessa via esta interdependência.

O que é o eu, o “si”? A continuidade da mente é que dá a base para a designação do “eu”. A continuidade da consciência parece o ponto fundamental do ser numa experiência.

Quando falamos de objetos exteriores sua origem não tem início, mas há fim para eles, entretanto a consciência não tem princípio e nem fim.

Porque os objetos exteriores têm fim e não a mente consciente? A mente não tem obstáculos por isto não tem fim. Os objetos têm obstáculos, por isso podem deixar de existir. A consciência não tem qualquer obstáculo, por isto não tem fim.

Qual é a natureza da mente? É experiencial, luminosa e não física. Pode viver, esquecer o que passou e não ter qualquer conceitualização – permanecer apenas na condição natural. O que surge é uma espécie de vacuidade, uma experiência direta da luminosidade da mente.
Examinando as palavras que usei não fiquem com a idéia de que existe a mente como sendo um objeto que pode ser apontado. Trata-se apenas de uma linguagem não há tal mente-objeto. Há várias mentes, as mentes associadas aos cinco sentidos físicos, ver, ouvir, etc., esta consciência depende do corpo e de seus órgãos e assim esta consciência cessa quando o corpo cessa. Há muitos elementos aí, há as funções mentais também nisso, cessando as funções neurológicas isto cessa.

Por outro lado, às vezes a vida cessa mas níveis sutis seguem e o frescor do corpo segue, já se viu isto várias vezes (a vida é mantida apenas de forma vegetativa no corpo). Assim há vários tipos de mente a vários níveis. Observando o dia a dia, vários níveis de consciência surgem. Exemplo: Quando estamos acordados, dormindo ou desmaiados. O mais sutil é o estado que está presente logo após o sono da noite.

Até agora as pessoas têm se dedicado a ver o mundo material, mas recentemente passaram a buscar compreender a natureza da mente assim como o reflexo das emoções sobre a saúde. As visões estão internamente ligadas as emoções, transformando as visões transformamos o mundo material e também a saúde.

Os temas ciência e mente parecem ser separados, o conhecimento da mente está apenas no começo, mas a ciência avançou muito, no futuro ao falar sobre o objeto de estudo da ciência veremos que não há limites aí. O estudo nunca terminará. Veremos também que a ciência mais adiante será vista como uma disciplina da mente.

Tal como sugeri, olhem para dentro, tentem descobrir o estado não conceitual. Não levem demasiado a sério (rindo…) mas tentem.

(Pergunta)
Sobre a clonagem, como devemos olhar?

(Resposta)
O Buda ensinou que os nascimentos se dão por milagre ou através de um ovo ou através da umidade ou ainda através de pai e mãe, em algum desses modos.

(Pergunta)
Na visão budista, quem foi Jesus?

(Resposta)
Grandes mestres como Jesus tem grande probabilidade de serem budas e bodisatvas. Do ponto de vista do budismo, os grandes mestres são manifestações de budas e bodisatvas e são seres sencientes como nós, assim são manifestação da continuidade da mente.

(Pergunta)
O que é a negatividade?

(Resposta)
Uma ação que faça mal aos outros é negativa, uma ação se torna negativa ao ser produzida pelas emoções perturbadoras.

(Pergunta)
A mente é livre do corpo?

(Resposta)
Como falei, a mente no sentido grosseiro depende do corpo físico. Na nossa própria experiência vemos que as pessoas criam emoções e as emoções modificam as experiências de corpo e vice-versa. O que vem primeiro, a experiência mental ou a experiência de corpo?

(Pergunta)
O ódio é originado de uma falta de educação no sentido de conhecimento e incompreensão?

(Resposta)
Acho que sim, pode se ver assim. Através do processo da educação, podemos examinar as conseqüências do ódio, vemos então que não há beneficio, assim podemos criar a motivação para eliminá-lo.

(Pergunta)
Como entender a raiva e a tristeza?

(Resposta)
É necessário ver as causas, criar as condições para não ocorrerem. É necessário vê-las, investigá-las. Como método para evitar a tristeza e a cólera podemos usar em primeiro lugar a nossa própria tradição religiosa. Se não tivermos religião, usamos o nosso senso comum e vemos que a tristeza e a cólera não são interessantes.

(Pergunta final)

Como Portugal pode ajudar o Tibete?

(Resposta)
O quanto vocês podem fazer?

Portugal é membro da União Européia. Apoiem o Tibete, apenas isso. Uma vez que vocês são membros da União Européia falem com os irmãos e irmãs chineses, promovam seminários nas universidades sobre a cultura tibetana e sua história. Não se trata de ir contra nossos irmãos e irmãs chineses, é apenas uma questão de manifestar opinião, criem grupos de apoio e comuniquem aos políticos de suas assembléias nacionais.

(Origem do texto)

Transcrição imperfeita e não autorizada feita diretamente por Padma Samten de suas anotações pessoais tomadas quando do evento em Lisboa, com o objetivo de beneficiar aos que, penetrando além das limitações deste breve trabalho, possam ter sua fé alimentada.

Retirado do site www.bodisatva.com


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