A terceira nobre verdade: notícias extraordinariamente boas

Texto de Sylvia Boorstein,
extraído do livro
É mais fácil do que você pensa

Um elemento básico da prática espiritual é chamado de Compreensão Correta. Um aspecto da compreensão correta é o claro entendimento do objetivo da prática da conscientização. A decisão de começar a praticar a meditação foi totalmente motivada pela Compreensão Equivocada. Eu achava que, se meditasse com suficiente empenho, não iria mais sofrer. Eu estava errada, obviamente. Não há maneira de se estar num corpo, numa vida, e não sentir dor.

Quando descobri o erro do meu raciocínio, superei o meu desânimo inspirando-me com a idéia de que poderia acabar com o sofrimento. É disso que trata a Terceira Nobre Verdade. Ela afirma que a libertação, a paz de espírito e a felicidade são possíveis — nesta vida. Essa é uma idéia emocionante!

Durante alguns anos, lecionei religião oriental numa faculdade católica das proximidades. Os estudantes eram principalmente adolescentes, formados na escola secundária católica da região. A maioria deles tivera uma vida estável e de conforto, no seio de uma família devota e no período entre as guerras. Eles pareceram confusos quando comecei a ensinar Budismo, e apresentei logo em seguida a idéia de sofrimento. Para mim, não havia maneira de não fazer isso. A noção de sofrimento e do fim do sofrimento constitui o princípio central do Budismo. O próprio Buda disse isso a determinado discípulo. Este, segundo a lenda, desafiou o Buda, queixando-se de que ele não lhe havia ensinado a cosmologia nem a filosofia que esperava aprender. Consta que o Buda teria respondido: "Vim para ensinar apenas uma coisa — sofrimento e fim do sofrimento."

Os meus jovens alunos pareceram preocupados quando falei sobre como, mesmo que as coisas estejam em ordem, tudo acaba sendo decepcionante, porque nada é permanente. Quando tentei esclarecer o assunto fazendo-os lembrar "quantas vezes desejamos coisas que não conseguimos ter" eles não concordaram. Na maioria das vezes, eles conseguiam as coisas que desejavam. Comentaram que o Budismo parecia destituído de alegria e, então, perguntaram: "Os budistas fazem festas de aniversário?"

Eu me esforçava para encontrar situações em que houvesse sofrimento com os quais eles pudessem identificar-se. "Vocês já tiveram um namorado ou namorada que deixou de gostar de vocês? Antes de conseguir superar o baque, isso os magoou?"

"Bem", diziam eles, "se isso é sofrimento, então eu posso entender!" Mesmo assim, senti-me um pouco desalentada por ser quem estava levando àqueles jovens o que me parecia ser uma má notícia. Eu esperava não estar fazendo o papel da Bruxa Malvada.

Às vezes, eu tinha vontade de passar rápido pelas duas primeiras Nobres Verdades e chegar logo à Terceira, para poder contar as boas novas. É possível viver feliz. É possível cultivar uma mente tão ampla, que a pessoa se torna compassiva, consciente, sensível, interessa-se pelas coisas, sem fazer da sua vida uma luta constante. As notícias são mais do que boas: são extraordinárias.


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