A transformação através do altruísmo


A TRANSFORMAÇÃO ATRAVÉS DO ALTRUÍSMO
As qualidades de bodhichitta, a intenção altruísta

Extraído do livro “Transformando a Mente” do Dalai Lama

A definição de bodhichitta é apresentada em Ornamento de Conscientização (Abhisamayalamkara), de Maitreya, texto no qual ele afirma que o altruísmo possui dois aspectos, O primeiro é a condição que produz a perspectiva altruísta, e essa envolve a compaixão que uma pessoa precisa desenvolver por todos os seres sencientes, bem como a aspiração que ele ou ela deve cultivar de propiciar o bem-estar a todos os seres sencientes. Isso leva ao segundo aspecto, que é o desejo de alcançar a iluminação. É com a intenção de beneficiar todos os seres que esse desejo deveria surgir em nós.

Poderíamos dizer que bodhichitta é o nível mais elevado do altruísmo e a mais alta forma de coragem; e também poderíamos dizer que bodhichítta é o resultado da mais alta atividade altruísta.

Como o lama Tsongkhapa explica em sua Grande descrição do caminho à iluminação (Lam rím cben mo), a natureza de bodhichitta é tal que, enquanto nos dedicamos a realizar os desejos dos outros, a realização do nosso próprio interesse ocorre como um sub-produto. Essa é uma forma sábia de beneficiar tanto a si mesmo quanto os outros. Na realidade, na minha opinião, bodhichitta é algo verdadeiramente maravilhoso.

Quanto mais penso em ajudar os outros, e quanto mais forte se torna minha vontade de cuidar dos outros, maiores são os benefícios que me cabem. Isso é totalmente extraordinário.

Examinando um pouco mais as qualidades positivas de bodhichitta, descobrimos que esse é um dos meios mais eficazes para acumular méritos e aprimorar o nosso potencial espiritual.

Além disso, trata-se de um dos meios mais eficazes para acumular mérito e aprimorar nosso potencial espiritual.

Além disso, trata-se de um dos métodos mais poderosos para enfrentar tendências negativas e impulsos destrutivos.

Como a superação das tendências negativas e o aprimoramento do potencial positivo são a própria essência do caminho espiritual, a prática de desenvolver o altruísmo é realmente a prática maior, mais eficaz e mais irresistível de todas.

Maitreya também declara numa das suas orações de enaltecimento que é essa mesma bodhichitta que pode nos liberar da transmigração para reinos inferiores da existência, que pode nos levar a reencarnações superiores e mais felizes e que pode até nos levar ao estado fora do alcance do envelhecimento e da morte. Maitreya está nesse texto sugerindo algo muito especial. Em geral, de acordo com os ensinamentos budistas, é a prática da moralidade e da conduta ética que nos protege da reencarnação nos reinos inferiores da existência. O que Maitreya está dizendo é que a prática de bodbichitta supera todas as práticas éticas e é, com efeito, um caminho muito superior. Da mesma forma, ele afirma que bodhichitta é um caminho superior quando se trata de plantar as sementes para atingir formas superiores de reencarnação.

Logo, em certo sentido, poderíamos dizer que a prática de gerar e cultivar a intenção altruísta é tão abrangente que contém os elementos essenciais de todas as outras práticas espirituais. Considerada isoladamente, ela pode, portanto substituir a prática de muitas técnicas diferentes, já que todos os outros métodos são destilados e se unem em uma só abordagem. É por isso que consideramos que a prática de bodhichitta está na raiz da felicidade tanto temporária quanto duradoura.

Se examinarmos os preceitos adotados por um praticante de bodhichitta, veremos a tremenda coragem que sustenta essa prática. […]

A coragem de um raciocínio altruísta tão vasto estende-se a todos os seres sem exceção, e não se confina a nenhuma época específica. Ela é totalmente sem limites. Numa estrofe do seu Manual para o estilo de vida do Bodhísattva (Bodhicaryavatara), Shantideva também manifesta essa enorme coragem, que transcende todas as fronteiras de espaço e tempo. Ele escreve:

Enquanto perdurar o espaço,
Enquanto persistirem os seres sencientes,
Que eu também possa permanecer
Para dissipar as desgraças do mundo.

Quando a intenção altruísta tem por base a profunda percepção do vazio, e especialmente a conscientização direta do vazio, diz-se que a pessoa alcançou as duas dimensões de bodhichitta que são conhecidas como bodhichitta convencional(relativa) e bodhichitta máxima(absoluta). Com essas duas práticas de compaixão e sabedoria, o/a praticante tem nas mãos o método completo para atingir o mais alto objetivo espiritual. Essa pessoa é verdadeiramente notável e digna de admiração.

Se conseguirmos cultivar essas qualidades espirituais dentro de nós mesmos, como Chandrakirti escreve em termos muito poéticos em seu “Entrada para o Caminho do Meio” (Madhyamakavatara), com uma asa de intenção altruísta e outra de profunda percepção do vazio, poderemos cruzar todo o espaço e alçar vôo para além do estado da existência até as plagas da natureza búdica de plena iluminação.
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Embora eu tenha alguma experiência dessas duas dimensões de bodhichitta, sinto que minha conscientização delas é muito baixa. Mesmo assim, tenho verdadeiro desejo de praticar e entusiasmo pela atividade, e só isso já me dá uma inspiração imensa. Como mencionei em muitas ocasiões, acredito que todos nós somos fundamentalmente iguais, e que temos o mesmo potencial básico. Alguns de vocês, não tenho dúvida, têm um cérebro muito melhor do que o meu. Deveriam, portanto, fazer um esforço para contemplar, estudar e meditar, mas sem nenhuma expectativa míope. Deveriam ter a mesma atitude de Shantideva – de que, enquanto o espaço existir, vocês permanecerão para dissipar o sofrimento do mundo. Quando temos esse tipo de determinação, além de coragem para desenvolver nossa capacidade, um século, uma era, um milhão de anos não são nada. Além disso, vocês não irão considerar que os diferentes problemas humanos que enfrentamos aqui e ali sejam de modo algum insuperáveis. Uma atitude e uma visão dessas produzem algum tipo de verdadeira força interior. Talvez vocês imaginem que seja uma ilusão pensar desse modo; mas, mesmo que seja, não faz diferença considero essa atitude valiosa!

Agora, a questão é como nos treinarmos para desenvolver bodhicbitta. Os dois aspectos de bodhichitta de que falamos anteriormente, a aspiração a ser de ajuda aos outros e a aspiração a atingir por nós mesmos a iluminação, têm de ser cultivados separadamente por meio de treinamentos distintos. A aspiração de ser de ajuda aos outros deve ser cultivada em primeiro lugar.

O desejo de proporcionar bem-estar aos outros pode naturalmente, incluir a atividade de aliviar seus sofrimentos muito óbvios e sua dor física; mas não é isso o que queremos dizer neste contexto. Proporcionar o bem-estar aos outros significa realmente agudá-los a atingir a libertação. Devemos, portanto, começar com uma compreensão do que queremos dizer com “libertação”, isso remonta diretamente ao que descrevi antes, ou seja, à compreensão do vazio, porque o nirvana, como definido pelos ensinamentos budistas, tem de ser entendido em termos do vazio. Logo, segundo o budismo, sem alguma compreensão do vazio não é realmente possível compreender o que é a verdadeira libertação; e sem essa compreensão, uma forte aspiração de atingir a libertação não surgirá.

A segunda aspiração, a de alcançar a plena iluminação, também está diretamente relacionada à nossa compreensão do vazio. A palavra tibetana para iluminação é chang-chub; e em sânscrito é bodhi. Um exame da etimologia das duas sílabas tibetanas revela que chang significa “purificação” ou “purificados’, que se refere a uma qualidade do Buda de plena iluminação, indicativa de que todas as características negativas e todos os poluentes mentais foram superados. A segunda sílaba, chub, significa literalmente “ter percebido”, que se refere à qualidade do Buda de ter consumado todo o conhecimento e toda a percepção. Portanto, a iluminação, como é expressa no termo tibetano chang-chub, sugere tanto a superação das nossas qualidades negativas quanto o aperfeiçoamento das nossas qualidades positivas. Isso está diretamente associado à nossa compreensão do vazio, pois ela pressupõe que percebamos ser possível eliminar os aspectos negativos da mente, e admite algum nível de compreensão de como isso possa ser feito, bem como de qual é a natureza da liberdade total.


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